Categoria: Comunicação-Cultura

Nossas editoras entraram num caminho comum. E agora?

 

Recebo informações diárias das editoras espíritas, das distribuidoras, como todo mundo que colocou lá seu e-mail. Ofertas e mais ofertas diárias. O espantoso é que elas fazem o mesmo que as editoras comerciais: oferecem descontos, frete grátis e coisas do gênero. Precisam vender, o mercado está restritivo, a economia encolheu e o consumidor parece que sumiu.

É preciso pagar as despesas, ter lucro e… disputar o mercado. Num regime capitalista, o mercado sempre existiu, mas assume características próprias segundo o momento. Quando o primeiro livro espírita foi traduzido e editado no Brasil, o mercado para esse tipo de produto não existia: foi preciso desenvolvê-lo. Portanto, se concorrência havia, era com produtos similares, mas não diretamente. Nem por isso as vendas eram fáceis. Naquela ocasião, leitores formavam uma elite no Brasil e grande parte dos consumidores era, ainda, analfabeta ou quase, além do poder aquisitivo restrito.

Quando Chico Xavier surgiu pelas asas editoriais da Feb, o mercado do livro espírita já estava se estabelecendo. Sua obra deu um impulso grande a este mercado, mas, ainda assim continuava restrito e a Feb não tinha quase concorrência, o que implicava em produtos de custos baixos e embalagem deficiente, ou seja, capa, miolo e acabamento ruins.

Na década de 1970, a Feb dominava os principais títulos de Chico Xavier, mas havia perdido o domínio dos direitos autorais das obras a partir de então psicografadas pelo famoso médium mineiro. Chico libertou-se editorialmente de sua fiel escudeira e passou a publicar seus livros para editoras novas e algumas já com certo grau de experiência. O que, diga-se, a bem da verdade, despertou uma quase guerra pela conquista de seus títulos entre alguns editores.

O mercado, então, havia sofrido mudanças profundas e o consumidor de livros espíritas já fazia comparações entre o produto que adquiria e aqueles que eram oferecidos pelas editoras comerciais. A Feb descobriu que precisava mudar a qualidade do seu produto, caso quisesse continuar a participar do mercado com presença forte. Como já antevira Kardec muito tempo atrás e não por conta das questões de mercado, o conteúdo é importante, mas a apresentação tem sua equivalência.

Na década de 1980 observou-se um fenômeno ascendente no mercado do livro espírita: as três ou quatro editoras comerciais, de propriedade de espíritas, mas destinadas a produzir lucro para seus detentores começaram a enfrentar uma forte concorrência dos novos empresários interessados nesse mercado. Embora aqueles proprietários visassem lucros, tinham eles uma característica especial própria dos empresários que desejavam e dedicavam-se a investir muito mais interessados na expansão do conhecimento espírita, preocupando-se menos com sua sobrevivência enquanto empresários.

Três exemplos nestes ares rareados: A Lake, fundada por Batista Lino, passou para outras mãos após sua morte e deixou de lado, em parte, essa característica; A Edicel, de propriedade do dedicado editor Gianninni, que quase foi à falência por lançar, principalmente, a volumosa Revista Espírita comandada por Kardec, também mudou de condições após sua morte; e a Editora Calvário, uma espécie de apêndice da Editora Saraiva, viu seus dias encerrados com a morte de seu idealizador.

A década de 1990 vai consolidar o mercado do livro espírita. Inúmeros empresários vislumbram o potencial desse mercado e resolvem investir fortemente; algumas editoras já consolidadas criam departamentos e selos especiais para livros espíritas, contratando profissionais conhecedores desse mercado, todos espíritas. E os editores espíritas se vêm obrigados a adaptarem-se à nova realidade de um mercado altamente concorrente. A ideia do produto barato e de apresentação simples já não mais se sustentava frente às novas realidades.

Assim, os anos 1990 sepultam definitivamente a era romântica do mercado editorial espírita. A quantidade de editoras mais que triplicou e o receio de empreender neste mercado segundo as regras do capitalismo foi superado, até mesmo por aquelas editoras espíritas remanescentes da era romântica, que logo viram-se obrigadas a adaptarem-se para não desaparecerem.

O mercado do livro espírita está hoje profissionalizado, mas também estruturado segundo os melhores princípios da administração e aqueles que eventualmente teimam em se manter próximo da era romântica estão fadados ao fracasso. Setores antes descuidados sofreram profundas mudanças, tais como os do planejamento editorial, editoração, impressão e acabamento. Ao mesmo tempo, um dos principais gargalos que era a área de logística não só encontrou soluções rápidas com as mudanças tecnológicas, mas principalmente com o aparecimento de distribuidoras de livros espíritas nos moldes das melhores empresas do mercado editorial brasileiro.

Ao mesmo tempo em que a profissionalização do mercado editorial espírita trouxe ganhos para a disseminação social dos princípios doutrinários, impôs condições de concorrência dura. Profissionais de marketing, de gestão empresarial, de logística e outros aportaram nas nossas organizações editoriais e dotaram-nas de planejamento estratégico com vistas a alcançarem objetivos específicos do sistema capitalista, ou seja, o lucro. E quando se fala em lucro fica difícil apartar-se da mais valia.

As consequências disso é a busca pelo mercado, onde os termos lealdade e deslealdade encontram significados próprios e nem sempre em acordo com os princípios éticos defendidos pelo espiritismo.

Ações agressivas de marketing num mercado acostumado a uma espécie de caridade e desprendimento geram reações de desconforto; campanhas publicitárias planejadas segundo os princípios da persuasão e da sedução ocasionam constrangimentos, mas vão convencendo um público acostumado às mensagens pagas de uma cultura de consumo na qual foram educados.

O editor espírita olha para o seu público alvo como qualquer empresário do mundo capitalista e vê desejos, necessidades existentes ou potenciais, fazendo com que os cilindros das impressoras girem no ritmo das pesquisas indicadoras dos números da demanda. Enquanto o editor da era romântica se preocupava com o equilíbrio da oferta, especialmente relativo aos títulos, o editor do novo mercado imagina, principalmente, a capacidade do público de consumir. Qualquer encalhe será considerado danoso para o negócio.

Estamos no mundo do capital, em que editores, distribuidores e pontos de venda (livrarias) pressionam uns aos outros em busca do máximo lucro. O editor planeja o lançamento de uma nova obra e consulta seus distribuidores, oferecendo-lhes descontos progressivos; os distribuidores, munidos de instrumentos de negociação poderosos, condicionam a compra a uma operação casada: publicidade em seus catálogos de livros a preços não poucas vezes salgados. O quadro coloca o editor espírita diante de uma situação sem saída; precisam dos distribuidores, mas sabem que o custo do produto precisa considerar essa situação, uma vez que seu poder de alcançar diretamente o público consumidor é diminuto.

Na ponta encontram-se as livrarias, com suas exigências de margens de lucro que muitas vezes as próprias editoras não possuem. O seu poder de negociação é também considerável e os descontos sobre o preço de capa tendem a se situar na faixa de 30% a 50%, quando não exigem, como certas distribuidoras, receber o produto em consignação, situação em que nada precisam investir para vender. Os riscos do negócio estão todos nas mãos do editor.

As condições impostas por um mundo capitalista costumam ser, e são, altamente danosas quando se trata de egoísmo lucrativo. Já não se precisa mais de pesquisas para saber que o público consumidor de livros espíritas dá preferência aos romances e são estes que dominam o atual mercado editorial espírita. Na ânsia da sobrevivência comercial, as editoras disputam os médiuns e estes parecem brotar das entranhas do fenômeno numa profusão incalculável, com obras de conteúdo, o mais das vezes, duvidosos, para não dizer do estilo quase digital de seus textos sem brilho.

As mensagens publicitárias persuasivas que os apresentam ao consumidor falam de um conteúdo rico de dramas e sonhos, em contraste com a preocupação dessas obras de apresentarem, o mais das vezes, tramas enlaçadas em situações reencarnatórias submetidas à lei de causa e efeito que beira à de Talião. Aí, o equilíbrio dos princípios que harmonizam a vida se esconde sob o tapete da ilusão, ajudando a criar quadros traumáticos em lugar de oferecer esperanças e consolações baseadas na razão espírita.

O mundo literário espírita atual trabalha para formar uma cultura do livro consumível, com tramas ficcionais frágeis e ingênuas. O espírita forjado nessa cultura ignora por completo a literatura clássica e não sabe dizer quem foram Leon Denis, Gabriel Dellanne, Alexandre Aksakof, William Crockes e outros tantos, que ajudaram a traçar as bases da razão espírita. Até mesmo autores contemporâneos de envergadura, como Deolindo Amorim e J. Herculano Pires, vão sendo paulatinamente esquecidos diante da fúria editorial dos romances mediúnicos.

Resta, com muita sorte, as obras de Kardec, mas nem todas. Por claras razões preferenciais e afetivas, “O evangelho segundo o espiritismo” desponta como o livro básico mais vendido e, portanto, editado, vindo na sua esteira, muito distante, “O livro dos espíritos”. Já “O livro dos médiuns” entra numa falta de interesse editorial junto com “O céu e o inferno” e “A gênese”, por causa do pequeno público desejoso de seu consumo. Mas é preciso deixar patenteado que “O evangelho segundo o espiritismo” não existe sem “O livro dos espíritos”, o que não é fácil convencer, assim como não existe um “espiritismo segundo o evangelho” como – pasmem – parece se cristalizar dia a dia.

Eu não culpo os editores, distribuidores e livreiros espíritas por esse quadro caótico da literatura espírita. Eu me culpo a mim mesmo por acreditar teimosamente que a era romântica deveria andar lado a lado com o capitalismo, reduzindo a desenfreada busca pelo lucro e a mais valia e colocando um pouco da alma humana na ingente tarefa de oferecer também conhecimento ao público ávido de distração. Enfim, não me perdoarei jamais por pensar assim.

Cinema: partida e chegada. E o desafio Tornatore

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Roman Polanski e Gérard Depardieu protagonizam o suspense de Tornatore.

A temática espírita esplendidamente colocada nas telas da arte do real por um profissional reconhecido pela crítica.

A sala estava em silenciosa expectativa. Meus alunos de Teoria da Imagem deveriam resolver dois mistérios: primeiro, como assistir com atenção um filme que se passa a maior parte do tempo num quadrilátero diminuto e, segundo, qual é o discurso final do filme, a partir da localização do fator intencional do conhecido diretor Giuseppe Tornatore.

“Uma Simples Formalidade” tem sido um filme desafiador há mais de vinte anos. Diminuta porcentagem daqueles que o assistem consegue atinar com os propósitos do autor e com a realidade que apresenta. Todos concordam que se trata de uma excelente produção daquele que é considerado um dos grandes cineastas italianos da atualidade; ninguém duvida de que os dois principais protagonistas da história – Gérard Depardieu e Roman Polanski – têm um desempenho extraordinário. Mas o filme não foi sucesso comercial e costuma não aparecer entre os mais destacados de Tornatore.

De fato, trata-se de um filme inapropriado para consumo de massa e, talvez por isso, os espíritas não tenham se interessado por ele como podiam e deveriam, pois Tornatore faz um filme doutrinário sem dar na pinta e o faz com maestria, arte e imagens.

Os críticos e admiradores da arte do real produziram muitos textos sobre o filme de Tornatore, mas são na maioria inconclusivos, alguns lindamente ordenados, com abordagens psicológicas profundas, mas sem chegar a lugar algum, porque para chegar onde o autor pretendia seria preciso adotar, até mesmo por ética intelectual, uma ideia que não é apreciada pelo mundo acadêmico: pertence ao mundo do sagrado.

Entremos no filme: estamos numa delegacia de algum lugar isolado da Itália. Velha, suja, com pessoas estranhas. Frente a frente surgem o delegado, durão e o tempo quase todo irônico, e um escritor, suspeito de assassinato. O papel do delegado é fazer o escritor confessar o crime e o do suspeito é negar, negar, negar até…

Muitos elementos simbólicos estão presentes na imagem e a maioria deles, quando identificada, só o é depois que o filme acaba; às vezes – e não poucas – mesmo depois do fim o espectador sai sem perceber sua presença e seu significado específico. Ignorados, desconhecidos, esses símbolos acabam remetendo ao lugar comum do suspense, da simples trama policial, escondendo os sentidos e os fins pelos quais foram ali colocados.

Vejamos alguns:

  1. Chuva – permanente e torrencial, seu barulho é uma espécie de índice da necessidade de confessar, aceitar e assumir o crime cometido. Quando isso se concretiza, a chuva cessa imediatamente e o novo dia nasce.
  2. Delegacia – tudo ali é sinal de conturbação. A mente do acusado está confusa como o lugar onde se encontra: chove lá fora, dentro também por conta de inúmeras goteiras, que na verdade são buracos na mente por onde passam frações de lembranças dos fatos recentes. A delegacia é o espelho de uma consciência perturbada.
  3. Máquina de escrever – o depoimento infindável do acusado é registrado no papel pelo escrevente. O barulho das teclas e do carrinho da máquina no seu vai e vem apressado está avisando que a memória pode liberar a informação que está sendo exigida pelo delegado.
  4. Papel – as folhas de papel são substituídas na máquina de escrever numa sucessão contínua, mas elas permanecem em branco, assim como a memória do acusado. Elas são como um aviso do vazio a ser preenchido pelo escritor em apuros.
  5. Delegado – símbolo social da segurança, está ali não como condutor de um inquérito simplesmente, mas como um magistrado que sabe por antecipação da culpa do acusado e cujo veredito está pronto. É preciso, no entanto, levar o acusado à confissão, pois só a partir dela ele poderá ser compreendido.
  6. Vinho – símbolo de vida (o Espiritismo tomou a cepa como ícone), surge aos olhos do acusado que o sorve aos goles frenéticos. A seiva da uva age para diminuir as resistências conscienciais do acusado. Sendo simbólico, não é concreto mas imaginário. Logo desaparecerá junto com os demais símbolos.
  7. Inundação – no clímax da negação pelo acusado a chuva aumenta e os baldes, espalhados pelos diversos compartimentos da delegacia, são insuficientes para coletar a água das goteiras. É preciso tirar a água de dentro antes que tudo se alague, como quem retira da consciência o remorso e a dor resultantes do crime.
  8. Onoff – esse é o nome do escritor. Seu simbolismo é evidente e denuncia a intenção de Tornatore. Ligado/desligado, significa vida e morte. O escritor está vivo mas já morreu sem, no entanto ter perdido a vida. Quando foi preso ele estava On, vivo, mas queria estar Off, morto, por isso corria, sempre para frente, como quem foge de On ou como quem quer se afastar das lembranças perturbadoras dos últimos acontecimentos.

A dupla função de delegado e juiz atribuída por Tornatore ao personagem de Polanski fica clara na forma pela qual ele conduz o depoimento de Onoff. Ele tem ciência dos acontecimentos e de tudo o que diz respeito à vida e à obra do Onoff, conhece de memória os livros que este escreveu e pode reproduzir nos mínimos detalhes cada um. De posse desse arsenal, cerca de todos os lados o depoente para não deixá-lo dormir nem escapar de si mesmo e, enfim, levá-lo a assumir o crime.

Onoff se recusa a acessar a memória e deixar subir à tona os fatos ali arquivados, mas o delegado coloca-os diante dele na forma de centenas de imagens que o perturbam. Pouco antes, ao olhar pela janela, Onoff as havia visto chegar em um saco imenso, mas confundiu o conteúdo do saco com o de um corpo, possivelmente o de sua vítima. Tomando de algumas dessas fotos lembranças, Onoff se desarma, perde as resistências, cede.

Aos poucos, clareia o dia, cessa a chuva, a delegacia e os seus ocupantes entram num momento de sensível calmaria. Onoff está arrasado e ao mesmo tempo consciente de ter cometido o suicídio. É hora de ir; agora é ele que não quer deixar para traz as lembranças; insiste em levá-las consigo. O lugar que o aguarda não é uma cadeia ou presídio de segurança máxima; talvez uma clínica psicológica.

Antes, porém, de deixar a delegacia, uma surpresa: um novo acusado ali aparece em situação semelhante à qual ele chegou. Curioso, toma conhecimento de que todos os que lá trabalham, o delegado, inclusive, chegaram ali da mesma forma e pelo mesmo motivo: o suicídio.

Onoff segue em frente; agora é tão-somente ON. E o desafio Tornatore se explica: fez ele sua interpretação espiritual dos suicidas e de sua chegada ao além após colocarem fim em seus corpos físicos. Sob a capa de uma perturbação mental de fuga da realidade, escondem e se escondem da verdade, mas precisam dela para se livrarem da tormenta que os aflige. E quando a enfrentam, depois de encurralados, acordam mais leves diante da possibilidade de um outro recomeço.

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PS – Filme para ser visto em tela grande ou, em casa, em DVD. Mas está também disponível pelo Youtube em: https://www.youtube.com/watch?v=IYelkG2pkdc

A Abrade, oficialmente, está acéfala

 

Reproduzo a entrevista que acaba de ser publicada pela Gazeta Kardec, editada e produzida pelo jornalista Carlos Barros em João Pessoa, Paraíba, em sua edição de setembro 2015.

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KPC – O que a opinião pública espírita ainda não sabe sobre a Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo?

Wilson Garcia – Tendo sido fundada em 1976, durante o Congresso de Jornalistas e Escritores Espíritas de Brasília com o nome de Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas, com a sigla ABRAJEE, teve ela o seu momento de pujança e depois de declínio, chegando ao ponto de quase desaparecer. Isso ocorreu após o IX congresso, realizado em São Paulo em 1986 e as causas dessa situação eram de visão de suas funções, de gestão deficiente e de ingestões políticas externas. Quando nada mais havia a fazer para mantê-la no seu formato original, os remanescentes da diretoria convocaram uma assembleia para a qual foram convidadas as vozes discordantes, numa atitude deveras fraterna e, assim, em 1994, foi ela transformada em Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo, com a sigla ABRADE. O novo modelo contemplava o estímulo à fundação de associações estaduais como instituições jurídicas autônomas, denominadas ADEs, a quem caberia as ações de comunicação em sua área de atuação e a formalização de laços com a ABRADE e seu Conselho Nacional que funciona como uma espécie da instância maior, cabendo às ADEs a eleição da diretoria executiva da ABRADE e a esta as ações de nível nacional.

A ABRADE, como a sua antiga ABRAJEE, alcançou o seu apogeu, realizou dois congressos nacionais e, depois, encontrou o seu declínio pelas mesmas razões que levaram a ABRAJEE ao ostracismo. Atualmente, a ABRADE é uma entidade fantasma, clandestina, que se encontra na ilegalidade total, pois não renova sua diretoria, não reúne as ADEs remanescentes (são poucas, quatro ou cinco), não atualiza seus documentos legais, em suma, pode ser objeto, a qualquer momento, de uma penalização pelos órgãos governamentais competentes.

Para completar esse quadro, a ABRADE continua se fazendo representar, por livre e espontânea decisão de uma só pessoa, junto ao esdrúxulo Conselho Nacional das Entidades Especializadas da Federação Espírita Brasileira, recentemente fundado, o que implica a própria Feb com a ilegalidade da ABRADE.

KPC – O que levou você analisar com riqueza de detalhes as discrepâncias político-administrativas da ABRADE no movimento nacional?

Wilson Garcia – A resposta a essa pergunta pede um esclarecimento. Fui eu, junto com outros amigos espíritas, participante da ABRAJEE. Fui seu vice-presidente por dois mandatos e participei fortemente na sua mudança em 1994. Senti-me e sinto-me responsável pelos seus caminhos e descaminhos, mas, principalmente, pela oportunidade que a ABRADE tem de preencher o vazio enorme da Comunicação Social Espírita, que é feita, quando feita, por uma maioria de indivíduos de boa vontade, mas carentes de conhecimentos sobre as Ciências da Comunicação. Infelizmente, depois de algumas boas gestões iniciais, a ABRADE foi assaltada por indivíduos vaidosos, interessados em títulos, despreparados para as funções, divisionários. Isto culminou com as ADEs precocemente decrépitas e algumas desaparecendo. Com a ABRADE já no estágio de ilegalidade, sem diretoria efetiva, ainda assim ela se mantinha ligada ao CFN-Conselho Federativo Nacional da Feb, que, então, criou o esdrúxulo Conselho das Entidades Especializadas, onde a ABRADE permanece.

Assim: 1) A presença ali da ABRADE é um absurdo do ponto de vista legal e institucional; 2) O Regimento Interno desse conselho é composto de normas que ferem frontalmente o ideário de independência, autonomia e liberdade da ABRADE e esse regimento só foi apresentado na ABRADE depois de votado e aprovado, ou seja, os poucos remanescentes da diretoria da ABRADE, então, sequer puderam se manifestar em relação ao regimento e tiveram que engolir um documento que jamais seria aprovado se fosse trazido no nível das discussões de projeto. O responsável por isso tem, até hoje, assento no Conselho da Feb, fala em nome de uma ABRADE que não mais existe.

Recentemente, houve uma ação, coordenada por um ex-presidente da ABRADE, Gezsler Carlos West, no sentido de movimentar os interessados em reconstruir a ABRADE. Durante três longos anos fez ele gestões nesse sentido, mas acabou desistindo por perceber que não há, da parte dos poucos indivíduos que ainda ali estão, qualquer interesse nisso. Esta é a realidade nua e crua.

KPC – Em sua opinião, a Entidade comprometeu a sua identidade e independência institucional quando se juntou ao Conselho Nacional de Entidades Especializadas, controlado pela Federação Espírita Brasileira?

Wilson Garcia – Qualquer profissional, especialista, pesquisador ou indivíduo da comunicação sabe que a atuação na área não prescinde do exercício dos princípios da liberdade que permeiam a independência na ação comunicativa. O CFN e o Conselho das Especializadas estão contaminados de duas maneiras: 1) por princípio, ou seja, pertencem à Federação Espírita Brasileira e são por ela dirigidos de maneira autocrática na forma e no conteúdo; 2) seus Regimentos Internos, que são de fato documentos legais, outorgam ao presidente do Conselho, que outro não é que o presidente da Feb, poderes totais, absolutos, superiores aos dos próprios membros dos Conselhos, pois pode aprovar ou vetar qualquer decisão, seja para a aceitação de novos membros, seja para questões gerais. Assim, as instituições participantes não possuem autonomia em relação à Feb enquanto membros dos conselhos, apenas no âmbito regional de sua atuação, ainda assim submetidas ao julgamento da Feb, que pode cassar-lhes a presença caso julgue de interesse da Feb. Ora, que poder teria uma entidade de comunicação de estabelecer análises críticas referentes à Feb ou a quaisquer outros assuntos do movimento espírita comandado pela Feb? Nenhum. Filiando-se ao conselho, aceita-se seu Regimento e submete-se a ele. Simples. Abre-se mão do princípio fundamental que rege a liberdade de expressão e pensamento, o bem mais sublime que a doutrina espírita nos oferece.

KPC – O que dificultou a ABRADE, ao longo dos seus quase 20 anos de existência, a pôr em prática metas e diretrizes adequadas ao movimento de divulgação, tendo como base uma bem elaborada Política de Comunicação Social Espírita?

Wilson Garcia – Qualquer pessoa pode exercer ações comunicativas em seu nome e de forma pessoal, mas ninguém, de bom-senso, pode admitir falsos princípios do tipo “tudo é comunicação”, porque, ao fazê-lo, assina atestado de ignorância do que é comunicação. As pessoas não precisam obrigatoriamente do conhecimento especializado de comunicação, mas se elas integram uma instituição voltada à comunicação, de duas uma: ou elas buscam especializarem-se para melhor exercer seus mandatos ou se fazem assessorar de indivíduos que dominam o conhecimento da comunicação, para que estes possam orientar os planos e as ações. Aliás, isso é o que fazem os gestores das grandes corporações; eles conhecem os princípios da administração e contratam profissionais capazes para as demais áreas. Na ABRADE isso sempre constituiu tabu, ou seja, a maioria é bem-dotada de boa vontade, mas despida de conhecimento de comunicação e altamente orgulhosa quanto a reconhecer isso, daí podermos dizer que nenhuma ADE ou mesmo a ABRADE é capaz de preparar um simples plano de comunicação para sua própria instituição, quanto mais para o movimento espírita tão diverso. Então, são cegos guiando cegos. São como aqueles espíritas místicos, que acreditam na eficácia do passe em qualquer circunstância, não vendo nenhum mal dele decorrente, mesmo em situações de risco. Creem que os espíritos suprem quaisquer deficiências humanas. Não estudaram e não querem estudar. Quer um exemplo? A ADE de São Paulo apresenta um programa de rádio que ajudei a criar há quase 20 anos; até hoje o formato é o mesmo, os participantes são os mesmos, o jargão também. O mundo mudou, a linguagem mudou, o tempo e sua percepção mudaram, mas os espíritas continuam presos a uma fórmula antiga por entenderem que não é preciso mudar.

KPC – Qual o futuro da ABRADE como membro do CNEE?

Wilson Garcia – Com honestidade, não vejo a tal luz no fim do turno. Acho, inclusive, que o interesse dos atuais donos da massa falida é mesmo manter a situação neste estado para conquistar não sei o quê. Acompanho tudo o que se passa pelos canais competentes e não vislumbro sinais outros. Mas, uma coisa é certa: a responsabilidade moral e penal dos que mantém a ABRADE na situação atual é grande.

KPC – O que as Associações de Divulgadores do Espiritismo estaduais devem esperar agora da Entidade para implementar alguma política de comunicação social que contribua com a divulgação espírita em todo o País?

Wilson Garcia – A palavra está com elas. A ADE de Pernambuco acaba de dar um ultimato. As demais, que venham a público revelar sua posição.

KPC – Suas considerações finais, com o nosso sincero agradecimento pela entrevista.

Wilson Garcia – A história grandiosa dos Congressos Brasileiros de Jornalistas e Escritores Espíritas começou a ser escrita em 1939 por Deolindo Amorim e seus amigos. Essa história ninguém pode apagar. Teve ela continuidade parcial na ABRAJEE e na ABRADE. Hoje, a comunicação espírita está à deriva. Oxalá possa ser retomada, dentro dos critérios éticos que Kardec utilizou. Obrigado.


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Despedida

A vida, feita de ciclos sucessivos, conduz-nos, inevitavelmente, a mudanças.
Neste momento, estou encerrando meu ciclo de professor de Teoria da Imagem na Faculdade Maurício de Nassau, Recife, PE, depois de 9 anos completos de atividades naquela instituição de ensino superior privada.
Resolvi assumir, em definitivo, minha condição de aposentado, para a qual já vinha me preparando há algum tempo. Quando cheguei em Recife, para residir, incorporei-me à instituição, que, então, se iniciava, com cursos na área de comunicação social e de direito. Foram momentos extremamente férteis, na companhia do então coordenador José Mário Austragésilo, quando tudo estava por ser construído e o ideal da educação podia ser levado à frente como principal bandeira dos corações dispostos a participar do aprendizado das novas gerações que se formavam.
A Faculdade Mauricio de Nassau cresceu, vertigionasamente, e transformou-se no Grupo Ser Educacional, presente hoje em todos os Estados do Norte-Nordeste brasileiro. Inevitavelmente, a visão do negócio enquanto tal, se já não estava latente nos primeiros tempos, passou a status dominante, reduzindo drasticamente o ideal da educação. Para os profissionais da educação, que entregam suas vidas à carreira e dela dependem para sua sobreviência, resta guardar no âmago todos os sonhos, para não perder o impulso que garante a convicção e gera as ações que dão brilho à dignidade humana. Os jovens e seu preparo ainda justificam os melhores esforços dos que se prepararam para lhes oferecer o braço, o cérebro e o carinho do dia a dia, apesar de todas as dificuldades que se lhes são impostas no exercício da sua profissão, grande parte delas por conta dos resultados financeiros que o negócio deve gerar, como meta suprema.
A partir de agora, estou voltando minha atenção para outros projetos, todos, sem dúvida, ladeando o ideal da educação, alguns que já estavam em andamento e outros que surgem desses momentos surpreendentes e inexplicáveis, como um aceno de possibilidades a serem concretizadas.
Ao concluir esse meu ciclo e não podendo estar com todos os meus colegas, pessoalmente, venho deixar-lhes o meu abraço de reconhecimento pelo convívio, apoio e amizade, bem como dizer-lhes que continuarei a ser o amigo, sempre disponível, aquele que, mesmo distante do dia a dia, permanece com a certeza de que é possível construir um mundo justo e igualitário para todos, mundo esse em que a educação se coloca como o principal marco ou viga mestra.
Como risonhamente gostava de dizer um grande amigo: até de repente!
Com fraternidade e atenção.
Wilson Garcia
Julho de 2014

Romance mediúnico: arte ou engano?

Os romances dominam a prateleiras das livrarias
Os romances dominam a prateleiras das livrarias

A abundância de romances mediúnicos é sinal de qualidade, alta, baixa ou média? Uma resposta imediata a perguntas desse tipo é não! Nem a abundância nem a exiguidade são, em si mesmas, sinal positivo ou negativo, apenas uma questão de verificação quantitativa.

Um outro fator, aí, pode ser relacionado: o tipo fenomênico – a psicografia – como fonte de obras literárias assinadas por individualidades invisíveis, em franca expansão e se destacando dos demais tipos, até mesmo acobertando-os. Tem-se a impressão – verdadeira ou falsa? – de que a mediunidade tornou-se sinônimo de psicografia, tal a quantidade de obras e mensagens esparsas produzidas por essa via.

Ontem (quatro de janeiro de 2014), estive por alguns instantes em diminuta livraria do Aeroporto dos Guararapes, Recife, tempo suficiente para perceber e registrar (foto acima), entre livros de autoajuda econômica, financeira e psicológica inúmeros romances mediúnicos em posição paritária de destaque.

Confesso, não conheço nenhum deles e sequer sabia de sua existência, portanto, nada tenho a comentar sobre qualidade literária ou mediúnica dessas obras. Mas elas estão lá, foram editadas, publicadas e vendidas. Não se pode desconhecer isso.

A questão da qualidade é diferente da questão do gosto, pois não é este, o gosto, que garante a qualidade de uma obra literária. Sabe-se, perfeitamente, que inúmeras obras literárias, mediúnicas ou não, de qualidade atestadamente ruim são campeãs de vendas aqui, no Brasil, e mundo afora. No caso dos romances mediúnicos, a qualidade não se restringe às questões literárias, simplesmente, mas incluem a própria condição de recepção mediúnica como um fator relevante a qualquer análise.

E deixa ainda no ar uma outra indagação que tem sido feita ao longo dos tempos por pensadores espíritas: o romance mediúnico é capaz de oferecer noções concretas de doutrina espírita? Aqui não é difícil refletir: um leitor neófito, aquele que não conhece com segurança as obras básicas não será capaz de recolher dessas obras ficcionais uma visão minimamente clara dos princípios que norteiam o espiritismo. Já não ocorre o mesmo com um leitor experiente, com boa base doutrinária: este poderá construir uma análise da obra e julgá-la em seus diversos aspectos, inclusive aqueles que eventualmente estejam em divergência com esses mesmos princípios.

Quando um romance mediúnico alcança a condição de obra alinhada com o pensamento espírita passa, automaticamente, para a relação dos bons livros. Mas quando o seu conteúdo sofre contestações por conta de licenças literárias danosas ou pontos de vista que vão de encontro aos princípios doutrinários entra em cena o processo de recepção mediúnica. Por que? A razão é simples, conquanto pouco percebida: o médium tem participação ativa, direta, na construção do discurso ou texto final e, sendo assim, parte maior, menor ou total da qualidade da obra pode ser-lhe atribuída.

Não se trata de um tribunal acusatório, de condenação do médium. Trata-se, acima de tudo, de levar em consideração a participação mediúnica do intermediário, daquele que se coloca entre o espírito autor e o leitor, participação essa considerada por Kardec da máxima importância e no caso específico do fenômeno psicográfico a particularidade de o médium atuar como intérprete do espírito se acentua e torna-se decisiva para o produto final.

Ao falar em interpretação estamos nos referindo ao fato de haver alguém – o médium – que se coloca entre as ideias do espírito autor e as ideias do leitor, exercendo uma função que não é apenas “técnica”, ou seja, que não se circunscreve a “receber” um texto pronto e colocá-lo no papel, mas é eminentemente interpretativa; o médium necessita de entender as ideias que lhes são trazidas e precisa passá-las adiante, de forma codificada, textual.

Trata-se de um processo complexo, no qual o médium experimenta o desafio de “traduzir” de uma linguagem para outra aquilo que lhe chega como ideia, demandando, portanto, conhecimentos, repertório, habilidade de lidar com a língua e, não raro, vivências passadas e presentes.

Quanto ao fenômeno da psicografia e sua ascensão a sinônimo de mediunidade, é um caso para se pensar. Mas é fato que a psicografia vem ocupando cada vez mais espaço no cenário mediúnico e, curiosamente, vai se tornando um fenômeno caseiro, ou seja, dado que muitos centros espíritas não dispõem de infraestrutura doutrinária e psicológica para oferecer aos médiuns, estes acabam, em boa medida, se recolhendo aos seus lares e ali, distantes do convívio com outros médiuns, realizam seu trabalho. E se têm um bom texto, não encontram dificuldades para publicar seus livros, pois, de um lado há um público ávido desse tipo de obra e, de outro, editores e clubes de livros também ávidos por publicar e disponibilizar a literatura mediúnica ficcional.

O sonho (impossível e desnecessário) de um Espiritismo planetário

O desejo de um Espiritismo adotado por toda a sociedade humana, apesar de toda a utopia que contém, não se restringe unicamente aos objetivos das grandes instituições espíritas (federativas e similares). Ele pode ser, na verdade, localizado como ponto de origem no indivíduo. As preocupações em escala macro se vinculam ao micro, vale dizer, o que ocorre nos centros espíritas se estende às federativas e vice-versa.

Cabe, portanto, discutir as questões importantes sob o prisma de seu alcance, sempre tendo por perto essa ideia de que o centro espírita é ponto de partida delas. Ai se inclui esse desejo, essa aspiração, que parece existir em cada um dos adeptos do Espiritismo e, consequentemente, é incorporada aos centros espíritas, de ver sua doutrina colocada em um plano de divulgação tal que alcance os mais distantes setores da sociedade, através de uma mensagem com alto teor de persuasão. A intenção, bem se vê, é conquistar mentes e corações e nela está embutida a ideia de que a adoção dos princípios e conceitos espíritas fundamentará a transformação da sociedade (para melhor, é claro), de modo irretorquível como não o faria nenhuma outra filosofia existente.

Há um sentido subjacente aí que merece ser anotado: considerável parcela de espíritas parece entender que a filosofia que a alcançou com certa força de profundidade fará idêntico trabalho no outro, desde que esse outro possa tomar ciência dela como estes adeptos o fizeram, algo mais ou menos como aquilo que foi bom para mim será inevitavelmente bom para as demais pessoas. Isso parece reforçar um certo descontentamento perceptível de que o que está de fato faltando é uma divulgação eficiente do Espiritismo.

Muitos adeptos e centros espíritas transferem para as instituições representativas uma como que obrigação de cuidar dessa divulgação em larga escala sem perceber que a transferência é muito mais simbólica do que objetiva. No fundo, a utopia de um mundo espírita, que permeia nossa gente, age de tal maneira em cada um que muito do que se faz nos nossos centros não é mais do que a tentativa de materializar o desejo. Diante dos frequentadores – e destes entre si – os dirigentes buscam uma eficiência comunicativa da mensagem como o fariam se o meio fosse outro e o público compusesse um universo massivo, não sendo demais imaginar que estarão dotados nestes momentos de uma forte esperança de que os receptores sejam mais do que meros receptores, mas verdadeiros agentes de disseminação da doutrina, fundamentando assim a ideia de que representam mais do que a si mesmos, mas a grande sociedade mundial. O destino da mensagem é, pois, o público presente, em número reduzido, e o ausente, a grande massa.

Questões técnicas referentes à mensagem e de conteúdo doutrinário são passíveis de questionamento e análise, merecendo um capítulo à parte. Entretanto, é preciso considerar com uma certa justeza que nem o sonho nem seu conteúdo utópico devem constituir preocupação; vivemos repletos de sonhos no dia a dia, alimentando-nos dos estímulos que eles produzem. A questão principal está em perceber: l. o grau de impossibilidade de materialização do desejo; 2. A sua importância secundária para o Espiritismo; 3. O que o desejo significa em termos de influência sobre a mensagem doutrinária que se constrói no centro.

O terceiro item é de longe o que mais atenção deve despertar, uma vez que se podem prever algumas influências positivas e negativas decorrentes do desejo. Entre as negativas estaria a apropriação de um sentido de superlativação do próprio Espiritismo, podendo isso conduzir os adeptos a atitudes próximas do fanatismo, contaminando assim a mensagem de divulgação doutrinária. Ao assumir o Espiritismo como uma doutrina completa e provida de todo o conteúdo necessário ao ser humano, sem mais necessidades e nenhum aspecto a ser desenvolvido, o adepto se submete a uma postura enganosa e necessariamente prejudicial à divulgação da filosofia.

Qualquer estudo que se assente no bom senso conduz à percepção de que é impossível persuadir toda a sociedade para uma só mensagem. Mesmo se dispuséssemos de todos os canis de comunicação disponíveis no mundo e de todo o arsenal tecnológico existente seria humanamente impossível construir uma mensagem capaz de ser recebida de modo semelhante e com um grau de persuasão favorável em pessoas diferentes culturalmente.

Mas é preciso perceber também que este objetivo, almejado por adeptos e instituições, tem pouco significado real para o Espiritismo, afinal, nenhuma doutrina expressiva, para ser reconhecida, pode assentar-se na quantidade de pessoas que a adotam. Se os números podem ter alguma representatividade, eles, entretanto, não podem estar acima dos fundamentos filosóficos e científicos de que a doutrina é dotada.

(Publicado originalmente em Dirigente Espírita no 64 de março/abril de 2001)

A presença sócio-semiótica da palavra na comunicação social

Ao estudar as expressões populares (ditos, ditados, provérbios, anexins, rifãos, adágios etc.), deparamo-nos com a palavra como elemento fundamental da comunicação social. As expressões populares, entre inúmeras outras modalidades comunicativas, podem ser vistas apenas como uma manifestação corriqueira de uma parcela do povo – quase sempre, a parcela inculta, subalterna – no sentido puramente de uma linguagem de poucos recursos culturais; ou podem ser vistas como elemento integrante do processo da comunicação social. No primeiro caso, elas incorporam um valor reduzido, sem importância maior e para cuja compreensão os estudos lingüísticos semióticos já realizados serão suficientes; portanto, nada mais oferecem à pesquisa em ciências sociais. No segundo caso, as expressões populares se constituem em campo fértil de exploração para compreender-se o indivíduo sócio-interativo, bem como mutações culturais de variadas naturezas.
Os estudos de Mikhail Bakhtin e, em especial, o seu pensamento exposto em Marxismo e filosofia da linguagem destacam o valor da palavra e de maneira incisiva chamam a atenção para sua importância nos processos da comunicação social (a palavra enquanto unidade elementar da linguagem e no sentido geral encadeamento de palavras). Por isso, seu aporte aqui permite refletir sobre aspectos das expressões populares a partir do lugar de fala e em decorrência da significação enquanto sentido proposto. Pois as expressões populares são sempre atos de fala cujo sentido está aprisionado pelo lugar, em permanente dialogismo bakhtiniano, ou seja, só se pode apreender o sentido delas a partir da compreensão dos signos e sua significação no contexto dado.
A dimensão da palavra em Bakhtin implica a ideologia e por isso “pode preencher qualquer espécie de função ideológica: estética, científica, moral, religiosa”. Mas a compreensão da palavra exige que se vá além do seu conteúdo ideológico, ou seja, que se alcancem as refrações do “discurso de outrem” que a palavra realiza no universo simbólico em sua condição de expressão da consciência individual. Portanto, ideologia, discurso de outrem e consciência individual devem ser vistos como elementos implicados da palavra, elementos que preenchem qualquer palavra e que, em si e no conjunto, são capazes de tornar compreensíveis as palavras em seu significado e em sua significação enquanto sentido proposto, considerando-se ainda a importante questão do lugar de fala e dos discursos exteriores, dos signos sociais que vão determinar e modelar a consciência individual.

Palavra e ideologia

A compreensão da palavra conduz à percepção de que a ideologia e o universo semiótico são necessários um ao outro; o que importa na ideologia é, em primeiro lugar, o seu significado e, posteriormente, a significação dada. Mas o significado é também a constatação da presença do signo mediante o qual a ideologia se revela e sem o qual ela – a ideologia – não existe. Ou seja, o signo assume valor ideológico quando incorpora um significado que não lhe é próprio, que não tem origem em si mesmo, mas se faz dentro de um certo consenso social, de um consenso resultante de uma interação no curso da comunicação social. Se um grupo assume um signo como a representação de uma idéia está atribuindo-lhe um valor ideológico que originalmente não possuía, um novo significado. Uma palavra de ordem é um signo cujo significado se diferencia da palavra original, assume outro sentido para dizer algo que antes não dizia. O conteúdo ideológico do signo, portanto, é um acréscimo proveniente do mundo exterior que determina uma alteração do significado sígnico, ou seja, uma alteração na representação do real que o signo exprime, mesmo que se considere, com Bakhtin, que o signo ideológico é reflexo, sombra e fragmento material da realidade. Todavia, “um signo não existe apenas como parte de uma realidade; ele também reflete e refrata uma outra”.
As íntimas ligações que se verificam entre signo e ideologia explicam as relações dos dois mas, também revelam que a ideologia só existe em função do signo, pois ela mesma é e está presente no signo.
Antes de prosseguir com a análise da ideologia em Bakhtin, convém conceituar de alguma maneira o signo em virtude de sua importância nos estudos da linguagem. O. Ducrot e T. Todorov procuram fazê-lo mas não sem antes reconhecerem a sua complexidade, ou seja, a complexidade que explica as dificuldades conceituais do signo. Segundo estes autores, estas dificuldades são notoriamente aumentadas pelo fato de que os signos são vistos atualmente como entidades lingüísticas e ao mesmo tempo como signos não-verbais. Eis pois como procuram resolver a questão: “Definiremos, então, prudentemente, o signo como uma entidade que 1) pode tornar-se sensível, e 2) para um grupo definido de usuários, assinala uma falta nela mesma. A parte do signo que pode tornar-se sensível denomina-se, desde Saussure, significante, a parte ausente, significado, e a relação mantida por ambos, significação”.
A Bakhtin interessa apontar as relações entre a construção dos signos e os fatos sociais, ou seja, importa demonstrar que a realidade social está presente nos signos e os transforma em “produtos ideológicos” quando, então, os signos não são mais e apenas signos, mas signos carregados de ideologia segundo um outro significado. É por isto que “um signo é um fenômeno do mundo exterior” tal qual assinalam Ducrot e Todorov: “O signo é sempre institucional: nesse sentido, existe apenas para um grupo delimitado de usuários. Este grupo pode reduzir-se a uma só pessoa (do mesmo modo o nó que faço em meu lenço). Mas fora duma sociedade, por mais reduzida que seja, os signos não existem. Não é correto afirmar que a fumaça é o signo “natural” do fogo; ela é sua conseqüência, ou uma das partes. Somente uma comunidade de usuários pode instituí-la como signo”.
Importa a Bakhtin localizar os signos ideológicos como elementos da realidade natural ou social, incluindo-os assim junto aos instrumentos de produção e os corpos físicos. Todavia, ressalta ele que os produtos ideológicos possuem uma característica que os diferencia dos dois outros, ou seja, eles refletem e refratam algo mais da realidade social como não o fazem os corpos físicos e os instrumentos de produção. Enquanto estes possuem funções definidas e somente funções, os produtos ideológicos possuem um conteúdo extra por conseqüência de relações sociais comunicativas entre os indivíduos. Com isto, Bakhtin chega ao importante ponto da constatação da existência do universo dos signos: “Portanto, ao lado dos fenômenos naturais, do material tecnológico e dos artigos de consumo existe um universo particular, o universo dos signos”.
Um universo cujos elementos têm algo mais a dizer do que os demais quando se trata de compreender o homem e o móvel de suas ações. Um universo formado por signos que ultrapassam suas condições específicas, que se transformaram e se transformam por conseqüência de uma contínua ação do homem. Assim, qualquer objeto, qualquer corpo físico ou instrumento de trabalho pode passar de sua realidade natural à condição de produto ideológico, bem como “qualquer produto de consumo pode, da mesma forma, ser transformado em signo ideológico” e cumprir uma função nova, uma outra função social, atendendo a interesses que não estavam neles presente anteriormente.
É necessário também ressaltar de forma enfática o “caráter semiótico” dos signos ideológicos, em virtude das conseqüências que daí resultam. Uma vez que “tudo que é ideológico possui um valor semiótico”, é preciso distinguir as diferenças entre os signos e o que eles representam, uma vez que são criados para expressar a realidade de cada grupo social. A análise semiótica dos signos precisa levar em consideração, segundo Bakhtin, a importante questão da representação, ou seja, o lugar do signo, o sentido nele presente e empregado, o que ele pretende segundo aqueles que o utilizam, sejam estes representantes do saber religioso, científico, jurídico, político, da sociedade de consumo etc. Isto porque “Cada signo ideológico é não apenas um reflexo, uma sombra da realidade, mas também um fragmento material dessa realidade”.
Por isso mesmo e sob este aspecto, os signos oferecem amplas possibilidades de uma compreensão do mundo, visto que expressam uma parte da realidade capaz de ser apreendida semioticamente. Essa compreensão consiste em (re)estabelecer as ligações entre um signo ideológico e os signos que lhe dão sustentação, dentro de uma cadeia formada por elos significativos firmemente coesos, capazes de conduzir às conseqüências necessárias. Desta forma, a questão ideológica em Bakhtin conduz à visão de mundo, uma visão de mundo que determina a criação das ideologias e portanto dos signos. É preciso, contudo, penetrar o mundo da consciência para alargar o pensamento bakhtiniano do valor semiótico dos signos.

Palavra e consciência

Ao trabalhar a ideologia do signo, Bakhtin revela as ligações que se estabelecem entre a consciência e a palavra a partir de relações sociais de indivíduos e grupos: “A consciência só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, conseqüentemente, somente no processo de interação social”.
A consciência em Bakhtin está repleta de signos que refletem ideologicamente a realidade, que expressam idéias. É pelos signos que a consciência individual propõe uma compreensão do mundo, pois os signos são eles mesmos a representação do mundo apreendida, incorporada pela consciência. Assim, “O próprio signo e todos os seus efeitos (todas as ações, reações e novos signos que ele gera no meio social circundante) aparecem na experiência exterior”.
Bakhtin reclama para este ponto uma importância que classifica como fundamental por parte daquele que pretende compreender o homem através do estudo da ideologia. Uma vez que o signo preenche o espaço da consciência, aí também está presente o domínio da ideologia
O homem “fala” através de signos; as relações sócio-comunicativas são o espaço da criatividade simbólica, são o campo onde se forma a “cadeia de criatividade e compreensão ideológica” (p. 34) num contínuo permanente onde signos substituem signos (ações, reações). Ainda assim, segundo o autor há diferenças profundas entre os discursos produzidos nas diversas áreas da esfera ideológica, pelo fato de que “cada campo de criatividade ideológica tem seu próprio modo de orientação para a realidade e refrata a realidade à sua própria maneira”.
Aqui, torna-se necessário realçar a diferença que Bakhtin faz entre a superestrutura da ideologia e a própria consciência, uma vez que ele condena a confusão metodológica daqueles que vêem a ideologia como que situada na consciência, quando ela é, na verdade, um “meio ideológico e social” capaz de explicar a realidade da consciência.
Um fato sócio-ideológico que dispõe de um meio material pelo qual e a partir do qual passa a se constituir; para o autor, antes das relações comunicativas interacionistas não há uma consciência formada, mas apenas e depois da concretização destas relações. Esse meio material é a língua.
O tema da consciência e sua geratriz social conduzem a inúmeros questionamentos, que em Bakhtin vão resultar na explicação de que a evolução desta consciência tanto quanto sua constituição são fatos sociais marcados pela língua: “Como [a personalidade] tomará consciência de si mesma? Até que ponto será essa consciência de si rica e segura? Como motivará e apreciará os seus atos?”.
Assim, a consciência se encontra em uma base imediatamente abaixo da ideologia e se forma, se constrói a partir dos signos que o meio social fornece. É isto que também explica que “a consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais”.
O estudo da consciência em Bakhtin conduz à compreensão sobre sua relação de dependência, pelo menos até certo ponto, à realidade sócio-ideológica, de modo a não só construir-se das ideologias em circulação na sociedade mas também a refleti-las a partir do momento em que o homem estabelece suas relações sócio-interativas. A realidade ideológica é colocada, assim, por Bakhtin como “uma superestrutura situada imediatamente acima da base econômica”, portanto ocupando um lugar superior e destacado.
A questão a ser enfatizada, entretanto, é a de que não reside na consciência a fonte das ideologias, senão que a consciência estruturada pelos signos sociais reflete-as e as reproduz permanentemente. Assim, quando os fatos sociais alteram as ideologias, a consciência individual tende imediatamente a assimilar as alterações e a reproduzi-las criativamente. Chega-se, assim, ao importante ponto ou lugar onde os signos ideológicos de fato atuam e circulam, proporcionando a apropriação pela consciência e este lugar é o espaço da comunicação social.
Retorna-se, assim, à questão inicial da palavra e sua importância para as relações sociais. Bakhtin vai enfatizar isso ao lembrar que a palavra, seja como unidade da língua ou como discurso, fornece as condições claras para o estudo da ideologia e conseqüentemente à compreensão dos fenômenos daí decorrentes.

Palavra e comunicação social

Já aqui se pode estabelecer uma unidade de pensamento com base em Bakhtin: ideologia, consciência individual e palavra constituem um núcleo básico para a compreensão da sociedade. Estes três domínios formam a complexidade das relações sócio-interativas. As considerações partem de uma constatação inicial de que “a palavra é o fenômeno ideológico por excelência” e desempenha sempre uma função sígnica, ou seja, ela é o veículo da transmissão da ideologia, o que confere à linguagem uma condição especial na análise semiótica da comunicação social. Trata-se de um ponto a merecer toda a atenção – diz o autor – em virtude daquilo que a palavra incorpora: a função de signo, função que lhe confere um valor inigualável.
No estudo da palavra, portanto, reside um aspecto especial de compreensão das relações interativas realizadas pelos indivíduos na sociedade. O que se diz, o sentido real da mensagem só pode ser compreendido pela análise do conteúdo ideológico contido no texto ou nas expressões. Não se trata da análise através da subjetividade humana, mas de considerar as condições culturais em que as comunicações sociais se estabelecem para encontrar o sentido dos signos que penetram e formam a consciência e daqueles outros signos que os indivíduos utilizam para expressar idéias e desejos.
Uma outra condição reforça ainda mais a função sígnica da palavra: a condição de signo neutro. Enquanto os signos de forma geral representam formas ideológicas específicas e representativas dos domínios nos quais foram gerados, a palavra possui uma neutralidade ideológica inicial e pode por isso servir a todos os domínios, como nenhum outro material o consegue, tornando-se signo ideológico a serviço da ciência, da moral, da religião e de qualquer outro campo particular. Ao chamar a atenção para isso e destacar que os signos e símbolos específicos de cada campo possuem uma função ideológica inseparável, que lhe confere sentido, Bakhtin aponta para as relações interativas que ocorrem no cotidiano das pessoas, como espaço importante da comunicação social e onde as coisas acontecem de modo sensível: “(…) existe uma parte muito importante da comunicação ideológica que não pode ser vinculada a uma esfera ideológica particular: trata-se da comunicação na vida cotidiana. Esse tipo de comunicação é extraordinariamente rico e importante”.
O que ocorre nas relações interativas cotidianas é que a palavra assume um papel especial como material das conversações e dos discursos em suas diversas formas, e também porque possui uma condição de veículo a serviço da consciência individual, “material semiótico da vida interior”. Devido a isso, a palavra se torna meio pelo qual circulam as formas de compreensão do mundo, desde as atividades mais banais àquelas que dizem respeito à cultura geral e ao comportamento individual humano. Ou seja, “A palavra está presente em todos os atos de compreensão e em todos os atos de interpretação”.
As relações comunicativas cotidianas assumem especial importância exatamente porque se tornam espaço da criatividade ideológica, onde as situações sociais se mantêm ou se alteram, onde o curso das situações prossegue ou sugere novas direções. É na palavra que se podem perceber mudanças sociais em andamento ou em processo gestação.
Neste sentido, podem-se analisar as condições em que a sociedade está organizada culturalmente a partir dos signos que os indivíduos criam para expressarem-se e como esses signos são influenciados pela realidade, ou seja, a forma pela qual “o signo reflete e refrata a realidade em transformação”. A palavra é um indicador seguro das transformações sociais, tanto para as que já assumiram uma forma definitiva quanto para as transformações que se encontram em curso. Por isso, ela é duplamente importante: como instrumento para conhecimento da realidade social e como meio capaz de antecipar mudanças cujo sentido não está claro. O que orienta nessa direção é a compreensão que se deve ter da palavra enquanto meio privilegiado de interatividade sócio-comunicativa.
Pode-se encontrar a palavra como esse “material sensível” capaz de atender aos indivíduos em suas necessidades de comunicação nas mais diversas formas e situações da vida cotidiana, em que os atos de fala têm o seu desenvolvimento e assumem determinada importância: “(…) as conversas de corredor, as trocas de opinião no teatro e no concerto, nas diferentes reuniões sociais, as trocas puramente fortuitas, o modo de reação verbal face às realidades da vida e aos acontecimentos do dia-a-dia, o discurso interior e a consciência auto-referente, a regulamentação social etc.”.
Bakhtin, assim, chama a atenção para dois aspectos igualmente necessários ao estudo da psicologia do corpo social, dizendo que ela deve ser analisada: “…primeiramente, do ponto de vista do conteúdo, dos temas que aí se encontram atualizados num dado momento do tempo; e, em segundo lugar, do ponto de vista dos tipos e formas de discurso através dos quais estes temas tomam forma, são comentados, se realizam, são experimentados, são pensados etc.”
E nesse sentido, podem-se destacar tanto os repertórios quanto os temas que fazem parte de um determinado momento social. Não somente as relações cotidianas dos indivíduos numa sociedade são importante material para estudo, mas também aquelas que se dão no interior da vida familiar, porque representam significativo material para a compreensão da própria realidade social.
Por outro lado, à importância da palavra para o estudo da realidade social deve-se aliar um outro valor: a significação. Não bastaria atribuir importância à palavra e estudá-la do ponto de vista lingüístico; é preciso buscar sua significação no momento dado, seja nos atos de fala verbal, seja nos discursos diversos. Mas a significação só pode ser alcançada, só pode ser compreendida se for observada a partir das situações reais em que as relações sócio-interativas acontecem. Trata-se de considerar a materialidade da comunicação em termos de conteúdo da mensagem e dos signos que a consciência emite em resposta a outros signos, tendo-se por importante que os aspectos sociais orientam as consciências. Não somente as possibilidades culturais interferem na recepção, mas também dão o material para a compreensão e reinterpretação das mensagens. A preocupação, pois, de Bakhtin se volta para aspectos fundamentais como a qualidade contextual: “(…) a compreensão que o indivíduo tem de sua língua não está orientada para a identificação de elementos normativos do discurso, mas para a apreciação de sua nova qualidade contextual”. Talvez por isso o permanente estranhamento no aprendizado das normas lingüísticas, estranhamento, por exemplo, que não ocorre quanto à língua nativa, que o indivíduo vai apreendendo a partir das primeiras relações familiares.
A qualidade contextual resulta desse fato importante que é a relação do indivíduo com o seu meio social, em que mentalmente vai organizando-se num permanente intercâmbio sígnico. Mas, contrariamente ao que afirma a teoria da expressão, “Não é a atividade mental que organiza a expressão, mas, ao contrário, é a expressão que organiza a atividade mental, que a modela e determina sua orientação”.
Assim, pois, os dois tipos de discurso, o interior e o exterior estão em permanente relacionamento, mas com a supremacia do exterior, que é quem de fato organiza e forma a consciência. Entretanto, a palavra é sempre um ato de fala que se dirige a um interlocutor, a alguém, a um destinatário.
A palavra que procede de um interlocutor para outro varia, sofre alterações e se adapta segundo o interlocutor a quem é dirigida, sua posição social, cultural, sua proximidade ou distância em termos de grupo a que pertence etc. É desta maneira que “(…) toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém como pelo fato de que se dirige a alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte”.
A compreensão da palavra e de tudo aquilo que ela carrega como modificação imediata ou distante da realidade social implica, portanto, a compreensão de sua posição como meio de relacionamento interativo entre interlocutores reais, cada qual com sua postura e com um determinado peso enunciativo. A influência que se estabelece entre interlocutores é, em última instância, a influência sobre a coletividade, constituindo-se em razão para a construção das situações reais, os contextos em que os próprios interlocutores se situam. O locutor e o ouvinte são, ambos, fundamentais para o processo de compreensão da realidade social.
Esse fato se reveste de uma importância fundamental: as relações sociais bem como a realidade contextual que as determinam estão na base da formação das consciências e das ações e reações individuais, de sua criatividade ideológica, funcionando assim como resposta às principais perguntas que pretendem compreender a própria realidade social. Ou seja, o meio social determina a estrutura da consciência e conduz a atividade mental, de modo que a resposta da consciência se dá por meio de signos adquiridos na própria relação interlocutiva.
Irene A. Machado reforça essa compreensão do individual e de sua consciência, ao estudar o pensamento de Bakhtin: “O individual, como detentor dos conteúdos de sua própria consciência, como autor de seus próprios pensamentos, como personalidade responsável por seus pensamentos e sentimentos – esse individual é puramente um fenômeno sócio-ideológico”.
Resta, pois, acrescentar dois aspectos importantes para as reflexões aqui expostas: a importante questão da compreensão, de como ela se coloca e deve de fato ser vista, e a questão lingüística, de sua evolução. Sobre esta última, Bakhtin faz a seguinte afirmação: “A língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema lingüístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes”.
Depreende-se que as mudanças ou o progresso da língua estão em ligação direta com a vida cotidiana, com os atos de fala que se realizam no interior da sociedade, em suas diversas situações concretas. Ou seja, o espaço da comunicação social contemporânea, bem como os meios de comunicação de massa, são espaços importantes de análise dessa evolução e são, em contrapartida, indicativos das alterações sociais que se encontram em curso. Quanto ao primeiro aspecto, o da compreensão, deve-se considerar que: “A compreensão é uma forma de diálogo; ela está para a enunciação assim como uma réplica está para a outra no diálogo. Compreender é opor à palavra do locutor uma contrapalavra”.
A resposta da consciência ao signo é um diálogo realizado pelo indivíduo, seja para opor sua palavra como discurso interior seja nas relações com o discurso exterior, ou ainda como meio de expressão de sua forma de compreender o meio social.
Fiorin, aliando-se à compreensão como uma forma de diálogo, acrescenta que este diálogo ganha amplitude na própria dimensão da palavra: “Essas relações dialógicas não se circunscrevem ao quadro estreito do diálogo face a face. Ao contrário, existe uma dialogização interna da palavra, que é perpassada sempre pela palavra do outro, é sempre e inevitavelmente também a palavra do outro”.
Mas o diálogo é também uma forma de construção de sentido e, assim, é algo que não encontra termo final, ou seja, o sentido está sempre sendo refeito, remodelado pela compreensão. Como afirma Marília Amorim a partir de um longo trabalho de pesquisa em que o pensamento bakhtiniano foi levado à prática cotidiana de uma favela no Rio de Janeiro: “Pois a compreensão, a interpretação e a explicação são, na verdade, formas de tradução e traduzir é mostrar a descontinuidade e o intervalo”.
E mais, por não se esgotar e por não esgotar as possibilidades de construção de sentido, seja no diálogo e suas diversas formas, seja nos discursos sociais, a compreensão forma uma espécie de meio, uma ponte não fixa que se pode mover conforme os contextos.

Palavra e discurso de outrem

O “discurso de outrem” é a presença do outro no discurso do eu, mas é também a necessidade do outro para que o discurso do eu possa ser construído, ou melhor, praticado. Temos, assim, dois aspectos fundamentais da palavra a necessitar de compreensão, sob pena de não se poder alcançar nem o outro nem o eu. Nenhum discurso se constrói sem que a palavra do outro esteja presente e este outro é também destinatário e locutor.
O outro não é uma ficção e nem ausência; o outro não é distância ou caminho a percorrer apenas no momento dialógico possível. O outro é texto e contexto, tema e motivo, razão e sentido.
Sob essa noção, pode-se partir para a busca da solução, ou seja, a compreensão do discurso formulado por outrem, tendo por meta responder às três indagações colocadas por Bakhtin: como, do que fala e o que diz o autor do discurso. As duas primeiras questões, o como e o que, podem ser resolvidas a partir da análise do tema do discurso, mas a apreensão plena do conteúdo do discurso só pode ser feita pela integração do outro no próprio discurso como forma de encontrá-lo “em pessoa”. Isso porque a realidade discursiva “(…) institui o locutor e o destinatário, um em relação ao outro e, a rigor, estes não existem enquanto tais antes da enunciação. É por isso que a língua não é um código e é também por isso que é inconcebível para Bakhtin isolar o “contato” como um fator entre outros: o enunciado é por inteiro contato…”.
Encontrar o outro no discurso significa apreender o tema e o contexto das relações sociais, o lugar de fala com sua força influenciadora do discurso, não se podendo perder de vista que “a língua não é o reflexo das hesitações subjetivo-psicológicas, mas das relações sociais estáveis dos falantes”
Em sua análise do outro na pesquisa das Ciências Humanas, Marília Amorim busca resolver problemas que mais à frente vai enfrentar em seu trabalho de campo, elencando as seguintes perguntas: “Como encontrar o outro, como fazê-lo falar, como se fazer ouvir, como compreendê-lo, como traduzi-lo, como influenciá-lo ou como deixar-se influenciar por ele… Na maior parte dos casos, a resposta a essas perguntas aparece lá onde não se espera, lá onde não há nenhum método. Como se a dessemelhança devesse sempre se confirmar, como se o equívoco fosse a regra e o diálogo um puro acaso”.
As perguntas são de fato uma ênfase na direção desse outro que parece se desvanecer na prática, mas que está de fato ali presente à espera de ser apreendido, à disposição para o diálogo em situação alteritária. As perguntas são também uma estratégia metodológica estabelecida com antecipação e sob a consciência de que alteridade e dialogismo são caminhos que se encontram e prosseguem juntos.
Neste ponto, convém trazer para este texto os quatro aspectos que Diana L. P. de Barros considera presentes na concepção de dialogismo de Bakhtin, porque se mostram importantes em relação ao discurso de outrem:

“a – a interação entre interlocutores é o princípio fundador da linguagem (Bakhtin vai mais longe do que os lingüistas saussurianos, pois considera não apenas que a linguagem é fundamental para a comunicação, mas que a interação dos interlocutores funda a linguagem);
b – o sentido do texto e a significação das palavras dependem da relação entre sujeitos, ou seja, constroem-se na produção e na interpretação dos textos;
c – a intersubjetividade é anterior à subjetividade, pois a relação entre os interlocutores não apenas funda a linguagem e dá sentido ao texto, como também constrói os próprios sujeitos produtores do texto;
d – as observações feitas podem conduzir a conclusões equivocadas sobre a concepção bakhtiniana de sujeito, considerando-a “individualista” ou “subjetivista”. Na verdade Bakhtin aponta dois tipos de sociabilidade: a relação entre sujeitos (entre os interlocutores que interagem) e a dos sujeitos com a sociedade”.

O discurso de outrem contém, assim, o sujeito que discursa, mas não simplesmente o sujeito que escreve ou fala, e seu tema; contém o sujeito constituído, produto e produtor da linguagem, o indivíduo em um dado contexto socialmente organizado, com uma consciência em certa medida estruturada pela palavra exterior. Por isso, o autor russo vai estabelecer, como meio de reforçar sua argumentação, as seguintes questões: “Como, na realidade, apreendemos o discurso de outrem? Como o receptor experimenta a enunciação de outrem na sua consciência, que se exprime por meio do discurso interior? Como é o discurso ativamente absorvido pela consciência e qual a influência que ele tem sobre a orientação das palavras que o receptor pronunciará em seguida? Encontramos objetivamente nas formas do discurso citado um documento objetivo que esclarece esse problema”.
O que importa aqui, essencialmente, é fazer ver que a construção do discurso se dá sob a influência de “forças sociais organizadas sobre o modo de apreensão do discurso”, o que, portanto, coloca no discurso os próprios instrumentos capazes de decodificá-lo semioticamente. As formas do discurso estão, assim, em relação com a linguagem comum, socialmente consensada, dos falantes, e estão contidas numa estrutura que integra o falante e o interlocutor.
Por outro lado, o discurso de outrem é recebido e apreendido pela consciência e se reproduz através de um outro discurso, o discurso interior, mediante o qual o receptor desenvolve sua crítica, sua apreciação. O discurso exterior se funde ao discurso interior para produzir uma terceira palavra, um outro discurso. Conforme assevera Bakhtin, “a palavra vai à palavra. É no quadro do discurso interior que se efetua a apreensão da enunciação de outrem, sua compreensão e sua apreciação, isto é, a orientação ativa do falante”.
Finalizando, estes aspectos gerais do pensamento bakhtiniano fornecem, assim, uma base teórica como ponto de partida para a análise dos mais diversos diálogos, das palavras e seu emprego nos meios de comunicação de massa, a fim de inferir de alguma maneira mudanças culturais no interior da sociedade globalizada. Ao afirmar que “a palavra, como fenômeno ideológico por excelência, está em evolução constante e reflete fielmente todas as mudanças e alterações sociais” o autor fornece uma indicação interessante das possibilidades amplas que a palavra oferece para uma compreensão do homem e da sociedade, sempre colocando esta palavra na condição de “expressão da comunicação social, da interação social de personalidades definidas, de produtores”. Reconhece ele que há vários caminhos pelos quais se pode estudar a evolução da palavra, dentro da percepção de que “o destino da palavra é o da sociedade que fala”, uma vez que palavra e sociedade evoluem juntamente com a palavra, em perfeito acordo, em simbiose plena. Pode-se estudá-la, portanto, através da sua “evolução semântica, isto é, a história da ideologia no sentido exato do termo; a história do conhecimento, isto é, a evolução da verdade, uma vez que a verdade só é eterna enquanto evolução eterna da verdade; a história da literatura, como evolução da verdade na arte”.
Ao lado desses caminhos, o autor coloca outro a que atribui uma importância de valor igual aos anteriores, a ser percorrido em conjunto com os demais: “…é o estudo da evolução da própria língua como material ideológico, como meio onde se reflete ideologicamente a existência, uma vez que a reflexão da refração da existência na consciência humana só se efetua na palavra e através dela”.
Com a palavra, pois, a própria palavra: a palavra da consciência ou personalidade integrada ao seu meio social organizado, de cujo lugar produz seus atos de fala e dá sentido à vida

Referências bibliográficas

AMORIM, M. O pesquisador e seu outro – Bakhtin nas Ciências Humanas. São Paulo,
Musa Editora, 2001.
BAKTHIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo, 8ª, Hucitex, 1997.
BRAIT, B. (Org.). Bakhtin, dialogismo e construção de sentido. Campinas, Unicamp,
2001.
DUCROT, O. & TODOROV, T. Dicionário Enciclopédico das Ciências da Linguagem.
São Paulo, Perspectiva, 1998.

Criatividade, comunicação social e expressões populares

Em sua obra A Mídia e a Modernidade, John Thompson traça um perfil da cultura contemporânea tomando por base a sua construção a partir do advento da televisão. Entende, com razão, que não há como compreender a cultura em nossos dias sem perceber a mediação das mídias e, particularmente, da televisão. 

Em 2001, tivemos nossa atenção voltada para a cultura, interessado em estudar, quanto possível, as novas formas culturais a resultar das mudanças em operação nos modos de convivência cotidiana. Os ditos populares, expressões reveladoras da criatividade humana e sintetizadoras da interatividade comunicativa, principalmente nas camadas mais baixas da escala social, estariam mediando, ainda, as relações cotidianas? Em que medida? 

Ditos, ditados, expressões, provérbios, anexins, o que tem isto a ver com a publicidade? E com o jornalismo? Com as relações humanas, tudo. Ainda hoje, o dia-a-dia do homem está repleto de expressões populares encantadoras, verdadeiros atos de fala fortemente vinculados ao contexto das relações. Estariam presentes, também, significativamente, nas campanhas publicitárias da mídia de massa e no texto jornalístico praticado pelos nossos mais destacados veículos midiáticos? 

A criatividade publicitária tem um ângulo curioso. Muito mais do que uma forma de criatividade singularizada pelo original, ela é a expressão pluridimensional da eficiência na adaptação das culturas como forma de construção de um discurso eficaz à conquista de mentes e corações. A criatividade na publicidade é inventiva, mas é também adaptativa, altamente adaptativa. Nossa pesquisa, em certa medida, o demonstra. 

A mensagem publicitária se caracteriza por uma dupla adaptabilidade: de um lado, lança mão do repertório fornecido pelas formas culturais e, de outro, busca encaixar-se à linguagem da mídia ou canal por onde vai circular. Não há nenhuma surpresa nesta constatação, afinal, desde a época dos poetas-publicitários nos encantamos com o jogo, o sentido duplo e o ritmo sedutor, como os destes versos que circularam intensamente nos anúncios de bondes das grandes cidades brasileiras: 

Veja, ilustre passageiro, 
O belo tipo faceiro, 
Que o senhor tem ao seu lado. 
E no entanto acredite: 
Quase morreu de bronquite, 
Salvou-o o Rum Creosotado. 

Repetido incansavelmente como exemplo da inventividade publicitária, o anúncio do Rum Creosotado é descendente daquela época, década de 1930, em que os poetas ocupavam o lugar dos hoje redatores nas agências. A produção foi fertilíssima, como soe ser a alma dos estros. Todas elas com uma marca comum: a adaptabilidade cultural. Como no caso seguinte, um anúncio local nem tão famoso como o do Rum Creosotado, mas também nem tão invisível assim na cidade do Rio de Janeiro: 

Pros artistas do pincel, 
Acabou-se a carestia 
Porquê na casa do Abel 
de Barros e Companhia, 
Têm tintas, óleos, vernizes, 
Pra dar de graça ao freguês. 
É na rua Buenos Aires, 233 

Parêntese: a estética, a sedução e a persuasão presentes nas mensagens publicitárias costumeiramente relegam a segundo plano o conteúdo ético presente. Tanto hoje quanto antes. 

De volta à nossa linha de reflexões, ao lançar mão das formas culturais para produzir sentido ao consumo de bens e serviços, a inventividade publicitária coloca-se como um lugar interessante de estudo das transformações que se produzem nas formas de comunicação dos indivíduos. As agências de publicidade são, portanto, um espaço aonde estas mudanças podem ser observadas, em especial as produções que aí se realizam. O complemento disso serão os meios onde as mensagens circulam. Ou seja, mensagens e meios como forma de constatar a presença das expressões populares. 

Ao eleger, por opção aleatória, o meio impresso constituído pela revista Veja como um universo de estudo das expressões populares na publicidade, logo se verificou o fenômeno da inter-relação das linguagens publicitária e jornalística, fenômeno este que vem sendo cada vez mais estudado, como observa Chaparro em Linguagem dos Conflitos, ao constatar a presença na linguagem jornalística de conteúdos persuasivos comuns à linguagem dos anúncios. 

A procura pelas expressões populares na publicidade de Veja torna-se também a procura destas expressões no seu noticiário. Não há como fugir disso. A princípio, Veja não seria o lugar midiático consistente para o estudo dos ditos populares. Veja é meio impresso voltado à classe média e o lugar dos ditos populares é, segundo a tradição cultural, as classes subalternas. 

As transformações porque passou a cultura, segundo os estudos de Thompson, contudo, forçam o estudioso a compreender que já não se pode mais falar em cultura popular como antes, condicionando-a a uma classe formada pelo operariado. Quem é o operariado, hoje? Então, é preciso pensar em cultura popular como cultura de massa, seja por conta da presença inconteste de uma indústria cultural que massificou a obra de arte, seja pelo fato de a cultura popular e todos os seus símbolos estarem presentes fortemente na mídia e, portanto, ao alcance das demais classes, pois a mesma indústria cultural que não se importa com a aura da obra de arte, também não se incomoda com a aura da produção simbólica das classes mais baixas. Ao reproduzir as obras, o faz nos dois extremos da escala social, transformando em produto de troca – e, quem sabe, até de uso! – a obra de arte tanto quanto a criatividade do povo. À mídia cumpre a responsabilidade da massificação. À publicidade o uso da mensagem da sedução. 

A inventividade do profissional da publicidade está muito próxima da criatividade do homem do povo. Poderia parecer que eles estão distantes entre si, pois o primeiro trabalha num ambiente refinado e o segundo habita o cotidiano tradicional da rusticidade. Se tal afirmativa não pode ser levada ao extremo da generalização, onde de fato se perderia, mostra-se, no entanto, consistente quando se estudam as linguagens publicitária e jornalística em regime de comparação. Por extensão e em certa medida, a inventividade do profissional do jornalismo também aí se encaixa, formando, por assim dizer, um triângulo: a criação do homem do povo fica na base e a inventividade dos dois profissionais citados forma os dois outros lados. 

É a constatação decorrente dos estudos feitos em Veja. Explique-se: num período intermediato por um espaço de dez anos, a presença de expressões populares na publicidade se mostra de modo claro e estável. A publicidade lança mão, permanentemente, das expressões populares em regime de recriação ou paródia, ao produzir sua mensagem. O fato insólito aí é, talvez, uma outra constatação: a da adaptação da linguagem. Ou seja, o publicitário cria o anúncio de modo a integrá-lo à linguagem do meio impresso, para aumentar o seu poder de sedução do leitor. Feito para ser compreendido rapidamente, o anúncio deve ser capaz, também, de tornar imperceptível a passagem da leitura da reportagem para o próprio anúncio e a reportagem seguinte. 

A estratégia funciona porque o profissional do jornalismo utiliza um expediente semelhante de recriação ou paródia em cima das expressões populares, atribuindo aos títulos das reportagens ou notícias características semelhantes às mensagens publicitárias dos anúncios. A observação do fato leva o publicitário à inventividade correspondente de maneira a propiciar a integração das duas linguagens no espaço do mesmo veículo midiático. 

Neste aspecto, o criador primário é o homem do povo. Ao publicitário e ao jornalista cumpre uma função co-criadora ou secundária. Nenhum destes dois se preocupa em ser original ou ditar moda, mas apenas em utilizar os elementos simbólicos presentes nas relações interativas da comunicação humana para dar sentido aos seus discursos. Raramente, a publicidade é primariamente original e quando isso ocorre tem a participação direta ou indireta do próprio homem do povo, como no exemplo do slogan “isto não é uma Brastemp”. Compreende-se: não é função prioritária do publicitário criar o novo, mas produzir mensagens para que seus clientes alcancem os resultados estabelecidos pelo Marketing. 

A recriação do publicitário, contudo, é altamente inventiva e quase sempre contém o ingrediente do bom-gosto, elegância e ludicidade, de modo a parecer não raro nova e original. Mesmo quando as expressões populares são utilizadas na sua forma original, a inventividade publicitária cuida de lhe revestir de elementos sedutores. 

Alguns exemplos de anúncios publicitários se mostram interessantes. Vejamos: 

Para a expressão popular “ficar por dentro”, a Gerdau anuncia seu produto – o aço – com a frase: “Eles sabem que nós estamos por dentro”. Para o institucional de um novo canal de TV, vale forçar um pouquinho e dizer: “quem te viu, quem te MTV”. A Rima, uma indústria de máquinas impressoras, enfrenta a concorrência dizendo: “Quando uma empresa é forte, seus produtos não precisam ter medo de cara feia”. A revista Ponte Aérea é feita “Para quem lê o lado bom da vida”. Os chocolates da suíça Godiva, em lugar de morangos silvestres são verdadeiros “Morangos Celestes”. Para os freios ABS da Bosch “agora a pista pode até ser escorregadia”. A filmadora da JVC foi feita “para quem enxerga longe”. O governo do Estado do Pará acredita que “todos os caminhos levam ao Sírio de Nazaré”. Enfim, “olha o carro que a gente faz para você jogar no buraco”, grita o anúncio da Mitsubish para o automóvel Pajero. 

Na mesma linha da publicidade, os textos jornalísticos recorrem às expressões populares, especialmente em seus títulos. Vejamos alguns exemplos: 

Se a notícia é sobre um acidente no aeroporto de Congonhas, o título avisa: “Um bandeirante entre o barranco e a pista”; para a regalia de alguns colarinhos brancos na prisão, “Cadeia doce cadeia”; uma reportagem sobre crianças abandonadas encontra seu título com “Abandonados à própria sorte”; a possibilidade de retorno da inflação gera um “Aviso aos navegantes”; sobre a corrupção no orçamento, “O anão balança, mas não cai”; enfim, se a questão é na Zona Franca, o título adequado é “Negócio da China em Manaus”. 

Um esclarecimento final: o modelo lingüístico utilizado por Veja, ao qual se atribui grande parte do seu sucesso enquanto mercadoria, conduz o profissional do jornalismo a buscar, com mais ênfase, nas expressões populares a matéria-prima para os títulos das notícias e reportagens. Uma ênfase – deve-se deixar claro – maior do que a colocada pela publicidade. Esta, contudo, serve-se desse mesmo expediente para melhor alcançar os objetivos de uma campanha, especialmente com relação aos anúncios destinados à veiculação em mídias específicas, como a da revista Veja. 

Conclusão 

A linguagem popular dos ditos, ditados e anexins, ao contrário do que possam pensar alguns, está muito viva e forte na publicidade e no jornalismo contemporâneo. As expressões populares estão presentes nas páginas da mídia impressa e nos espaços da mídia eletrônica em quantidade tal que autoriza a concluir que essa forma de cultura, cuja fonte é o homem comum e anônimo, continua a ser produzida. Há pelo menos cem anos, a publicidade e o jornalismo fazem dela a sua matéria-prima lingüística básica para alcançar os fins mercadológicos a que se propõem.

O Espiritismo na sociedade do espetáculo

De como se estrutura e se processa a comunicação na sociedade do espetáculo poucos têm consciência. Este verdadeiro “pecado” que a ignorância forja implica a existência de uma “massa” de criaturas que se identificam pelo desejo de consumo e que o sistema sabiamente utiliza, seja construindo um certo caminho da felicidade e o dispondo como o verdadeiro, seja reforçando as identidades que as tribos urbanas constroem para si mesmas como forma de se afirmarem no cenário social.
A comunidade espírita, como estrato social coerente, sustenta e alimenta o desejo de participar da construção das identidades com a oferta de um produto – o saber espírita – através de uma ação a que denominamos, por falta de melhor expressão, divulgação doutrinária.
Temos assim, de um lado, o sistema dominante que mantém as possibilidades de realização assentadas no alto consumo e, de outro, a difusão da ideologia da visibilidade como a forma de auto-afirmação possível. O jogo está formado, os atores estão no palco e as mídias são a parte fundamental do processo de viabilização dos interesses em disputa.
Neste terreno das glórias passageiras e das imagens que se substituem umas às outras, dos ídolos criados para um espetáculo exaustivo, forjados e atirados ao ostracismo com a mesma velocidade com que surgem, localiza-se a comunidade espírita à procura também de visibilidade para as suas propostas.
O espetáculo, contudo, predomina sobre a informação ou até mesmo por conta da informação, e está presente nas imagens e acima de tudo como ideologia consumada por um consenso de prática, como a dizer que só é possível ser eficiente na conquista de mentes e corações se a produção e a veiculação de mensagens obedecer aos critérios que o sentido do espetáculo impõe.
Diante disso, ao Espiritismo resta resolver o conflito de produzir a sua “divulgação” sob o império do espetáculo sem perder a capacidade de falar sobre suas propostas com a coerência e a lógica interna da doutrina. Será isso possível? É o que analisaremos a seguir.

O conceito da sociedade do espetáculo

A idéia da sociedade do espetáculo é antiga, o conceito é novo. A sociedade como afirmadora das aparências e como valorizadora do exterior tornou-se preocupação do homem desde a Grécia e a Roma antiga, passou pela Idade Média e alcançou a modernidade. Há profundas diferenças entre a idéia e o conceito contemporâneo de sociedade do espetáculo? Há diferenças, claro, mas talvez elas não sejam tão profundas quanto possa parecer. Na modernidade, o espetáculo recebeu o toque mágico dos meios de comunicação e se tornou, por isso, um espetáculo de dimensões globais. No passado, estava restrito aos ambientes localizados e tinha repercussões acanhadas, se comparado aos dias atuais. Mas não há dúvida de que o espetáculo exercia forte fascínio sobre os indivíduos e os dominava em certa medida. O espetáculo fazia parte da sociedade, era elemento dela e ocupava uma porção dos seus dias e das suas noites. Talvez esteja aí a grande diferença para a sociedade do espetáculo contemporânea, marcada pela presença da mídia e elevada ao nível do aparente transformado em real. Contudo, não se deve perder de vista essa força externa do espetáculo e sua influência: sempre que possível, feitos e comemorações, atos de bravura e interferência do irracional, tudo era motivo para a transformação em espetáculo.
O salto veio com o surgimento dos meios de comunicação de massa. A eles coube a tarefa de, numa primeira etapa, tornar o espetáculo conhecido de muitos e, numa segunda etapa, incorporá-lo como elemento interno de seu contexto, tornando-se assim, eles mesmos, um espetáculo. Entendam-se, as etapas aqui são meramente metodológicas, pois na verdade a assimilação do espetáculo ocorre em paralelo à sua transformação em razão da sociedade.
“O conceito de espetáculo” – diz Debord – “unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes. As suas diversidades e contrastes são as aparências desta aparência organizada socialmente, que deve, ela própria, ser reconhecida na sua verdade geral. Considerado segundo os seus próprios termos, o espetáculo é aafirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, isto é, social, como simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espetáculo descobre-o como a negação visível da vida; como uma negação da vida que se tornou visível“.[1]
A transformação do elemento constituinte – o espetáculo – em razão da própria sociedade significa na prática a formalização de uma cultura dominadora, a cultura do visível, do aparente e, portanto, a construção de consciências adaptadas ao consumo do que é aparente. Todos sabemos como uma cultura fortemente estabelecida é capaz de gerar consciências dispostas a assimilar e reproduzir esta cultura. A aceitação do espetáculo como razão de vida social não é apenas uma questão de gosto, mas uma condição para a inclusão nos diversos círculos sociais. Não é uma opção a fazer, mas uma determinação a cumprir.
A cultura do espetáculo é dominante por cumprir aquilo que Debord coloca: “o que aparece é bom, o que é bom aparece”. A crítica, portanto, da mídia do espetáculo é o reconhecimento de que ela faz do espetáculo essa razão social de viver. A notícia é espetáculo na TV, mas também nos jornais, nas revistas e nas emissoras de rádio. E é notícia sob o formato do espetáculo não apenas o fato, o acontecimento inusitado; também aquilo que antes não era, ou seja, a vida privada. O privado e o público se confundem nesse cenário difuso, assim como os interesses que dominam o público e o privado. O indivíduo permite que sua intimidade adquira visibilidade por conta de uma certa consciência da necessidade de tornar-se visível para obter reconhecimento; o espetáculo midiático é o meio pelo qual a visibilidade pode alcançar a dimensão pública mínima. A vida que se torna espetáculo deixa de ser a vida para se tornar espetáculo. Dentro desse contexto, cabe perguntar: qual é a possibilidade de ser sem tornar-se espetáculo?

Consciência na abordagem espírita

Uma discussão sobre a consciência, especialmente com vistas a clarear de alguma maneira a sua gênese e construção, parece-nos oportuna. Em Espiritismo a consciência assume posição importante e é abordada sob diversos ângulos. Não há na doutrina, porém, uma preocupação com a gênese e a construção da consciência, mas com suas funções enquanto gestora das ações da individualidade, como se quisessem os Espíritos dizer, como em outros tantos e tantos aspectos do conhecimento, que se trata de tarefa dos humanos encarnados essa descoberta. “O Livro dos Espíritos” dá um tratamento central em termos comportamentais para a consciência, estabelecendo advertências com vistas a indicar que o tipo de comportamento adotado tem grande participação no funcionamento da consciência: “Cuida que tua consciência esteja pura”[2], diz na questão 852. A preocupação comportamental, como se sabe, vai estender-se às diversas partes das obras básicas e assume posição destacada na grande maioria dos livros subsidiários, onde se acentua o caráter moral das ações humanas e suas implicações sobre a felicidade e a infelicidade das pessoas.
Além da ênfase comportamental, a questão da consciência encontra no Espiritismo, ainda, algumas outras abordagens, como por exemplo os destaques para sua importância enquanto atributo da individualidade (“A consciência de si mesmo é o que constitui o principal atributo do Espírito” – LE, 600), a consciência como noção de realidade física (“O Espírito tem consciência da distância que percorre – LE 90), a consciência como suporte da liberdade de pensamento e expressão (“A liberdade de consciência é um dos caracteres do progresso” – LE 837) etc.
O Espiritismo, portanto, não informa sobre como a consciência é gestada e menos ainda como se estrutura, se ela tem porventura uma origem anterior ao início do processo encarnatório, o que implicaria sua preexistência, como também não afirma peremptoriamente que ela sofre um processo de construção permanente nas diversas etapas evolutivas a que a individualidade está submetida, construção essa que deveria provocar alterações na sua intimidade. Isso pode, no limite, ser deduzido; sim, o raciocínio lógico nos indica que a consciência está em construção permanente, pois do contrário a individualidade não seria evolutiva. Ainda que esta lógica nos convença, ela também exige que se definam os termos da forma como a consciência é construída, por se assentar aí, com certeza, um fator importante para uma atitude compreensiva da individualidade sobre a consciência.
Embora não nos aclare quanto a este primordial conhecimento, o Espiritismo nos diz duas outras coisas sobre a consciência de grande significado: a primeira, com a afirmação que pretende ser, ao mesmo tempo, um princípio de estabelecimento de um conceito da consciência: “A consciência é um pensamento íntimo” (LE, 835). A segunda: “O homem traz em sua consciência a lei de Deus” (LE, 621). A afirmação de que a consciência é um pensamento íntimo implica também a afirmação de que ela se manifesta na forma de um pensamento, ou de pensamentos, frente às situações diversificadas do cotidiano, o que é também, na prática, o reconhecimento de que a consciência é uma forma pela qual a individualidade dialoga com o exterior. Conduz ainda ao reconhecimento de que, em sendo pensamento, é também algo que se serve de um material que já existe, pois não se poderia pensar em ser algo sem que esse algo esteja contido. E se está contido, só pode ter origem no exterior da individualidade, para que esta consciência, de alguma forma, se aproprie desse material para poder utilizá-lo.
Por outro lado, ao afirmar que o homem “traz” em sua consciência a lei de Deus, o Espiritismo está sugerindo que essa consciência preexiste ao homem encarnado. Para que a lei de Deus ali esteja, ela deve ter sido formada antes, o que conduz a outros questionamentos do tipo: quando, de que forma, sob que condições etc. Todas estas questões não podem encontrar respostas no próprio Espiritismo, uma vez que ele não as contempla, o que não significa que não devem ser objeto de pesquisa. Como a questão da consciência tem implicações diretas com o espírito, a essência humana, tem-se que o campo de conhecimento mais propício aos estudos dela seja o das ciências sociais, muito mais do que o das ciências físicas, pelo menos no que diz respeito à atualidade desses dois campos de conhecimento, uma vez que as ciências físicas não apenas têm-se mostrado incapazes de lidar com a subjetividade como de fato têm-se recusado a fazê-lo sob uma certa noção de sua inexistência. Contudo, a boa lógica nos indica que será unicamente pela integração destes dois campos do conhecimento que o homem poderá aspirar a um saber pleno, integral, da subjetividade humana e, portanto, da questão da consciência.

Os discursos da consciência

Em seu recente artigo sobre os “manipuladores cerebrais”, publicado na edição de julho de 2003 da revista “Scientific American”, Roberto Sapolsky relata alguns casos impressionantes de parasitas que desenvolveram a habilidade de “mudar o comportamento dos seus hospedeiros a seu favor”, ou seja alguns microorganismos como os vírus, por exemplo, podem levar seres animais e também seres humanos a agirem, a tomarem decisões, a comportarem-se de forma totalmente contrária àquilo que de fato normalmente fariam.
Segundo Sapolsky, roedores infectados por toxoplasma perdem o medo de gatos. O toxoplasma só pode se reproduzir nos organismos dos gatos e para tanto os gatos precisam comer os roedores infectados para que o toxoplasma ali existente possa se transferir para o seu organismo, se reproduzir e ser expelido pelas fezes, prosseguindo o ciclo. Ao gato, o toxoplasma não causa nenhum efeito, mas os roedores infectados pelo toxoplasma perdem a aversão pelos gatos e são levados a enfrentá-los, numa luta, como se sabe, inglória.
O exemplo vem a propósito. O que se quer reforçar com ele é a importância da consideração dos fatores externos para a compreensão do comportamento humano, sem nenhuma intenção de afirmar algum tipo de supremacia insuperável da parte deles. Na questão da consciência, uma compreensão possível de sua gênese e construção advém exatamente da noção clara de que a consciência, na linha do pensamento bakthiniano[3], surge e se afirma através de um diálogo com o exterior, nas relações comunicativas especialmente, em que os indivíduos interagem socialmente. Por isso, pode-se dizer que a consciência individual é um fato sociológico, ou seja, a consciência só se torna consciência, só existe depois que assimila o exterior. Daí ser necessária a noção de que o exterior tem importância para a consciência, mas não uma importância qualquer; o exterior está presente na consciência e de alguma maneira torna possível a compreensão dela, daquilo que a individualidade é, de como dialoga com o exterior, de como formula sua interpretação e compreensão do mundo, entendendo-se que o diálogo é uma forma de compreensão individual do exterior.
Segundo o sociólogo russo, “a consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais”, relações que se estabelecem primordialmente pela comunicação social, pelo diálogo, através do discurso dos sujeitos que interagem. Surge, portanto, um outro elemento importante no jogo da comunicação: a questão da linguagem, e aparece ela aí como que para afirmar, segundo uma linha antropológica cultural, que a linguagem é produto da cultura, mas é também ela produtora de cultura. Por isso, pode-se dizer, ainda com Bakhtin, que a palavra, entendida como elemento básico da linguagem e vista também como sinônimo de discurso, de fala, “é o modo mais puro e sensível de relação social”, estando, portanto na condição de instrumento a serviço da consciência. Por isso, diz Bakhtin, “a palavra está presente em todos os atos de compreensão e em todos os atos de interpretação” que a individualidade realiza cotidianamente, constituindo-se, assim, um elemento importante da análise das relações sociais, das consciências, dos contextos etc. Da mesma maneira que pela palavra a consciência adquire sentido, toda a sua ação de dialogar com o exterior revela a forma como a individualidade compreende o mundo e reproduz o que assimila do mundo.
Uma das muitas conclusões que se pode tirar disso é que a cultura individual, assimilada a partir do exterior, se revela pela palavra com que cada consciência expressa sua compreensão do mundo, mas também revela que é ela, a cultura, que estabelece para o indivíduo a visão que deve ter do mundo.

O social e a “divulgação” espírita

O desafio espírita, em tempos de intensa consciência da necessidade de fazer com que o maior número possível de pessoas conheça a doutrina, consiste na solução de um conflito ético: como divulgar sem tornar a doutrina um espetáculo de aparências? Esse desafio, contudo, só existe como tal para aqueles que concebem a existência do conflito. Os que não percebem qualquer tipo de contradição entre as condições colocadas e o sentido espírita do saber, ou que não lhes atribuem um valor considerável, não têm que se preocupar com o desafio.
A questão enlaça os dois pontos anotados: a cultura do espetáculo, que domina o cenário social, e a consciência construída por essa cultura. Uma massa de criaturas, submetida às mensagens constantes de uma “realidade” na qual todos estamos imersos, é levada à adoção de uma consciência passiva e favorável ao espetáculo. A crítica portanto, deve alcançar em primeiro lugar à cultura dominante, ao sistema que reproduz a cultura e faz dela o elemento de dominação. Sob um fluxo permanente de mensagens altamente persuasivas para valores declarados naturais, a cultura tende a se reproduzir e a assumir a aura de natural. Daí o fato de as criaturas numa sociedade do espetáculo capitularem e assumirem o espetáculo como algo intrínseco e normal e convergirem para ele naquilo que as toca. Os espíritas, sob essa consciência, são levados também a adotar o sentido do espetáculo sem qualquer constrangimento e sem nenhuma preocupação com os sentidos dominantes. Enquanto cidadãos preocupados em resolver as dificuldades técnicas e financeiras, as que mais aparecem e as que mais recebem atenção porque se encontram também no centro das novas realidades colocadas pela sociedade do espetáculo, os espíritas caminham para a busca de soluções que minimizem as dificuldades que os distanciam do núcleo midiático dominante – TV, rádio, internet e produtos impressos – e, portanto, os colocam também distantes do grande público que essas mídias alcançam. A realidade do sistema e a cultura do espetáculo não surge aí como preocupação, seja porque estão assimiladas em sua aparente naturalidade, seja porque são tratadas como elementos secundários no jogo do poder social.
Os esforços até aqui empregados para levar o Espiritismo à grande mídia apresentam duas características singulares: parte deles, talvez a menor, é empregada pelos próprios espíritas enquanto membros do chamado movimento doutrinário; outra parte constitui o interesse da própria mídia pelo tema, dada a sua repercussão junto ao público consumidor do produto espetáculo. E aí se pode observar o sentido de espetáculo dominando a ambos os esforços. Filmes, novelas, romances, peças teatrais e outros produtos da indústria cultural obedecem ao signo do espetáculo em virtude das próprias razões que dominam essa indústria, não apenas quando a temática é a espírita. Os poucos e possíveis esforços desenvolvidos pelos espíritas para produzirem produtos com a temática doutrinária apresentam, quase sempre, a característica da espetacularização, em acordo com as normas sociais vigentes. Essa mesma característica de submissão dir-se-ia quase inconsciente às regras do espetáculo, aparecem também e com força quando dos eventos em que o assunto é como resolver os problemas de acesso à mídia de massa para fins de difusão do Espiritismo. Em congressos e mesmo nas discussões recentes nos “chats” e listas da Internet, circulam mensagens que apresentam ampla preocupação com os aspectos financeiros e de convencimento dos meios de comunicação, centrando neles a atenção. Quase nenhuma preocupação sobra para com o sentido da cultura dominante e sua relação com as formas de difusão do saber espírita. A inconsciência para com essa dura realidade que a sociedade do espetáculo coloca para aqueles que pretendem realizar alguma atividade cultural explica porque esforços recentes de programas de TV com temática espírita, feitos por espíritas, apresentaram as mesmas características de tentativa de espetacularização comum à TV. A ausência de suporte financeiro serve para explicar o fracasso desses programas, bem como as suas deficiências técnicas, mas serve acima de tudo para encobrir o grave problema da submissão à forma, às aparências, tornando esse problema ou secundário ou inexistente.
É possível que se esteja perguntando se há alguma possibilidade de realizar o trabalho de difusão do Espiritismo sem a submissão às regras da sociedade do espetáculo. Mas essa é também uma questão por si mesma respondida. A sociedade do espetáculo não é uma abstração criada para justificar um estado de espírito pessimista. Ela é antes de tudo uma cultura e como tal contém em si mesma as razões de sua manutenção, pois é assim que ela se auto-reproduz. Trata-se de uma razão colocada – a de que não é possível superar a realidade dos meios quando se trata de falar com uma grande audiência, ou seja, a razão da sociedade do espetáculo é uma razão de adequação à “realidade” quando se quer ou se deseja servir dos meios técnicos para alguma finalidade pela comunicação em ampla escala, e nunca a contestação dessa realidade. A cultura do consumo não é uma mensagem publicitária, mas um sentido para formação de sentidos e como tal cria consciências predispostas a reproduzi-la.
A pergunta, portanto, deve ser invertida: o que deve ser feito para difundir o Espiritismo sem a submissão à necessidade de espetacularização colocada pela sociedade? Esse é o grande desafio que se coloca aos espíritas, e não à sociedade. Não se podem inverter as questões quando se trata de difusão do Espiritismo. Não é nem lícito nem razoável cobrar dos artistas, dos roteiristas, dos produtores de filmes e novelas, dos editores de revistas e jornais plena observação aos princípios doutrinários do Espiritismo quando esses profissionais, com nossa permissão ou sem ela, se dispõem a produzir espetáculo com a temática espírita. A eles se pode emprestar apoio e sobre os produtos por eles criados exercer o direito de crítica, inerente a qualquer cidadão. O Espiritismo é uma doutrina de caráter público e ninguém precisa de autorização para escrever ou falar sobre temas espíritas. Entretanto, todos os espíritas podem e devem resolver seus dilemas comunicativos a fim de superar os conflitos que o conteúdo espírita encontra em seus contatos com a sociedade contemporânea.

Para uma conclusão possível

No centro de toda discussão sobre comunicação social e Espiritismo na atualidade encontra-se a questão da cultura do espetáculo a serviço de uma cultura maior: a do consumo. Uma contra-consciência é, assim nos parece, a única maneira de antepor esforços de resistência à realidade que não é real, mas aparente. Ou o Espiritismo reúne-se aos diversos segmentos da sociedade que se opõem ao espetáculo e todas as suas conseqüências ou se submete à cultura do espetáculo, fazendo um Espiritismo de aparências para fins de visibilidade social. Em qualquer dos casos, estaremos fazendo uma opção: a opção pela forma e a opção pelo conteúdo.

 

[1] DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo, Lisboa, Edições Mobilis in Móbile, 1991.

[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, Capivari, Ed. EME, trad. Herculano Pires, 1997

[3] BAKHTIN, Mikail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo, 8a, Hucitec, 1997.