Père-Lachaise: lá onde Kardec jamais esteve

Allan Kardec, filho do seu tempo enquanto reencarnado, deixou escrito obras tão imortais quanto os espíritos que encontrou pelo caminho. Os diversos tradutores dessas obras para o português, cada um em seu tempo, procuraram as melhores relações gramaticais para as verter do francês do século XIX à língua de Camões. Ninguém, talvez, como Herculano Pires, portador que era de uma bem-sucedida experiência com o texto jornalístico, conseguiu uma tradução de Kardec com sucesso impondo a técnica da narrativa dos fatos: concisão, clareza e objetividade.

O fato é que boa parte dos indivíduos contemporâneos, ao ler Kardec, reclama das dificuldades que um texto com tais vínculos linguísticos impõe aos sentidos, mas também à paciência. Já muitos são críticos da forma, pois o Livro dos Espíritos, particularmente, está vazado em perguntas e respostas, em contraste com as narrativas literárias dos bons autores, muito mais envolventes.

Assim é e assim permanecerá.

Também filho de sua época e submetido aos laços sociais e profissionais dos círculos em que se situa, Antonio Cezar Lima da Fonseca em seu livro recém lançado Encontrando Allan Kardec, revela que em determinada ocasião incomodou-se com esses livros espíritas de leitura difícil, desejando vencer essa etapa com a presente escritura. Logra sucesso? Em parte, porque Buffon continua (mais…)

Herculano Pires, o ícone ainda desafia os estudiosos da boa doutrina


40 ANOS DEPOIS


Herculano Pires: sua biografia está traçada por linhas expressivas saídas da pena rigorosa do inseparável amigo Jorge Rizzini

“Enganam-se os que pensam na morte como morte”. J.H.P.

 

O cemitério São Paulo estava repleto naquela tarde de 9 de março de 1979. Familiares, amigos, admiradores, curiosos e autoridades do meio espírita e da sociedade assinavam com sua presença o livro da despedida, do até breve. O sol banhava de luz amarelo-claro os túmulos, já desenhando a sua parábola descendente, como a dizer que também se encerraria no túmulo da noite. O corpo de Herculano, então com quase 65 anos de vida, estava colocado sobre a lápide, também pronto a encerrar seu ciclo, mas, assim como o sol renasceria na manhã seguinte, também Herculano retornaria para mais uma vez dizer que não só a morte é um engano, como também vivos são igualmente os que dizem os daqui estarem mortos.

No lento processo de construção do destino, Herculano Pires jovem ainda impressionou não só o mundo dos que o rodeavam, mas intelectuais distantes, de capitais onde a intelectualidade se destacava, com suas produções iniciais, em prosa e verso. Pelos vinte anos, o jornalista que já agia movimentando prensas e penas, viu-se frente aos primeiros contatos mediúnicos (mais…)

Espiritismo para surdos e mudos e outros tipos de deficiências

Li a interessantíssima entrevista publicada no jornal Correio Fraterno feita com a professora Eliane Alves de Carvalho Costa, sobre a inclusão de deficientes auditivos nas casas espíritas. Como o assunto me interessa e, também, se faz importante trago aqui o meu depoimento a respeito do assunto.

Talvez, o primeiro caso de deficientes que me tenha despertado a atenção ocorreu quando do meu ingresso no Ensino Superior. Havia um aluno cego e, por coincidência, passou a sentar-se ao meu lado. Detinha o domínio do Braile, língua, como se sabe, criada especialmente para os deficientes visuais. Isso facilitava muito sua vida, pois podia ouvir e transcrever as aulas, de maneira a estudá-las melhor em casa.

Conversávamos bastante e isso é um fator interessante, pois durante as aulas estava ele sempre atento ao que era dito pelo professor, mas fora desses momentos gostava de uma prosa e, inclusive, de tirar dúvidas sobre o que tinha ouvido. Era calmo, seguro de si, falava mansamente e estava sempre com um sorriso no rosto. Um ano após, seguiu ele para outro destino, de maneira que não nos vimos mais.

Anos mais tarde, vindo eu a exercer a docência no ensino superior, deparei-me pela primeira (mais…)

Período do livre pensamento. Estamos nele?

O caro amigo Milton Medran, do jornal Opinião Espírita, na edição presente, janeiro/fevereiro de 2019 sugere/propõe que a atual fase do espiritismo seja reconhecida como o período do livre pensamento. Argumenta, com propriedade, que Kardec havia apontado seis períodos para a doutrina, nomeando os quatro primeiros e o sexto, mas deixando ao quinto, que seria o atual na visão do Milton, em aberto sua denominação. Ao quarto período, Kardec denominou religioso e para o quinto propõe Milton seja denominado período do livre pensamento.

A conclusão do Milton é interessante e desperta reflexões diversas, uma delas podendo ser analisada no seguinte questionamento: temos, de fato, um período religioso em andamento ou alcançando seu final? E quais seriam os sinais a sustentar que um novo período, o quinto, estaria marcado pelo livre pensamento?

Em primeiro lugar, a demarcação por períodos do andamento da doutrina espírita, que Kardec de fato fez, é sempre um exercício muito complexo, seja para ele, em seu tempo, seja para qualquer outro em qualquer tempo. Qual era a motivação de Kardec quando estabeleceu aqueles períodos? Suas reflexões a respeito indicam um esforço de compreensão dos fatos e o tempo deles, com vistas a enfrentar o momento por que passava e preparar-se para o futuro. Naquele instante, Kardec enfrentava uma tempestade de granito formada pelos contestadores da doutrina espírita. Tinha, pois, razão para denominar aquele o período de lutas para sustentação da obra em curso. Neste pé, ficava mais tranquilo entender que o seu marco inicial estava no aparecimento do fenômeno mediúnico em largas proporções (mais…)

Manifesto é mais uma ação por um espiritismo sem donos e sem danos

Lançado com assinaturas individuais e institucionais, é ele mais um brado contra o religiosismo, o poder hegemônico, a negação da diversidade e as práticas absurdas.

 

Sob a coordenação da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (ABPE), mais de 150 espíritas e instituições assinam o documento – Manifesto por um espiritismo kardecista livre – que promove um espiritismo de livres-pensadores capitaneado por Allan Kardec. O conteúdo desse manifesto deixa claro sua oposição a uma série de pensamentos de instituições e lideranças que se distanciam e distorcem a doutrina espírita ou fazem dela uma escada para a promoção de vaidades e personalismos, como também de práticas que atentam contra o bom senso destacado pelo fundador.

Nesse instante de avassaladoras atitudes populistas nos meios doutrinários, com congressos de voz única dominante, eventos exploratórios da credibilidade pública e assentados em arrecadações financeiras, exaltação do nome de Jesus como bandeira, sufocamento da razão kardecista, abusos das crenças ingênuas, tentativas de restabelecimento de textos ultrapassados e autoritários em sua essência, distanciamento do conhecimento como suporte do progresso e tantos outros sinais de engessamento doutrinário, o documento representa uma postura digna e necessária. (mais…)

Projeto Cartas de Kardec capta 28% do objetivo proposto

Mas aqueles que desejarem contribuir poderão fazê-lo diretamente à FEAL.

O projeto Cartas de Kardec é de grande importância para o espiritismo hoje e no futuro. O presente é uma história de lutas para entregar à humanidade um acervo de conhecimentos sobre a espiritualidade. O futuro constitui um acréscimo extraordinário a esse acervo: cerca de 740 manuscritos completamente inéditos, que estão sendo recuperados, preservados e serão, a seguir, tornados públicos e acessíveis a todos os interessados.

Todo esse processo, juntamente com a imensa biblioteca de Canuto de Abreu, está em andamento sob a responsabilidade da Fundação Espírita André Luiz e do seu Centro de Documentação e Obras Raras. Todo esse trabalho tem um custo grande. O apoio dos espíritas é fundamental para colocar todo o material em condições de preservação e acesso de todos.

O prazo de participação e contribuição com o projeto encerrou-se ontem, 1o. de janeiro de 2019, captando cerca de 28% do esperado, ou pouco mais de R$ 140.000,00 (em números não oficiais), conforme exposto no endereço do sitio: 

www.catarse.me/cartasdekardec?

O esforço empreendido por uma equipe dedicada para alcançar a meta de preservar e publicar todo o acervo de correspondências inéditas de Kardec prossegue. Mesmo que o projeto de captação de recursos financeiros tenha terminado, quaisquer apoios nesse sentido serão muito bem-vindos e podem ser feitos diretamente à

Fundação  Espírita André Luiz (FEAL),

esclarecendo que a doação se destina ao projeto Kartas de Kardec.

O humano, o sagrado e as verdades da experiência mediúnica

 

Diante de fatos condenáveis relatados na imprensa, envolvendo médiuns, muitos perguntam por que os bons espíritos permitem que tais coisas ocorram e alguns vão além e questionam se esses bons espíritos, inclusive os mentores, participam dessa trama horrível.

 

Estudos sobre a mediunidade, desde Kardec, não só desvelam o quadro da sua integração com a natureza, mas, também, o desafio colocado ao ser humano ao lidar com o fenômeno mediúnico.

Ninguém pode fugir da realidade mediúnica que existe na natureza humana. A mediunidade está no ser terreno assim como estão os sentidos físicos e, como estes, aperfeiçoa-se ao longo da experiência milenar da civilização. Os sentidos físicos ligam o corpo material à terra e a mediunidade coloca a alma na relação comunicativa com os espíritos, relação permanente e cotidiana, mas ainda incompreendida pela maioria.

Quando a mediunidade assume a condição de mediunato, como interpretou Herculano Pires, ela se constitui ferramenta de experiência específica, dando ao seu portador condições para subir um degrau acima na escada de Jacó em que todos seres humanos se encontram. Trata-se de um compromisso reencarnatório para trabalhar em prol do bem de todos. Quem assim renasce logo será denominado médium, diferenciando-se dos demais seres humanos não por possuir poderes especiais e privilégios, mas por conta de um compromisso livremente assumido e válido para a vida atual.

A diferença entre os médiuns e os demais seres humanos está em que estes também possuem mediunidade, mas em grau diferente, suficiente, apenas, para a relação com os seres invisíveis, os espíritos ditos desencarnados, no nível de uma comunicação pelo pensamento. Explicando: há um diálogo permanente entre encarnados e desencarnados, com trocas de ideias, sugestões, solicitações, conselhos, etc., assim como ocorre com os encarnados entre si. A diferença está no fato dos encarnados, (mais…)

O mercado editorial espírita comporta o idealismo doutrinário?

 

(Publicado por Kardec.com, ed. 12/2018)

 

Feira do livro espírita no Riopreto Shopping em março de 2018.

A pergunta foi feita ao jornalista e escritor Wilson Garcia, que conhece como ninguém os aspectos do mercado editorial. Os desdobramentos da questão serviram de estudo feito pelo competente pesquisador Ivan Renê Franzolim (São Paulo, SP). Segundo Garcia, autores, editores, distribuidores e livrarias espíritas estão “no olho do furacão capitalista e a sobrevivência do ideal da difusão do Espiritismo pelo livro parece comprometida pela dura imposição do lucro sem medidas”. Leia a entrevista e tire as suas conclusões. Depois acesse o blog de Franzolim para ver o resultado de sua pesquisa.

 

Ivan – O que é ou deveria ser uma Editora Espírita?

WG. Os tempos mudaram e muito. No campo editorial espírita, essas mudanças foram colossais, não só em termos de mentalidade como, também, em termos tecnológicos. Nas décadas de 1960 / 1970, uma editora espírita deveria ser aquela que fosse comandada por espíritas com amplo conhecimento doutrinário, capazes de escolher apenas obras que tivessem aderência plena ao espiritismo. Em parte, isso ocorria. Mas, em termos editoriais, os livros sofriam com capas feias, papel de miolo ruim e uma divulgação de alcance limitado. Só era encontrado nas poucas livrarias espíritas, com alguma exceção. Os títulos disponíveis nas estantes eram também reduzidos em número. Os editores espíritas dedicados se foram, o capitalismo ampliou seus braços e dominou a tudo, a área editorial espírita, inclusive. Com isso, a força da alta concentração em grupos econômicos mundiais passou a exercer seu domínio e as editoras espíritas não fugiram disso. Foram cooptadas pela realidade dura de uma economia que concentra o poder e mata aquelas empresas que não conseguem crescer segundo o padrão dominante. Assim, falar em editores espíritas hoje é quase uma heresia. O que temos são editoras com visão capitalista, norteadas pelo lucro, balizadas por pesquisas de mercado. Com isso, os livros passaram por um enquadramento no que tange ao gosto do público, capas belíssimas, papel de miolo ecológico, ampla atenção ao marketing, grande quantidade de títulos e pouca ou nenhuma preocupação com o conteúdo em termos doutrinários. Todo o poder de crítica (mais…)

Um centro espírita atual, profilático e profético

 

Surgido em 1980 e, certamente, concluído antes dessa data, o texto de Herculano Pires se revela um discurso cada vez mais atual, o que lhe confere alguma coisa de profético ante uma realidade bastante triste.

 

Herculano Pires fala do presente e ao mesmo tempo aponta para o futuro.

O movimento espírita anda de lado, desviando-se da própria doutrina? Os fatos dizem que sim e Herculano Pires já no final da existência terrena registrava o seu inconformismo para com esse desvio. Logo na introdução do livro O centro espírita, publicado após sua partida, apresenta um verdadeiro desabafo ante a situação, cada vez mais presente, de um religiosismo dominante no movimento, com uma afirmação categórica: “o que fazemos, em todo este vasto continente espírita é um imenso esforço de igrejificar o Espiritismo”. Ou seja, estamos ouvindo Herculano falar para um público passivo antes de começar o ano 1980, há, portanto, quase 40 anos. De lá para cá, a religiosidade humana dos adeptos está perdendo cada vez mais para o religiosismo apoiado na bengala do misticismo.

Se o passado histórico do Espiritismo em terras brasílicas já registrava o conflito entre místicos e científicos ainda no final do século XIX, na década de 1970, última de Herculano, o caminho para o religiosismo parecia definitivo. Hoje, pode-se dizer que é irreversível. Há uma maioria religiosista e cega, pois não se vê como tal, antes comandada apenas pela Feb e algumas federativas e, agora, por todas elas. Não há uma sequer fora dessa linha igrejeira – ou que não contribua para ela. Salvam-se desse imenso fosso alguns movimentos e centros espíritas comandados por adeptos estudiosos e dedicados votados ao bom senso que preside as reflexões e a compreensão doutrinária.

O discurso de Herculano menciona os “espíritas rezadores”, aqueles que são eternos pedintes de ajuda dos céus. Hoje, há centros espíritas multiplicando as possibilidades dos seus frequentadores (mais…)

A Gênese, por Cosme Massi, e a pesquisa de Simoni Privato

 

Por Antonio Leite, NYC

 

Quando pela primeira vez ouvi a entrevista de Cosme Massi sobre a polêmica 5ª edição de A Gênese, de Allan Kardec – no momento em que escrevo estas linhas já a ouvi múltiplas vezes – duas coisas me intrigaram sobremaneira. Eu havia à época concluído a segunda leitura da obra da Simoni Privato Goidanich, “O Legado de Allan Kardec”. Não consegui aguardar a edição brasileira dela e fiz a primeira leitura em espanhol. Havia igualmente terminado a leitura da obra “Revolução Espírita” de autoria de Paulo Henrique de Figueiredo, a mais completa e extraordinária obra que já li no campo da pesquisa espírita. Ambas abordam temas pelos quais sempre tive o maior interesse.

 

De fato, em meus estudos de algumas décadas da Doutrina dos Espíritos, sempre com base nas obras de Allan Kardec, todas indistintamente, em especial as obras fundamentais e a Revista Espírita, o meu interesse não ficou preso tão somente ao aspecto doutrinário. Sempre tive igualmente um enorme interesse pelo estudo da história do movimento espírita desde o período de elaboração da ciência espírita e posterior, bem como igualmente o período da formação do movimento espírita em terras brasileiras. Desde cedo em meus estudos segui à risca a advertência do filósofo e escritor espírita J. Herculano Pires que nos orienta: “As obras de Kardec são a única fonte verdadeira do saber espírita. Quem não ler e estudar essas obras com humildade e vontade legítima de aprender, não conhece o Espiritismo.” (mais…)