Categoria: Crônicas

Crônica da imortalidade

 

Se a vida não fosse finita o  mundo terminaria rapidamente em caos.

A certeza da morte e ela própria colocam freio nas loucuras da vida. A imortalidade não tem a mínima possibilidade. A morte põe termo ao vazio, à ignorância que se acumula pelo envelhecimento físico, à incapacidade de acompanhar o progresso e às novas tecnologias e às exigências de um mundo que não permite estagnar.

Fôssemos imortais estacionaríamos, inevitavelmente. Talvez regredíssemos ante o desespero da incapacidade de acompanhar a onda da criação permanente. Leia mais.

Crônica da imortalidade

 

Se a vida não fosse finita o  mundo terminaria rapidamente em caos.

A certeza da morte e ela própria colocam freio nas loucuras da vida. A imortalidade não tem a mínima possibilidade. A morte põe termo ao vazio, à ignorância que se acumula pelo envelhecimento físico, à incapacidade de acompanhar o progresso e às novas tecnologias e às exigências de um mundo que não permite estagnar.

Fôssemos imortais estacionaríamos, inevitavelmente. Talvez regredíssemos ante o desespero da incapacidade de acompanhar a onda da criação permanente.

Aqui, não temos escolha; morreremos naturalmente ou antecipadamente, mas morreremos. Pelo próprio curso da vida, que nos impulsiona para fora do corpo e depois nos devolve a ele, no silêncio sagrado do sentido de ser.

A imortalidade é um símbolo e como todo símbolo precisa de ressignificação permanente. Ela tremula ao sabor do vento que sopra dos sonhos, até ser descerrada pela voz do tempo, rota, puída. A ideia da imortalidade renasce a cada vagido das entranhas uterinas, anunciando a esperança, a razão das razões, a utopia e o desejo.

O ser surge para a imortalidade, vive e morre nela, não importa qual seja a noção que tenha dela. Qual onda possante que ruma para a praia, ela avança sobre a vida é se quebra na areia das ilusões, deixando um rastro branco de espuma evanescente.

Da sucumbência na imortalidade levanta-se o ser, com os olhos perquirindo e a boca sedenta de comprovação. A imortalidade desaparece, mas continua rondando-lhe o espaço mental, como a afirmar que é e não é e antes que compreenda esse volátil enigma, o ser se vê no túnel do retorno, silente, sem lembranças claras.

A vida segue a vida, a imortalidade segue apenas um pouco mais temporalizada pela duração. Mas enquanto dura, a vida cuida de reposionar o ser e convencê-lo de que mais do que ser imortal ele é vida e morte e vida e sempre.

O impermanente permanece, mas não dura; a duração desaparece entre uma conquista e outra. A imortalidade fica ressecada quando o ser tropeça nas próprias pernas e acorda dias depois perdido e se perguntando: mas então eu sou imortal? E responde a si mesmo: não pode ser!

A lição de ser logo coloca uma dúvida em seu colo carente: onde estou? É cruel acreditar no que não é e mais cruel é perceber o que não é, quando pensava que era. Qualquer raio de luz nesse instante grande confusão há de criar. Melhor permanecer entre brumas, porque se sabe que toda bruma é também permanente por breves instantes. Quando ela dissipa, não só costuma trazer um halo cálido, mas também a claridade.

E quando um estrondo ensurdecer seus olhos molhados, o ser poderá erguer-se, mesmo que trôpego, e iniciar um grito sem eco para confirmar: sim, imortal eu sou!!! Porque a imortalidade inevitável é dupla sensação: é ilusão da certeza e certeza da ilusão a confundir e esclarecer, destruir e reviver no claro escuro da duração.

Se sou sei que sou, mas se não sou posso ignorar. No meio da noite da caminhada acordo e medito; no fim do sono tenho dúvidas se devo acordar, despido da coragem que me enlaça quando caminho resoluto pelas alamedas sob o frescor da chuva miúda. Folhas mortas caídas me falam do fim, mas as flores róseas do ipê espalhadas me falam do sempre.

A imortalidade é breve assim, enquanto a vida dura a eterna permanência do inexplicável.

Eu defendo

 

Eu defendo causas.

Eu defendo homens que defendem causas.

Eu defendo homens que defendem causas que eu defendo.

Eu defendo ideias.

Eu defendo homens que defendem ideias.

Eu defendo homens que defendem ideias que eu defendo.

Eu defendo a liberdade.

Eu defendo homens que defendem a liberdade.

Eu defendo homens que defendem a liberdade que eu defendo.

Eu defendo a justiça.

Eu defendo homens que defendem a justiça.

Eu defendo homens que defendem a justiça que eu defendo.

Eu defendo o bem.

Eu defendo homens que defendem o bem.

Eu defendo homens que defendem o bem que eu defendo.

Por defender causas, ideias, liberdade, justiça e o bem eu defendo que a defesa das causas, ideias, liberdade, justiça e o bem seja feita pelo homem causal, ideal, livre, justo e bom.

Ah!

Eu defendo você.

Eu defendo homens que defendem você.

Eu defendo homens que defendem aquele você que eu defendo.

E por defender você eu defendo causas, ideias, liberdade, justiça e o bem!

 

Meu Deus!

 

Atenção, eu não disse: Meu Deus.

Meu Deus é isso, exatamente isso que você pensa, por lo tanto, não preciso descrevê-lo, porque seria uma repetição daquilo que tantos e tantos falaram e vão falar ainda.

Aqui, meu Deus! é a expressão do meu espanto, daí ser necessário um sinal de exclamação. Um basta; mais do que um é desperdício e sem ele a comunicação alcança o limite da entropia.

Sabe o que me espanta. Sim, você sabe: o desconhecido. Ou tudo aquilo que meus sentidos, cada um de per si e todos juntos não alcançam, embora eu fique achando sempre que estou na soleira da porta de entrada de seus domínios.

Meu Deus! É o que digo imediatamente após perceber que ultrapassando a porta, ela se fecha atrás de mim e a chave é jogada no Sena. Junto, então, meus sentidos, como soldadinhos de chumbo, e olho para frente.

Sabe o que vejo. Sim, você sabe: um novo labirinto pelo qual devo seguir e descobrir, por mim, como se fosse capaz, o único caminho que levará à próxima porta e assim sucessivamente.

E porque não desisto também você sabe: me afeiçoei ao desconhecido de tal maneira que antes mesmo de alcançar a saída do labirinto em que estou, já fico pensando na próxima soleira e no que poderá vir depois que a próxima porta se fechar atrás de mim.

Do primeiro espanto não guardei data, mas a sensação de medo que gerou a fraqueza que me atirou no solo que me pareceu gélido e onde fiquei jogado até à exaustão.

Também porque então não me matei de vez você sabe: porque não tinha nas mãos o poder, essa chave ambicionada que se torna metal líquido toda vez que pensamos tê-la. Sempre que a temos, ela imediatamente escorre entre nossos dedos, deixando apenas o cheiro ruim de matéria queimada. E de tanto me matar, descobri que em mim também se realiza a recomposição da parte cortada, de maneira que no sofrimento de cada desistência descobri que deveria seguir adiante, em pé.

Recorde-se, pois você já sabe, que o primeiro espanto acabou gerando o gosto pelo novo, pelo desconhecido e, para verdadeiro espanto, despertou-me para apreciar o sabor dos labirintos que se sucedem, interminavelmente.

Embora você saiba, preciso dizer que houve uma metamorfose, lenta, é verdade, mas real nos labirintos. Dos primeiros, totalmente escuros que só permitiam seguir por apalpadelas, aos atuais, claros, iluminados, multicores, que me fizeram perceber que o mistério não precisa necessariamente da ausência de luz para ser mistério.

Ah você sabe que a luz era mistério até deixar de ser e depois retornar a ele. Pois essa é a razão do meu espanto, do meu prazer de dizer: Meu Deus! É sempre assim, você descobre e domina, depois perde o poder sobre o dominado para a seguir descobrir e dominar novamente, na sucessão mágica de descobertas.

O que eu não sei se você sabe é que o desafio dos labirintos novos não é mais encontrar a rota da saída, que esta deixou de ser importante, mas é descobrir o segredo do labirinto; este é a chave da rota, porque quando o alcança você se vê, imediatamente, na saída do labirinto e com disposição redobrada para repetir: Meu Deus! Pois sabe que haverá um novo à frente.

E penso que você também não sabe é que há qualquer coisa no ar me dizendo que o futuro dos labirintos é deixar de ser labirintos. Há lógica nisso, pois a cada novo labirinto a claridade vai se tornando maior e começo a perceber que as linhas tortuosas que o formam estão lentamente desaparecendo. Antes, elas eram uma espécie de muro, largo e alto, de modo a impedir a fuga e a visão. Agora, são muros ainda, mas pequeninos, baixos, parecidos com as faixas de trânsito das nossas estradas.

Você sabe porque percebeu que, embora os muros tenham como que caído e por isso não precisamos nos preocupar mais em descobrir a rota certa, pois ela está visível ao olho humano, ainda assim não pulamos as faixas, porque o desafio é… o segredo.

Para finalizar, embora saiba que você sabe, digo que a plena liberdade está nos labirintos do nosso cotidiano. Posso pular as faixas, encurtar caminhos, mas para que se isso não me permite descobrir o segredo nem me leva ao final do labirinto. Por lo tanto, não me permite alcançar o pleno prazer e só me impedirá de chegar à próxima soleira que tanto desejo.

Se há algo em mim a causar-me ansiedade e expectativa é uma quase necessidade intensa de expressar meus espantos e dizer: Meu Deus! E isso tenho certeza que você só sabe agora.

Crônica da compra

Penso no pôr-do-sol, que ainda não passou pelo processo de troca. E em tudo aquilo que obedece ao comando do capital.

Penso na vida, que ainda não passou pelo processo de troca. E em tudo aquilo que obedece ao comando do capital.

Penso no padre, que ainda não passou pelo processo de troca. E em tudo aquilo que obedece ao comando do capital.

Penso no crente, que ainda não passou pelo processo de troca. E em tudo aquilo que obedece ao comando do capital.

Penso no santo, que ainda não passou pelo processo de troca. E em tudo aquilo que obedece ao comando do capital.

Penso no professor, que ainda não passou pelo processo de troca. E em tudo aquilo que obedece ao comando do capital.

Penso no aluno, que ainda não passou pelo processo de troca. E em tudo aquilo que obedece ao comando do capital.

Penso na consciência, que ainda não passou pelo processo de troca. E em tudo aquilo que obedece ao comando do capital.

Penso no político, que ainda não passou pelo processo de troca. E em tudo aquilo que obedece ao comando do capital.

Penso na sociedade, que ainda não passou pelo processo de troca. E em tudo aquilo que obedece ao comando do capital.

Penso e procuro aquilo que não passou pelo processo de troca e tudo obedece ao comando do capital.

Lá atrás, almas viveram o processo de troca. Aqui, à nossa frente, o mercado está a céu aberto. E tudo obedece ao comando do capital.

 

Crônica da violência

A reportagem de uma revista semanal sobre Eder Jofre é surpreendentemente boa. O nosso pugilista maior está na lona e, ao que parece, dando razão a Descartes e Rousseau ao mesmo tempo. O indivíduo e a sociedade juntaram-se para, sob o ícone do herói, atenderem aos instintos mais antigos da violência e divertirem a nação. Com a cumplicidade inconteste da mídia, essa vilã admirada, filha de uma civilização indecisa.

Rousseau reverbera a ideia de uma sociedade que corrompe o indivíduo que em sua origem é bom. Não sem certa dose de razão. Tinha eu meus doze anos, lembro-me bem, e estava assistindo a um jogo de futebol em minha cidade natal, quando o locutor parou a narração da partida para avisar, com inaudito entusiasmo, que Eder Jofre acabara de se sagrar campeão dos pesos galos. Desde então, o Brasil entrou no ringue e nunca mais saiu. E eu, sem nem tempo para pensar, arrepiado, entrei também.

Hoje, mais de cinquenta anos depois, percebo que ainda há violência represada em mim, pronta para eclodir ao mais leve aceno da mais valia midiática…

Sem esforço, retrocedo no tempo para encontrar três heróis brasileiros: Heleno de Freitas, Ayrton Sena e o nosso Eder Jofre. Digo nosso Eder Jofre porque, dos três, é o único que está entre nós e, também porque adotou o Espiritismo como visão de vida.

Heleno, conterrâneo e filho de família de classe alta, habitou o meu imaginário infantil. No final dos anos 1950 já era um herói que nunca cumpriu as etapas da jornada. Fora elevado ao topo dos grandes jogadores de futebol e, ali onde nascera e nasci, era o principal ícone a preencher o espaço de um tempo arrastado com histórias, umas terríveis e outras espetaculares. Mas caminhava, então, para o final de sua breve existência em que álcool, drogas e sexo cuidaram de atirá-lo no calabouço da loucura. O cérebro se desarticulou, o corpo tombou numa solidão fantasmagórica.

Ayrton Sena concentrou todos os anseios e todos os objetivos de uma nação dita carente de heróis. A mídia, essa voz uníssona na bondade dos quinze minutos de fama, juntou voz e música para dar vida ao herói em sua jornada nacional. Sena era veloz, a mídia é veloz, o povo gosta das soluções rápidas. Tudo isso junto tornou as manhãs de domingo do brasileiro uma atração a fortalecer os laços sociais. E Sena, mito e verdade, cumpria com rigor o seu papel voando nas pistas perigosas dos desejos, até escapar horrorosamente pela direita e ver-se atirado fora do corpo, a voar no desconhecido, sem um botão que o ajudasse a deter o espírito como costumava deter o bólido de aço. A nação, estarrecida, chorou e ainda chora, como poucas vezes no passado.

Eder Jofre, o nosso pugilista maior, espírita confesso, jamais viu o boxe como o lugar da violência, porque em seu espírito o outro não é o adversário, o inimigo, mas aquele com quem se pratica a arte dos golpes e das esquivas. Assim, se o boxe é arte, Eder foi nosso ator maior, sensível, verdadeiro bailarino do quadrilátero de cordas.

Mas nem Heleno, Sena e Eder conseguiram sobrepor-se ao complexo entorno de suas artes, onde os interesses se somam e cobram dos protagonistas o estrito cumprimento de um papel escrito em letras de ouro para ser representado em todos os palcos do espectro social. Fama, imagem e dinheiro escondem violências praticadas sem arte e sem regras pelos construtores de mitos, numa disputa feroz e permanente pelo comando dos atores, que lhes rende dividendos permanentes, até que eles, os mitos, são entregues, exangues, à sua própria solidão. Não poucas vezes, sem direito de decisão. Heleno sorriu para a fama que lhe foi oferecida sem perceber que sob o manto da glória escondia-se um tigre faminto; Sena, na sinceridade do seu despojamento, agarrou o volante, mas não percebeu a engrenagem que o mantinha; Eder, sem nunca ter beijado a lona, foi sem clara consciência duas vezes ao chão, de onde se ergueu carregando enorme decepção.

O corvo cumpre um papel na cadeia da vida; o homem-abutre se nutre da carne fresca dos sonhadores que se fazem artistas para alegrar a vida e embelezar o mundo.

Que Deus nos livre dos abutres humanos!

Crônica do Sérgio

Sérgio, esse amigo das madrugadas insones, resolveu deitar-se no sofá e fazer de mim seu analista, surdo, totalmente surdo à minha declarada incompetência para casos freudianos.

Leu, é o que imagino, nalgum sitio desses da Internet que oferecem sessões a x por hora e pensou em usar-me para o devido fim sem abrir a burra.

Fiz-me de leso e dei que estava ouvindo, mas não perdi a oportunidade de gravar a conversa para qualquer eventualidade Quantos minutos se passaram, sei não, só me lembro de ouvi-lo esbravejar do outro lado ao fim de certo tempo, exclamando: – Cara, você me deixou falando sozinho, seu canalha! E seguiu-se o tom de linha interrompida do Skype.

Deixei que o dia amanhece para dar-lhe uma lição de moral. Eram seis e meia da manhã quando ele apareceu novamente no Skype, acho que ainda meio sonolento, tanto é que atendeu à ligação sem nem ao menos verificar quem o chamava.

– Canalha, não, menos, disse-lhe com certo ar de arrogância. E completei: – Vê se aprende a respeitar os amigos, cara. E não diga nada, só ouça.

Então, narrei-lhe, tim tim por tim tim, tudo o que ele havia falado aos meus ouvidos na noite anterior. Quando tudo acabou, completei, com ar triunfal: – Pra seu governo, vou publicar tudo isso, goste você ou não goste. E olha, é melhor gostar!

Eis o depoimento de Sérgio. Resumido, claro, pois tem coisas que até mesmo um não psicanalista não revela.

– Hoje eu preciso desabafar e apelo para o seu bom senso de espírita para não me interromper. Eu tinha um amigo, cara, um amigo desses em quem você deposita total confiança e aprende a respeitar.

Eu o admirava pela inteligência, pelo equilíbrio emocional e pela família bonita que tem. Quando nos conhecemos, a empatia foi imediata. Estava eu num evento público quando ele se apresentou interessado em conhecer-me. Estava ao lado da esposa e da mãe, uma senhora simpaticíssima que logo disse ser admiradora dos meus trabalhos acadêmicos.

Dali para frente, estivemos juntos em muitas situações, atividades e trabalhos. Quando sua mãe morreu (vocês, espíritas, gostam do eufemismo desencarnou, não é?), penso que eu senti tanto quanto ele, pois fiquei por muito tempo com aquele sorriso terno em minha memória.

Pô, amigo, o cara agora foge de mim. Descobri isso. Levei um choque de 220 volts e se me lembro fico com o estômago embrulhado.

Depois de se aposentar, ele resolveu seguir carreira política e embarcou para Brasília de mala e cuia. Ganhou um cargo no governo e disse que ia utilizar sua experiência no Terceiro Setor para ajudar as ONGs e associações.

Só que o chefe dele – que coincidência, cara! – é velho conhecido meu, um daqueles sujeitos que descobrem que sua companhia não faz muito bem para as pretensões que ele tem e, por isso, deixam de falar com você.

Tô desconfiado que o meu amigo ficou muito influenciado por ele. Outro dia, tive que ir ao Ministério da Educação e aproveitei para marcar um encontro com este meu amigo, como faço sempre quando tenho que ir lá. Mas ele não apareceu. Na última hora, ligou e deu a desculpa de um compromisso inesperado. É o que ele tem feito nas últimas três vezes. Tudo igualzinho.

Tem mais. No telefone, ele só fala o mínimo necessário. Logo desliga.

Ouvi dizer que o chefe dele está oferecendo-lhe a possibilidade de substitui-lo assim que terminar o seu tempo ali. Será que isso lhe subiu à cabeça?

Meu Deus (cara, até parece que acredito em Deus), como fui ingênuo. Fico pensando, relembrando o passado e vou percebendo coisas que estavam à minha frente e eu nem desconfiava.

É, é isso. Ele já tinha esses projetos na cabeça. Claro, claro, por que eu não via?

Lembro-me do dia que ele pegou um jornal pelas pontas dos dedos, assim como quem tem asco da coisa, e desancou o jornalista, tudo porque tinha lá umas críticas à ONG que ele dirigia. Fiquei impressionado com a cena. Se o sujeito não respeita a liberdade, que mais ele não fará?

Meu amigo não quer mais minha companhia? Não pode ser visto em público comigo? Tem medo das minhas ideias? Desisto, cara, não consigo atinar com as razões. Se sou amigo, sou amigo, para o bem e para o mal. Não é assim que a vida ensina?

É verdade que tenho discordado de algumas decisões do Ministério da Educação e sei que elas passaram por ele. Queria dizer isso pessoalmente, mas parece que ele desconfia e foge sempre que marcamos encontro.

Teve um tempo que ele dizia querer minha companhia em algumas atividades da ONG, mas o mandato dele se esgotou e ele mudou os planos que tinha para o futuro. Por isso, foi para Brasília. Antes, eu já havia colaborado com a ONG, pois acho nossa sociedade muito injusta e egoísta e esse trabalho de solidariedade é muito importante.

Isso eu admirava nele. Ele se empenhava sem ganhar nada financeiramente, lutava, corria aqui e ali para obter apoios, insistia. Cara, ele fazia o que eu sequer tinha coragem de fazer, embora me encantasse com pessoas assim.

Crônica para Kardec

 

Como todos sabem, Sérgio é minha consciência crítica exterior. Já me acostumei com suas ironias e o constante prazer de me azucrinar. Mas agora foi quem se deu mal – ou bem, depende do ponto de vista.

Tendo lido em algum lugar que Kardec está superado, não demorou a buzinar no meu Skype e me perguntar se ainda acredito nele. E como minha resposta foi positiva – e nem poderia ser diferente – foi logo relembrando um dito jornal standard, daqueles antigos e grandes, com uma página inteira onde o autor dizia que a obra de Kardec estava vencida no tempo.

Esperei, pacientemente, que repetisse uma série de anotações, que, diga-se de passagem, eu já conhecia, para então colocar minhas observações.

Sérgio é assim, daqueles que gostam de não ser interrompidos quando falam, mas retrucam sempre que o interlocutor está com a palavra. Sabendo disso, num tom meio que autoritário, disse-lhe antes de iniciar a minha réplica:

– Agora você vai me ouvir em silêncio, caso contrário desligo!

Como o objetivo dele era apenas caçoar de mim, e eu sei disso, ouvi do outro lado um como que rosnado parecido com riso contido. Então, comecei o meu discurso.

– Sim, amigo, você tem razão. Kardec está superado por todos aqueles que não superaram as suas mais frágeis bases filosóficas. E você, com certeza, vai concordar comigo. Veja só.

  1. Você mesmo me diz sempre que se tem uma coisa que você aprecia no espiritismo é a teoria da reencarnação, por achar que ela faz sentido e por entender que sem esse sentido a própria natureza fica pouco compreensiva. Pois bem, que outra doutrina descreve com tanta informação e coerência a tese da reencarnação? Com certeza isso não existe nas doutrinas orientais, que a aceitam; não nalguns filósofos gregos, que assumem a possibilidade da metempsicose; não nos evangelhos, que falam do assunto de forma velada; não no espiritualismo norte-americano, que a esconde; não nos cientistas que se aventuraram a pesquisá-la e pararam nas evidências. Parece-me que o espiritismo continua sendo o grande manual da reencarnação do nosso tempo, ou estou enganado?
  2. Ouvi de você – e sei que não me desmentirá – que há alguma coisa de interessante na ideia das relações entre mortos e vivos. Lembro-me que você mesmo me disse que se eles existem, com certeza se comunicam com os que aqui ficaram. Ah você mesmo aventou a afirmativa de que isso quebra com o mito criado de que morto é morto e vivo é vivo, principalmente depois que um casal amigo seu viveu anos e anos o drama da perda de dois filhos quase simultaneamente. Você contou-me, lembra, de como o casal se reencontrou quando pôde falar com um dos filhos, numa conversa ao pé do ouvido do médium, na qual foram surpreendidos com revelações que abalaram os alicerces psicológicos deles. Logo depois, eles puderam voltar a uma vida minimamente de paz. Ora – pergunto-lhe – onde encontrar tantas informações sobre essas relações entre os dois versos da vida, senão na obra de Kardec? Quem trouxe outras novidades que dispensam as bases oferecidas pela obra organizada pelo mestre lionês? E não me venha dizer, como alguns néscios o fazem, que Chico superou Kardec, porque, se o fizer, direi que sem Kardec Chico jamais existiria, ouviu?
  3. Tá certo, você diz que lê em Kardec sobre Deus e fica perplexo com a falta de aprofundamento filosófico; você pretende ir mais longe, descer à profundidade e subir às alturas, mas esbarra na justificativa de impedimento colocada, que seria por conta das deficiências intelectuais nossas. Mas você não acha que a questão está toda distribuída na obra, na coerência de suas partes, na questão da justiça, do bem e do belo? Que a pergunta primeira – que é Deus? – não se esgota na última linha do último escrito de Kardec, mas se amplia ao infinito em todo o discurso espírita?
  4. Sei que você tem dúvidas sobre a tal de lei de evolução ou progresso; recordo-me de quanto lhe custa aceitar ou entender que o retorno ao corpo é uma fase do cumprimento dessa lei, especialmente – é você quem argumenta – porque a vida física está repleta de conflitos e sofrimentos, mas também de alegrias e esperanças – completo eu. Você diz que se pensar em mundos mais adiantados, então a reencarnação fica mais justa, porque lá, diz você, não haveria nada dessas mazelas todas que existem entre nós. Mas, amigo meu, como viver em comunidades tão justas se decaímos sempre que esbarramos com oportunidades de burlar a lei? Se o fácil nos é ainda muito atraente, muito prazeroso? Se ainda acreditamos que se podemos andar dez passos e alcançar o que queremos é melhor do que andar dez quilômetros, mesmo que o melhor seja andar dez quilômetros?
  5. Por fim – não vamos nos alongar demais, não é? – você mesmo me diz sempre que dá um crédito para as informações do espiritismo sobre a vida após a morte e que a ideia de imortalidade lhe agrada. Mas… tem muitas dúvidas sobre essas pinturas que fazem das colônias espirituais, que – diz você – mais parecem a reprodução da vida na Terra. Se é assim, que de melhor haverá por lá, pergunta. Aqui não vou deixar de lhe dar um crédito, afinal, a vida após a vida é ainda plena de conjecturas para todos nós. Convenhamos, apesar de estarmos muito mais informados sobre o depois da morte, mais do que no passado, este mundo de lá ainda nos traz muitas dúvidas e apreensões, por tudo o que o cerca. Então, só nos resta aguardar o futuro e constatar in loco quando chegar o momento. De qualquer maneira, temos material suficiente para refletir, não é mesmo?

Falei assim, num discurso monológico desenfreado. Estava surpreso com Sérgio ter me ouvido sem retrucar mil vezes, como era normal nele. Fiquei contente com minha autoridade ao ameaçá-lo lá no início. Mas o silêncio ao final da conversa se estendeu tanto que me desconcertou.

– Sérgio, você está aí? – perguntei, desconfiado.

Foi quando percebi que falara sozinho: Sérgio não estava mais ouvindo! Decepcionado, outra coisa não fiz que sair do aplicativo. Melhor tomar um copo d’água, pensei. Mas não deu tempo. Logo o sinal característico do Skype me chamava desesperadamente. Era Sérgio, de volta a pedir desculpa.

– Minha cachorrinha de 16 anos acaba de morrer. Tive que sair correndo para atender ao choro dela, mas deixei nossa conversa gravando. Logo vou ouvir calmamente tudo o que você disse; me aguarde. Vai ter troco!

E quando eu ia desligar, Sérgio, com certo ar de melancolia, perguntou:

– Os animais vivem depois da morte? Vou poder ver a minha Kika quando lá chegar?

 

Publicado em http://www.noticiasespiritas.com.br/2015/OUTUBRO/03-10-2015.htm

Tão perto, tão longe

fotoFerranFlickrO poeta falava ao jornalista sobre seu assunto mais íntimo: a poesia. Tornara-se a pouco imortal, quase ao mesmo tempo em que a matéria frágil lhe anunciara seus oitenta anos de perfeita destrutibilidade. O jornalista matreiro e experiente esquenta a conversa lhe recordando: você não acredita em nada além da vida, não é? Sorrindo um riso quase natural, espontâneo, o poeta recém-empossado na Academia Brasileira de Letras reflete brevemente e confirma: não, não acredito; até gostaria de crer, dizem que é melhor acreditar do que não acreditar, mas eu não consigo mesmo. Aqui se aplica bem a frase de Vinicius: “que seja imortal enquanto dure”.
Alguns minutos antes, o poeta revelara o seu processo de composição poética e deixara no ar uma interrogação a respeito das ideias, dos temas e mesmo das motivações para compor suas consagradas obras. Tudo vinha simplesmente, sem planejamento prévio. Eu não planejei a minha vida, nada, tudo veio naturalmente, diz. O jornalista contrapõe, então: mas a inspiração depende muito da transpiração, não é? Sim, afirma o poeta, mas eu não faço muito esforço, não. Claro, cabe a mim dar o tom, o estilo, apurar, trabalhar o texto. As coisas chegam e acho que esse é o caso, porque a pessoa não é poeta, escritor etc., se não nasceu com o dom. Não adianta querer ser uma coisa se o dom não está presente, se ele não nasceu com aquilo. O poeta fala de algo que para ele está no DNA, com a certeza de todas as certezas, porque é isso que o alimenta, é nisso que acredita.

O ser humano é um ser limite. Não digo limitado, apenas, mas digo que vive na fronteira da vida e da morte, do espírito e da matéria e de forma geral não tem a percepção clara disso. Está sempre esbarrando num e noutro lado da fronteira, muito próximo do crer e do crer, quase a descobrir o que um e outro lado apresenta, sem, contudo, ultrapassar a linha tênue que separa a matéria do espírito. Ele não é nem completamente um corpo, nem completamente um espírito. Isso vale tanto para o homem material, feito o poeta a crer no fim, na extinção total da vida ou término do ciclo, como vale também para o homem espiritual, que crê na continuidade, no depois, mas está sempre esbarrando nas dúvidas da vida material.

Não me agrada a ideia da existência de alguém que não crê; penso que o ser humano é aquele que crê sempre em alguma coisa e por crer, age, sonha, pensa, descortina. O poeta que revela sua incapacidade de crer em algo após a morte, na verdade crê na inutilidade da vida, na sua finitude total. Crê na imortalidade apenas da duração, daquilo que é válido viver, mas sem a perspectiva da repetição, do renascimento ou da permanência para além do limite da vida material. O futuro nele está sempre pressionado pela morte e só é válido pensar neste futuro até o horizonte próximo, após o qual não há nada mais.

Algo não muito diferente se passa com o homem espiritualista, que acredita na continuidade e no retorno, mas vive pressionado pelos conflitos do viver no corpo e anseia sempre colocar os pés no outro lado da fronteira, antes mesmo de completar a experiência do próprio corpo. Sua dúvida maior está em como viver na matéria sem perder a essência do espírito, o que o coloca na condição de não viver completamente nem a perspectiva do espírito nem a do corpo.

Nessa fronteira-limite os dois se esbarram sem perceber, e esbarram permanentemente, porque o homem de Herculano não é o homem-corpo, mas o homem-espírito, apesar de seus quereres e de suas negações. A inspiração do poeta é uma realidade, mas parte considerável de sua origem, de sua fonte – esta relação comunicativa misteriosa, a envolver os de cá e os de lá – para o poeta-corpo só alcança quem nasceu com o dom de ser poeta, escritor, dramaturgo, mas, na verdade, alcança a todos, em todas as áreas, onde a criação esteja sendo exercida por qualquer forma de arte, ou onde a vida humana consome-se no existente.

Dois humanos vivem na inspiração, da inspiração, com a inspiração. Não penso apenas em dois humanos distantes, um aqui, outro além; penso, também, em dois humanos visíveis, táteis, que estão ou não lado a lado, mas que habitam o mundo do pensamento e não apenas o do DNA. Porque o seu amigo do lado, que o abraça e dá bom dia é fonte de inspiração; porque o seu olhar capta as imagens da tristeza, sem perceber que forças o movem para que se dirija para o lado onde a tristeza se derrama. A sua inspiração o leva a criar e a criação o faz transformar a tristeza em possibilidade de alegria, sonhos, desejos, esperanças. Você vive ali, naquela fronteira-limite, tão perto e tão longe; perto demais para perceber; longe demais para se apropriar. A matéria e o espírito escorregam entre nossos dedos, no líquido fluido das ideias: vivemos no corpo buscando o imaterial, ou vivemos no imaterial desejando o corpo. O conflito é a nossa inconstância diária. Não sabemos ainda, não encontramos a segurança do corpo que abraça o espírito, nem do espírito que abraça o corpo. A fronteira-limite é ainda o nosso mistério.

Crônica do olhar

Olhares muitos espreitam muito. Olhares diversos, diferentes, inferentes, perversos, amigos.

Olhares que cobram, que julgam e acariciam. Que punem, que evitam, que consolam e animam.

Olhares que fotografam, grafam, graves. No tempo, o mesmo, talvez menor, em que a luz penetra e chega ao cérebro. E ali gravitam, tanto mais quanto mais fitam, para ficar.

Olhares libidinosos, que suscitam, citam, indicam.

Olhares mafiosos, ciosos, pomposos, a dizer, contradizer, sem refazer.

Olhares ideológicos, lógicos, a rodar como os ponteiros do relógio.

Olhares percepção, ágeis, frágeis.

Olhares distantes, errantes, que não pedem nem dão, mas de fato são.

Olhares perquiridores, cheios de horrores daquilo que não são.

Olham-me, a perguntar, a afirmar, às vezes para negar. Dizem o inaudível, o infalível, muito e nada.

Olhares sequestradores, inibidores, desinformados, quais vegetais modificados, numa ronda inquietante e amargurada.

Olhares volúveis, solúveis, que facilmente se desintegram ao contato da realidade.

Olham-te, certos de te ver, ignorantes dos mistérios de cada ser.

Na voz serena e mansa do bem, olhares são a paz, capaz, viril. Percebem, concebem, recebem.

No desconforto da insensatez, olhares são o vazio no chão da consciência.

Olhares que veem, olhares que só se veem, no quase indiferente significado do instante.

Olharam-me, dia destes, tentando encontrar-te em mim, certos de que ali habitas, dominante. E assim se fizeram crentes de um saber, escravos de uma ilusão, vítimas de uma imagem. Porque a liberdade não se dissolve completamente na liça das relações.

Olhares, simplesmente, olhares.

Quedo-me, perplexo, convexo, diante de tantos olhares dispersos, apesar das léguas mil seguidas nesta paisagem admirável.

Vejo, sem ver, vendo que veem, pouco, quase nada, contra a luz. Vejo que não veem e sem ver, sigo.

A jornada do olhar é longa, persistente. Perdi o ponto de partida e sequer visualizo, nesta névoa caprichosa, o de chegada. Mas vou.

O passado se fez, o futuro se faz.

Olha: lá está!