Categoria: Crônicas

O que faria você?

 

CRÔNICA DA PEDRA

A pedra de Drummond foi posta no caminho e nunca mais de lá saiu. A pedra permanece, no tempo parece que cresce, como aquela outra que anda sobre um lago seco.

A pedra tem amigos, muitos! E ganha novos, diariamente, quando deveria perder, apenas perder.

A pedra tem braços, é ágil, e sua imobilidade está restrita apenas ao fato de ser pedra. Ela se alimenta, insaciável.

A pedra ouve através de mil orelhas de pouco cérebro e muita astúcia. Ela sabe de tudo o que se passa no poder, como forma de se alimentar à custa dos conchavos, somas e divisões, um modo antigo de dominação.

A pedra é grande o suficiente para fazer tropeçar todo aquele que pretende chegar ao cume da montanha a qualquer preço. E os toma por aliados e os enlaça com suas mil pernas de quilópode.

A pedra é pesada o suficiente para que não seja arrastada facilmente. Mas é também sutil em sua metamorfose, de modo a parecer uma rosa de bem-querer, perfumada e sem espinhos.

A pedra é vidente, cartomante, quiromante. Antecipa-se e prevê o futuro de novos e antigos aspirantes do poder. E ameaça de morte a todo aquele que pretenda passar ao largo de sua presença.

A pedra é capciosa nos contatos e contratos. A parvos, medrosos, interesseiros e astutos oferece sua ajuda intermediadora inevitável.

A pedra é do caminho, está no caminho e não há caminho sem a pedra. Ali, onde ela se posta, a serpente das fraquezas humanas se deita embaixo, vigilante.

Antes da pedra os sonhos, os planos, as promessas a cem por cento. Após a pedra o rescaldo e os escombros a quase sem por cento.

Porta a fora de todos os planaltos onde o poder se concentra há um vazio moral: é ali onde a pedra está posta. Ao fim do caminho mil olhos e braços e sonhos e bocas protestam, às vezes insistentes, às vezes cansadamente.

E agora, Drummond, o que faria você?

Romperia o silêncio da inação, apesar da pedra, ou quedaria, sem forças, por causa da pedra?

Não se esqueça, caro amigo: antes de decidir, lembre-se de que o tempo em sua irrefreável duração encara a vida e a morte enquanto passa. O mendigo do planalto de Herculano continua com seu chapéu à espera das moedas sonoras que as mulheres atiravam-lhe maternalmente.

Crônica para Eduardo

 

(Texto feito especialmente para o programa Realidade Paralela deste sábado, 16 de agosto de 2014, na Rádio Folha FM 96,7, Recife, PE)

 

Quando soaram as 12 horas e 51 minutos, eu me perguntei se Miguel Arraes, o avô, estava informado do retorno de seu neto.

E me perguntei mais:

Se Eduardo havia passado pelo túnel da morte com coragem e esperança?

Se seus mais próximos do outro lado estavam com os braços abertos para confortá-lo?

Se ele pudera perceber que o seu corpo espiritual continuava intacto?

Se havia luzes a clarear o espaço em que fora arremetido na beleza da vida?

Se os Espíritos sonhadores de um mundo melhor lhe enviavam mensagens de otimismo?

Se os políticos que o antecederam, já refeitos de seus próprios destinos, tinham palavras fraternas para adorná-lo?

Se seus sentimentos nobres eram suficientes para suportar a abrupta separação?

Se um sono, profundo e reparador, o acolhera no leito da nova etapa?

Se o momento, em toda sua solenidade, percebia o sopro da brisa fresca predizendo calmaria?

Se olhares silenciosos estendiam-lhe proteção contra quaisquer desassossegos?

Se uma sonata de Chopin ecoava pelos ares em acordes tranquilos?

Se, em meio aos prantos daqui, havia lá a presença compassiva e estável dos bons?

E, finalmente,

Se eu poderia, deveria, ousaria ou desejava adormecer em paz, naquele momento de grande estranhamento da população brasileira?

Foram perguntas, apenas perguntas.

Nenhuma delas pedia, procurava ou buscava respostas. Foi somente o meu jeito de dizer, de mim e para mim, que a vida prossegue, que a alma é imortal, que os sonhos não morrem.

Sim, por mais que os solavancos da existência nos balancem e sacudam, há sempre uma certeza de esperança e uma esperança de continuidade, a soar dentro de nós como uma suave e meiga voz garantindo a estabilidade dos seres na procura permanente pelo bem e o belo.

Descanse, Eduardo, pois mais um frutuoso trabalho o espera, ali, logo à frente. E, por favor, não desista, jamais, de você mesmo.

De Evangelho, comemorações e religiosismo

Sérgio, o meu inquisidor paulista, às vezes aproveitador contumaz das fraquezas humanas embora, ele próprio, de coração bom, toma o ano de 2014 para questionar – ou melhor, confirmar sua opinião – de que, quer queira, quer não, o Espiritismo tornou-se uma religião cristã a caminho de uma equiparação com os evangélicos e os católicos. E para justificar sua visão, diz-me aos ouvidos que tudo no movimento espírita está centrado na figura de Jesus e, se quisermos comprovar, até mesmo a música que se diz espírita, afirma ele, não passa de uma caricatura da música Gospel.

Como se não bastasse ter de aguentar o Sérgio, meu amigo da onça de outras existências muitas, tive que ouvir exatamente o inverso, ontem, de um amigo pernambucano, o Veríssimo. Ligou-me e durante uns bons minutos dos mais de oitenta que passamos no celular ficou ele me questionando porque sou contra o Cristo no Espiritismo. Pode, isso? Diz ele que nunca me viu falar em Jesus e que precisamos colocar Jesus na pauta, pois o Espiritismo privilegia o sentimento e sem Jesus não há sentimento.

A todos os que me questionam, dou a mesma resposta: minha posição no assunto é haurida na fonte piresniana: o Espiritismo não é, isoladamente, filosofia, ciência ou religião, mas um conjunto em que os três aspectos se firmam e se conjugam, formando um sistema de partes integrantes e inseparáveis. Não faz sentido, portanto, pensar o Espiritismo como uma filosofia separada dos outros dois aspectos, como não faz sentido também pensar o Espiritismo como uma religião que se sustenta por si mesma, à parte dos dois outros aspectos. E mais: não se pode pensar em religião sem ter bem claro que o conceito de religião no Espiritismo é outro, distante, muitíssimo distante, das práticas e dos comportamentos tradicionais. Falando claramente, o Espiritismo promove a ressignificação do sentimento religioso.

Se me refiro a Herculano Pires, devo trazer para o debate sua noção de virilidade como virtude do espírito evoluído, virilidade no sentido de força, energia, disposição e capacidade de julgar com justiça e liberdade. O ser viril de Herculano não se coaduna com o ser frágil que por temores incutidos por uma cultura religiosa tradicional se deixa prender às práticas e aos comportamentos que outra coisa não são que a repetição de um passado que o Espiritismo supera.

Meu amigo Veríssimo no seu preconceito não entende que alguém possa admirar o Cristo sem precisar estar se referindo a ele constantemente, pois, no cotidiano de Veríssimo o Cristo é reverenciado desde a primeira hora do dia à última, de forma expressa e cabal. Mas é para isso que Herculano chama a atenção, ao referir-se aos espíritas de sacristia como almas frágeis, ainda presas às práticas exteriores e aos temores. Herculano privilegia o Cristo da conversa com a samaritana junto ao poço de Jacó, que aponta para o futuro quando Deus será adorado em espírito e verdade, ou seja, no silêncio da intimidade e no exercício pleno do amor.

Tenho que dar razão ao Sérgio quando me diz que 2014 tende a aumentar o apelo ao nome de Jesus, uma vez que o ano traz a marca do sesquicentenário do “Evangelho segundo o Espiritismo”. Tudo caminha para uma centralidade – diz ele – na representação e não na análise criteriosa da mensagem do Cristo com base na relação do “Evangelho segundo o Espiritismo” com as demais obras da codificação, como quer Herculano.

A exacerbação do sentimentalismo contradiz com o sentimento sereno. A Coca-Cola é consumida muito mais pelo excesso de mensagens do que por suas propriedades alimentares. Uma excessiva campanha em cima do nome de Jesus sem a contraparte da racionalidade oferecida por Kardec tende a refletir-se numa confusão sem proveito para o crescimento do espírito.

Kardec é razão, diz Herculano, na certeza de estar referindo-se ao fato de que o amor, na sua expressão maior, é a síntese e o suporte da ciência, da filosofia e da religião. Os três aspectos em seu conjunto e não isoladamente.

Desaparecer? Não para sempre

O Espiritismo decretou: a morte não existe. Mas num universo planetário multicultural o decreto soa como peça conflituosa, pois se já não há espaço para decretos unilaterais em qualquer assunto político ou social, há que se considerar que a simples declaração de um valor que altera qualquer outro vigente – não raro, dominante – choca-se contra o muro das lamentações.

Recente estudo científico põe em cheque a morte cerebral[1], ao revelar que o encefalograma que determina a morte pode ser subvertido com uma nova espécie de coma e, em muitos casos, fazer voltar as atividades cerebrais. Ou seja, quando o indivíduo é dado como morto pela espada de Dâmocles do encefalograma, pode na verdade ainda estar vivo, o que, confirmado, demonstra que o a terrível imagem da linha contínua não é ainda a última palavra para a cessação da vida do corpo.

Ernesto Bozzano juntou inúmeros estudos e casos em um livro que Werneck traduziu para o português e construiu uma planilha com os principais fenômenos comuns quando da morte do corpo físico. Admirado e refutado, Bozzano e seu interessante “A crise da morte” tem sido muitas vezes confirmado com novos documentos mediúnicos e casos de pacientes que retornam do leito de quase morte e falam de lembranças de experiências vividas enquanto o corpo encontrava-se em coma profundo.

Um aparelhinho, de nome Tikker, dado como em desenvolvimento final, pretende calcular o ano, dia e a hora em que o corpo deve morrer e por isso já foi apelidado de “relógio da morte”. Seus inventores têm uma opinião diferente e afirmam que o aparelho servirá para os indivíduos melhor planejarem suas ações na vida e realizá-las a tempo, ou seja, antes que o dia final chegue.

Posto em discussão num grupo de espíritas, três entre quatro indivíduos disseram que não usariam o relógio. Preferem manter no escuro a luz da passagem para que o momento final chegue da mesma forma que ocorre a milênios, isto porque não basta acreditar que a morte é uma passagem e o desaparecimento da personalidade não é para sempre; é preciso ter condições sócio-psicológicas – Herculano Pires diria: educação – para enfrentar a morte sem temor e, se possível, com satisfação.

A cultura da vida e a contracultura da morte se debatem. A ideia de vida é complexa, tanto científica quanto culturalmente e os olhos do homem passeiam pela paisagem planetária numa perdida busca de respostas para a questão. Cada um formula o seu modo de crer, seja para o nada, seja para o existir, mas quando a morte deixar de ser um decreto e passar a constituir uma certeza, teremos substituído uma cultura de fundamental significado para um todo que se chama felicidade.

Os relógios que permanecem marcando apenas a hora já perderam o seu significado e se tornaram um elemento de adorno para o braço. A convergência digital é a pretenciosa busca da unidade e, incorporando ou não o objetivo do Tikker, caminha a incrível velocidade para dotar o ser de vida e de morte, pois sempre que revela uma arrasta consigo a outra. É inevitável. Ocorre que quando uma tecnologia perde significado, desaparece para sempre e só os homens de história se lembram dela, mas o ser humano pode ser uma realidade contínua. Depende dele.

Crônica da religião

Sérgio, esse carioca apaulistado culturalmente, tornou-se minha consciência dupla. Volta e meia me cutuca com questões das quais procuro me afastar, pelo menos em termos temporais.

Ontem, já tarde da noite e eu caindo de sono, ele saiu com esta: afinal, qual é sua religião? E sabendo que eu estava pra desligar o Skype, colocou um rock pauleira no fundo, invadindo meus tímpanos já enfraquecidos pelos anos.

Resolvi dar o troco. Liguei a tecla record do meu note e desandei a falar o que me veio na cabeça, mas não sem antes “exigir” que me ouvisse até o final. O que falei? Aí vai, com todas as vírgulas que o verbo sonoro não registra.

Você quer saber qual é a minha religião? Ah você quer que eu afirme que não tenho religião, é isso? Não vou cair nessa, não. Outro dia você colocou a questão da crença, agora quer meu conceito religioso. Eu lhe pergunto: existe diferença?

Não vou esperar pela sua resposta, que sei será evasiva. Sempre que eu contra pergunto você escapa pela tangente. Então, meu amigo, a resposta já está dada e está dada quando lhe disse, com ênfase: não há indivíduo descrente. Balela! A descrença é a palavra que esconde a crença, escapismo puro.

O sujeito acredita no nada e diz que não acredita em Deus. Acredita nas forças cegas da natureza e diz que descrê dos espíritos. Ora, ora, somos todos crentes em alguma coisa. Por que? Simplesmente porque se o indivíduo não crê, não age. É da crença que nasce a ação e não do vazio subterrâneo do suposto não crer.

Está me ouvindo, Sérgio? Você acha que estou falando só de Sociologia? De Psicologia? Estou falando do bom senso, amigo. A crença permeia o ser desde os tempos mais longínquos e é ela o ponto de partida da sua luta pela conquista da natureza.

Dá-se nome às crenças, dizemos crença nisso, crença naquilo. Observe bem, só o qualificativo muda, o substantivo permanece, o que significa ser a crença o alimento do sonho, da fantasia e da ilusão. E os sociólogos dirão que é também base para os laços sociais.

E o que é a crença senão o sentimento de religiosidade, daquilo que permite significar e ressignificar a vida? O indivíduo muda de crença e o seu sentimento de religiosidade adquire outra conotação. Isso é da natureza das culturas, do fato de serem mutáveis pelos contatos e pela dinâmica da vida.

Sou um sujeito de crença, Sérgio, e desconheço o que seja descrença como antônimo. Se deixo de crer em alguma coisa é porque passei a crer em outra. Não virei descrente, apenas substitui uma crença por outra, não importa as razões. Todos têm alguma.

Toda vez que perco a confiança num político, perco a minha capacidade de crer na capacidade de ele realizar meus sonhos sociais. Sem poder eliminar o substantivo, elimino o qualificativo que me incomoda. E sigo com os meus sonhos.

Lembra-se do pobre Augusto Comte? Incapaz de encontrar um antídoto às crenças, tentou uma religião meio às avessas. Queria substituir as crenças que a secularização imaginava ter sepultado por outra, o que não deixa de ser um paradoxo curioso. Tremeu ante a possibilidade de matar a árvore extirpando-lhe a raiz.

Você não compreendeu, ainda? Ora, Sérgio, não se faça de tolo. Dê à minha religião o nome que quiser, ou não dê nome algum. Diga apenas que eu não sei o nome, já que hoje não me persigno nas igrejas, não faço rogativas a santos nem promessas para conseguir graças.

Sou um tipo de religioso estranho à sociedade normatizada e polida. Acredito na imortalidade, na individualidade e no progresso contínuo, achando extremamente válido reencarnar, esse negócio de nascer e renascer sempre. E acredito, também, que as individualidades imortais, presas a um corpo denso ou livres dele, estão em permanente relação comunicativa.

Percebeu, amigo, que minha visão de sociedade mudou e contém em seu bojo uma outra dimensão, o que redimensiona as minhas crenças?

Ah, você ficou preocupado com o que eu vou dizer ao entrevistador do IBGE. Ora, se o encontrar por uma única vez antes de morrer e levando em consideração a insignificância da minha opinião, direi: ei, amigo, tem aí no seu formulário um item para religião sem nome? Então, bote espírita mesmo e vamos em frente, que eu não vou negar à doutrina que me ajudou a rever minhas crenças o meu imorredouro reconhecimento.

Ei, Sérgio, está me ouvindo? …

Reencarnar para viver

Quando a morte parece próxima, vêm-nos algumas preocupações. A possibilidade da extinção do corpo físico traz-nos dúvidas, incertezas, vazios, angústias e expectativas.

Minha amiga Neusa foi tomada de surpresa e aos 42 anos de vida viu-se fora do corpo. Os laços fluídicos se desligaram, de repente, numa tarde-noite de uma terça-feira comum. Como boa espírita, ela já havia pensado e conversado, muitas vezes, sobre viver e morrer, mas nunca sobre ela própria vir a desencarnar.

Ao ver-se na nova situaçãoo, uma impotência assomou-lhe o espírito: Neusa não podia mais retomar o corpo como tantas e tantas vezes o fizera depois de cada sono. A dor, incontrolável e a também incontrolável vontade de manter os laços físicos deram lugar a uma apatia psicológica tão grande que Neusa deixou-se conduzir pela cegueira e pela surdez, de tal modo que nada ouvia nem enxergava, senão a vida que lhe parecia retirada antes do tempo.

Vi-a, inúmeras vezes, indo de casa em casa; da sua, onde filhos e maridos lamentavam sua ausência, às dos amigos mais próximos. Encontrei-a, calada, o olhar perdido, os cabelos, lindos, agora em desalinho; o sorriso, espontâneo, substituído por um ar de imensa tristeza, de grande decepção.

Neusa frequentava minha casa, minhas reuniões. Sua presença era a certeza de uma noite intensa, questionadora, liberal e alegre. Quando assomava à porta com seu porte altivo, era impossível não percebê-la, pois dominava a cena e atraía para si todas as atenções.

Na academia e nas demais atividades profissionais, Neusa se realizava ao colocar em prática seus sucessivos projetos, todos com vistas a garantir aos seus três jovens filhos e ao marido a tranquilidade e o futuro.

Estava no auge quando a morte lhe sobreveio. Foi de um só golpe. Tomava chá, com dois dos filhos e o marido, sentada no sofá da sala quando, de repente, soltou um quase inaudível “nossa!”. O braço escorregou levemente para baixo e a mão quase deixou cair a xícara já vazia. A cabeça tombou de lado e todos os seus músculos afrouxaram ao mesmo tempo.

O telefone, a ambulância, o hospital e a Unidade de Terapia Intensiva. A esperança durou quatro dias, depois dos quais a família aceitou o veredito e decidiu pela doação dos seus órgãos.

A primeira vez que a vi depois da partida eram duas horas da madrugada. Encontrei-a no sofá de minha sala, olhando para o chão, sem nenhuma palavra, mas parecia querer dizer que não merecia aquela “sorte”. Senti uma dor imensa no peito por ver a amiga naquele estado. Sua impotência era também minha.

Percebendo que pouco poderia fazer por ela, caminhou lentamente até desaparecer. Ficou, assim, vagando, um bom tempo, até que as forças começassem a ceder e ela deixar-se levar como quem não encontra mais razão para nada.

Um tempo mais e ela retornou. Foi trazida até nossa reunião e ali ficou, ouvindo. Mais um tempo longe e já retornou melhor. Quis dizer algumas palavras, mas sua voz embargou. Seu semblante denotava então uma pequena retomada.

Quando, enfim, conseguiu traduzir seus sentimentos em palavras, em nova ocasião, fez questão de reconhecer a própria incapacidade de lidar com aqueles laços rompidos, com os projetos esvaziados e com a necessidade de manter certa distância da realidade da vida no planeta depois do desencarne.

Neusa reapareceu há pouco. Estava eu conversando com um espírito durante uma manifestação espontânea quando a vejo postada uns dois metros atrás. Olhava-me, sorridente, não aquele sorriso largo incontrolável, que resolveu suprimir, mas um sorriso tranquilo, sereno, natural.

Entendi sua solicitação expressa no olhar e deixei que ela por mim conversasse com sua amiga presente. Era o que desejava. Falou a ela por pouco, num tom coloquial e baixo, quase sussurrando aos ouvidos, como quem dizia da alegria de poder revê-la, dos sentimentos que as unia. E despediu-se com estas palavras:

– Saudade, amiga, muita saudade.

Após, retomou seu lugar no ambiente, dizendo-me que a saudade é um dos sentimentos mais presentes naqueles que partem e podem retornar ao convívio dos humanos. Saudade dos seus, das coisas, saudade da vida. Entendi sua menção como um pedido a mim para escrever, não propriamente sobre a saudade em si, mas sobre a necessidade, a premente necessidade de reencarnar para viver.

Neusa aguarda, sem previsão de tempo, na imensa saudade que lhe envolve.

Minha adorável Remington

Meu amigo Rizzini ostentava, orgulhoso, sua velha máquina de escrever semiportátil, sempre colocada sobre a mesa de peroba de seu escritório, onde se divertia noites adentro escrevendo suas peças literárias ou traduzindo os versos dos espíritos.

Rizzini resistiu ao surgimento dos PCs, notebooks, tablets e tudo o mais que a tecnologia implantou, pois confiava mais no papel e no carbono enroscados no cilindro do que nestas caixas misteriosas que fazem a delícia das novas gerações.

Acho, até, que meu amigo partiu sem convicção plena dos ganhos que os computers oferecem, talvez porque pensasse, com certa razão, que os esforços mentais para dominar os novos modos de comunicar implicam em abandonar, em parte, o tempo dedicado à inspiração que leva às ideias geniais.

Digo com certa razão porque os escritores e jornalistas forjados pela batalha diária da cultura mecanográfica tiveram que abdicar de um hábito prazerosamente adquirido para colocar em seu lugar o automatismo do ambiente virtual, onde as mãos não têm tato, o nariz não tem olfato, o ouvido não acompanha o toque-toque e a memória não é humana.

Lembro-me da ocasião em que sentei-me com Rizzini, numa tarde fria do inverno paulistano, para convencê-lo das vantagens de um mundo definitivamente virtualizado. Ouviu-me ele na sua paciência desconfiada por não mais do que quinze minutos. Depois, apontou para a minha velha Remington na prateleira e fez sinal de positivo. Treinamento encerrado.

Eu, como muitos de minha geração, não tive escolha. Fiz mil juras de amor eterno, acariciei-a com ternura, limpei tecla por tecla e aconcheguei minha Remington de tantas experiências num lugar privilegiado de minha estante, onde ainda hoje ela se encontra como um troféu olímpico.

O novo hábito traiu-me um dia. Confesso-o com constrangimento. De tanto dedilhar no teclado quase insonoro do note, não percebi que a velha amiga jazia ali, ao lado, mas se tornara imperceptível, como acontece com gente e coisas familiares demais.

Certa tarde, fui surpreendido pelo vizinho de andar do prédio em que morava. Quando abri a porta, ouvi-o, de chofre, perguntar: tens uma máquina de escrever para me emprestar por um minuto?

A palavra e o seu significado soaram estranhos por um instante cuja duração parecia eterna e durante o qual eu neguei três vezes ao cristo. Foi preciso um esforço inaudito para abrir o arquivo e recuperar da memória algo que parecia desaparecido, como se jamais eu tivesse ouvido a palavra ” máquina de escrever”.

Foi, digo-o envergonhado, uma infidelidade quase imperdoável.

Hoje, já plenamente recuperado daquele susto, carrego a tiracolo o meu tablet. E pra me refazer perante a minha velha e adorável Remington, instalei nele um app que reproduz em tudo e por tudo, ou quase tudo, as antigas amigas dos escritores e jornalistas.

O som das teclas, o arrasto do carrinho quando muda de linha, as letras mal impressas, o papel que sobe. É verdade que estou diante de uma imagem estática, cuja distância da realidade é incomensurável, mas a possibilidade de rever minha Remington simbolizada ali me faz muito bem.

Se não posso sentir o peso das teclas sendo acionadas nem sujar os dedos tentando ajustar a fita eventualmente travada, e mesmo sem poder colocar o papel carbono ou apagar com a borracha uma palavra mal escolhida, ainda assim me sinto feliz com a aquela visão virtual de um equipamento que por tantos anos registrou ideias e emoções fortes.

O mais importante, contudo, é saber que corro menos risco de esquecer que minha boa e velha Remington continua lá, no seu cantinho, a me lembrar que as tecnologias são frias e não podem apagar os encantos dos amores vividos.

Crônica do sebo

Iniciação reduzidaO sebo está no fim. O bom e velho sebo.

Não importa se vai demorar pra acabar, se não verei seu fim nesta presente “encadernação” ou na próxima. Penso que verei, no intervalo do próximo capítulo ou no seguinte. E isso me traz uma imensa tristeza, daquelas que não há como transferir nem mostrar.

O sebo é a sujeira da cultura, o que sobra do desprezo e o que já foi abusado. Mas, ainda assim, conhecimento em acúmulo, sobreposto, empilhado, jogado, humilhado e exaltado. É o estado da arte do passado que cheira mal e ainda assim atraente como a beleza feminina.

É a sorte de quem não tem, a salvação de quem já teve e o alívio de quem procura pela pérola impercebida, que de tanto passar de mão em mão se tornou a bola de gude que ninguém dá mais valor, aquela que procurava a burca para alegrar a criançada. “Bola ou burca”, gritava o parceiro; ganhou a primeira.

O sebo é o ponto de encontro da saudade e a esperança última de quem procura a obra rara. Foi passeando por um dos mais famosos da capital paulista que encontrei Oscar Wilde e Flamarion reencarnados na extrema pobreza de um canto onde baratas e traças caminhavam rebolando.

Olhei-os e me olharam. Vi no seu rosto encoberto por uma grossa camada de gordura o olhar piedoso de quem se desculpa com a divindade e pede clemência ao leitor desbaratinado que eu era. Fingi enamorar-me daqueles rostos maltratados, rotos, com cara de livro emprestado que jamais retornou ao seu legítimo dono.

Chamei o moço do balcão e pedi os livros, sem sequer perguntar o preço, que seria tremenda indignidade. Afinal, era tal o descaso com os volumes que ninguém, de bom senso, poderia imaginar que aquilo ali custasse alguma coisa muito preciosa.

Ele colocou os livros numa sacola plástica de segunda mão e me cobrou algo tão irrisório que tive pena de Flamarion e Wilde, mas aquilo me deixou tão indignado que resolvi valorizá-los como ninguém. Afinal, quem eram essas pessoas que os desprezavam depois de tanta luta para se fazerem importantes.

De Flamarion, uma edição portuguesa do século XX, em que o nosso conhecido astrônomo fala pra iniciantes, numa época em que a astronomia era quase desconhecida e ele, o autor, tinha lá seus interesses com os livros de Kardec.

Com Wilde foi diferente. Este me tocou. Sabe aqueles casamentos de conveniência que acabam dando certo? Foi o meu com Wilde. Encantei-me. Acho que por conta, em parte, de um trauma da juventude. Li-o, numa edição horrível do Clube do Livro dos anos sessenta, em papel jornal, sem nenhuma identidade com aquele autor pleno de ironias e imagens notórias, que retratava a sociedade inglesa com todo o despudor possível.

O mais incrível foi descobrir que Wilde, antes de escrever, tomara contato com as notícias do “new spiritualisme” e, em cima disso, escreveu duas novelas interessantíssimas. A primeira delas, o adorável fantasma de Canterville, aquele da mansão alugada pelo diplomata americano cético, que se viu, com sua família, enlaçado em tramas engraçadíssimas. Esse fantasma!

Vinguei-me do antigo tradutor brasileiro. Traduzi a novela e pus Wilde novamente em cena e vi quanto ele sorriu ao perceber que percebi que ele percebera o espiritualismo em voga. Não satisfeito, traduzi também a novela do Lorde Arthur Saville, onde um extraordinário quiromante está no centro de uma trama notável. Vale a pena ler, ah se vale.

Mas, retornando ao assunto do fim do sebo, quero dizer que os sebos, como tudo o mais, se tornaram virtuais. Hoje, você compra livros sujos, rotos, rasgados, sem sair de casa. Não precisa sujar as mãos, se abaixar, misturar-se às baratas e traças, nem regatear o preço. Basta acionar a tecla enter.

Sabe aquela aura do livro raro, aquele prazer de ficar ali, conversando sobre o valor espiritual do livro? Foi-se, não existe mais. Já não há mais o balconista com ar de sapiente, a contar histórias inventadas sobre a origem da edição rara e a falar daqueles escritores conhecidos que frequentam o sebo todo dia, garantindo que as obras valiam o que pediam.

Tá bom, vá lá. Sou saudosista! Mas e você, tem histórias tão gostosas pra contar?

Crônica do sagrado

Sérgio mora em São Paulo, mas o vejo sempre pelo Skype. Ontem, achei-o um pouco desenxabido, daquele tipo que fica olhando para o lado como quem quer fugir de uma conversa mais franca.

Interessante, o virtual já se misturou com o real de tal maneira que as pessoas estão repetindo na imagem o comportamento que expressam no face-a-face e o virtual está tão high definition que se torna quase natural perceber essa nova realidade.

Sem me conter, indaguei: que há contigo?

Desculpou-se três vezes, antes de abrir-se. Estava decepcionado, pois acredita na mudança, na necessidade da mudança, no dever da mudança, no movimento que implica mudança já que a roda da evolução só gira para frente.

Não entendi, disse.

Enfim, desabafou: hoje li a notícia do fechamento pela Feb do contrato para a publicação da Bíblia. Isto é o fim de toda minha esperança de transformação no destino da velha instituição. No que devo acreditar, qual é o significado do novo se o novo repete o velho?

Ouvi-o por cerca de dez minutos, a desenrolar o seu imenso corolário de justificativas. E vi sua face tensa, triste, doída.

-Não precisa repetir-me os seus avisos, falou-me. Agora entendo.

Sérgio calou-se. Foi minha vez de falar.

O problema do novo é o novo. É difícil representá-lo, ser o porta-voz dele, encarná-lo. Onde está o novo? No espírito? Mas o espírito para ser o novo não pode ser apenas retórica e argumentos.

O problema do homem que se autoproclama representante do novo é deixar-se ver apenas em sua complexidade imagética: nos olhos, na face, na expressão corporal, detalhes do visível recortado iconicamente.

O discurso do homem-imagem pode ser o discurso da esperança, mas quando a realidade o confronta vê-se que a esperança dele não é a do homem novo. A imagem padece de conformidade com (ao negar) a realidade, e não a nega apenas pelo conteúdo ilusório que lhe é próprio, mas pela ilusão acrescida, deliberada, intencional.

O novo não é naturalmente inclusivo, não está nem faz parte por ser o novo. Sua inclusão se dá pela ação que decorre da convicção firmada. O discurso é a promessa, que a imagem incorpora magistralmente, e muito mais no cotidiano tecnológico de nosso tempo.

Quando o homem-imagem-discurso descobre o prazer da fantasia e a espetacularização o projeta socialmente, apodera-se da ilusão imagética para aumentar o fascínio do outro, alimentando-a com a retórica do novo, da mudança, infundindo no outro a falsa esperança.

É por isso que o homem-imagem não pode mais prescindir desse signo icônico. Sem ele, ver-se-ia despido, nu, transparente e nem sempre o nu é arte.

Há duas maneiras de interpretar a imagem: uma mais segura e muito difícil, decorre da análise semiótica e para ser realizada exige especialização; outra, mais fácil e também mais dolorosa, chega-nos pelos veios pedregosos da desilusão. É quando a realidade contorna a imagem e se mostra em sua própria nudez.

O homem-imagem sabe que está sempre em perigo, pois participa de um jogo onde a imagem persegue a realidade e a realidade só se deixa aprisionar em seus nacos mutáveis. Quando um flagrante do real é registrado, no instante seguinte a realidade já não é mais aquela.

A imagem sobrevive na duração, a realidade existe para além do tempo. A primeira resulta intencional, a segunda está acima de qualquer suspeita.

Quando, pois, o homem-imagem, apesar de comprometido na origem com o novo, age para manter o velho como a Feb ao propor-se a editar a Bíblia, meu caro Sérgio, o que deixa à mostra? A impossibilidade de dominar a realidade.

Ah, não se esqueça de uma coisa: a ilusão é elemento intrínseco à imagem e não à realidade.

As tristezas e alegrias do morrer

Indigno-me quando companheiro de crenças fala da morte como o fato triste. Contento-me quando um indivíduo de outras perspectivas espiritualistas chora a morte. Compreendo quando um materialista convicto se coloca indiferente à morte e consolo-me quando alguém comenta a morte como partida.

A morte espreita a vida, mas a vida renova a morte.

Tenho diante de mim três fatos: a contundência do incêndio de Santa Maria, a partida de uma figura conhecida do esporte brasileiro e a despedida de uma dirigente de centro espírita pernambucano conhecida em nossos meios.

Três fatos, distintos, três reações, distintas.

Confesso que fiquei chocado quando recebi a notícia da partida da dirigente espírita. A mensagem quase desconhecia a vida e dizia, implacável, mais ou menos assim: comunico com muita tristeza que nossa irmã… faleceu hoje.

Uma agressão à vida, que atingiu em cheio a minha, já combalida. Como se pode desconhecer o dia seguinte do espírito, o alvorecer do seu acordar, os reencontros, as alegrias das redescobertas, a sensação de alívio do pesado fardo deixado para trás?

Que a tristeza preencha os espaços mentais dos carentes de vida compreendo. Na perspectiva do nada ou da dúvida, na relação inocente, ingênua com o destino, na incompreensão da imortalidade que preserva a individualidade, compreendo.

O inverso disso não, não compreendo.

A história da dirigente é admirável. Dedicação, serviços, diligenciamento constante da solidariedade, superação, procura permanente das virtudes, demonstração inequívoca da postura moral, senso de justiça, amor em crescimento. Em suma, vida. Como não comungar com alegria do futuro imediato que lhe reserva imensas satisfações. Como imaginar que uma partida assim deixa de ser vida?

A contundência do fogo de Santa Maria tem sua realidade própria. O fogo, a fumaça, o descaso público, a irresponsabilidade, a perda instantânea das vidas jovens, o desaparecimento dos sonhos, o drama terrível dos pais e mães, tudo isso gera um horror coletivo e pessoal. Num átimo, parece que o existir desaparece, e com ele tudo o que o futuro poderia reservar.

Compreendo a tristeza. A vida acaba sem acabar em instantes assim, foge, deixa à mostra nossas fragilidades, cria um espaço vazio que parece não poder ser preenchido, traduz perdas irreparáveis. Estamos todos tristes pelo ceifar da alegria. Não é possível ficar indiferente, nem deixar de gritar o grito da vida contra aqueles que fabricam no silêncio do lucro e da venda da consciência a morte sorrateira.

Jamais pediria aqui uma alegria devida acima. Seria substituir a consciência por uma cruel racionalidade.

A morte do esportista tem outras conotações. Ele se foi em idade considerada justificável, e partiu depois de amargar os efeitos de uma doença asfixiante. Mas a vida finda parecia a vida em começo.

Amigos lamentaram, amigos informaram, amigos souberam. Um houve que, excepcionalmente, refletiu sobre as relações que teve com o esportista, afirmando ter nele um exemplo de amizade familiar, e concluiu que mais valem as boas relações, porque a morte prova nada ter valor maior. A tristeza que refletiu não era a tristeza do desespero, mas da compreensão, da conformação, da perspectiva que se abriu.

A morte pode ser alegria, mas a alegria nunca será a morte. A vida não pode ser a tristeza e a tristeza jamais será a vida. A tristeza é morte, desaparecimento, fim, destruição, fatalismo. A vida é fim e recomeço.

Meu filho partiu sem conhecer a vida; meu irmão partiu na entrada da maturidade. A saudade, a separação, a ruptura não esperada. Antes, quando ainda imberbe, meu pai se foi. Muito tempo depois, minha envelhecida mãe. Mas quando meu irmão ressurgiu das cinzas, espontaneamente, para traduzir suas experiências do pós-morte, percebi que a vida permanece com uma força desconhecida dos humanos. E acertei minhas contas com a alegria e a tristeza.

Uma amiga partiu no apogeu dos sonhos, aos 44 anos. Padeceu, negou, desesperou, revoltou. Um sofrimento atroz de minha tristeza a causa. Anos depois, retornou calma, para reafirmar a vitória da vida e agradecer a paciência dos amigos.

Eu vi de longe as labaredas que consumiram o circo de Niterói, e de perto assisti as mesmas labaredas a consumir o Andraus e o Joelma em São Paulo. O desespero rondou-me e os gritos de revolta estiveram sempre presentes em meu espaço.

A vida é mais, muito mais do que aparenta e a morte é a negação da vida. A morte e a tristeza, quando se irmanam, tornam a vida uma morte. E mortificam quem morre. Eu poderia aumentar o sofrer de minha amiga com minha dor, mas resolvi estancar o meu sofrer ao entender que ela merecia continuar viva.

Eu sou filho do espiritismo de razão kardequiana. E você?