Ídolos, líderes e mitos para espíritas imaginários

 

Porque no espiritismo beatos candidatos a santos seriam absurda distorção criam-se e alimentam-se os mitos para preencher o vazio do líder que se ausentou.

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Musas, inspiradoras da criação artística ou científica.

Sempre gostei da postura de Herculano Pires em relação aos homens no sentido filosófico. Lidou com líderes, respondeu aos ídolos e compreendeu os mitos. Mas ficou com a razão emanada do espiritismo, onde aprendeu que Deus fala aos humanos através de suas leis. Essa postura tem um sentido amplo, bem mais amplo do que aparenta.

Em primeiro lugar, havia por parte do pensador paulista uma visão clara do futuro do espiritismo. Trata-se, a meu ver, de um ponto crucial, embora não original: o espiritismo para ele sempre esteve nas mãos dos seus líderes, aos quais atribuía toda a responsabilidade na condução das massas e construção do futuro. Os líderes são os primeiros ídolos a surgirem no estuário da criação doutrinária. São mais ou menos admirados segundo os caracteres de sua liderança, mas, ainda quando pouco versados no assunto que lideram, são seguidos de alguma maneira.

Líderes conduzem: ou para o porto do saber ou para o precipício da ignorância. E o espiritismo resultará disso.

Médiuns são também líderes candidatos a ídolos. Se o dirigente incorpora as duas coisas, estará mais perto da idolatria. O homem pouco versado e milenarmente aculturado tenderá a entregar-se ao seu líder em clima de confiança que pode chegar ao extremo do fanatismo, ou então desfazer-se na fumaça da decepção. Não é apenas no passado recente que os médiuns possuíam influência sobre parcela considerável da sociedade, quando, então, as mesas giravam em torno de sua figura diferenciada. Mudaram-se os cenários e as condições de atuação dos médiuns, mas não se alteraram fundamentalmente sua ascendência e a percepção deles enquanto líderes e ídolos. Continuam sendo ícones numa releitura muito influenciada pelo virtual contemporâneo.

Kardec foi líder natural do espiritismo por todas as razões conhecidas. Sua condição de ídolo ficou protegida pela racionalidade que emana de sua leitura da espiritualidade, a qual, se não se sobrepõe, equilibra muito a percepção do sentimento. Quando o ingrediente emocional prepondera costuma ser mais eficaz na construção e na projeção dos ídolos do que o racional.

Leon Denis continua na cosmologia espírita como líder e ídolo. Vejo-o muito como um poeta da prosa. É um líder, contudo, mais próximo a Kardec e por isso mesmo cada vez mais distante das lideranças modernas, que se alimentam do cotidiano para se manterem. Ídolos mortos, ídolos (de)postos…

Incluam-se nessa lista de estrangeiros Delanne, Aksakof, Flammarion, Bozzano etc. Só pesquisadores e teimosos os estudam hoje. Grande parte das lideranças espíritas só os conhece da bibliografia, nada mais.

E no Brasil? Líderes de grande projeção morrem de fato e contrariam os princípios da imortalidade. Parece que suas cadeiras acadêmicas deram cupim. Deolindo, Imbassahy, Cairbar e tantos outros desaparecem um pouco mais a cada dia. Suas ideias já quase não encontram oportunidade para os escambos intelectuais.

Herculano Pires só não se encontra nesse rol de brasileiros que se apagam pelo descaso porque um mecenas decidido e alguns companheiros dele, abnegados ou teimosos criaram e mantêm uma fundação que protege e publica sua extensa obra. Se dependessem do mercado estariam na falência, pois a maioria dos livros não vende. Pior, não desperta interesse nas nossas lideranças.

Dentre os líderes brasileiros, Chico escapa da guilhotina, mas não da idolatria. É o único que, além de líder e médium, alcançou o grau de mito. Ultrapassou nesse quesito a Bezerra, que era líder, mas não médium. E se equipara a Ismael, que não reencarnou e já nasceu anjo. Em pouco tempo, porém, Chico não será mais reconhecido como humano, mas como alma de um mundo imaginário onde plaina sobre as cabeças coroadas dos reencarnantes dependentes.

Herculano, que foi dentre seus amigos um dos mais admirados e respeitados, pediu diariamente clemência para seu espírito encarnado em um corpo todo remendado. Quase gritava para a plateia de líderes surdos que Chico precisava de paz, sossego, tranquilidade para realizar sua tarefa, penosa e quase cruel. Embasbacados, os líderes espíritas se faziam surdos. Só o viam (e cada dia mais o veem) como santo, Kardec, espírito superior e até – pasmem! – espírito de luz, da esfera mais elevada dentre as conhecidas.

Só a massa teria o direito de agir e julgar assim, mesmo porque as lideranças jamais se preocuparam em esclarecê-las pela verdade, verdade que elas próprias não desejam ver. Chico se foi e logo ergueram monumentos de pedra, onde o incenso da insensatez se mantém aceso diuturnamente, perfumando e ao mesmo tempo escondendo o conteúdo pútrido do próprio túmulo.

Mas Chico morreu. O Chico-corpo. Hosanas à sua alma! Os peregrinos continuarão procurando-o todo ano e o ano todo, para não o deixar esquecer-se de que todos o querem e são merecedores de sua intercessão.

Por agora, precisam de outro líder, médium e candidato a mito. Afinal, por mais extensa que seja a lista dos espíritos acessados pelas preces maquinais e por mais que Chico esteja alocado no alto do panteão, precisam de ícones de carne e osso, que possam ser vistos, tocados e cujo sorriso admirável apareça nas listas sociais de nossas redes. Querem alguém que fale por eles e para eles a mensagem da mansuetude, como um papa em suas vestes festivas, que apareça na TV de rosto terno e olhar compassivo. Precisam da certeza material para contrapor à dúvida do abstrato.

Divaldo, o candidato é você?

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