Marx e Kardec, materialismo e espiritismo

Espiritismo e Socialismo estão unidos por laços estreitos, visto que um oferece ao outro o que lhe falta a mais, isto é, o elemento de sabedoria, de justiça, de ponderação, as altas verdades e o nobre ideal sem o qual corre ele o risco de permanecer impotente ou de mergulhar na escuridão da anarquia. Léon Denis

 O socialismo de Denis foi classificado como idealista, uma maneira de ver que em princípio não combina com a dura realidade na qual a vida em sociedade se manifesta e desenvolve. Desde a eclosão das ideias socialistas, com Marx, às experiências de implantação de regimes políticos e econômicos marcados pelo fundamento socialista, que se discute a questão. No espiritismo não foi diferente e aqui está um exemplo de contenda em que as ideias se chocam e se distanciam até se encontrarem nas pontas, na irrefreável leveza da física.

Os espíritas e as questões sociais – em sua edição primeira, feita em 1955 em Niterói, RJ, este livro reúne artigos publicados na imprensa por dois conhecidos espíritas: Eusínio Lavigne, advogado e empresário de Ilhéus, BA, e Sousa do Prado, ex-membro da Federação Espírita Brasileira. Trata-se de um grande debate que teve início quando a Revista Internacional de Espiritismo, de Matão, recusou-se a publicar um artigo de Lavigne em resposta a outro, que saiu em suas colunas na edição de setembro de 1950, intitulado “Pela vitória do espírito” e assinado por Pereira Guedes, cujo conteúdo analisava o livro Materialismo dialético e materialismo histórico, de José Stalin. Lavigne procurou, então, o Jornal de Debates, onde encontrou guarida e por vários meses expôs seus argumentos sobre a teoria marxista, o socialismo e as conexões com o espiritismo, além de, ao defender o marxismo, deixar claro que o fazia ao que de científico ele continha e não à sua condição materialista contrária ao fundamento espiritual da doutrina de Kardec. Lavigne vê em Marx uma condição semelhante, mas em terreno diferente, à de Kardec, considerando ambos missionários. Diz ele, em resposta a Pereira Guedes: “Há que distinguir, no caso, o lado filosófico e o lado científico. Cientificamente – porque é fato visto – a verdade acompanha Marx, quando o sociólogo alemão proclama que a supremacia da solução econômica é a condição precípua para uma justiça social neste planeta”. Lavigne vai reafirmar essa opinião ao dizer que “cientificamente falando, não são irreconciliáveis, em absoluto, o Marxismo e o Espiritismo, porque ambos querem a verdade objetiva e ambos se acordam num fim comum – o do progresso da Humanidade”. Trata-se de um debate bastante longo transposto para um livro de mais de 275 páginas em corpo diminuto, onde os temas e os autores citados, de um lado e de outro, se alternam e se multiplicam. Souza do Prado, o coautor, entra na obra em sua segunda parte, tendo por objetivo focalizar o tema central “Cristianismo, Espiritismo e Comunismo”, mas não começa bem a sua participação ao trazer ao conhecimento do leitor um texto de Emmanuel, endereçado a um amigo de Souza do Prado que, estando em Pedro Leopoldo, pediu ao mentor de Chico Xavier uma palavra sobre o Souza do Prado. Emmanuel teria escrito: “Nosso amigo prossegue sob a assistência de vários companheiros de Espiritualidade, esperando nós todos que a sua inteligência unida ao coração produza, com o Cristo, valores e bênçãos para a sementeira da renovação terrestre. Desejando-lhe paz e progresso no Evangelho Redentor, somos o amigo e servo humilde Emmanuel” (6/1/54).

Sousa do Prado entendeu nessas palavras de estímulo de Emmanuel o contrário do sentido ali presente, concluindo que “[…] não há a menor dúvida de que aquelas palavras desse espírito representam claramente a aprovação implícita de tudo o quanto temos escrito”. Era ele, de muito tempo, defensor e adepto do comunismo, de que muito se orgulhava como ele mesmo afirma no livro. E não compreendia que alguém pudesse ser espírita de fato sem ter uma consciência da importância do comunismo. Eis o que diz após afirmar em letras destacadas que “o partido comunista não é materialista”: “Por isso é que somos comunistas, não podendo compreender que o não sejam os que se dizem espíritas-cristãos, e pregam espiritismo e cristianismo… Mais ainda: para nós, é mil vezes preferível o comunista materialista ao espírita reacionário, porque o primeiro pratica o evangelho sem o pregar, ao passo que o segundo prega o evangelho sem o praticar…”. Fundamentalmente, Sousa do Prado permanece no mesmo terreno argumentativo iniciado por Lavigne, onde a ideia de um socialismo puro é mais concernente ao espiritismo de justiça, amor e caridade, por isso lhe cumpre, com a Lavigne, combater o capitalismo como sendo o sistema mais cruel possível à sociedade e totalmente em desacordo com o espiritismo. A diferença está em que o primeiro transita por dois campos: o da filosofia e o da ciência marxista, enquanto o segundo adota reflexões mais genéricas, as quais sustentam sua crença e justificam sua presença no debate. Ao final do livro, algumas cartas trocadas durante os debates são anexadas, bem como diversas notas que correram em paralelo à discussão.

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