O discurso no filme: Kardec, a história por trás do nome

Quem for assistir o bom filme Kardec no circuito nacional poderá dizer que o discurso final já está antecipado pelo título? Não! O filme não é um discurso de Allan Kardec sobre Allan Kardec, mas um texto assentado sobre três fases de um discurso que só fica pronto quando o filme é finalizado. A saber: temos um discurso inicial elaborado no roteiro, que será transformado em imagens sob a condução de um diretor a partir da interpretação dos atores, com seus planos e subplanos, para finalmente alcançar o discurso verdadeiro com a montagem. Então, é preciso assistir ao filme para conhecer o discurso, o sentido deste em suas propostas de significação. É aí que entra o espectador, como destinatário e construtor dos sentidos.

Assisti ao pré-lançamento do filme, mas antes de ir à sua análise desejo informar que tem sido longo e doloroso o esforço dos espíritas em mostrar a doutrina através da sétima arte. Vimos diversos filmes feitos e lançados em circuito nacional que, apesar da boa vontade, são péssimos no quesito qualidade. A par disso, temos sido surpreendidos, de quando em quando, por produções comerciais, feitas no Exterior, de ótima qualidade, alguns destes filmes muitas vezes pouco conhecidos pelos espíritas, outros de baixa bilheteria, mas todos eles se colocando como ótimas contribuições à comunicação dos princípios básicos da doutrina.

O filme Kardec, a ser lançado oficialmente na próxima semana, foge do comum dos filmes congêneres exatamente pela boa qualidade, pelos cuidados estéticos e pela excepcional produção. Por isso mesmo, a melhor forma de assistir é aplicar um olhar, tanto quanto possível, racional e isso deste as primeiras cenas. Tal comportamento diante da telona é difícil? É, sem dúvida alguma. O observador pouco atento desconhece as “armadilhas” da imagem e comumente se deixa envolver por ela, especialmente aquele observador mais empolgado com a figura central, o tema, os personagens, a trama e assim por diante. Desconhece, por exemplo, que a imagem exerce sobre o espectador uma ação que o transporta do seu lugar real para o lugar da emoção onde a ilusão habita. Sim, as imagens em geral iludem.

É por essa capacidade intrínseca às imagens de iludir que muitas vezes saímos da sala de cinema com pouca capacidade analítica e muitos argumentos emotivos. Confesso, assim que o filme Kardec terminou, que predominava entre os espectadores, constituídos basicamente de espíritas, uma euforia eloquente que se desdobrava em conclusões diversas, diferentes, mas cujo traço comum era o elogio absoluto ao filme e, nada incomum, a aplicação de certos traços da personalidade de Kardec a personagens do dia a dia, familiares ou não, como forma de compreensão destes e de certos comportamentos deles. Ou seja, o Kardec representado no filme foi assumido como o Kardec real, como que retirado integralmente dos incompletos documentos que nos chegaram e continuam chegando às mãos ainda hoje.

O filme é deveras bom e suas virtudes já aparecem na imprensa pela pena daqueles que o assistiram em suas diversas prévias. Roteiro, direção, imagens, iluminação, continuidade, cenários. Ouso dizer que se o idioma original fosse o francês chegaria quase à perfeição. Parece incrível, mas ser transportado para um ambiente totalmente francês, com personagens franceses e ouvir todos conversando em português dá uma sensação de distonia irrefreável. É difícil compreender Kardec, Amelie e todos os demais expressando-se no idioma que não era o seu. Este detalhe, que para muitos – sei disso – não é relevante é, pelo contrário, de uma importância enorme, afinal a língua é uma das definidoras de nossa personalidade. Não só falamos a língua, mas vivemos na língua. Todos os sentimentos humanos estão representados em sua expressão profunda pela língua na qual e com a qual o ser surge no mundo. Portanto, se o idioma francês fosse empregado ganharíamos em tudo, principalmente na expressão dramática.

Contudo, o filme Kardec deve, precisa e convém ser visto por todos os espíritas. Aqueles que puderem, controlem o ufanismo e se apliquem ao conteúdo, à busca do discurso final. O filme é sério, apresenta Kardec como um ser humano preocupado com a racionalidade dos fenômenos, às vezes até com um pouco de exagero, o que não é motivo para crítica acerba. Mostra também uma Amelie humana, companheira indispensável e força amparadora nos momentos de fraqueza de Kardec.

Allan Kardec, penso, está entre o documentário e o filme dramático. Enquanto tenta apresentar uma história baseada na realidade, seu discurso é o do relato dos acontecimentos; quando emprega os recursos do drama, com leves pitadas de humor, é arte boa e agradável de ver, mas palmilha a estrada da inventividade para dar força aos personagens e levar em frente com leveza o espectador interessado, com o inegável desejo de conduzir este espectador ao fim do filme, como o fazem os bons romances.

Concluo dizendo que o filme Kardec é entre aqueles produzidos predominantemente por espíritas o de melhor qualidade. Nem Chico Xavier ou Nosso Lar (esse, do mesmo diretor de Kardec) possuem as virtudes do Kardec. Bezerra de Menezes não deve ser considerado, dadas as suas insanáveis e clamorosas deficiências. Há quem diz que com este Kardec o cinema espírita entra na lista das grandes produções. Certamente.

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