O cotidiano de Sara

Centrada em sua realidade interior, a criatura humana costuma exigir dos demais um ajuste às suas necessidades. O tempo escasso contribui para tornar mais dramático esse quadro. Mas o que mais pesa de fato é a incapacidade de olhar os estragos que faz quando impõe ao outro o atendimento às suas exigências.
Tornamos o nosso cotidiano um centro de egoísmo, ou seja, construímos um duplo centro de atenções. Daí consegue mais resultado quem é mais convincente ou detém maior poder. Em ambos os casos há certa violência em jogo e em ambos os casos também há abuso de poder.
Tomemos o caso de Sara. Ela é aquilo que se pode chamar de workholic, ou seja, louca por trabalho. É também uma criatura estranha, ou melhor, de um senso de organização de seus afazeres totalmente singular e de difícil compreensão. Às vezes me pergunto se isso é mesmo resultado de experiências de outras vidas. Confesso que tenho dúvidas, porque um pouco da explicação para esse tipo de comportamento de seres como Sara podemos encontrar aqui mesmo, na presente existência.
Sara trabalha por impulso. Ora decide o que fazer por aquilo que dá maior prazer, ora vai de roldão vencida pela própria prioridade das coisas. Em qualquer dos casos, o seu comportamento é padrão: ela se lança na tarefa em tal grau de concentração que esquece do contexto e dos seres que estão à sua volta. Esquece? Talvez não seja essa a palavra. Ela simplesmente ignora. Mas entenda bem o que Sara faz; o ignorar aqui não é o não ver ou desconhecer o que se passa. Sara não consegue ver as coisas em suas nuances e contornos. Não vê as pessoas em seus conflitos e necessidades, não vê o contexto com as ocorrências em andamento.
Sara funciona mais ou menos assim: a partir do momento em que ela se concentra em uma atividade, a imagem do contexto e das pessoas se cristaliza em sua mente, de modo que se torna uma espécie de quadro a óleo na parede. Enquanto Sara estiver se dedicando àquela tarefa, o quadro não se modifica. Todos os envolvidos permanecerão, na mente dela, fazendo o que fazem e à sua disposição, portanto.
Vejamos outra faceta de Sara. Ela trabalha por projetos, ou seja, enquanto estiver cuidando de um, cuidará também de afastar os fantasmas de outros projetos que a aguardam. Então, os projetos costumam se acumular e ela sabe disso. Mas justifica-se a si mesma com a “certeza” de que tocará os outros projetos a tempo e com a mesma eficiência de sempre. Com isso, não se perturba enquanto executa o projeto que a ocupa.
E como Sara vai atender os demais projetos? O comportamento dela é sempre padrão, nesses casos. Ela vai começar, desenvolver e concluir cada projeto, independentemente de quaisquer circunstâncias. Aí o mais comum é o seguinte: para atender às imposições do tempo, que se encurta sempre e sempre, Sara assume dentre os projetos que a aguardam aquele mais urgente e passa a dedicar-lhe toda a atenção. Se preciso, isola-se do contexto para não ser perturbada. Isolar-se, portanto, é uma necessidade quase rotineira.
É neste ponto que a cristalização do contexto e das pessoas surge. Ao isolar-se, não consegue acompanhar a dinâmica natural das circunstâncias que envolvem a vida das criaturas que habitam o mesmo contexto de Sara. Cristalizadas, as pessoas surgem em sua mente sempre prontas a atendê-la em qualquer situação. O tempo, o projeto, o poder. Sara usa o poder em nome do projeto e em vista do tempo escasso. Sara impõe ao contexto e às criaturas a adequação às suas necessidades. Sara exige e se por qualquer motivo verifica que pode não ser obedecida, Sara se exaspera.
– Como você não pode? Você tem que me atender, “nós” não temos mais tempo. Eu me comprometi e preciso atender ao prazo que dei. Você não pode dizer não…
Dificilmente, Sara entende os motivos do outro quando cobra participação em seus projetos. Afinal, em sua mente o outro é visto de tal maneira que não tem nenhuma razão para recusar a participação no projeto. A cristalização da imagem das pessoas resulta em não poder compreendê-las na dinâmica do cotidiano, nos seus conflitos diários, nas suas necessidades que se substituem, nos desejos que se sucedem, nos planos que se alteram, nas frustrações que arrefecem ânimos e nas indisposições que o dia-a-dia ocasiona.
Sara é um espírito em um corpo físico, mas o cotidiano de Sara é egoísta. E como todo cotidiano egoísta, não permite a Sara alcançar a percepção dos conflitos que protagoniza. A maior percepção que consegue ter é a do conflito em que ela mesma se encontra por conta das dificuldades do outro em atender às suas exigências. O que simplesmente aprofunda o seu egoísmo, porquanto a negativa alheia a obriga a impor-se através de argumentações incontestáveis ou mesmo do abuso do poder. Às vezes, nem um nem outro funciona e quando isto ocorre Sara entra em desespero.
O cotidiano egoísta de Sara é contrário ao aperfeiçoamento profissional e humano. Ao reservar um tempo determinado para um projeto, Sara limita o outro a agir dentro do período estabelecido. Sua incapacidade de compreender o imponderável e tudo aquilo que não é possível controlar – tal como a realidade humana do outro – resulta na necessidade de desdobrar-se, ela mesma, para executar o projeto. Então, Sara surge como workholic, não tanto porque gostaria, porém por não possuir outra saída para os compromissos que assume.
A compreensão da personalidade de Sara é importante para julgá-la. Uma outra faceta dela é sua mania de assumir compromisso sem notificar antecipadamente ao outro, embora o outro esteja dentro do seu projeto, afinal, Sara sabe que não pode fazer a coisa sozinha. Mas curiosamente é capaz de tomar decisões dessa ordem e somente depois comunicar ao parceiro. Isso se dá, acredito, por conta desta sua capacidade de cristalizar a imagem das pessoas naquele ponto de intermediário entre uma atividade e outra. Se o outro continua fazendo aquilo que ela imagina, então aceitará as decisões de prazo e forma de execução de Sara.
Os conflitos de Sara com o outro são permanentes, como se pode depreender, afinal, ninguém é hoje o que foi ontem. As pessoas alternam e mudam as coisas por interesses próprios ou por conta das circunstâncias. Os outros são também Sara em seus cotidianos egoístas. Só que Sara, a nossa personagem, não consegue entender isso, razão pela qual está em constante angústia, o nível de estresse em alta e, assim, cada vez mais solitária.
Se você me perguntar se Sara é desumana, compreenderei, mas afirmarei com ênfase que não. Ela tem um coração enorme e grande parte de sua angústia advém exatamente dessa sua vontade de fazer as pessoas felizes. Mas essa face de Sara é tema para outra ocasião. Por ora, basta saber que a felicidade do outro está em Sara formatada. Ela dispõe de um padrão de felicidade para oferecer, padrão este que guarda muita semelhança com sua forma de agir e tocar os projetos próprios. Não é preciso dizer mais…

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