Divaldo Franco: um médium em três tempos

A propósito do anúncio feito pela Mansão do Caminho, para o evento intitulado “Encontro Fraterno com Divaldo Franco”, a realizar-se no próximo mês de setembro, na Bahia.

Os médiuns sempre chamam a atenção por uma ou outra razão. Aqueles que se projetam no cenário social colocam-se sob holofotes permanentes e não conseguem fugir das vistas dos observadores, seja por seu comportamento enquanto médium, seja pela vida que levam. São indivíduos públicos, tanto quanto outros que exercem atividades no âmbito da comunicação, da política e assim por diante. Suas vidas particulares, em certo momento, se confundem com suas atividades e é dessa forma que se tornam visíveis para a parcela da sociedade a que alcançam. Só com muito esforço conseguem manter uma certa privacidade, de modo a proteger a vida íntima, sua e dos seus. Se o homem comum tem imensas dificuldades na sociedade contemporânea para distinguir o público do privado, muito mais difícil será essa distinção para aqueles que se tornam personalidades públicas, tal como ocorre com os médiuns de grande destaque.

Em 1973, Divaldo Franco fez uma palestra na Federação Espírita de São Paulo especialmente para dirigentes e trabalhadores de centros espíritas, por convite do seu Departamento Federativo. O objetivo era fugir do estilo conhecido de oratória do tribuno e colocá-lo mais próximo da realidade das casas espíritas, conversando sobre seus objetivos, necessidades e situações factuais, ao falar diretamente com os dirigentes.

Divaldo surpreendeu positivamente. Quem o conhecia somente pela forma tradicional de oratória teve oportunidade de conhecer uma outra face do tribuno, livre, informal, dialógica, de tom coloquial. Divaldo exemplificou situações, contou casos, riu e fez rir. A começar pela jocosa comparação de família que fez, aproveitando a presença de Eurípedes de Castro ao seu lado. Disse que este estava tentando competir com ele, Divaldo, com sua numerosa prole de 11 filhos naturais, mas não teria sucesso, pois o médium já contava, então, com 40 crianças na Mansão do Caminho, que chamava de filhos seus e assim de fato os tinha, legalmente, pelas vias da adoção.

Os principais temas relativos às atividades dos centros espíritas foram objeto de reflexão de Divaldo durante quase duas horas. Passes, assistência social, mediunidade, estudos doutrinários, administração, relações humanas e mais. Um pouco da história mitológica que se teimava já construir em torno da figura de Divaldo Franco foi deixada de lado naquele instante, tendo em vista que ele se deixava ver sem a cortina do extraordinário e do fantástico que o envolviam. Divaldo era humano! A palestra, pela forma como foi desenvolvida, criou um ambiente potencial para o feed back dos presentes e poderia ter sido ainda melhor, nesse sentido, se tivesse sido dado espaço para a manifestação do público, na forma de questionamentos. Mas convenhamos, tirar de Divaldo espaço para perguntas enquanto está na tribuna é coisa difícil, pois tem ele o condão de utilizar o tempo que lhe é oferecido ao máximo. Ademais, a ideia então era de que permitir perguntas à plateia, mesmo que selecionada como era, determinava um risco que não se deveria correr.

Já então o médium, o tribuno e o homem se misturavam. Quando falava às plateias, corria a história de que eram os espíritos que se manifestavam, levando-o a apenas reproduzir o pensamento destes. Divaldo podia, assim, falar de qualquer coisa e até mesmo não se preocupar com os assuntos sobre os quais deveria discorrer. Bastava abrir a boca para que o tema rolasse. Mas não era verdade. Talvez jamais tenha sido. Quem criava essa aura mística sobre Divaldo? Ele próprio? Aqueles que formavam o seu entorno? O público ingênuo e ávido de histórias fantásticas? Não se sabe. O fato é que já se construía o pedestal do mito e o busto subia puxado pelo balancim dos desejos. Com sua morte um dia, restará inaugurá-lo para deleite dos sonhadores e românticos.

As biografias de Divaldo dão conta que ele é um funcionário público aposentado, de cuja renda resgata suas despesas pessoais. Desde sempre, porém, se informa que o médium e tribuno viaja Brasil e mundo afora com todas as despesas custeadas, aí compreendendo transporte, estadia e alimentação. Já na ocasião aludida acima, assim era. Complementa-se essa informação com a de que as vendas de livros, que passaram a integrar o roteiro depois que Divaldo passou a publicá-los, servia para as despesas com a manutenção da Mansão do Caminho, obra que construiu em Salvador, Bahia.

Estudiosos afirmam que Divaldo teria sido na França o inteligentíssimo e sinistro personagem conhecido por Padre José, consagrado como a eminência parda e braço direito de outro personagem histórico e também famoso, o Cardeal Richelieu, que governou a França com braço forte durante 14 anos, no reinado de Luis XIII. Amigos próximos de Divaldo confirmam que ele próprio aceitava essa história. O fato é que, revestido da personalidade do hoje reconhecido tribuno constrói seu caminho como divulgador da obra do francês Allan Kardec. Mas, como ocorre com qualquer outra criatura humana reencarnada, as personalidades vividas no passado fazem parte do acervo individual de cada um, sendo, pois, elas, mais ou menos presentes e participativas no atual cotidiano do ser. O quanto exercem influência nas escolhas e decisões da vida atual não se sabe e não se tem estudos precisos desse fenômeno; talvez não se tenha jamais. Apenas se sabe que as vidas passadas e presente se entrelaçam e se completam.

Há que se reconhecer que Divaldo, como tribuno e médium, é também um bom estrategista com uma virtude rara: é capaz de formar e comandar uma equipe fiel e dedicada. Extremamente organizado, foi aos poucos colecionando seguidores mais próximos, aos quais distribuiu responsabilidades de modo a que sua agenda, que controla com braço firme, contemple as diversas atividades que integram seus objetivos. No início de tudo, preocupava-se com a obra iniciante e as palestras, posteriormente, instituiu o plano de venda dos livros com primazia sobre os demais, nos eventos em que estava presente pessoalmente. Em paralelo, a obra da Mansão do Caminho crescia em várias direções. Divaldo tornou-se um catalizador de atenção e recursos para a obra.

O tribuno e cronista

Há uma particularidade na vida dos médiuns, senão de todos, de muitos deles. Trata-se da condição em que a personalidade deseja se colocar perante a sociedade. Explica-se. Alguns médiuns substituem muitos de seus projetos de vida para dedicar tempo maior ou integral à atividade mediúnica. Abdicam, pois, dos sonhos que naturalmente os seres humanos alimentam e concentram seus esforços naquele que julgam valer a pena. Outros, porém, mesmo com grande dedicação à atividade mediúnica, jamais deixam de lado o desejo de realizar sonhos pessoais. A interpretação via mediunidade do pensamento dos espíritos, conquanto importante, não lhes basta.

A personalidade humana ambiciona mostrar-se e igualar-se em capacidade a outros seres reconhecidos por suas ideias. Vive no mundo, pertence-lhe, é um ser pensante e produtivo, desejoso de influir na sociedade, no seu destino e no destino dos seres humanos, com contribuição pessoal, nascida de si e para além das ideias dos espíritos, apenas. As vidas anteriores onde essa condição se mostrou forte estão hoje aí na forma de pressão inconsciente para conduzir o ser à busca de oportunidades onde o indivíduo ombreie com o médium e alcance um certo grau de respeitabilidade que então só seria votada ao médium.

Esta parece ser a ou uma das explicações para que médiuns como Divaldo Franco assumam atividades para além do lápis mediúnico e da tribuna espírita e, no caso de Divaldo, passem a assinar com seu nome civil colunas de jornais e outras tantas atividades. O médium continua presente no ser, mas agora é o homem quem obra, quem dá origem a ideias, quem fala de moto próprio. Ao mesmo tempo em que assume essa postura, o indivíduo se coloca de maneira inevitável à análise e às opiniões do público, no direito deste de julgar as ideias tornadas públicas.

Por certo, haverá quem acredite que mesmo quando assina uma coluna de jornal, o indivíduo (Divaldo, no exemplo) está sob a assistência e condução dos espíritos que assinam os livros. O equívoco, aqui, é julgar que tudo é mediúnico, que o médium é um ser predominantemente passivo e submetido à vontade do invisível, colocando-o como incapaz de ter ideias próprias e nem sempre alinhadas com as dos espíritos orientadores. É preciso dizer que nem tudo é mediúnico, assim como nem tudo é apenas do próprio indivíduo. A explicação está dada por Kardec e magistralmente traduzida na expressão interexistencialidade de José Herculano Pires. É de se recordar, também, que o livre-arbítrio pertence tanto ao indivíduo encarnado quanto ao desencarnado, podendo um como o outro defender posições diferentes e opostas sobre o mesmo assunto. Se a passividade total, do ponto de vista de como opera a ação mediúnica, inexiste, o mesmo se dá quanto às relações do ponto de vista da interexistencialidade, onde mentes visíveis e invisíveis dialogam permanentemente em regime de intimidade.

Deve-se, pois, perceber que o cronista Divaldo Franco se ocupa no espaço do jornal de expor as ideias pelas quais opta, realizando, assim, o seu desejo de não simplesmente tornar essas ideias conhecidas, mas, complementarmente, imprimir no discurso uma mostra do seu próprio sentir em relação aos fatos do cotidiano social, no amplo espectro em que se manifestam. Independente de ser um individuo interexistencial, é ali o homem com suas ideologias e seu modo de ver os acontecimentos em acordo ou desacordo com outros olhares e sentimentos.

Tendo em vista essa condição, não deveria causar espanto quando o indivíduo Divaldo Franco revela ideias controversas ou contraditórias, até mesmo em desacordo com o pensamento considerado correto e com os conhecimentos científicos atuais, como ocorreu recentemente sobre o tema dos gêneros. O embate se tornou inevitável e necessário para a clareza do assunto e o ajuste dos pontos de vista.

O tribuno e os desvios

Divaldo Franco é. Mesmo depois de desencarnado continuará sendo. Sua vida longeva lhe proporciona experiências inúmeras e sua posição pública, nas diversas formas de participação na sociedade, oferecem possibilidades diversas de análise. Divaldo é o ser humano e o espírito. Quando partir, o ser humano continuará com o espírito, nesta realidade indivisível do ser, pois ambos formam a experiência individualizada num ponto qualquer do espaço. A compreensão dessa realidade imortal e progressiva nasce da consciência que se forma com a maturidade, que surge no ser depois de muitos acertos e desacertos, fracassos e conquistas, tempos findos e tempos de reinício.

Dito isso, entremos na questão dos recursos financeiros que estão em volta das atividades exercidas por Divaldo Franco, especialmente nos eventos doutrinários. Ninguém em sã consciência pode olvidar que o meio espírita vive um problema sério na atualidade, com a exploração que pouco a pouco se institucionaliza na forma de pagamentos de palestras, despesas de hospedagem, estadias, participação na vendagem de livros e nos cursos e seminários, tendo como consequência o aparecimento de palestrantes do tipo profissionais de inevitáveis danos à doutrina espírita e sua expansão.

A história de Divaldo tem muito a haver com isso, tenha ele contribuído direta ou indiretamente para tal situação. No princípio era o verbo, ou seja, o aparecimento do orador precoce, jovem, com uma verve a emocionar plateias, de poucos recursos materiais, o que justificava o pagamento de transporte e hospedagem por parte daqueles que o queriam se apresentando em suas instituições ou sob o patrocínio delas. O fenômeno inusitado se revelava ótimo comunicador dos princípios filosóficos do espiritismo e seria despropositada atitude pretender que ele arcasse com os custos de suas viagens para o que não possuía condições.

Mas o fato de haver criado uma meritória instituição para o amparo à criança, junto ao seu primo Nilson, vai exigir mais do que transporte e estadia às suas apresentações, inicialmente dentro do país e depois no Exterior. Com o aparecimento dos livros de origem mediúnica, tem-se em mãos um produto importante como gerador também de recursos e neste aspecto a aquiescência aos convites que surgiam de todas as partes para palestras passou a ter um componente obrigatório (poderia ser espontâneo, mas não seguiu por este caminho): a colocação de bancas de livros exclusivos da lavra mediúnica de Divaldo Franco para venda. As ordens eram explicitas em muitas ocasiões: livros para venda no local do evento? Apenas do Divaldo. Uma equipe estava sempre pronta para montar o estande e promover a venda. Em ocasiões em que essa regra não fora observada à risca, viu-se conflitos intensos surgirem, ante o descontentamento da equipe do médium. Então, já não se tem mais apenas a responsabilidade por parte dos promotores do evento pela hospedagem e transporte do médium, mas também com a cessão do espaço para a venda do livro sem permitir concorrência. Havia aí um outro aspecto que não se pode relegar: os livros de Divaldo sempre foram de difícil vendagem, especialmente a venda espontânea gerada pela exposição nas prateleiras das livrarias. Sua linguagem era considerada rebuscada, de difícil compreensão, mas as vendas durante os eventos, como se sabe, possuem o componente emotivo como força persuasiva para o consumidor e é quando o médium, de fato, mais convence o povo a adquirir suas obras. Questionado na ocasião sobre o seu estilo de escrever, disse ele mais ou menos assim: “é como eu sei fazer”.

Mas Divaldo não ficou somente nisso. A partir de certo momento, passou a atender solicitações para seminários, que seguiram o mesmo caminho de sucesso das palestras, mas agregaram um valor a mais: a possibilidade de cobrança de ingresso, gerando, então, ainda mais recursos financeiros. Independente da qualidade do conteúdo dessas apresentações, o estímulo para a presença nesses eventos existia e era explorado mercadologicamente, como um produto de origem capitalista, com apelos tipo lugares limitados justificando os preços estabelecidos, com datas limites para descontos, etc.

Evidentemente, a projeção social do médium e tribuno constituía o maior atrativo para tais ocasiões. Todavia, o exemplo se espalhou e a comunidade espírita como um todo, ressalvadas as felizes exceções, passou a utilizar do expediente de promover palestras, seminários e outros eventos assemelhados com cobrança de ingresso, de um lado, justificando a necessidade de gerar recursos para manutenção da instituição, e de outro fechando os olhos para o fato de estar abrindo espaço para uma profissionalização marginal, ou seja, os indivíduos interessados em viver disso não se tornam do tipo pastores, remunerados, mas são da mesma forma movidos pela oportunidade de realizarem um trabalho prazeroso sem se preocuparem demasiado com a sua sustentação própria e familiar, como se o ideal espírita justificasse tal escolha. Acresça-se mais, aqueles indivíduos que se envolvem na produção e operação dos eventos e que se locupletam desonestamente com parte dos resultados financeiros. Tudo isso dá margem ao aparecimento de organizações legais ou não, interessadas em se especializar na realização de eventos espíritas, com vistas basicamente a obter lucros. E a doutrina espírita com sua extraordinária filosofia torna-se, então, o valor menor no rol de todas as preocupações que assaltam os envolvidos.

No plano internacional isso, então, alcança níveis inimagináveis. Médiuns de pintura, que sempre são uma atração para o público, especialmente o cético, passaram a atender (quando não a se oferecer) a convites vindos de diversos países para apresentação de suas faculdades. Recebiam transporte, estadia e os resultados da venda de seus quadros ao público. A avidez vergonhosa que se instalou com isso chegou ao ponto de estabelecer verdadeiras guerras entre dois ou mais médiuns convidados para os mesmos eventos, por ciúmes e ganância, deixando estupefatos aqueles que os promoviam e hospedavam. Quando não eram os médiuns pintores, eram autores de livros que se lançavam à aventura de viajar ao Exterior, na convicção de obter retorno financeiro para custear sua aventura, tudo em nome de uma doutrina respeitável, construída com o suor do corpo e o empenho das próprias economias por um punhado de abnegados colaboradores, tendo à frente o exemplar homem Allan Kardec.

Quando a atividade e o resultado mediúnico se transformam em produto, inserem-se, automaticamente, nas regras do sistema vigente e podem conduzir – se isso não é inevitável – à busca do máximo lucro. Para alcançar esse lucro, passam a ser “normais” o emprego de todos os esforços de ética duvidosa, inclusive aqueles que sempre foram condenados desde o nascimento do espiritismo: a farsa, a mentira, o engodo, na crença absurda de que os fins justificam os meios. É quando os médiuns, pressionados a apresentar resultados prometidos se vêm abandonados pelos espíritos e fingem tê-los disponíveis. Enganam na tribuna, enganam na pintura, enganam na psicografia, enganam nos efeitos físicos. É a nossa fake espírita!

O auge dessa situação em relação ao médium Divaldo Franco parece estar no fato anunciado para daqui a pouco, cuja mostra com todos os detalhes aparece no anúncio do evento, publicado pelo site do médium, o mesmo da Mansão do Caminho e marcado para os dias 20 a 23 de setembro próximo. Divaldo segue os passos do recém-desencarnado Gasparetto, o médium dos pintores invisíveis. Não sei e não posso dizer se à revelia dos espíritos, mas pode-se concluir que um evento desse porte e com tais requisitos financeiros não deixa a dever nada aos pomposos eventos dos pastores e igrejas neopentecostais contemporâneos. Estes vendem a peso de ouro um suposto bem-estar no agora e uma garantia futura de que Deus é fiel. Divaldo oferece: “3 dias de palestras espíritas, visualizações terapêuticas e ensinamentos baseados na Psicologia Transpessoal”. Não sei o que vem a ser “visualizações terapêuticas” e nem se essa Psicologia Transpessoal prometida tem a ver com a doutrina espírita. Ou seja, Divaldo vende uma expectativa de usufruírem de sua companhia naqueles dias e a cobiçada esperança de um bem-estar magnífico que, certamente, os corações românticos de poder aquisitivo elevado não deixarão de adquirir. Afinal, ninguém quer perder uma rara ocasião dessas. E se tudo isso não for suficiente ou eventualmente não agradar por completo, o participante terá à sua disposição uma enorme oferta de bem-estar e comodidades oferecidas pelo resort. Nem o eufemismo apelativo criado pelas inteligências do marketing escapa. Ninguém paga inscrição, faz um investimento que, afinal, vale quanto pesa ou… enquanto dure.

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