César Perri, ex-presidente da FEB, publica resenha do livro Ponto Final

Livro impresso e em forma de e-book de autoria de Wilson Garcia, lançado pela Editora EME em dezembro de 2020, com o subtítulo: “Cartas de Kardec revelam mais sobre os bastidores do espiritismo e as convicções do seu fundador”. O autor se fundamenta em documentações hoje disponibilizadas em meios digitais, como as cartas e textos de Kardec do acervo obtido por Canuto de Abreu e agora sob a guarda e conservação do CDOR da Fundação Espírita André Luiz, de São Paulo. Ao reproduzir esses documentos o novo livro apresenta também o QR Code dos mesmos.

Para ser fiel aos documentos, grande parte inéditos, e ao texto do autor do novo livro, reproduzimos alguns trechos significativos que oferecem uma visão geral do conteúdo marcante de Ponto final, que tem como itens: Kardec em Bordéus; Roustaing no terreno espírita; Grupo Sayão: o roustainguismo brasileiro; História falseada e história real; Cultura espírita ou hibridismo cultural; O espiritismo reencontra Kardec.

À guisa de resumo, a seguir transcrevemos alguns destaques da obra de Wilson Garcia.

Há dados sobre o relacionamento que Roustaing manteve com o Codificador, previamente à publicação de sua obra, que não foi “estreito nem constante” e sobre as tentativas de Roustaing para evitar a viagem de Kardec a Bordéus em 1861 e cita a “prudência do codificador em relação ao futuro autor de Os quatro Evangelhos é bastante significativa”. O Codificador mantinha correspondência com a médium dessa obra, Emilie Collignon, e esta apresentava discordância de vários aspectos do texto. Depois da publicação dessa obra, Kardec não avalizou o livro e nem concordou com o “comparecimento de Roustaing e da médium Emilie Collignon na Revista Espírita depois de 1866”. Wilson Garcia analisa as discrepâncias do conteúdo da obra organizada por Roustaing com as obras básicas de Kardec, no tocante ao “corpo fluídico de Jesus”, culpa e evolução. Entre os registros sobre as ações distorcidas efetivadas por Pierre Gaétan Leymarie, aponta que “Roustaing foi levado às páginas da Revista Espírita e ao poder na Sociedade Anônima, penetrando, assim, no terreno espírita pouco depois da partida de Allan Kardec”.

Ao analisar o início do Espiritismo na cidade do Rio de Janeiro, Wilson disseca vários tópicos da obra Trabalhos espíritas de pequeno grupo de crentes humildes, publicado em 1893 pelo Grupo Sayão, organizado por Antonio Luís Sayão. Como desdobramento deste, foi publicado em 1896 um segundo livro: Trabalhos espíritas de pequeno grupo de crentes humildes – Estudos dos Evangelhos de S.Mateus, S.Lucas, S.Marcos em Espírito e Verdade. Wilson Garcia anota: “Este segundo livro será reeditado, com alterações, inclusive de estilo, pela FEB em 1933, sob o título de Elucidações Evangélicas e a coordenação de Guillon Ribeiro. Sobre a edição inicial de 1893, Garcia conclui: “o objetivo era propagar a missão do grupo revelada e reforçada pelas mensagens dadas supostamente por grandes nomes, entre eles, Allan Kardec, Anjo Ismael e os Evangelistas. […] garantiam a missão especial que o grupo possuía, isto é, de levar avante a disseminação do roustainguismo em sua aliança com o espiritismo. […] um misticismo exacerbado e de crença absoluta nas personalidades invisíveis”. Wilson admite que para o Grupo citado “Roustaing seria aquele que completou a doutrina construída por Kardec, atingindo um grau que o Mestre  não conseguiu”. Na prática hipervalorizaram o papel do “guia espiritual”, algumas efemérides e posturas católicas… O objetivo desse Grupo: “crença total em Roustaing e sua missão de completar o trabalho de Allan Kardec”. Para o autor de Ponto Final, “em lugar do lema consagrado por Kardec – fé e razão – os espíritos do Grupo Sayão proclamam “fé e crença”, uma redundância que esconde o pilar racional da fé” e chega o rotular essas reuniões como um “processo de fascinação”. Esclarecemos que versão recente de Elucidações Evangélicas (12ª edição, 2003) não contém as aludidas mensagens.

Wilson analisa várias incoerências doutrinárias nas mensagens, com fragilidades de forma e conteúdo, publicadas no livro original do Grupo Sayão. Transcreve na íntegra e analisa passo a passo a incoerência do pensamento e obras do Codificador, com a aludida “mensagem que seria assinada por Allan Kardec, recebida por Frederico Jr. na Sociedade Espírita Fraternidade, tendo sido publicada com o título: INSTRUÇÕES DE ALLAN KARDEC AOS ESPÍRITAS DO BRASIL. A mensagem tornou-se, com o tempo, um dos textos preferidos pelos adeptos brasileiros de Roustaing, especialmente os da FEB…” Aliás, consta que essa mensagem teria sido divulgada numa reunião nacional há poucos anos atrás.

Na realidade, o “Grupo Sayão não estudava as obras de Allan Kardec. Sua orientação provinha da obra de Roustaing, que era visitada em todas as sessões e tida como suficiente para o conhecimento espírita”. O autor lembra que quando há referências ao Evangelho, para os roustainguistas seria referência a Os Quatro Evangelhos e não a O Evangelho segundo o Espiritismo.

Para Garcia, o conjunto de ações do Grupo Sayão “reforça a tese das bases culturais sobre as quais ergueu-se e se constituiu o espiritismo brasileiro capitaneado pela FEB”.

Em Ponto Final, há transcrições de documentos de grupos sediados no Rio de Janeiro e acabaram passando por momentos de dissenções e de transformações, antes de surgir a FEB. Inclusive, destaca o “perfil progressista” inicial da FEB que depois se alterou. Com base em textos e documentos originais transcritos, Wilson analisa o artigo “Escorço Histórico da Federação Espírita Brasileira”, de autoria de Juvanir Borges de Souza e divulgado em 1984. É de opinião que “a informação mais uma vez é dedutiva não amparada em documentos, além de não dar aos fatos o tratamento devido e necessário a uma história sustentável”.

O autor da nova obra, entre outros fatos, comenta que “a Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade não é herdeira da Sociedade Espírita Deus, Cristo e Caridade, mas da fusão dela e outras três. […] o qualificativo “espírita” foi substituído pelo “acadêmica”, não só não é verdadeira como é injusta, implicando conotação elitista e anti-evangélica, […] o termo acadêmico foi uma solução para superar impasses políticos e religiosos que impediam os adeptos do espiritismo de se organizarem livremente”.

Wilson focaliza alguns aspectos da atuação de Bezerra de Menezes em seu segundo mandato como presidente da FEB, a chamada ação discricionária, e o “combate ao Centro da União e àqueles que por ele falavam ou os integravam, especialmente Torteroli, que considerava a cabeça pensante do Centro União,…” Episódios que são registrados em artigos assinados por Bezerra, nos quais ele “reforça a visão roustainguista de que o Evangelho é o ‘ensino da salvação’. […] Deve-se, portanto, a Bezerra de Menezes ir a Federação Espírita Brasileira para o trilho de Roustaing…”

Garcia analisa os vários Estatutos da FEB: o original de 1884 e os seguintes, aprovados nos anos: 1901, 1905, 1912, 1917, 1954, 1991, 2003, 2019. Comprova que “a FEB não nasceu sob o signo de Roustaing”; desenvolveu-se uma cultura propícia, e: “Foi em 1917 que o estudo da obra de Roustaing foi introduzido no Estatuto da Federação Espírita Brasileira […] Mas desde o final do século XIX a cultura roustainguista estava em gestação ali…”

A respeito da reforma estatutária de agosto de 2019 em que foi retirada a indicação da obra de J.B.Roustaing em um artigo, Garcia estuda outros artigos vigentes, como o 45, que cita o “programa da Federação” e que as associações que aderem ao Conselho Federativo Nacional da FEB são concordes com o “Pacto Áureo”. E, este se fundamenta no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que cita Roustaing, ou seja para Wilson, “artigos que anulam qualquer ganho em relação à supressão feita na reforma de 2019”.

O autor também comenta o aparecimento de ideias federativas, inexistentes no Estatuto original, e bem diferentes ao longo do tempo.

Wilson Garcia analisa documentos referentes a movimentos que se desenvolveram na primeira metade do século XX, como a Constituinte Espírita Nacional; a Liga Espírita do Brasil; a fundação da USE-SP em congresso estadual com presença de representantes de mais de 500 centros paulistas; o Congresso Brasileiro de Unificação; os indícios de alteração no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho introduzindo o nome Roustaing, incoerente com livro anterior Crônicas de Além Túmulo; a fundação da Confederação Espírita Panamericana; a forma abrupta e sem discussão como o presidente da FEB propôs o “Pacto Áureo”, fundamentado justamente no único livro de Chico Xavier em que há uma citação a Roustaing: Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho; e as reações de lideranças espíritas ao referido “Pacto”.

O autor conclui que “Em nome de uma união pelo bem da doutrina espírita, aceita-se ou releva-se, admite-se ou tolera-se tudo isso, demonstrando-se o quão é pequena a capacidade dos homens de perceber o imenso prejuízo que causa uma agir dessa ordem. O imobilismo impera”, e, também anota: “o fim da jornada é o ponto de partida, em que a trajetória será reencetada. É o ponto final, onde o espiritismo reencontra Kardec e abandona a parcela da carga que não lhe pertence…”

O livro de Wilson Garcia contempla informações que não aparecem na chamada “história oficial” e se fundamenta em documentos de Kardec e dos primórdios do Espiritismo na França e no Brasil, Atas, livros e artigos publicados na imprensa espírita. Ao se acessar o novo livro, a nosso ver, não é se posicionar a favor ou contra o conteúdo do mesmo, mas se fazer a leitura atenta da obra, seguindo-se de reflexões e se houver dúvidas, para quem puder, atualmente não é complicado acessar-se documentos digitalizados.

Fonte:

Garcia, Wilson. Ponto final. O reencontro do espiritismo com Allan Kardec. Capivari: EME. 2020. 320p.

(Resenha por Antonio Cesar Perri de Carvalho)

Publicada no Grupo de Estudos Chico Xavier.

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