A proposta espírita e os caminhos transversos da doutrina

(Especial para a Revista Evolución)*

Luz e trevas, silêncio e som, liberdade e prisão. As grandes verdades encontram mais facilmente o seu oposto, as mentiras, quando os homens se concedem a ser heterônomos.

Lendo ainda no textão entregue à editora, com seus rabiscos e indicações de primeira revisão, tenho diante de mim o livro cuja capa ilustra este artigo, assinado pelo amigo Paulo Henrique Figueiredo, em lançamento no Brasil neste mês de agosto de 2019. Seu título começa com uma palavra de fundamental importância: autonomia, ou seja, o antônimo de heteronomia. No espiritismo, a distância entre as duas palavras não se resume aos sentidos semânticos, mas à própria história da doutrina, escrita sob a permanente luta entre a liberdade e a prisão. Daí o subtítulo do livro incorporar a expressão “a história jamais contada”.

Autonomia resume muito bem o objetivo espírita de conceber o homem como ser capaz de construir o próprio destino sob o amparo do livre-arbítrio e de utilizar esse mesmo caráter em sua procura incessante pelo conhecimento como base de sua superação pessoal e das amarras que o retêm ao chão do planeta. As doutrinas heterônomas propõem exatamente o contrário: a submissão e a dependência a um poder dominante e limitador.

Ao dizer isso, não estou apenas elogiando o autor de mais uma obra de importância nos caminhos da doutrina legada por Allan Kardec, que todos os admiradores do mestre conhecem o altíssimo valor, mas, com a flama da convicção a tremular, afirmo que a obra traz a marca da reescrita da história da doutrina, seja em seu percurso no Brasil, no continente americano ou no velho mundo, de onde veio altaneira e livre, sobranceira e bela. Em especial no Brasil, pelo que essa história contém. Para tanto, o livro está amparado em documentos relevantes que permitem, já agora, lançar um novo olhar para os fatos desde os anos 1850 até os dias atuais, e com isso superar os conflitos dos caminhos transversos pelos quais passou e passa ainda o espiritismo.

Para espíritas brasileiros e estrangeiros que desconhecem os fatos a que aludo – e brasileiros são a maioria devido à proliferada atitude das instituições dominantes de contar a história ao sabor da ficção – os caminhos transversos apontados se constituem em desvendamento, em retirada do véu colocado sobre a verdade, com vistas a recontar tal história, desnudando a efígie, afinal as vestes com que é mostrada não fazem parte de seu corpo escultural.

A parte que diz respeito ao desdobramento da história da doutrina desde sua chegada ao Brasil – que interessa aos espíritas de todas as latitudes, reforce-se, especialmente nessa quadra da vida em que o Brasil se faz exportador ou leva de volta a doutrina ao velho continente – é de muito aguardada com ansiedade, haja vista para o fato do conhecimento por alguns, desde o século XX, da existência de documentos cruciais recolhidos na França pelo pesquisador brasileiro Canuto de Abreu. Pois bem, esses documentos estão agora a ser revelados e é a eles, especialmente, que se reporta o autor para a construção do discurso novo, sustentável.

O chamado “acervo Canuto de Abreu”, sabe-se, contém documentos como as cartas de Kardec, mas também documentos outros que tratam do espiritismo de uma forma que contraria a história oficialmente contada. Daí a razão pela qual muitos olhos e muitas mãos se mantiveram estendidos ao longo do tempo, dispostos uns a resgatar a verdade e outros a escondê-la com fins escusos. Parte desta situação é revelada por Paulo Figueiredo no livro Autonomia: a história jamais contada do espiritismo, bem como as peripécias feitas para que o acervo fosse protegido e pudesse ser revelado, ou seja, colocado a público com toda a transparência, o que, finalmente, começa a ocorrer. Mas até chegar a esse ponto, luzes e trevas travaram uma longa batalha, perigos imensos rondaram o acervo e quase o destinaram aos porões do silêncio.

Com a passagem definitiva do acervo para a Fundação Espírita André Luiz (FEAL) e o seu Centro de Documentação e Obras Raras (CDOR), sob o compromisso de tornar público todo ele, outros acervos e documentos começaram a chegar e ampliaram, sobremaneira, o material. De modo que o futuro se desdobra promissor para os estudiosos, pesquisadores e espíritas comprometidos com a verdade dos fatos.

Paulo Figueiredo dá o pontapé inicial à divulgação do material ao retomar a contextualização do pensamento de Kardec na França da segunda metade do século XIX, demonstrando como o cenário da época era favorável ao surgimento de uma doutrina renovadora da sociedade, especialmente pelo fato da Academia estar interessada no Espiritualismo Racional, o que significava abrir espaço para o novo pensamento. Foi para isso que Kardec muitas vezes chamou a atenção, ao afirmar que os tempos eram chegados.

A demonstração de que o espiritismo está comprometido com a autonomia, mais do que uma questão retórica ou semântica, é ponto crucial para entender a doutrina e entender, também, como ela foi desviada do caminho ao longo do tempo e também quando aportou no Brasil. Diz o autor, amplamente documentado, que em seus primeiros anos em terras brasílicas a doutrina era vista apenas pelo prisma de Kardec. Os desvios vieram mais tarde, especialmente na aceitação por um pequeno grupo de pessoas das teses contraditórias formuladas na obra Os quatro evangelhos. O que era insignificante no início, com o tempo assumiu o protagonismo e conduziu a doutrina aos tempos atuais, com o seu casamento com a religião institucionalizada e o retorno à ideia da heteronomia, à dependência ao pensamento heterônomo representado pela religião e por todas as doutrinas de dominação do ser humano.

As primeiras instituições espíritas brasileiras seguiam o roteiro traçado por Kardec. Estudavam sua obra. Aquela que mais tarde auto assumiria o comando, a Federação Espírita Brasileira, era em seus primeiros anos apenas kardecista. A queda se deu quando os defensores de Os quatro evangelhos tomaram a FEB de assalto, dominaram-na, introduzindo a contradição entre o pensamento autônomo predominante em Kardec e o pensamento heterônomo sustentado por Jean-Baptiste Roustaing. O autor mostra todo o fio da história e com isso desvela a verdade, ressaltando a impossibilidade da harmonia entre o pensamento autônomo e o seu contrário. Ou se é pela autonomia, pela independência do ser humano como livre pensador na construção do seu saber, como o deseja Kardec, ou se adere à heteronomia e à dependência do ser humano ao pensamento de outrem. As duas formas juntas é uma impossibilidade.

Herculano Pires, alinhado com o pensamento da autonomia de Kardec, defende que o ser humano que depende de líderes para evoluir não está, absolutamente, preparado para isso. Conceber o espiritismo como religião constituída é admitir desconhecimento de causa, ou seja, é conceber que ela ensina que o ser humano depende da fatores alheios a si mesmo para alcançar sua realização. Em suma, é acreditar que ela oferece uma moral heterônoma e por isso mesmo salvacionista.

Ao retomar o fator autonomia, Paulo Figueiredo aponta para uma questão que se sobrepõe às querelas menores em relação à doutrina roustainguista: traz o espiritismo de volta ao seu eixo principal e o faz com o apoio de Kardec e de farta documentação, que oferece argumentos imbatíveis para um releitura da história e da figura maior de Allan Kardec. A velha questão do corpo fluídico – se importante antes, torna-se agora menor sob o argumento da contraditória defesa de uma doutrina que prescreve a heteronomia e, portanto, se alia à religião, e o espiritismo, plenamente a favor da autonomia e contrário à religião.

Para dar o necessário suporte à argumentação que imprime, o autor refaz o caminho da história do espiritismo, bem como analisa aspectos doutrinários que se fazem necessários por estarem intimamente ligados à compreensão unitária da doutrina, uma vez que o pensamento autônomo determina uma compreensão diferente e diversa do pensamento heterônomo. O primeiro está coerente com a proposta de Kardec e dos espíritos que com ele promoveram o aparecimento da doutrina, enquanto o segundo se opõe a ele de modo inequívoco. A postura do codificador é definitivamente contrária à da religião constituída exatamente por conter a baliza da autonomia. Ao transformar o espiritismo em religião, aqueles que o fizeram e o fazem realizam o que Herculano Pires aponta: a falta de estudo profundo da doutrina e o desprezo pela fidelidade a ela, sobrepondo interesses menores e mesquinhos aos valores que o espiritismo defende, de interesse da humanidade.

O pensamento heterônomo promove, necessariamente, os privilégios de uma classe dominante – os religiosos – e impõe a prática do proselitismo, por desejo de ampliação da própria dominação: quanto mais adeptos de uma ideia existirem, mais força a ideia terá. O pensamento autônomo, porém, conhece a falácia desse argumento e está comprometido com a liberdade, base de qualquer busca de progresso. Sem autonomia inexiste evolução e sem evolução a autonomia permanece frouxa. Por isso, segundo o autor, a autonomia é a moral do novo mundo e, por consequência, está na base do espiritismo. Enfim, nem o espiritismo é religião nem a religião pode ser expressão do espiritismo, por estarem, ambos, comprometidos com práticas e pensamentos diferentes e opostos.

Vale, pois, repetir a sentença de Kardec que o autor destaca em seu livro: “A geração futura, desembaraçada das escórias do velho mundo e formada de elementos mais depurados, encontrar-se-á animada de ideias e sentimentos distintos dos da geração presente, que se vai a passos de gigante. O velho mundo está morto e viverá na história”. A geração presente, que não é apenas a que vemos e passa, mas a que constrói permanentemente a renovação, encontra-se na busca e na aplicação do pensamento autônomo, inobstante as barreiras erguidas pelo pensamento heterônomo, medíocre e servil.

* Publicado na edição No. 5, maio-agosto de 2019.

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