Entre traças, poeira e páginas rotas

Por diferentes vias e de diversas maneiras, chegaram-me às mãos ao longo dos últimos 50 anos uma quantidade considerável de livros, revistas e documentos importantes para a história do espiritismo, livros em boa parte esgotados e alguns até mesmo ignorados do público, bem como as referidas revistas. Dei início à publicação das respectivas resenhas com o trabalho sobre a Revista Metapsíquica, como forma de desincumbir-me deste que considero um compromisso público, uma vez que formo entre aqueles que entendem que nada que seja de interesse público pode ficar retido sob a rubrica de patrimônio particular; que tudo deve ser disponibilizado, aberta e livremente, ao conhecimento da sociedade, pois que, no fim das contas, a ela de fato pertence. Na sequência, dei conhecimento de outra revista – Verdade e Luz – e, após, iniciei a publicação em separado de resenhas mais extensas de alguns livros cuja importância pedia um destaque especial. Agora, aqui, faço a conclusão do trabalho, publicando sobre aqueles documentos que, de maior ou menor interesse, guardam todos eles a oportunidade de esclarecer, informar ou enriquecer este ou aquele estudioso e pesquisador. Todos estes livros estarão à disposição dos interessados, uma vez que ficarão sob a guarda da Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires, que, certamente, os disponibilizará ao público. A coleção inteira, contudo, dos textos publicados, poderá ser encontrada aqui, neste blog, na página DOCUMENTOS e suas consequentes subpáginas: Revista Ilustração Espírita, Revista Metapsíquica, Revista Verdade e Luz, Opúsculos raros e Livros raros 


O espiritismo, sua natureza, seus perigos – Alexander Jenniard Du Dot, o autor, era em sua época uma espécie de Padre Quevedo dos católicos, ou seja, trabalhou muito para “compreender” os fatos espíritas à luz do catolicismo e de uma visão da ciência um tanto estrábica. Ele afirma sem medo que à frente da ciência de seu tempo (nasceu em 1840 e este livro data do final daquele século) “nós pomos o catecismo”. Além deste livro, escreveu outros sobre fatos espíritas e conhecimentos correlatos, como hipnotismo, por exemplo, sempre no intuito de, por vias lógicas (suas) e racionais, concluir pela negativa dos fatos e por explicações bem próprias. Sua previsão sobre o futuro do espiritismo, apresentada logo na introdução deste livro, parece ter-se confirmado. Escreve ele: “Fala-se há muito tempo do espiritismo; ainda hoje se fala dele e no futuro talvez falem mais dele do que hoje”. Du dot era muito apreciado e considerado pela Igreja como uma inteligência valiosa e um autor que sabia escrever com leveza e humor.

Mas como até entre os adversários do espiritismo se pode aproveitar algumas coisas, a história a seguir que o autor revela e classifica como prova da ação do diabo sobre os bispos católicos, pode ser apreciada sob outro ângulo e talvez seu título mais coerente seja: “Quando os espíritos puseram os bispos para correr”. Vamos a ela.

“Cinco bispos de uma província reuniram-se em 1849, para tratarem de diferentes pontos de doutrina e de direito eclesiástico. No decorrer deste sínodo, como as mesas giratórias estavam em moda, e como as práticas espíritas, implicitamente proibidas pela Igreja, eram geralmente toleradas, os prelados quiseram experimentar por si próprios estas pretensas novidades. Colocaram-se em roda de uma mesa e obtiveram movimentos de rotação, e depois respostas por meio do pé da mesa. Suspeitando que eram demônios os espíritos que faziam mover a mesa, lembraram-se um dia de colocar em cima um rosário e um breviário; a mesa arrojou-os para longe com furor; depois, encarniçando-se muito especialmente contra o bispo da diocese, que era talvez o promotor dessas experiências, tomou a seu cargo expulsá-lo da sala, perseguindo-o até a porta, apesar da resistência que ele opunha. Sem dúvida, os cinco prelados não exigiam tantas provas. Apressaram-se a proibir, nas suas respectivas dioceses, o exercício da mesa girante, prática perigosa cujo caráter infernal lhes fora revelado por fatos tão brutais”.

Du Dot aponta que há somente três tipos de espíritos: os anjos decaídos – demônios – os espíritos dos mortos e os espíritos dos vivos. Apesar de beber e citar autores como Croockes, Gibier, Zollner, além de médiuns, como Holmes, a conclusão a que chega é diversa desses pesquisadores, ou seja, os espíritos que se manifestam são dos demônios, daí o grande perigo que o espiritismo apresenta. Ele se mostra de fato conhecedor da bibliografia de então, ao mesmo tempo em que é incapaz de entender os fatos fora de sua cultura fortemente marcada pelo catolicismo.

Livro publicado em Portugal, tradução de Gomes dos Santos, Livraria Povoense – Editora, Póvoa de Varzim. S/d.


Aqui e além – Escrito por Constantino José Nogueira, tem o prefácio de Cairbar Schutel, que viu no livro uma mensagem muito positiva. Diz ele: “Eis aqui um livrinho de utilidade nos difíceis tempos que atravessamos”. A Casa Editora O Clarim o publicou em 1929. O autor passa uma mensagem de otimismo e esperança e entrelaça os temas com histórias reais, vividas por ele, com o objetivo de exaltar o esforço do trabalho como meio de levar as criaturas a vencer seus obstáculos, sempre considerando que há um mundo invisível que, quer queiramos quer não, caminha lado a lado e pode proporcionar um apoio indiscutível para todos os seres humanos.

 

 


Doutrina e crítica – Livro publicado em 1943 no Rio de Janeiro, foi impresso nas oficinas gráficas de Federação Espírita Brasileira, mas não leva o selo da FEB. Amadeu Santos, que o assina, funciona como coautor e coordenador da edição, que tem mais nove coautores: Astolfo Olegário de Oliveira, Carlos Imbassahy, Frederico Figner, João Augusto Ferreira, João Teixeira de Paulo, José Passos, Leopoldo Machado, Osvaldo Melo e Sousa Prado. Traz na página de rosto a seguinte explicação: “Livro de crítica e doutrina, em resposta a um contumaz adversário do espiritismo”. Amadeu Santos, industrial na cidade mineira de Astolfo Dutra, foi o idealizador do livro e o contumaz adversário do espiritismo a que se refere é um professor mineiro, de nome José, que assinava “Invicto”, com o qual polemizou durante cerca de dois anos. Mais tarde, por essas ironias do destino, Amadeu veio a saber que o referido professor José Invicto nada mais era do que um antigo desafeto dos tempos escolares. Todos os coautores, de uma forma ou outra acabaram por participar das polêmicas, boa parte delas pelo Jornal do Povo, da cidade mineira de Ponte Nova, mas também envolvendo outras publicações, inclusive espíritas e ao longo do tempo fazendo aparecer outros personagens. Como o livro teve apenas uma edição e circulação restrita, mas possui um grande peso por conta daqueles que o assinam, torna-se imperioso disponibilizá-lo aos estudiosos e pesquisadores.


Reincarnado – Assim mesmo, escrito com ei e não como nos nossos tempos, ee, o livro publicado pela FEB em 1925 foi traduzido pelo incansável Guillon Ribeiro e seu autor foi um médico de sucesso, também maçom, assinando Dr. Lucien Graux, nascido em Paris. O título vem acompanhado de uma frase explicativa: “romance do além”, escrito a partir de uma experiência real. A edição de 1925 refere-se ao terceiro milheiro, do que se deduz que haviam sido impressos outros dois milheiros antes. Não há mais notícias de que tenha sido reeditado posteriormente. O autor teve uma vida intensa, de grande produção profissional e intelectual e demonstra haver estudado o espiritismo pelos grandes autores de seu tempo. Viveu as duas grandes guerras e acabou desencarnando em 1944, na Alemanha, para onde viajou clandestinamente como membro da Resistência francesa. Trata-se de uma edição de luxo, em belíssima encadernação e capa dura, com letras em relevo branco.


Outra vida?… – Um extraordinário prefácio escrito por Camilo Flamarion abre este livro publicado pela primeira vez em língua portuguesa em 1903 por Laemmert & C. – Editores, do Rio de Janeiro., dentro da coleção “Biblioteca Filosófica”. Seu autor é M. Sage (Michel). Por ser a capa dessa edição em cartão e sem impressão, apresento ao lado a página de rosto, para conferência por quem o desejar. O responsável pela tradução não aparece, como também a língua em que o original foi escrito, porém se sabe que era o francês e que a obra foi publicada em primeira edição em 1902, em Paris, sob a responsabilidade de P.-G. Leymarie, ou seja, no ano seguinte já estava sendo publicada no Brasil. Mas o título original é bem diferente da edição brasileira de 1903. Lá está: “Madame Piper et la Société Anglo-Américaine pour les recherches psychiques”. Há uma outra tradução para o português, de 1944, feita por Octavio Cruz, cujo título é: “MADAME PIPER e a Sociedade Anglo-Americana de Pesquisas Psíquicas (1902)”. Finalmente, os interessados na leitura do livro, agora já com a ortografia mais atualizada, podem acessar aqui. Flamarion no prefácio faz elogios ao trabalho de Michel Sage e aos seus cuidados com o rigor científico do texto.


Don Pancho Sierra – O argentino muito amigo dos espíritas brasileiros, Humberto Mariotti, publicou pela Editorial Victor Hugo, de Buenos Aires, em 1958, este que é um livro-poesia sobre a vida e a mediunidade de um daqueles seres que, segundo o próprio autor, jamais poderiam ser esquecidos, sob pena de negar a eles o lugar merecido entre os que fizeram obra digna, mas negar também à posteridade as luzes por eles distribuídas. Diz Mariotti: “Nos Pampas existe uma voz escondida, ocasionalmente distante para muitos, que precisa ser revelada. Esta voz esconde o sentido de nosso ser argentino, mas seu significado só será captado por aqueles que tenham alcançado a sensibilidade metapsíquica de Sarmiento e o don mediúnica de Pancho Sierra”. Trata-se de um médium curador que viveu nasceu e viveu na Argentina entre 1831 e 1891, também conhecido como “o médico da água fria”, tendo em vista ser este o método preferido por ele para realizar curas. Amália Domingos y Soller, da Espanha com ele se comunicava por correspondência, incentivando-o em suas atividades. Vinha de uma família abastada, mas optou por viver de modo simples e dedicado ao próximo. Foi admiradíssimo e ao mesmo tempo tomado como louco por alguns. Sua condição de espírita foi também posta à prova, pois muitos a negaram e o mantinham como um católico até o fim da vida. Mariotti não apenas o reposiciona como admirador do espiritismo, mas o resgata como médium extraordinário para o mundo.


Fenomenologia mediúnica – Embora esse livro tenha alcançado a terceira edição e esteja disponível em alguns sebos virtuais, é cada dia mais desconhecido e está próximo de completar 80 anos de sua última edição. Foi escrito por Osmani Emboaba, de Ribeirão Preto, São Paulo, e publicado primeiramente em Curitiba, tendo tido duas edições em 1938 e uma terceira em 1940, esta pela FEB no Rio de Janeiro. Trata-se da primeira tese de doutorado que une espiritismo e medicina, apresentada a uma banca examinadora. Esta 3ª edição conta com o prefácio de Carlos Imbassahy e apresenta no frontispício da página de rosto a seguinte descrição: “Tese ao doutorado em medicina apresentada ao Conselho Técnico-administrativo da Faculdade de Medicina do Paraná, em 22-10-1938. Discutida e reprovada em 6-12-1938”. Imbassahy faz uma apreciação crítica e dura contra os examinadores, dissecando o comportamento anticientífico de cada um diante da tese de Emboaba na banca. Diz ele: “[…] à semelhança do dr. Emboaba, surge alguém com um estudo que não é a negação sistemática da autenticidade dos fenômenos metapsíquicos. Ah! Este não pode ser aceito; foge à psiquiatria, em particular e à medicina em geral. Para essa fuga faz-se mister o caso especial da aceitação do mediunismo. Se o autor aceita o mediunismo, os examinadores não lhe aceitam a tese; pura questão de pró ou contra; e quando a aceitam é para reprova-la”

Prossegue o destemido Imbassahy: “[…] o dr. Alô, dizendo-se leigo, proclamando-se leigo, confessando-se leigo, não duvidou em tomar parte da mesa examinadora e reprovar o examinando”. Explicitou, assim, a sua parcialidade. Mas teve também o dr. Aramis Ataíde, diz Imbassahy, “que tomou da palavra e afirmou que os fenômenos expostos por Emboaba tinham um característico frisante: diminuíam à medida em que aumentava o controle dos investigadores”.  Sobre outro dos examinadores, amplamente dissecado por Imbassahy em seu argumento estranho, basta lembrar que começou dizendo “que gostava de ciscar como os galos, para as galinhas apanharem”, para, ao final afirmar sua contrariedade com a tese. O último dos arguidores da tese, diz Imbassahy, foi “o dr. Moura Brito. Esse, ao que parece, limitou-se a uma indagação fulminante. Ele queria saber porque os Espíritos só receitavam homeopatia. Esta é de escachar!”.

A tese de Osmani Emboaba é um documento importante para os pesquisadores e todos aqueles que se interessam pela história do espiritismo levado cada dia mais às academias, através de dissertações e teses, muitas contribuindo para derrubar barreiras e outras para tornar conhecidos, de forma racional como requer o meio acadêmico, os princípios em que se assentam a doutrina espírita.


Hipnologia transcendental – livro interessante que aborda o assunto sob diversos vieses, todos em moda no primeiro quarto do século vinte. Esta 2ª edição da obra escrita por João Antunes e publicada em Lisboa, Portugal, em 1924, procura traçar um quadro do hipnotismo e do magnetismo utilizando-se de estudos e experiências disponíveis na literatura de então, dos Estados Unidos à Europa, de autores clássicos como Mesmer e Braid como as experiências de tantos outros, inclusive Victor Hugo etc. Ao final, apresenta a hipótese espírita para a explicação dos fenômenos psíquicos, baseando-se em Kardec e outros pesquisadores, sem deixar de mencionar nomes importantes como William Croockes e Russel Wallace. Estilo leve, proposta aberta, reunião de casos e experiências interessantes é o que marca este pequeno mas interessante livro.


Guia metódico do experimentador espírita – Publicado em 1926, em Paris, e traduzido para o português por Cairbar Schutel, este livro ganhou o selo da editora “O Clarim”, fundada e dirigida por Cairbar, tendo sua 1ª edição sido impressa na cidade de Matão em 1931 e a 2ª apenas em 1959. O prefácio é do próprio tradutor e traz a explicação de que há muito se observa a necessidade de um guia seguro para as sessões mediúnicas. Logo no primeiro parágrafo do seu prefácio, Cairbar adverte: “Tem-se notado no nosso país que o número de grupos e associações espíritas é muito grande, mas seu trabalho é muito deficiente, não correspondendo absolutamente aos esforços empregados. A grande maioria desses núcleos, como ninguém poderá contestar, faz obra contraproducente”. O livro está dividido em duas partes, sendo a primeira utilizada para expor “noções gerais” sobre a doutrina, o desenvolvimento mediúnico etc. Na segunda parte, a mais extensa, o autor fala das sessões práticas, entre as quais as de efeitos físicos e a que denomina sessão psicológica dentre outras. Embora defasado no tempo, o livro oferece uma boa experiência para quem analisa a evolução histórica do pensamento espírita.


O evangelho por fora – este é o título de um dos livros escritos por Canuto de Abreu. O que poucos sabem é que, antes de se tornar livro, o título designava um capítulo do curso Aprendizes do Evangelho que a Federação Espírita do Estado de São Paulo instalou no ano de 1950, sob a coordenação geral do Comandante Edgard Armond. O primeiro indivíduo a apresentar as aulas com o tema “O evangelho por fora” foi, exatamente, Canuto de Abreu, que posteriormente enfeixou-as em livro. Posteriormente, com a saída da Canuto de Abreu do curso, assumiu o seu lugar uma outra figura não menos pesquisadora do tema. Trata-se do poliglota Julio Abreu Filho, o primeiro tradutor para o português da Revista Espírita editada e dirigida por Allan Kardec, obra essa lançada na década de 1970 pela Edicel, editora fundada e dirigida por Frederico Giannini. Pois bem, quando Julio Abreu Filho assumiu a cátedra do curso, preparou, também, o seu texto para 10 aulas, texto esse que foi transformado em livro de mesmo nome, correspondente ao Tomo I do Curso de Aprendizes do Evangelho, publicado pela Editora LAKE, de São Paulo, em 1968. O trabalho de Julio é bastante criterioso, embora esteja na atualidade muito esquecido.


Poeira da estrada – O poliglota Julio Abreu Filho foi muito atuante no espiritismo brasileiro à sua época e um dos vários livros que escreveu é este, lançado pela Editora Édipo, de São Paulo. A edição única é de 1949. De que trata o livro é o que vamos esclarecer agora. Julio Abreu Filho foi um dos integrantes do grupo de espíritas que ajudaram a fundar a USE-SP e no congresso de fundação de 1947 foi eleito membro do seu conselho deliberativo, ao mesmo tempo em que integrava os quadros da Federação Espírita de São Paulo. Vários conflitos o levaram a abandonar a USE e a Federação ao mesmo tempo. Destaque-se o congresso de unificação de 1949, realizado em São Paulo sob protestos e ações subterrâneas da FEB, especialmente urdidas por seu então presidente Wantuil de Freitas. Julio não só viu as duas teses que apresentou desrespeitadas por pessoas que não desejavam desagradar a FEB, mas viu também que a infiltração do roustainguismo, já se insinuando na Federação, se deu também no congresso. De outra forma, Julio se batia contra a FEB tendo em vista que esta, então, dava mais atenção à edição de livros em Esperanto do que às obras espíritas em português. Julio via aí duas coisas: o Esperanto era uma língua sem raízes, que alguns dirigentes espíritas teimavam em afirmar que era dever dos espíritas divulgá-la; mas era também, segundo Julio, uma forma da FEB incutir nos espíritas as ideias roustainguistas. O livro de Julio, portanto, trabalha em cima desses temas e contém, ainda, documentos que dizem respeito a eles, como cartas trocadas com Wantuil de Freitas e artigos em forma de réplica a respeito das razões e fundamentos pelos quais considera o Esperanto uma língua incapaz de atender ao propósito de uma língua universal. Como curiosidade, vale esclarecer que Herculano Pires, na companhia de Jorge Rizzini, foi visitar um dia o seu amigo Julio Abreu Filho no hospital em que estava internado, ocasião em que sugeriu que o livro Erros doutrinários, do Julio, merecia nova edição, solicitou a este permissão para acrescentar-lhe uma outra parte, no que foi prontamente atendido por Julio. Pouco tempo depois, Julio veio a desencarnar e Herculano, de parceria com ele, lançou o livro O verbo e a carne. Aqui, em Poeira da estrada, o tema Roustaing aparece de maneira forte e no Erros doutrinários surge como tema central.


Discurso – Este livro, publicado em 1937 em Salvador pelo Instituto Kardecista da Bahia contém o discurso pronunciado pelo Cel. Ricardo Machado, um dos fundadores dessa instituição, discurso esse feito por ocasião da inauguração da sede e do Albergue Noturno daquele instituto. O autor era então presidente honorário do instituto e foi alvo de homenagem de seus pares. Seu discurso reflete o conhecimento que o Cel. Ricardo Machado tinha da doutrina e do movimento espírita brasileiro de modo geral, uma vez que mantinha relacionamento com as principais expressões do pensamento espírita do país. O discurso não se limita às ações protocolares, mas envereda pela história do espiritismo na Bahia e no país, pelos princípios básicos do espiritismo, com citações dos autores mais destacados à época nos níveis nacional e internacional.


Máscaras abaixo! – O mesmo autor do discurso acima, Ricardo Machado, publicou em 1930, também na Bahia, este que é uma extensão do seu livro anterior, intitulado Pontos de vista à luz dos evangelhos e da ciência espírita, cuja edição data de 4 anos antes. Ou seja, 1926. Em ambos os livros o assunto central é a questão roustainguista do corpo fluídico atribuído a Jesus pelos espíritas místicos. O livro de 1926 teve enorme repercussão e foi resultado da publicação de 26 artigos que Ricardo Machado publicou pelas páginas do jornal baiano O Imparcial, nos quais contestava a tese roustainguista. Em Máscaras abaixo! Ricardo Machado reúne cartas e manifestações pela imprensa sobre o seu livro de 1926, mas faz também uma série de réplicas a roustainguistas como Sousa Prado e Manoel Quintão, este último ex-presidente da FEB e que então havia publicado um livro destina à propaganda e defesa tese do advogado de Bordeus. Há, ainda, um material destinado a esclarecer um pouco os conflitos surgidos entre Ricardo Machado e José Petitinga, ex-presidente da União Espírita da Bahia e também defensor de Roustaing, material este que se torna histórico por envolver fatos ligados à existência, funcionamento e sobrevivência daquela federativa.


A bem da verdade – volumoso livro de autoria de Henrique Andrade, publicado em 1946 às expensas do autor. Lê-se na sua página de rosto: “Estudo crítico-analítico da obra “Os quatro evangelhos” ou “Revelação da Revelação”, de J. B. Roustaing em face da “Terceira Revelação” codificada por Allan Kardec”. O prefácio é do General Araripe de Faria. Trata-se, por certo, do mais amplo em termos dimensionais físicos, mas também temático, estudo feito sobre a obra que ainda ao tempo de Kardec surgira e, sem sombra de dúvida, viera como uma espécie de Cavalo de Troia para confundir o espiritismo nascente. A obra demandou nada menos do que 120 artigos publicados sequencialmente no jornal Mundo Espírita, dirigido e mantido pelo próprio autor, publicado então no Rio de Janeiro. Este jornal, depois, foi transferido à Federação Espírita do Paraná, que o publica até os dias atuais. A história desse livro está toda descrita logo na sua apresentação. Leopoldo Machado criara um programa espírita de rádio, denominado Hora Espírita Radiofônica e não podendo contar com a participação direta de Henrique Andrade, convenceu-o a fazer parte da administração que se reunia mensalmente para analisar e planejar o programa. Após três anos e com o afastamento de Leopoldo Machado, assumiu a presidência o conhecido espírita Ismael Gomes Braga, no momento mesmo em que a FEB retomava a divulgação da obra de Roustaing e fazia grande propaganda dela. Ismael subverteu, segundo Henrique Andrade, os princípios básicos do programa, de não alimentar conflitos e dissidências, e passou a utilizar as ondas sonoras da emissora para falar das maravilhas da obra roustainguista. Henrique Andrade, então, publicou artigo no seu jornal contestando a obra e a atitude de Ismael, recebendo, em troca, a crítica de Fred Figner pelas colunas da Vanguarda. E em uma dessas publicações, Fred Figner insinuou que Henrique Andrade falava sem conhecimento de causa, por não haver lido a obra Os quatro evangelhos de Roustaing, levando-o a debruçar-se no reestudo dela e a escrever e publicar durante os 120 números seguintes do jornal Mundo Espírita ponto por ponto tudo aquilo que de mais importante a obra continha, comparativamente com o que escrevera e publicara Allan Kardec. Com isso, apresenta aquilo que de mais substancioso existe em relação ao tema, pelas minúcias e pela quantidade de aspectos abordados. Todos os que vieram posteriormente a tratar do assunto, de uma forma ou de outra se beneficiaram com o esforço compensador de Henrique Andrade. O livro de mais de 400 páginas termina com a transcrição de uma mensagem mediúnica assinada por Roustaing e recebida pelo médium Carlos Gomes dos Santos, na qual conta de sua desastrada empreitada ao idealizar a obra e solicita que não seja mais levada a sério. Obra esgotada, sem reedição.


Kardec ou Roustaing – Livro editado no Rio de Janeiro em 1936 e escrito pelo médico Luiz Autuori, que assumiu uma tarefa inglória de conciliar as duas teses opostas a respeito do corpo de Jesus, se fluídico, como deseja Roustaing ou se carnal, como defende Kardec. Ele mesmo, na apresentação, revela a impossibilidade de sua missão auto-assumida, ao dizer: “O que aí vai dilatado, repisado, monótono talvez, não é o clarão que espancará as trevas, nem a balança emperrada, que não chega a determinar o valor o valor exato…”. O autor desenvolve o raciocínio de que tanto Kardec quanto Roustaing defende teses corretas, o primeiro afirmando que Jesus só pode ser de fato compreendido se visto como homem, humano, revestido do mesmo corpo dos demais seres a ele semelhantes; quanto a Roustaing, também está certo ao admitir que o mais correto e justo para a personalidade pura do espírito que se apresentou como Jesus é vê-lo em um corpo especial, inerente à sua grandeza espiritual. E todo o livro vai caminhar, em bom estilo, diga-se de passagem, nessa direção conciliadora, deixando a cada um a liberdade de escolha sem que, com isso, esteja navegando em águas turvas se aceita uma das duas opções. Tanto assim que deixa para o final do livro um capítulo em que vai discutir a ideia de que Jesus seria um mistificador, como quer Kardec, se se apresentasse em corpo fluídico, corpo este incapaz de absorver os impactos da matéria densa do planeta. Ou seja, seria mistificador porque representar todas as mazelas da dor, do sofrimento, das necessidades físicas de um corpo de carne, sendo que o corpo fluídico estaria infenso a tudo isso. Luiz Autuori quer desfazer essa conclusão lógica de Kardec e de quantos assim também pensão e opinam. A questão deixada em suspense pelo autor, porém, da qual procura se afastar sem o conseguir é que ao ver em Roustaing e suas diversas teses consideradas anti-doutrinárias uma obra passível de ser aceita sem contestações, sem prejuízos à verdade, tanto quanto a de Kardec, é que passa à margem de questões tão contrárias ao bom-senso e à lógica, como também e principalmente aos princípios espíritas, questões estas que não se resumem ao corpo fluídico, apenas. Com isso, Luiz Autuori acaba se entregando à crença proposta pela doutrina roustainguista, pois a tem na conta de verdadeira. São quase trezentas páginas de um livro bem escrito do ponto de vista da lisura gramatical, mas com estilo repetitivo e, por isso, monótono às vezes. Aliás, ele havia previsto isso logo no início.


Cumprindo-se profecias. Materializações de espíritos em São Paulo – Com um longo e minucioso prefácio de Julio Abreu Filho, esse livro de autoria de Mario Ferreira publicado em 1955 em São Paulo faz um relato documentado das então conhecidas sessões de efeitos físicos realizadas no não menos conhecido Grupo Espírita Padre Zabeu, localizado na capital paulista, bem como em diversos outros centros. Pode ser lido em arquivo PDF aqui. Tem por base as atas das sessões, as quais apresentam sempre uma relação de indivíduos que presenciaram os fenômenos e reproduz algumas poucas fotos do médium e de espíritos materializados. O autor, Mario Ferreira, era responsável pelas atas quando as sessões ocorriam nas dependências do Grupo Padre Zabeu. Pode-se observar a presença nas sessões de personalidades de destaque no espiritismo de São Paulo, tais como Luisa Pessanha Camargo Branco, Cid Franco, Francisco Carlos de Castro Neves, Caetano Mero e outros. Como curiosidade, registro a sessão de 9 de agosto de 1951 realizada nas dependências da União Federativa Espírita Paulista, que contou com a presença especial do médium Pietro Ubaldi. Este foi personagem ali de um fato inesperado, assim narrado: “[…] o Padre Zabeu disse que iria proporcionar a materialização do Espírito X. (Homem do Século Dois). A seguir, acendeu-se a luz vermelha e a direita, junto à mesa, surgiu a mencionada entidade com a sua vestimenta toda branca cobrindo-a completamente, conforme o uso da época em que teria vivido em nosso planeta. A tênua claridade da luz vermelha foi suficiente para distinguirmos os seus brancos cabelos e barbas longas que se confundiam com a cor do seu traje. O Espírito X, controlando o comutador da luz elétrica, tornou-se visível, em forma tangível, durante curtos intervalos de tempo e repetidas vezes, acendendo e apagando a luz. Numa das vezes, demorando-se visível, aproximou-se do professor Pietro Ubaldi, estendendo-lhe as mãos. O professor, preso pelas duas mãos, levantou-se indo ao seu encontro e o Espírito X, mantendo contato, fez com que ele tocasse no seu braço, sem contudo fazer uso da palavra.. Despedindo-se e fazendo uma mesura, o “Homem do Século Dois” afastou-se, lentamente, e desapareceu ao apagar das luzes”. Pietro Ubaldi, após o encerramento da sessão, deu seu testemunho do qual extraio este trcho: “As minhas impressões são verdadeiramente maravilhosas; nunca assistira um trabalho mediúnico desse gênero. […] Porém, o que mais me maravilhou foi o fato de que, estando em plena luz vermelha, na qual se podia ver nitidamente tudo, pude, com a máxima clareza, ver a materialização que apareceu no recinto, a qual creio que todos viram com a mesma nitidez”.


Trabalhos post-mortem do Padre Zabeu (1946) – Este livro foi reeditado em 1974, em Araras, SP, pelo Instituto de Difusão Espírita, ocasião em que ao seu título original foi acrescida a expressão Cirurgias espirituais, expressão que passou a título principal, ficando o primeiro como subtítulo. Ambas as edições estão hoje fora de catálogo. A edição de 1974 está disponível em PDF aqui. Este novo título, contudo, não espelha o que de fato o livro relata, pois seu conteúdo contém inúmeros fenômenos de efeitos físicos diversos, sendo que as operações espirituais constituem apenas uma de suas partes. Seu autor, Urbano Pereira, professor de física e, a princípio, não adepto do espiritismo, declara que “as experiências supranormais narradas neste livro tiveram início entre um grupo espírita kardecista na cidade de Pindamonhangaba, Estado de São Paulo”. Dotado de inúmeras fotografias, o livro relata atividades deste espírito que ficou famoso por suas sessões de materialização – Padre Zabeu – e é hoje, inclusive, nome de algumas associações espíritas de várias cidades. Um dos pontos altos do livro é, sem dúvida, a primeira operação relatada, que, em síntese, foi acompanhada por alguns médicos ciosos do controle dos fatos, o que dá à narrativa um peso bastante grande, mas tinha por objetivo também demonstrar a um dos médicos que há muito mais além da matéria que os sentidos físicos permitem perceber. O espírito cirurgião, dr. Luiz Gomes do Amaral, falecido cerca de 20 anos antes, desejava dar provas ao seu filho, médico em São Paulo, dr. Edson do Amaral, de sua realidade e este, de fato, acompanhou a todos os procedimentos, tendo, ao final dado o seu parecer por escrito. Livro indispensável àqueles que estudam os fenômenos mediúnicos.


Marcas e impressões supranormais de mãos de fogo (1938) – Um pequeno livro em tamanho, mas com o registro de fenômenos, típico do reconhecido pesquisador italiano, Ernesto Bozzano, na tradução de Francisco Klörs Werneck que, ao final, acresce o conteúdo com um apêndice onde inclui mais um caso aos três narrados por Bozzano, em que um “fedor cadavérico se desprendia do espectro”, este retirado por Werneck de um opúsculo intitulado O médium Mirabelli mistifica?, de autoria de Miguel Karl e publicado em 1929. O fenômeno de mãos de fogo é aquele em que em tais circunstâncias as mãos ficam gravadas em tecidos, desafiando, assim, os pesquisadores.

 

 


Prodígios da Biopsychica obtidos com o Medium Mirabelli (1937) – Autor: Eurico Goes. Este é um dos muitos livros que sobre a mediunidade e os fenômenos produzidos pelo médium Mirabelli foram escritos e publicados no Brasil e no Exterior. E talvez aquele que jamais pode ser deixado deixado de lado quando se trata de pesquisar esse médium que a seu tempo proporcionou fenômenos de tal ordem que foi perseguido, preso, escrachado, desrespeitado, mas, jamais, no dizer do autor deste livro, pego em traquinagens. Eurico de Goes ostenta um currículo invejável, tendo sido membro do Instituto Histórico Brasileiro, professor da Faculdade de Filosofia e Letras do Rio de Janeiro, fundador e diretor da Biblioteca Pública Municipal de São Paulo, além de outras notáveis atividades e tendo creditado à sua autoria cerca de 15 outros livros. Este, sobre Mirabelli, possui quase 500 páginas, vem enriquecido com dezenas de fotografias de fenômenos por ele e outros registrados e foi, segundo Goes, o resultado de cerca de 20 anos de convivência e acompanhamento do médium em sua trajetória em São Paulo e outros Estados brasileiros. Abre o livro a famosa foto do médium em levitação na sede do Instituto Psíquico Brasileiro, em São Paulo. Goes relata que o médium chamou sua atenção pela primeira vez quando ele, autor, estava em São José dos Campos, cidade localizada cerca de 90 quilômetros da capital paulista, acompanhando sua esposa em tratamento de saúde, e leu pelas colunas dos jornais diários de São Paulo acerca das peripécias atribuídas a Mirabelli. Tempos depois, já com a esposa desencarnada, Goes e Mirabelli se encontraram casualmente num hotel da capital paulista, onde ambos estavam hospedados. Desse encontro surgiu uma relação que se estreitou com o tempo, levando o autor a estudar os fenômenos tanto quanto a vida do médium, razão que justifica a explicação colocada na página de rosto do livro: “Experiências com o famoso metérgico e documentado estudo de psiquismo fenomenal”. Já em dezembro de 1917, 20 anos antes, portanto da publicação do livro, Eurico Goes foi entrevistado pelo jornal Diário de Santos, onde forneceu as “primeiras observações com o médium Mirabelli”, conforme titula o capítulo II deste livro e onde afirma: “a minha impressão é de que ele é um verdadeiro médium, do gênero desses que têm sido celebrizados nas experiências e nos trabalhos de William Croockes, Lombroso, Aksakof, Flammarion, Paul Gibier (discípulo de Pasteur, comissionado para estudar a febre amarela em Havana) e tantos outros”. Com a convivência longa, Goes reúne material e coragem para formar com extrema franqueza um perfil de Mirabelli que revela as suas virtudes e as suas fraquezas de criatura humana, o que não é comum, convenhamos, nas biografias escritas por admiradores próximos do biografado. Aí aparece a multiplicidade de dons que o médium possuía, dons que vão além das circunstâncias mediúnicas e que, no terreno desta mediunidade, também revela outros tipos que não são quase referenciados; dizendo objetivamente: são desconhecidos, pois o que sempre se divulgou desse médium foram os fenômenos de efeitos físicos. Por isso, ao final pode o autor afirmar categoricamente: “…dentro e fora do país, jamais encontrei um médium de eficiência e de pluri-fenomenologia de Mirabelli […] nem mesmo Florence Cook, Eusapia Paladino, Mistress d’Esperance, o extraordinário Home, Ofelia Corrales e quaisquer outros, de mundial fama, superaram ou igualaram sequer Mirabelli!”. Perguntar-se-á em tom de desconfiança o leitor atento se essa opinião de Goes não está contaminada pelo longo convívio e pela admiração de conteúdo emocional-afetivo que teve com o médium, devendo ser colocada, portanto, em quarentena. Faz sentido. Mas o que Goes viu em termos fenomenológicos e variados nesse tempo todo, seja quantitativamente ou qualitativamente colocaria qualquer um em situação semelhante, independentemente de seus controle racional sobre os fatos e as circunstâncias em que se davam. Veja-se, como exemplo, o relato seguinte de uma sessão realizada no bairro paulistano do Brooklin, em residência de um representante de um banco alemão: “o fato mais interessante é que enquanto o braço direito do médium escrevia, em dez minutos, a mensagem num elevado francês clássico, com uma lógica e uma ironia inexcedíveis – a voz de Mirabelli se dirigia aos ouvintes, num requintado italiano de salão, fazendo comentários a respeito de passagens relacionadas com o médium, com a carta e com o que se havia passado e se iria passar na Europa, em relação à reputação do médium, ou à veracidade dos fenômenos que lhe eram atribuídos num folheto impresso e divulgado! Duas coisas diversas, realizadas ao mesmo tempo, por intermédioo da personalidade do médium”. Duas observações finais: o autor faz um longo relato, com base nas publicações estrangeiras da época, das notícias, análises e atividades do médium Mirabelli realizadas no Exterior, abrangendo vários países e inúmeros estudiosos e pesquisadores. Por fim, fecha o livro com uma relação bibliográfica de quese 500 obras por ele estudadas ao longo do tempo, as quais subsidiaram a escritura do livro e as suas próprias experiências com o médium e demais autores.


Phenomenos Psychicos (1927) – Alberto Seabra. Em segunda edição, este livro foi publicado pela Editora O Pensamento, de São Paulo. O homem múltiplo, título que Rizzini aplicou com justiça a Herculano Pires, também pode e deve ser reconhecido e esse médico, que ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro aos 15 anos e aos 22 já havia se formado com inigualável destaque. Dedicou-se à medicina, à psiquiatria, foi dos primeiros no Brasil a estudar Freud, tornou-se baluarte da Homeopatia, formou-se em Sociologia, fez Poesia e não satisfeito com o saber acumulado, embrenhou-se pelos fenômenos psíquicos. Justifica-se, assim estas suas palavras escritas no livro em referência: “Fora do campo da experiência nada existe, nada além dos nossos sentidos. Mas o mundo da visão material está além dos sentidos e das experiências dos cegos, como o invisível da metafísica e do metapsiquismo está além dos órgãos materiais dos nossos sentidos”. O livro não entra diretamente nos ensinos da Kardec, mas faz uma incursão bem ampla pela matapsíquica que Richet, admirador de Kardec, dera início e tinha grande projeção, então. O lhar de Seabra é o olhar da racionalidade científica, por isso os fenômenos extra-sensoriais se mostram aqui substanciais ao seu interesse. Assim, trabalha tanto com reflexões e argumentos contra o materialismo do meio científico, no que se utiliza de estudos atualizados à sua época, quanto com o que há de mais destacado em metpsiquismo e fenômenos espíritas, interessando-se pelas experiências de Crookes, na Inglaterra, Lombroso, na Itália, Richet, na França e outros mais. Além disso, oferece um material bastante diversificado de casos de desdobramento, sonhos proféticos, bi locação, telepatia, materializações, levitação, casas assombradas e outros.


O Protestantismo e o Espiritismo à luz do Evangelho (1928) – Romeu do Amaral Camargo, o autor, foi por muitos anos destacado pastor da Igreja Presbiteriana, considerado uma das autoridades no conhecimento bíblico. Após tornar-se espírita, utilizou todo aquele conhecimento para defender os princípios básicos da doutrina de Kardec, ficando famosos os seus debates pela imprensa e pela tribuna nesse campo de disputa.  Este livro é uma das maiores provas desse tempo em que o tema espiritismo X catolicismo X protestantismo ocupava a imprensa, e não somente a espírita, porque o interesse em participar ou acompanhar essas pelejas estava entranhado na sociedade, senão em toda ela, pelo menos nos segmentos intelectuais, religiosos, médicos, etc., tanto que os jornais da chamada grande imprensa, entre eles o Diário da Noite e O Estado de S. Paulo tiveram suas colunas ocupadas pela matéria, o que permitia que outras regiões do país e outros órgãos de imprensa dessas regiões também o fizessem. O livro de Amaral Camargo tornou-se uma espécie de referência no assunto porque, talvez, nenhum outro como esse descesse a tantas minúcias do texto bíblico e a tantos argumentos e reflexões comparativos à obra de Allan Kardec. O investimento em sua publicação foi considerável; o livro saiu em duas versões, uma em brochura, portanto mais barata, e outra em edição de luxo, com capa dura, tudo, segundo o autor, subsidiado por alguns espíritas e centros espíritas. Quando veio a público em 1928, um dos seus principais oponentes e que havia dado origem à polêmica, o acadêmico Carlos de Laet, havia falecido. O outro, Reverendo Othoniel Motta, permanecia vivo. Esta situação preocupou a Amaral Camargo, que fez questão de iniciar o livro com uma nota explicativa de que quando o contrato para publicação do livro foi assinado Carlos de Laet estava também e ainda vivo. A explicação tinha lá suas razões, pois os cuidados de Amaral Camargo era para que não o acusassem injustamente de estar “atacando” um morto ou deque tenha aguardado o seu falecimento para o fazer, o que seria, segundo algumas opiniões, de má ética. A explicação de como tudo começou é dada pelo próprio Amaral Camargo. Vejamos.

“A 22 de abril do ano passado (1926), pelas colunas do “Diário da Noite”, desta Capital [São Paulo] surgiu o vulto gigantesco de Carlos de Laet, ilustre católico romano, membro da Academia Brasileira de Letras, o qual, de lança em riste, em agudo toque de reunir, concitou os pastores protestantes e os rabinos judeus a auxiliar o clero católico no bradar contra o espiritismo ou “superstição perigosa” segundo sua própria expressão. Pelas colunas do “Estandarte”, órgão presbiteriano, apareceu, pouco antes, firmado pela pena do não menos ilustrado e filólogo, Othoniel Motta, pastor presbiteriano, um artigo crítico, porejante de humorismo, visando uma obra que lhe demos para ler, mas que o ilustre crítico teve receios de ler, talvez porque o respectivo autor não possuía permissão para entrar no campo da verdade. – Entendeu o reverendo Othoniel Motta que a tal obra (Religião em litígio) calhava bem a qualificação de “fortaleza de papelão do espiritismo” (mas fortaleza cujos disparos abalaram os alicerces espirituais de alguns membros de sua igreja, conforme o confessou de público, em o mencionado artigo crítico)”. Esclareça-se que o livro de Camargo Amaral não contém ou não é apenas a reunião dos artigos por ele publicados na imprensa, porque decidiu o autor acrescentar outras longas e oportunas reflexões a título de complementar o seu pensamento sobre todo o assunto, amarrando-o de forma mais segura.


Simpósium neo-espiritualista (1972) – Lisboa, Portugal. Este livro apresenta de forma resumida os temas desenvolvidos no simpósio realizado na capital portuguesa, sob a promoção da Revista Fraternidade, que reuniu representantes de quatro correntes espiritualistas, entre elas o espiritismo. Pelo Brasil, compareceram e ocuparam a tribuna o jornalista e médium Jorge Rizzini e o orador e médium Divaldo Pereira Franco. Coube a Rizzini atender às expectativas dos participantes apresentando o seu famoso filme em Super-8 feito com as operações mediúnicas realizadas por José de Freitas Arigó, que havia desencanardo cerca de um ano antes. As impressionantes imagens despertaram grande interesse e acabaram por conduzir Rizzini a outras apresentações na Europa. Divaldo Franco, já então conhecido além-mar, pronunciou uma conferência sobre a doutrina espírita, a qual vem transcrita no livro logo após um depoimento de Jorge Rizzini sobre a ciência e os fatos espíritas. O livro traz ainda as conclusões do congresso resultantes de um consenso entre os representantes dos seguimentos espiritualistas presentes.


Congresso Espírita Internacional realizado em Londres entre 7 e 12 de setembro de 1928 – Versão em português publicada em 1930 pela Sociedade Portuense de Investigações Psíquicas, Porto, Portugal. Este congresso sucedeu ao que se realizou três anos antes, em 1925, em Paris, e contou com a presidência de honra de Léon Denis, que lá compareceu instado por Allan Kardec em mensagem mediúnica. A presença de Denis seria o ponto de equilíbrio para as intensas discórdias que então ocorriam entre as inteligências da época. Faleceu ele no ano seguinte, aos 81 anos de idade. Londres foi escolhida para o congresso seguinte e este, então teve a presidência de honra de Sir Arthur Conan Doyle, amigo e admirador de Denis, que fez em seu discurso de abertura um veemente pedido para que a fraternidade, a união e a paz pudessem ser exercidas por todos em prol do mesmo ideal espiritual. Com a Inglaterra contando com a maioria de membros presentes contrários ao princípio da reencarnação, como já era amplamente conhecido de muito tempo antes, as conclusões do congresso ficaram bastante frouxas, sem espelhar nem de perto a dimensão do conhecimento e das bases espíritas. Eis o que foi aprovado como resoluções: “O Espiritismo é uma filosofia baseada em dados científicos precisos e cujos princípios fundamentais são assim enunciados: 1º – Existência de Deus, inteligência e causa suprema de todas as coisas; 2º – Existência da alma, ligada durante a vida terrestre do corpo físico perecível, por um elemento intermediário chamado perispírito ou corpo fluídico; 3º – Imortalidade da alma; sua evolução contínua para a perfeição por progressivos estágios de vida; sua reencarnação sucessiva nos planos de vida correspondentes ao seu estado de progresso; 4º – Responsabilidade individual e coletiva entre todos os seres segundo a lei da causalidade”. Como se vê a tese da reencarnação, conforme defendida pelo espiritismo, ficou envolvida por uma nuvem de simbolismo, permitindo margens outras de interpretação. No entanto, quatro das teses colocadas no congresso foram objeto de publicação no livro em foco, como sejam: duas de mesmo título, “A reencarnação”, a primeira assinada por J. Emile Marcaut; a segunda de autoria de M. Chevreil. Ainda sobre o tema tivemos a tese de M. André Ripert, intitulada “Sobrevivência, reencarnação”, e a de Henri Regnault “Espiritismo, reencarnação e paz social. Outras inúmeras teses de cunho científico foram também apresentadas e uma delas chama a atenção por descrever fenômenos diversos no Japão. Trata-se da que foi apresentada por T. Fukurei, de título “A experiência de psicografia com médiuns japoneses”, tese essa, curiosamente, que não trata apenas da psicografia, mas também de outros fenômenos, tais como: efeitos físicos, clarividência e placas fotográficas. O secretário geral da Federação Espírita Internacional, fundada cinco anos antes, em Paris, André Rippert, apresentou um relatório ao congresso em que procurava dar informações sobre o espiritismo no mundo, em parte contando com notas recebidas dos representantes das federações nacionais, de outra forma baseando-se em dados colhidos de fontes outras. Vale conferir o que foi dito sobre o Brasil, que não teve, ao que parece, representante oficial no evento, nem trabalhos colocados à apreciação dos congressistas: “A Federação Espírita Brasileira continua a sua obra de elucidação num lugar onde o Espiritismo se opõe necessariamente a práticas e ensinamentos religiosos que ficaram doutra época. O mérito dos propagandistas de nossa doutrina é por isso muito maior e a sua obra mais salutar e mais apreciada”.


Anais do 1º congresso espírita do Estado de São Paulo (1947) – bastante conhecido dos estudiosos e historiadores, este livro tem sido muito citado nos textos que buscam retratar o surgimento do espiritismo no Brasil e, em espacial, em São Paulo. O livro de Eduardo C. Monteiro, USE – 50 anos de unificação faz uma abordagem do nascimento da instituição, com o objetivo de alcançar suas raízes, desde o surgimento da ideia. Entretanto, será crível estender essas raízes até, pelo menos, 1926, quando se deu a primeira tentativa de fundar uma federativa em São Paulo tendo por base uma assembleia de centros espíritas, a qual seria denominada, então, Federação Espírita do Estado de São Paulo, conforme analiso aqui. A ideia interna de uma coletividade assumindo a condução do seu próprio destino teve, no espiritismo brasileiro, nascimento aí, sendo que a USE, fundada 21 anos depois, acabou, por vias indiretas, também surgindo dessa coletividade de dirigentes, marca que ostenta até hoje.


Anais do congresso brasileiro de unificação espírita (1948) – Pouco mais de um ano após o congresso que deu origem à USE-SP, esta instituição tomou a iniciativa de realizar um novo congresso – vê-se, portanto, que a ideia de realizar congressos para estudos e debates sobre questões importantes era latente no meio espírita brasileiro – agora voltado ao tema da unificação. A ideia parecia ser a mesma que deu origem à USE, isto é, a desorganização do espiritismo em nível institucional em todo o país. Os três itens propostos logo no início da descrição do plano do congresso dão uma medida do problema, ao mesmo tempo em que levanta discussões acerca da presença da Federação Espírita Brasileira nesse cenário. Ei-los: 1º – A unificação do espiritismo nos Estados, planos de execução. 2º – A unificação do espiritismo nacional. Sistema a adotar. 3º – Estudo dos problemas de interesse fundamental e urgente para a marcha do movimento espírita nacional. Não se deixa de notar aí um profundo descontentamento – que era antigo e manifestou-se com clareza no evento comemorativo do centenário de nascimento de Allan Kardec, realizado pela FEB no Rio de Janeiro, em 1904 – descontentamento este para com a FEB, seus métodos, suas contradições doutrinárias e, também, sua inoperância junto às federativas estaduais e os centros espíritas do país. Os efeitos disso foi a negativa da FEB em aceitar sua participação e a tentar convencer várias outras federativas a fazerem o mesmo, apesar de sua adesão inicial, conseguindo o seu intento com duas delas: Rio de Janeiro e Mato Grosso, à época ainda constituindo um só Estado. Várias teses foram aceitas pela comissão organizadora, algumas diretamente relacionadas ao objetivo central e outras tangenciando-o, sem, contudo, contrariá-lo, como foi o caso das duas teses apresentadas por Julio Abreu Filho, que acabaram tendo desdobramentos posteriores – vide o livro acima Poeira da estrada. A tese que mais chamou a atenção foi a da Federação Espírita do Rio Grande do Sul – FERGS, que apresentava a proposta de fundação de uma Confederação Espírita Brasileira – CEB, que ficaria sediada no Rio de Janeiro, então capital federal. Teve o imediato apoio da USE-SP e, ao final, foi aprovada, tendo a FERGS sendo designada para coordenar as ações visando encaminhar a questão junto às federativas estaduais e, também, conduzir a realização em prazo não inferior a um ano de um Congresso Espírita Nacional. Não obstante, os caminhos ficaram dificultados por uma ação intensa da FEB contrária a essas iniciativas e um ano depois, muitos daqueles que foram signatários das conclusões do congresso de São Paulo acabaram por participar, diretamente assinando, e indiretamente concordando com o conhecido Pacto Áureo que a FEB celebrou coincidentemente à realização, no Rio de Janeiro, também sem o apoio dela, do 2º Congresso Espírita Pan-americano. Por esse documento, todas as conquistas alcançadas e os entendimentos havidos, na direção da criação de uma Confederação Espírita Brasileira mais uma vez foram perdidas. Recorde-se que a criação da Liga Espírita do Brasil no ano de 1926, em evento de grande repercussão no Rio de Janeiro, propunha-se ao mesmo objetivo e também na ocasião encontrou resistência semelhante da FEB.


2º Congresso Espírita do Rio Grande do Sul, realizado de 3 a 7 de outubro de 1951 – Publicado no ano seguinte, 1952, estes anais resumem de forma oficial o que foi aquele evento realizado em Porto Alegre. O 1º congresso havia acontecido em 1945. De caráter estadual, o 2º congresso contou com representações de vários Estados brasileiros e seu objetivo primordial foi a unificação espírita no Estado do Rio Grande do Sul. Os registros dão conta de que centenas de pessoas se inscreveram e participaram do evento, que se distribuiu em várias plenárias onde as inúmeras teses e trabalhos enviados foram discutidos e votados, contando os aprovados com a sua publicação integral nestes anais. A sessão inaugural foi realizada no Teatro São Pedro, que teve todas as suas dependências tomadas.

 


Teses. 1ª Semana Espírita de Jundiaí. 1953. Este documento reproduz, sem comentários ou informações maiores, as teses que foram apresentadas e debatidas na 1ª semana espírita da cidade de Jundiaí, estado de São Paulo, realizadas no ano de 1953. Entre os que enviaram trabalhos, destaque para os nomes de Ary Lex, Apolo Oliva Filho e Cícero Pimentel. A relação completa e os respectivos temas é a seguinte: A vida dos espíritos no espaço, por Hélio Pereira Cardoso; É o espiritismo ciência, filosofia ou religião, por Carlina Salati de Almeida; outra de igual título por Fernanda Neyda Gimenez; Ressurreição da carne, por Adalberto Foelkel; O jovem espírita e o evangelho, por Wilma Barbin; outra de igual título por Carlina Salati; O jovem e o evangelho, por Cícero Pimentel; O universo foi criado ou existe, como Deus, de toda a eternidade?, por Ary Lex; outras três com o mesmo título, por Iaro Matos, João Rabaneda e Eletra Brentan; O espiritismo e o divórcio, por Apolo Oliva Filho; outras duas de igual título, por Antonio José Fassina e Rosinha Padrenosso. A repetição de temas faz crer que os mesmos tenham sido programados e solicitados aos seus respectivos autores.


A filosofia penal dos espíritas – Fernando Ortiz (1951): este livro, cuja versão digital está disponível sem custos, foi publicado em português pela LAKE e o seu ano de publicação é estimado, uma vez que o livro em brochura não apresenta informações a respeito, bem como sobre o número de exemplares impressos e outras mais normalmente solicitadas nas edições de livros. Uma segunda edição pela mesma editora foi lançada em 1998, mas está também esgotada. Trata-se de uma obra que marcou sua época e influenciou inúmeros profissionais do direito de diversos países, tendo destaque especial entre os intelectuais espíritas brasileiros. Certa ocasião, em artigo no Correio Fraterno do ABC, fiz referências a essa obra, registrando que faltavam outras com igual importância no Brasil, quando amigo do Rio de Janeiro escreveu-me registrando o livro do Deolindo Amorim, de que eu havia esquecido. Publicado o registro, restou lembrar que o mesmo Deolindo Amorim foi o autor do prefácio deste livro do Fernando Ortiz, prefácio esse, aliás, bastante elucidativo, que deixa claro, inclusive, que Fernando Ortiz fez um trabalho de grande importância sem, no entanto, ser ou pretender ser espírita.


Algunas encarnaciones de Allan Kardec – Natalio Ceccarini (1990). O autor, que foi um dos espíritas argentinos a fundar a Cepa, publicou pela Editorial de la CEA, de Buenos Aires o livro de título acima, que se aventura neste terreno sempre muito difícil de estudo das possíveis reencarnações anteriores do mestre Allan Kardec. Em formato de bolso, 157 páginas, Ceccarini abre o livro com a curiosa definição do termo Kardeciologia: “tratado ou saber sobre a vida e a obra do mestre Allan Kardec. Exegese de seu pensamento filosófico; aprofundamento sobre o homem de ciência, investigações e métodos. Estudo e avaliação do mestre e seus aportes à Pedagogia. Ciência de tudo o que se relaciona a Allan Kardec, sua missão, sua tarefa na codificação do Espiritismo; como reformador social, moral e espiritual”. Ceccarini aborda a figura de Kardec reencarnado como João Huss, Quirilius Cornélius, o druída Allan Kardec e finaliza abordando outras encarnações possíveis. Justiça lhe seja feita: em nenhum instante deixa de reconhecer que o terreno é escorregadio e que por isso trabalha na condição de estudioso que vê a possibilidade de conexões entre as figuras anteriores e a personalidade de Kardec, mas sabedor que é de que são mais conjecturas, algumas se mostrando muito próximas da realidade, e não evidências comprováveis. Seu material de base dos estudos são outros estudos feitos por autores encarnados, diversas mensagens de espíritos e também obras da bibliografia geral.


A doutrina espírita como filosofia theogonica – Bezerra de Menezes (1921). Em 31 de maio de 1886, o autor deste pequeno livro escreveu uma longa carta ao seu irmão carnal, Manoel Soares Bezerra, então residente em Fortaleza, Ceará, contestando-o em suas alegações de que Bezerra de Menezes havia se aliado a uma doutrina demoníaca, oposta àquela que recebera por educação desde o berço. De 1886 a 1920, a carta ficou restrita a apenas algumas pessoas, até que seus originais chegaram à Federação Espírita Brasileira, que a publicou em partes durante oito meses, de outubro de 1920 a maio de 1921 na revista Reformador. Neste mesmo ano, resolveu transformar a carta em um pequeno livro e disponibilizá-lo em seu catálogo. Quando publicou na revista, intitulou a carta como “Valioso autógrafo” e ao transformá-lo em livro alterou o título para o que acima aparece, mantendo-se a grafia da época. Em 1946, o livro recebeu nova edição, mas agora com o título de “Uma carta de Bezerra de Menezes”. A Editora paulistana Edicel, ainda sob o comando do seu fundador, Gianini, e tendo a orientação do então deputado federal Freitas Nobre, também lançou uma edição da obra com o título de “A doutrina espírita”. Todas essas publicações e os títulos diferentes a elas atribuídos demonstram o interesse que a carta despertou tão logo chegou ao conhecimento do público. Mas não apenas isso. Note-se que a carta, embora de cunho familiar, revelou-se um verdadeiro estudo comparado da doutrina espírita com a religião católica, sob a ótica de Bezerra de Menezes. As edições do livro estão todas esgotadas, mas uma cópia em PDF da edição de 1946  está disponibilizada no seguinte endereço eletrônico:

http://www.autoresespiritasclassicos.com/Autores%20Espiritas%20Classicos%20%20Diversos/Bezerra%20de%20Menezes/Obra%202/Bezerra%20de%20Menezes%20-%20Uma%20Carta%20de%20Bezerra%20de%20Menezes.pdf


 

Segundo livro de leitura. O espiritismo na infância – Antonio Lima (1927). Conhecido por assinar alguns livros para adultos, o aturo publicou pela Federação Espírita Brasileira uma série de três volumes intitulada “Livro de leitura”. Este é o segundo volume e está direcionado à infância a partir de uma narrativa que ocorre entre Violante e sua filha Carmem. Tudo começa com a pergunta da menina, questionando a mãe sobre quem é Deus, tal qual aparece na primeira questão de “O livro dos espíritos”. Apoiado nos conhecimentos da época, o livro se mostra atualmente bastante defasado em seus conceitos e interpretações, bem como na linguagem, mas revela a preocupação que desde sempre assomou às lideranças espíritas de dialogar com as diversas faixas etárias da sociedade.

 


Esboço histórico da Federação Espírita Brasileira (1924). Esta é a segunda edição deste livro, cuja autoria não foi consignada. A primeira surgiu ainda em 1911 e não sofreu alterações posteriores. Foi elaborado para as comemorações do 28º aniversário de fundação da FEB, que se deu concomitantemente com a inauguração da sede própria localizada na Avenida Passos, no Rio de Janeiro, no dia 1º de janeiro de 1912. Trata-se de um dos primeiros registros históricos da FEB e possui importância para os pesquisadores, em especial, pelas informações que oferece, não apenas a respeito da própria instituição retratada, como também abordagem da época e da visão e práticas espíritas. Quando me ofereceu o volume na década de 1970, Francisco Thiesen, então presidente da FEB, o autografou conforme aparece na página de rosto da imagem ao lado. O livro está esgotado.


Livro do centenário (1906). Federação Espírita Brasileira. O livro registra os fatos que marcaram as comemorações do centenário de nascimento de Allan Kardec, evento organizado e patrocinado pela FEB, realizados no Rio de Janeiro em 1904. O exemplar foi-me oferecido na década de 1970 pelo então presidente Francisco Thiesen e traz na página de rosto a sua assinatura. A FEB convidou lideranças espíritas de diversos Estados do país para participarem do evento e o realizou nos dias 1 a 3 de outubro de 1904. Um de seus pontos de destaque foi o lançamento de um documento denominado “Bases da organização espírita”. Tanto este documento quanto o desenrolar das discussões sobre o aspecto organizativo do espiritismo brasileiro à época são uma demonstração dos conflitos de cunho doutrinário já presentes e dominantes. Um dos pontos centrais se assentava na aceitação, pela FEB, das teses roustainguistas e no seu objetivo de ver os livros deste controverso autor aceitos como orientação principal para os estudos dos Evangelhos. A oposição enfrentada pela FEB levou a uma espécie de acomodação, ficando consignado no documento que os espíritas deveriam decidir por si mesmos que livro adotar, se “O evangelho segundo o Espiritismo, de Kardec, ou “Os quatro Evangelhos”, de Roustaing. Este e outros aspectos históricos de fundamental importância para a compreensão dos caminhos adotados pelo espiritismo no Brasil podem ser encontrados neste livro, que não teve outra edição e é desconhecido da maioria dos estudiosos.


No paiz das sombras – E. D’Esperance. A primeira edição em português do livro autobiográfico de Elisabeth D’Esperance, uma das mais incríveis médiuns de todos os tempos, foi lançada no Brasil em princípios do século XX sob os selos da então conhecida Livraria Guarnier e da Federação Espírita Brasileira, no Rio de Janeiro. Contém o prefácio do pesquisador russo Alexandre Aksakof, datado de 1897. Contém as 28 ilustrações do livro original em inglês, fazendo desta uma edição primorosa. Hoje esgotado, o livro, importantíssimo e rico em informações sobre as experiências da médium, pode ser lido em pdf, gratuitamente, neste endereço: http://www.bvespirita.com/No%20Pais%20das%20Sombras%20(Elisabeth%20D%20Esperance).pdf

 


Argila (1953) – J. Herculano Pires. A profusa e criativa obra literária de José Herculano Pires inclui muitas, muitas poesias. Desde cedo, desde jovem. Este Argila, publicado em primeira edição pela antiga Lake em 1953, portanto original. Foram impressos poucos exemplares na ocasião, mas o suficiente para que a crítica observasse o estilo moderno do autor e tecesse elogios merecidos. A Lake, então, morava na Rua Riachuelo, bem no centro de São Paulo, e pertencia ao Batista Lino, um lutador, do mesmo veio aurífero de Gianinni, da também antiga Edicel. Foram ambos amigos de Herculano. Esta edição é tão simples que sequer anota a data de impressão, mas os registros do autor e de seu biógrafo, Jorge Rizzini, dão a certeza de que a data acima anotada é correta. “Obra de vanguarda” – anota Rizzini – “contribuição de inegável importância à poética espírita luso-brasileira”.


Um deus vigia o planalto (1964) – J. Herculano Pires. Este romance de Herculano Pires nasceu bem antes da sua publicação em livro, ou seja, surgiu na forma de folhetim no jornal Diário da Noite e, mais tarde, com o reconhecimento da crítica, incluído pelo poeta Paulo Dantas na coleção Terra Forte, da Editora Francisco Alves, de São Paulo. Eis aqui a capa da edição primeira, datada de 1964 (Rizzini, na biografia de Herculano, equivoca-se e data como sendo 1968.) É romance gostoso, lírico, poético. Os sons das moedas que as mulheres lançam no chapéu do mendigo soam, interminavelmente, pelos corações sensíveis.

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