Categoria: Vidas

Boberg enfrenta o dilema do Cristo de Emmanuel e o de Paulo de Tarso

Em tempos surpreendentes de novos documentos e rearrumação da história do espiritismo, o livro O Cristo de Paulo de Tarso é mais uma oportunidade de resolver os conflitos do conhecimento – ou de aprofundá-los.

Quando o escritor José Lázaro Boberg me enviou os originais de seu livro em preparo para publicação, fez uma solicitação que, depois de devidamente me assenhorar do conteúdo, atendi: algumas breves linhas sobre o O Cristo de Paulo de Tarso. Ficou evidenciado, para mim, que a obra estava destinada a ser mais um dos estudos a colocar em discussão de modo claro tudo o que até então se sabe sobre a figura daquele que é considerado um dos alicerces mais fortes do cristianismo, também muito respeitado em todo o meio espírita brasileiro. O livro Paulo e Estêvão, de Emmanuel/Chico Xavier é um dos romances mais vendidos de toda a literatura espírita. Escrevi, então:

“Eis um livro para se ler com calma, mas, também, com espírito desprovido de conceitos fixos. As surpresas começaram pelo autor, que ficou balançado em suas crenças ante os fatos que brotaram das pesquisas. E tendem a alcançar os leitores cuja visão do conhecido apóstolo de Tarso se formou sobre as bases tradicionais do cristianismo pós Concílio de Nicéia. Assim, também, os espíritas que conhecem, admiram e exaltam o Paulo que desponta do romance de Emmanuel pelo Chico Xavier: Paulo e Estevão. Quais reações este livro vai causar? (mais…)

Nova casa precisa e merece seu apoio

“QUERO IMPACTAR” – NOVA CASA

O Lar Paulo de Tarso, uma instituição idônea da cidade do Recife, Pernambuco, sob a direção competente do casal espírita Gezsler e Glauce, apoiado por uma equipe de colaboradores, continua inserido com o seu Projeto Nova Casa no site “Quero Impactar” da Prefeitura do Recife. Agora estamos em uma nova fase, que pretendemos concluir ou reduzir a parcela que foi financiada por 15 anos na recente aquisição de uma casa.

Depois de anos realizando o trabalho junto às crianças em situação de risco, em projeto integrado com o Juizado de menores, tendo por local uma casa simples alugada, o Lar Paulo de Tarso conseguiu, finalmente, realizar o sonho da casa própria e adquirir um imóvel no mesmo bairro onde já se localizava. A aquisição, entretanto, foi feita com parte considerável do valor financiado em parcelas mensais. Sua campanha, agora, visa minimizar ou mesmo extinguir o financiamento para tornar mais adequada a sustentação da meritória obra. Todos são convocados a dar sua ajuda através de uma forma segura, espontânea e livre, sem valor fixo ou determinado senão aquele que o doador escolher. (mais…)

Uma nova casa para o Lar. Com o seu apoio

Entre as obras sociais respeitáveis e de trabalho eficiente em prol de uma sociedade mais justa e fraterna, o Lar dirigido pelo amigo espírita Gezsler Carlos West e equipe, em Recife, Pernambuco, deve e precisa merecer o apoio de todos.

Gezsler em palestra no Instituto Gabriel Dellane, Recife.

A instituição faz um trabalho de amparo a crianças em situação de risco na cidade de Recife. Em convênio com o Juizado de Menores, que encaminha as crianças, o Lar Paulo de Tarso as recebe, cuida, promove a educação, assistência à saúde, apoio psicológico e toda uma ação com vistas a reintegrá-las à sociedade, seja colocando-as de volta à família, seja encontrando famílias dispostas à adoção.

Nestes anos todos, sem alarde e de modo muito discreto, inúmeros são os casos de crianças que para lá são enviadas, em situação de necessidades extremas. São recuperadas de lixões, de locais de consumo de drogas, largadas por pais que vivem em situações semelhantes, crianças que muitas vezes beiram à condição animal de vida.

A casa onde o Lar está instalado há já bons anos é um imóvel alugado, simples, localizado em bairro periférico da cidade. Diante das condições atuais e das necessidades futuras, o Lar precisa de apoio para enfrentar esse desafio, uma vez que sua sustentação é feita por um punhado de gente que se sensibiliza com a situação, mas cujo apoio tem servido quase sempre as o custeio das necessidades básicas.

Reproduzo, a seguir, o texto disponibilizado pelo amigo Gezsler e sua equipe, descrevendo o projeto para uma sede nova e própria e convido a todos a emprestarem seu apoio à causa, certos de que estarão destinando recursos para uma instituição séria, honesta e merecedora.

Campanha nova casa

O Lar Paulo de Tarso está dando um passo importante, necessário e desafiador: comprar uma casa. Nestes 28 anos de existência o Lar funcionou em imóveis alugados, que possuíam espaços físicos limitados, custos mensais adicionais e desgastantes mudanças de endereços. 

Em uma análise criteriosa e realista das nossas necessidades presentes e futuras, definiu-se pela compra de uma casa. (mais…)

NAZARENO TOURINHO: retalhos de uma trajetória intensa e produtiva

 

Contra a versão oficial, Nazareno Tourinho defendeu na tribuna da Assembleia Legislativa do Pará o sentido social da Cabanagem, revolta popular ocorrida contra a extrema pobreza, fome e miséria pós independência do Brasil.

 

MENSAGEM DA PÁGINA do Facebook que comunica a desencarnação da médium Zíbia Gasparetto dias atrás é de uma leveza encantadora. Dir-se-á muito de acordo com o que ensina o espiritismo. Dispensa a velha terminologia plena de tristezas, melancolia, pesares e apenas informa a partida do espírito que trocou um estágio por outro, sem desaparecer.

Eis o texto: “Zíbia Gasparetto, 92 anos, completou hoje sua missão entre nós e parte para uma nova etapa ao lado de seus guias espirituais, deixando uma legião de fãs, amigos e familiares, que foram tocadas por sua graça, delicadeza e por suas palavras sábias. Esse legado será eterno e os conhecimentos de Zíbia sobre as relações humanas e espirituais serão transmitidos por muitas e muitas gerações. Ela segue em paz ao plano espiritual, olhando por todos nós”

A vida inteligente na Terra é uma contínua história de partidas e chegadas, idas e vindas. Espíritos que concluem sua jornada e espíritos que a iniciam, numa alternância permanente. Daí o nascimento e a morte como fenômenos sucessivos. Quando do nascimento em novo corpo físico, os vivos se enchem de júbilo; quando do nascimento no corpo espiritual, os também vivos, mas invisíveis, cantam alegria. Nada de tristeza, amargura e dor. (mais…)

Chico Xavier e o desafio do discurso biográfico

Onde se situa o mito e onde está o dever de retratar o Homem? 

Chico Xavier 7
Chico Xavier e Pietro Ubaldi. Dois médiuns, duas históri

Alguns leitores demonstram incômodo diante dos retratos de Chico Xavier feitos pelas câmaras escuras dos seus biógrafos, indagando – e até culpando – esses biógrafos pela ausência da visão realista do ser humano existencial, prevalecendo da visão mítica que o coloca num pedestal distante, consequentemente, o distancia do homem que ele foi.

Se é certo que cada cabeça é uma sentença, os autores atuais e futuros da vida de Chico Xavier devem ser analisados na sua autonomia e objetivos; e só a partir daí sentenciados.

O discurso biográfico gera sempre discussões diante da percepção de cada leitor e não raras vezes aparece pleno de ambiguidades e contradições, tais como são as vidas dos próprios seres humanos. Há uma questão de resolução extremamente difícil nestes discursos, especialmente quando o pragmatismo não se mostra operativo no autor. Trata-se de decidir sobre quanto a realidade perceptível do homem enquanto ser contraditório deve receber os traços mais fortes. Quando se trata de personalidades do destaque de Chico Xavier essa questão aumenta exponencialmente.

Cairbar SchutelAlguns exemplos servem de comparação. Ao pesquisarmos a vida de Cairbar Schutel[1] para o livro “O Bandeirante do Espiritismo”, que lançamos no IX Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, em 1986, Eduardo Monteiro e eu nos deparamos com momentos de grande angústia e, por que não, de questionamentos ante fatos de sua vida que poderiam alterar parcialmente a imagem geral que dele sempre foi veiculada. O pragmatismo que nos movia era o da verdade, que se coloca acima de qualquer óbice, mas, confesso, havia momentos em que isso não era suficiente, seja porque certas evidências não podiam ser comprovadas, seja porque havia do outro lado aqueles que defendiam não ser verdade o que nos parecia ter ocorrido.

Capa Vinicius sombraNo caso da biografia de outro espírita bastante conhecido no Sudeste brasileiro, Pedro de Camargo, o Vinicius[2], o dilema não se deveu a nós, os autores, mas a familiares do biografado, que não desejavam um discurso sem um forte conteúdo emocional, do qual procurávamos nos afastar. A biografia ficou estacionada por alguns anos, até que decidimos concluí-la apesar das deficiências por falta de parte das informações, que nos foram sonegadas.

Até que ponto o realismo não torna o discurso biográfico frio e pouco atrativo? Ou é o contrário? Qual é o limite entre a dura realidade do cotidiano dos seres humanos, em que se colocam no jogo existencial com suas virtudes e deficiências, ao mesmo tempo em que se mostram capazes de realizações extraordinárias? A fotografia nua e crua de seus momentos turvos deve conviver com as imagens coloridas de suas conquistas admiráveis? Se sim, em que medida?

Quando se trata de personagens conhecidas publicamente por suas proezas e suas mazelas, as biografias encontram um tipo de liberdade discursiva que nem sempre é bem vista quando o indivíduo retratado obteve o reconhecimento social por ações que marcam o sentimento, elevando-o a uma condição mitológica. Chico Xavier encontra-se certamente entre estes. Sua vida e sua obra, indissociáveis, não podem ser retratadas sem as cores das belas imagens e o preto e branco da realidade humana, mas é neste momento que o dilema se acentua. Tratado por uns como santo e por outros como infalível, posicionado na escala dos espíritos superiores por mais alguns, Chico tornou-se uma personalidade inalcançável de tal modo que praticamente tornou impossível representar com os toques da realidade sua dimensão humana.

O terreno aí é bastante pedregoso. Adversários de sua obra não aceitam o valor que admiradores lhe atribuem por conta do homem premido pelas exigências do corpo e do meio, que inevitavelmente exercem suas influências e contribuem para ações que deveriam ser vistas com naturalidade, mas não o são, pelo menos em tipos como Chico Xavier. Que outros se comportem por padrões menores é aceitável, mas aqueles que se elevam com feitos pouco comuns, não. Estes têm a obrigação de serem incomuns em tudo.

De outro lado, os admiradores fervorosos do médium costumam tornarem-se surdos aos comportamentos comuns aos seres humanos que o médium demonstrava, preferindo atribuir isto à falta de honestidade daqueles que desejam somente diminuir sua obra com acusações sem prova.

Com isso, constroem-se duas imagens ambíguas: de um lado, a do médium e obra perfeitos e, de outro, a do médium e obra condenáveis. Ambas padecem da falta dessa coerência que solicita a compreensão profunda da dimensão humana para lhe atribuir o valor devido. O ser humano não é o espírito ou o corpo, mas a fusão de ambos, o que o leva a existir no agora, sob a influência das experiências de vidas anteriores e das exigências naturais do mundo físico de agora. Para alcançar realizações expressivas, o ser dual se esforça e sofre, dividindo sua existência entre momentos de grandezas e de fraquezas, premido por uma realidade que o leva a fazer escolhas de experiências a vivenciar. Quando os desejos mais simples não alcançam seu termo, a decepção e a tristeza; quando a obra se projeta vigorosamente no futuro, a felicidade. O homem sonha, o médium age, mas o sonho e a ação mediúnica não estão necessariamente simétricos. Os sonhos estão ligados à dimensão humana do ser, enquanto a ação mediúnica se relaciona ao compromisso livremente assumido. O médium não imagina que deve deixar de ser homem e este não deseja que apenas o médium prepondere. Os conflitos que dessa dualidade surgem não costumam ser bem compreendidos nem pelos adversários nem pelos admiradores, quando deveriam representar apenas a realidade do ser.

Tratado na condição de mito, Chico se distancia do homem; visto somente na sua condição humana, Chico se afasta do médium. Apesar disso, o médium é o homem, o homem é o médium, associação esta que se deu desde o berço e não em um determinado ponto da existência do homem, nem de forma aleatória ou ocasional. Para se entender o médium, requisita-se a dimensão humana, da mesma maneira que, no caso de Chico, para entender o homem faz-se necessária e dimensão mediúnica.

O médium que Chico foi era o espirito no corpo, fundidos, cérebro e memória espiritual conjugados na ação de interpretar os seres invisíveis no momento afetivo da comunicação mediúnica. Nesse instante sublime, o homem não abandona sua condição humana para realizar a ação mediadora, antes, utiliza-a ou coloca-a à disposição do emissor invisível. Kardec descortina essa realidade e a reforça, clamando por uma compreensão capaz de auxiliar no julgamento do produto mediúnico, a mensagem. O médium no corpo é o ser no mundo, necessário ao comunicante, pelo qual este vislumbra a possibilidade de intervir e participar objetivamente deste mundo. O médium no corpo é o ser na matéria, de quem o espírito precisa para suas intervenções aqui, no planeta, desde o lugar invisível em que se encontra.

A rigor, o biógrafo não deveria enfrentar o dilema de um retrato em preto e branco ou somente em cores, porque, assim como as fotografias têm em sua gênese um período em preto e branco e em sua história outro em cores, as vidas humanas também têm. Pelo menos aqui no planeta onde o maior desafio é colorir o preto e branco das ações com os tons da experiência que embelezam a alma.

E o leitor? Bem, este aprenderá em algum momento que o ser no mundo é o espírito em busca da sua própria superação.

[1] Monteiro, E.C. & Garcia, W. Cairbar Schutel, o Bandeirante do Espiritismo, Ed. O Clarim, Matão, SP, 1986.

[2] Garcia, W. Vinícius, educador de almas, Ed. EME, Capivari, SP, 1995.

Publicado originalmente em: https://blogabpe.org/2016/06/03/chico-xavier-e-o-desafio-do-discurso-biografico/

 

Os perigos da fama – muito mais do que 15 minutos

Os fatores de risco do sucesso estão presentes na construção do mito, mas poucos são capazes de subtrair a eles ou de os considerar com a devida atenção. Por que? Isso é coisa para se analisar com carinho.

O movimento espírita – entenda aí os espíritas – entraram num ritmo frenético de produção de mitos desde que Chico Xavier partiu em 2002, antes que o silêncio das arquibancadas caísse sobre a seleção brasileira de futebol. Chico estava a caminho do centenário no corpo físico, mas a coletividade espírita como um todo esperava que ele se tornasse uma espécie de personagem bíblico que não morre antes dos 150 anos. Como se viu, foi em vão, apesar da surpresa que a morte causou.

O mito Chico, porém, ganhou forças com a ausência do espírito, de modo que continua aí plainando sobre as cabeças coroadas dos reencarnacionistas com ideias fixas de vidas anteriores e esperança vã de um futuro na imortalidade amparado pelo extraordinário médium mineiro. Os amigos do rei mantêm a chama com o combustível moldado pela ilusão, (mais…)

Uma obra social digna

Aqui em Recife, várias obras sociais criadas e dirigidas por espíritas são realmente dignas de admiração. Tenho particular afeição pelo Lar Paulo de Tarso, localizado no Bairro do Ipsep. É uma casa simples com capacidade de abrigar até 15 crianças, que ali chegam por meio de um convênio com o Juizado da Infância e Juventude. A direção e manutenção do Lar tem na sua liderança o casal Glauce e Gezsler, dois amigos do coração, incansáveis, dedicados e afetuosos.

O Lar é uma casa de passagem, onde crianças em situação de risco são abrigadas e preparadas para o retorno ao lar de origem ou são entregues para adoção, razão pela qual não permanecem longos períodos no local, a não ser em situações excepcionais. O trabalho de preparação dessas crianças movimenta uma rede considerável de pessoas e profissionais e possui como fundamento de orientação o alicerce da doutrina espírita.

Para os interessados em conhecer melhor o trabalho dessa digna instituição de caráter assistencial, aqui vai o link da apostila recém-publicada, intitulada “Lar Paulo de Tarso, um oásis de esperança” 

Crônica para Eduardo

 

(Texto feito especialmente para o programa Realidade Paralela deste sábado, 16 de agosto de 2014, na Rádio Folha FM 96,7, Recife, PE)

 

Quando soaram as 12 horas e 51 minutos, eu me perguntei se Miguel Arraes, o avô, estava informado do retorno de seu neto.

E me perguntei mais:

Se Eduardo havia passado pelo túnel da morte com coragem e esperança?

Se seus mais próximos do outro lado estavam com os braços abertos para confortá-lo?

Se ele pudera perceber que o seu corpo espiritual continuava intacto?

Se havia luzes a clarear o espaço em que fora arremetido na beleza da vida?

Se os Espíritos sonhadores de um mundo melhor lhe enviavam mensagens de otimismo?

Se os políticos que o antecederam, já refeitos de seus próprios destinos, tinham palavras fraternas para adorná-lo?

Se seus sentimentos nobres eram suficientes para suportar a abrupta separação?

Se um sono, profundo e reparador, o acolhera no leito da nova etapa?

Se o momento, em toda sua solenidade, percebia o sopro da brisa fresca predizendo calmaria?

Se olhares silenciosos estendiam-lhe proteção contra quaisquer desassossegos?

Se uma sonata de Chopin ecoava pelos ares em acordes tranquilos?

Se, em meio aos prantos daqui, havia lá a presença compassiva e estável dos bons?

E, finalmente,

Se eu poderia, deveria, ousaria ou desejava adormecer em paz, naquele momento de grande estranhamento da população brasileira?

Foram perguntas, apenas perguntas.

Nenhuma delas pedia, procurava ou buscava respostas. Foi somente o meu jeito de dizer, de mim e para mim, que a vida prossegue, que a alma é imortal, que os sonhos não morrem.

Sim, por mais que os solavancos da existência nos balancem e sacudam, há sempre uma certeza de esperança e uma esperança de continuidade, a soar dentro de nós como uma suave e meiga voz garantindo a estabilidade dos seres na procura permanente pelo bem e o belo.

Descanse, Eduardo, pois mais um frutuoso trabalho o espera, ali, logo à frente. E, por favor, não desista, jamais, de você mesmo.

A evolução como justiça, por Vinícius

Capa Vinicius sombraAo falar de Vinícius não estou me referindo ao poetinha de Garota de Ipanema e tantas outras produções lítero-musicais, cujo centenário de nascimento foi comemorado recentemente. O Vinícius, aqui, é Pedro de Camargo, um piracicabano que encantou quem o conheceu nas tribunas a falar sobre a doutrina que o arrebatou, cuja vida física terminou no ano de 1966. Leia e faça o download do texto “Criacionismo e Evolucionismo” clicando aqui.

Hermínio Miranda: opções temáticas em sua obra*

Hermínio corteUm dos escritores espíritas mais lidos da atualidade, também tradutor, Hermínio Correa de Miranda, nascido em 1920, tem um fôlego para pesquisas e leituras tão amplo que não seria de todo equivocado afirmar que é o escritor dos escritores. Equipara-se, talvez, neste aspecto e em certa medida a Ernesto Bozzano. Em sua obra, extensa e também densa, sobressaltam as referências bibliográficas, ao lado de suas preferências temáticas e de uma preocupação constante com as conceituações, que deseja colocar claras para melhor expressão do seu pensamento.

Contribui para isso a competente capacidade de ler em diversas línguas e uma memória privilegiada que Miranda demonstra possuir, valorizando sobremaneira o seu autodidatismo.

Tendo residido por algum tempo nos Estados Unidos, a serviço profissional, aprimorou ali não só os seus conhecimentos do inglês como também o gosto pela literatura profusa do país de Tio Sam, em especial as obras relacionadas aos temas de sua preferência.

Sem qualquer pretensão de analisar a obra completa de Miranda, podemos destacar quatro de suas opções temáticas: cristianismo (leia-se teologia), mediunidade, regressão de memória e reencarnação. Esta última, porém, parece estar muito à frente das outras, como atesta o prefaciador de um dos seus livros: “Em Doutrina Espírita, o ponto que mais o atrai é a reencarnação”.1 Mais do que isso, é também assunto frequente em praticamente toda a sua obra, pois, sempre que pode ele o introduz em reforço de seu pensamento.

Miranda não é um pesquisador do tipo Ian Stevensson ou Hernani Guimarães Andrade. Enquanto estes se preocupam com a análise dos fatos em seus detalhes comprováveis, quando trata da reencarnação Miranda se vale habitualmente de pesquisa biográfica com apoio em bibliografia consistente, em que estão presentes, inclusive, obras de história. É bem verdade que o seu livro mais denso sobre o tema – “Eu sou Camille Desmoulins” – escrito em parceria com o sujet da pesquisa, Luciano dos Anjos, conta com um outro tipo de apoio: a regressão de memória. É também verdadeiro o fato de utilizar as experiências com regressão de memória em outras obras sobre a reencarnação. Sua argumentação, entretanto, privilegia a comparação de dados biográficos, no que é rigoroso se assim podemos nos expressar.

O livro referido merece uma certa atenção, haja vista para as discussões que despertou quando de sua aparição no mercado, em especial por alguns detalhes curiosos: Luciano dos Anjos, sujet e personagem principal, é figura polêmica por suas preferências político-doutrinárias, em que se arrolam o discutível gosto pelo francês Roustaing (aquele do corpo fluídico de Jesus) e uma atuação extravagante no período em que esteve na Federação Espírita Brasileira. Estes fatos levantaram suspeitas sobre o livro, mas é preciso reconhecer a seriedade de Hermínio Miranda tanto na condução das pesquisas quanto na comprovação das informações obtidas durante os transes. Aliás, a polêmica surgiu antes mesmo da publicação do livro quando Luciano teria vetado a informação constante dos originais de que, em transe, se opunha à teoria roustainguista.

A seriedade de Miranda, nesta como em outras obras, é incontestável. Correndo o risco de ser contestado, avança ele na defesa de idéias próprias em alguns casos, inovando senão na originalidade do assunto pelo menos na utilização de novas designações para fatos conhecidos, como é o caso de seu “replay”, nome que atribui ao fenômeno observado por Ernesto Bozzano em “A Crise da Morte”, a respeito das lembranças que o indivíduo repassa no instante da desencarnação.

Seu pensamento é de que “o historiador ou historiógrafo não deve imaginar fatos inexistentes para preencher lacunas ou justificar a “sua” filosofia da História. Deve limitar-se a narrar os fatos, tal como se apresentam na documentação existente ou na melhor e mais verossímil tradição”.2

Ao lado de sua farta produção na linha da reencarnação, Miranda revela-se igualmente interessado nos fatos mediúnicos, privilegiado que foi pela convivência com alguns médiuns férteis em material de análise. Sua capacidade de registrar as informações obtidas por esta via, bem como de ampliá-las com pesquisas bibliográficas, permitiu-lhe escrever inúmeros livros, numa relação de que desponta a série Histórias que os Espíritos Contaram – nada menos de cinco volumes, três dos quais publiquei pela Correio Fraterno: A Dama da Noite, A Irmã do Vizir e O Exilado. Nestas obras surpreende o fato do autor trabalhar com a regressão de memória nos espíritos manifestantes.

Esta relação íntima com o plano invisível, que o autor diz ter durado algumas décadas em ambiente apartado do centro espírita, principiou por uma constatação: “Ao iniciar-se a tarefa, o conceito que eu formulava acerca dos espíritos era o dos livros que estudara durante o período de instrução e formação. Para mim, seriam entidades que, de certa forma, transcendiam a condição humana, quase como abstrações vivas, situadas numa dimensão que meus sentidos não alcançavam. Mas não era nada disso, os espíritos são gente como a gente! Sofrem, amam, riem e choram. Experimentam aflições, desalentos, alegrias, esperanças, tudo igual”.3

Também aqui, o material colhido por Miranda vai servir para as diversas outras obras que escreve, como é o caso, por exemplo, do livro Condomínio Espiritual, em que penetra com certa ousadia no terreno das ciências psicológicas, analisa a Síndrome da Personalidade Múltipla (SPM) e apresenta conclusões do tipo: “Se o leitor estiver a perguntar-se por que razão entra em cena a mediunidade nesta discussão, devo dizer-lhe que, a ser legítima a proposta de que são autônomas as personalidades que integram o quadro da chamada grande histeria (SPM), é de pressupor-se no paciente faculdades mediúnicas mais ou menos indisciplinadas, mas atuantes, que permitem não apenas o acoplamento de outras individualidades ao seu psiquismo, como manifestações de tais entidades através de seu sistema psicossomático” (pág. 26). Para deixar ainda mais claro o seu pensamento, Miranda afirma: “Pela minha ótica pessoal, a SPM não seria psicose nem neurose, mas faculdade mediúnica em exercício descontrolado” (pág. 252).

Ainda no plano das vidas sucessivas, Miranda acredita ser a reencarnação de um dos fiéis colaboradores de Martinho Lutero ao tempo da Reforma, tendo por esta personalidade uma inusitada admiração. Seus estudos sobre vidas anteriores incluem Lutero (este seria a reencarnação de Paulo). Isto talvez explique, entre outras coisas, o também grande interesse de Miranda pela teologia e, em especial, o Cristianismo, valendo destacar aí os dois volumes de As Marcas do Cristo e ainda Cristianismo: A Mensagem Esquecida.

Não se pode, portanto, deixar de mencionar neste ponto duas coisas: sendo afeito ao estudo da teologia, Miranda não se mostra um místico do tipo comum; apesar disso, é francamente partidário do aspecto religioso do Espiritismo, revelando-se aqui um dos poucos momentos de sua obra em que é contundente: “O Espiritismo está coerente com essa mensagem imortal, e, por isso, implantou-se tão solidamente sobre alicerce de três “pilotis”: ciência, filosofia e religião. Hoje, examinando os fatos do ponto de vista privilegiado da perspectiva, sabemos que o suporte religioso é o mais importante dos três”.4 Segue, portanto, a linha emanuelina, em que não se contenta apenas em apontar sua visão, mas destaca o que entende ser o aspecto primordial: o religioso. Eis que o confirma: “O Espiritismo (…) se resume, em última instância, em uma proposta clara e objetiva de esforço pessoal evolutivo para substituir religiões salvacionistas, dogmáticas e irracionais. Fé racionalizada, purificada e sustentada pela experimentação, continua sendo fé, mais do que nunca. Se isto não é religião, que seria, afinal?”.4

 Para finalizar, alguns aspectos curiosos em Hermínio Miranda

1. Ele não é um escritor que se poderia dizer popular. Conquanto em alguns instantes demonstre intenções nessa direção, sua linguagem o trai, seu estilo é denso e portador de uma seriedade do tipo que não se permite, leves que sejam, algumas pitadas de jocosidade. Às vezes tenta, mas não logra sucesso. Por isso, seria interessante analisar a razão da excelente vendagem de seus livros;

2. Miranda abusa das conceituações e dos esclarecimentos tendo por base os dicionários e enciclopédias. Tem-se a impressão de que escreve com o “Aurélio” e a “Britânica” ao lado, a eles recorrendo constantemente. Isso pode significar, por exemplo, uma tendência ao didatismo, ao mesmo tempo em que preocupação com o produto final da recepção do leitor;

3. Verifica-se, também nele, uma quase excessiva preocupação de convencer o leitor de que não deseja modificar sua opinião acerca de determinados aspectos especialmente ligados à crença. Ao analisar o conjunto de sua obra, este fato se destaca com certa nitidez, contrastando com a firmeza com que defende suas opiniões.

 Notas

1Abelardo Idalgo Magalhães em “De Kennedy ao Homem Artificial”.

2Reencarnação e Imortalidade, pág. 17.

3As Mil Faces da Realidade Espiritual, pág. 10.

4As Marcas do Cristo, vol I, Apresentação.

5As Mil Faces da Realidade Espiritual, pág. 271.

Bibliografia

Alquimia da Mente, 2ª ed., Lachâtre, 1994.

A Dama da Noite, Correio Fraterno, 1985.

A Irmã do Vizir, Correio Fraterno, 1985.

A Memória e o Tempo, 5ª ed., Lachâtre, 1996.

A Reencarnação na Bíblia, Pensamento, 1999.

As Marcas do Cristo, vol. I e II, 3ª ed., Feb, 1994.

As Mil Faces da Realidade Espiritual, 2ª ed., Edicel, 1994.

As Sete Vidas de Fénelon, Lachâtre, 1998.

Autismo, Lachâtre, 1998. Candeias na Noite Escura, 3ª ed., Feb, 1994.

Condomínio Espiritual, 3ª ed. Fé, 1995.

Cristianismo: A Mensagem Esquecida, 2ª ed. Clarim, 1998.

Eu Sou Camille Desmoulins, 3ª ed., Lachâtre, 1993.

De Kennedy ao Homem Artificial, 2ª ed., Feb, 1992.

Guerrilheiros da Intolerância, Lachâtre, 1997.

Histórias que os Espíritos Contaram, 4ª ed., Alvorada.

Lembranças do Futuro, Lachâtre, 1995.

Nas Fronteiras do Além, Feb, 1994.

O Exilado, Correio Fraterno, 1985.

O Que é Fenômeno Mediúnico, Correio Fraterno, 1986.

Reencarnação e Imortalidade, 4ª ed., Feb, 1991.

Sobrevivência e Comunicabilidade dos Espíritos, 3ª ed., Feb, 1990.

Swedenborg, uma Análise Crítica, Celd, 1991.
*Texto publicado originalmente na Revista da Cepa. Posteriormente, a pedido de Hermínio Miranda, foi incluído no seu livro “As duas faces da vida”.