Espiritas autopromocionais

O simbolismo da mão esquerda não é suficiente para coibir o personalismo e a vaidade, que acabam prevalecendo sobre o conhecimento espírita.

Atualmente, estamos vendo nas redes sociais, nos e-mails e nos diversos blogs individuais uma febre de lideranças espíritas, consagradas ou não, consideráveis ou inexpressivas, realizando verdadeiras proezas autopromocionais, ou seja, a título de difundirem a doutrina, mais não fazem do que promoverem a si mesmos. Buscam o sucesso dos quinze minutos ou a fama forçada na insistência das notícias de pouco valor.

Não se ponha a culpa na rede digital. Antes mesmo dela existir, esse tipo de espirita vaidoso já existia. Nos tempos atuais, porém, com as facilidades que a rede mundial oferece e a quase irresistível atração que exerce, o número deles cresceu assustadora e desavergonhadamente.

 Dizem alguns que é preciso divulgar a doutrina e que os eventos são parte dessa obrigação auto assumida, mas isso não passa de subterfugio para exporem a suas personalidades e darem asas a desejos egoísticos sem nenhum pudor. O que fazem de fato é autopromoção. A doutrina vem apenas em subtítulos ou resumos e os títulos das supostas notícias de que se valem escondem aquilo que acaba por surgir logo em seguida – seus nomes acompanhados de fotos muitas vezes fartas em que aparecem no púlpito ou rodeados de pessoas sorridentes.

São espiritas disfarçados de jornalistas e repórteres, cujo objetivo é se mostrarem na condição de obreiros humildes e empenhados em tornar o alcance da doutrina maior perante a sociedade. Fingem estar fornecendo apenas notícias, para o que são maus jornalistas e pior repórteres. Seus textos sequer cumprem os princípios do lead para que a informação seja completa. À falta de alguém que possa fazer a cobertura jornalística dos eventos que patrocinam ou para os quais são convidados ou se auto convidam, eles mesmos assumem essa tarefa, e o fazem com extremo apego à atualidade dos fatos criados.Estão presentes nos principais canais de relacionamentos, com uma frequência invejável, sempre apresentando imagens fotográficas nas quais podem ser facilmente identificados, unindo, assim, o signo icônico à palavra, sabedores de que o efeito desses recursos são verdadeiros achados subliminares, pois subvertem a consciência dos admiradores e amigos, que, boquiabertos, sorriem o riso da ingenuidade sem perceberem que o inconsciente está sendo penetrado com tamanho ardil. As imagens, em casos como esses – que na publicidade são utilizadas conscientemente para induzir os consumidores a comprarem o que querem e o que não querem – agem na mente de maneira sub-reptícia.

Evidentemente, não falo dos bem-intencionados, que usam de relativa prudência antes de tornarem públicas sua imagem pessoal, visando diminuírem-se frente a grandeza da doutrina, dando a essa o lugar de destaque. Esses, infelizmente, são poucos e quase não aparecem ante a enxurrada de mensagens autopromocionais que concorrem ao mesmo espaço.

No passado não muito distante, esse tipo de individuo se autopromovia muito mais nas rodas de conversa ou apoiados por seus grupos de seguidores próximos. Eram claramente identificados e sabia-se, então, onde estavam, o que faziam e quais eram suas verdadeiras intenções. Havia pouco espaço na imprensa espírita para isso e qualquer atitude mais ostensiva nesse meio poderia retornar na forma de crítica assinada pelas lideranças esclarecidas, daí aparecerem com raridade. Hoje, porém, o espaço da web se tornou terra de ninguém e a consciência doutrinária de grande parte dos membros dessa rede mostra-se extremamente frágil, cooptada que foi por uma sociedade do espetáculo e por uma formação espírita com alto grau de deficiência.

O Eclesiastes assinala “vaidade das vaidades, tudo e vaidade”. E o alerta do mestre continua valido: “Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”. Kardec, a seu tempo, abordou o assunto e chamou a atenção desse tipo de espírita nocivo à doutrina, mas as lições do codificador nem sempre são ouvidas ou levadas a sério, pois a vaidade humana sempre encontra veios e artérias para escoar. E como Kardec, os demais que se dedicaram a alertar para tais desvios são deixados esquecidos em seus contextos, enquanto que os vaidosos se movimentam neste mundo tão líquido e fugaz.

O carro foi colocado na frente dos bois…

Há uma espécie de conluio familiar previamente acertado: quando um está na tribuna o outro se incumbe de fotografar e colocar na rede. E vice-versa. A self, esse modo de diversão já consagrado, se incumbe de resolver certas necessidades psicológicas de aparecer e ser admirado em ocasiões específicas e, por fim, o modo mais deslavado de atender à vaidade: o próprio interessado empresta seu aparelho celular para que fotos e mais fotos sejam feitas, para então, ele mesmo, se incumbir de publicar na rede e falar, disfarçadamente, dos feitos por eles realizados. Em casos como esses, dão razão à expressão tão debatida de que “o estilo é o homem”. Sim, o estilo os denuncia.

A rede se tornou a maçã de Adão dos nossos tempos, mas em lugar de morder o fruto entrega-se à tentação da visibilidade e da admiração nas teias entrelaçadas e difusas do mundo digital. Bendito Gutemberg que nos deu a imprensa escrita; bendita câmera escura que nos proporcionou a reprodução da imagem fixa; bendita Arte do Real que nos revelou a imagem em movimento e, por fim, bendita a rede digital que juntou tudo isso numa convergência extraordinária, a servir tanto para o afeto da solidariedade quanto para o afago das vaidades insanas.

As grandes lideranças, respeitadas e admiradas, miravam Kardec e se entregavam a interpretá-lo para o mundo despidas de interesses egoísticos. A doação de si era a palavra de ordem. Mas Kardec foi colocado tão distante do nosso tempo que o sentido de doação de agora não é concebido senão como troca. A disposição de falar sobre ele é recompensada pela admiração a quem fala. Até mesmo para aqueles que apresentam Kardec através de chavões e significados distorcidos, sem nenhum compromisso maior com a essência do conhecimento que ele construiu com inigualável esforço.

Ante o descompromisso e o mal compromisso desenvolvem-se, cada vez mais, esforços para compensar a vaidade dos falantes, imagéticos e aventureiros do espiritismo. Contra o ensino do mestre, eles se importam mais com o proselitismo do que com a seriedade do conhecimento. Para estes, vale mais ter seguidores, se possível aos milhares, do que despertar consciências para a grandeza da vida, que a doutrina destaca. Alimentam sua vaidade com a satisfação dos elogios vazios. Apossam-se da doutrina como de um patrimônio particular e a empregam como recurso para atender seus desejos de fama e admiração. Almejam a idolatria de santos de barro.

Estes são os pobres de espírito do nosso tempo!

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