Categoria: Comunicação-Cultura

Bezerra de Menezes – O homem, seu tempo e sua missão

RESENHA (I)

Autor: Luciano Klein
1ª edição MEBEM / FEEC, Fortaleza, Ceará, 2021 
(disponível a partir de fevereiro de 2022)
Formato 16x23cm, 1.192 páginas, capa a cores, miolo p/b
Prefácio: Samuel Magalhães
Participação: Divaldo Pereira Franco (médium)
Vianna de Carvalho (espírito)

Há muito se comentava a escritura da biografia do, por certo, mais conhecido espírita brasileiro de todos os tempos, Bezerra de Menezes. Poucos meses atrás, ainda em 2021, duas ou três lives promovidas com o autor davam conta da proximidade do lançamento do livro, o que ocorreria ainda a tempo de incluí-lo entre as homenagens aos 190 anos de nascimento do biografado, a serem feitas em agosto de 2021, o que acabou não ocorrendo, mas ajudou a colocar na pauta das discussões e análises o personagem e a própria biografia. Assim como um teaser publicitário, a expectativa sobre o livro foi ampliada enormemente.

Contribuiu para aumentar essa expectativa alguns pontos que entraram espontaneamente no debate durante as lives, ou antes delas, entre os quais, por exemplo, a questão dos poderes discricionários dados a Bezerra de Menezes quando de sua ascensão ao cargo de presidente da FEB em 1895, bem assim as opiniões de que o conceituado político seria o verdadeiro continuador da obra de Allan Kardec. Esta última questão abria outra expectativa, a de que a esperada biografia abordasse e analisasse o assunto.

Pois bem, o livro em sua versão física saiu e está à venda no site da Amazon ao valor de 175 reais, frete incluso. Não há notícia da versão e-book. Trata-se, de fato, de um valor que dificulta em muito o acesso de grande parte dos leitores, mas não pode ser visto como fora de propósito, porquanto, se levado em consideração o volume de páginas, cada uma delas tem o custo de pouco mais catorze centavos, o que coloca o livro na média do valor dos livros espíritas. Considere-se, ainda, o primor com que a edição é apresentada, com capa dura a cores, excelente diagramação e impressão de qualidade. (mais…)

Grãos escolhidos na peneira do tempo


CONVERSANDO SOBRE EDER FAVARO


Ao invisível cabe o condão de desafiar o indivíduo com certa permanência, como ocorre quando alguém muito próximo dentre os próximos parte. Mesmo que haja anunciado com antecedência a possibilidade dessa partida, o momento em que a morte ocorre surge como águas precipitadas na cachoeira da vida.

Eder Favaro ao centro, Marcus Vinicius Ferraz Pacheco à esquerda e Wilson Longubuco à direita. Essa foi a primeira diretoria da ABRADE, sucessora da ABRAJEE, com Eder vice-presidente.

Viajávamos de automóvel para Bauru com o Eder Favaro e eu sentados no banco de trás e o Saulo Wilson dirigindo. Uma viagem de algumas horas desde São Paulo, mas que transcorria plenamente agradável, em especial pela contagiante capacidade de divertir do Eder e suas histórias, tendo por fundo o movimento espírita brasileiro, quase sempre. Fatos, personagens e situações inusitadas formavam o cenário das narrativas feitas com gosto e muito riso.

Conheci o Eder Favaro em 1972 no salão Bezerra de Menezes do antigo prédio da Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP) da rua Maria Paula, na capital paulista. Deveria ele apresentar algumas aulas de caráter histórico sobre a vida de Jesus e eu, aluno, o observava com muita curiosidade. Falava sentado e utilizava-se de um vigor fonético pouco visto, de uma seriedade inquestionável, mas também introduzia alguns fatos pitorescos na narrativa sempre muito clara, o que descontraía o ambiente e fazia rir a muitos. Eder foi, talvez, o primeiro orador espírita, dos que assisti até então, a me despertar para o uso de bibliografia fora dos livros espíritas. Marcou-me muito aquela tarde de sábado. Eu tinha apenas 23 anos incompletos e ele já quase 42. Eu iniciante na doutrina e ele a meio caminho da vida, pouco menos. (mais…)

Dois caminhos de Hécate. E o terceiro?

A discussão cansa alguns, demanda outros e é desconsiderada pelos que já estão consolidados em suas crenças. No entanto, prossegue para além das palavras ou por causa delas. Sentimentos, emoções, racionalidade; há muita coisa em jogo.

A discussão sobre ser ou não o espiritismo religião é ineficaz ou dispensável? Kardec não pensou assim ao ser solicitado a entrar nela logo que a então novel doutrina que ofereceu ao mundo despertou atenção. Não foi ele que tomou a iniciativa de esclarecer sua posição; foram os reclamos e as tendências que o levaram à arena dos debates, pouco importa, neste particular, o contexto positivista da época e as repercussões profundas da secularização. A verdade é que a discussão perdura até nossos até nossos dias com semelhantes consequências e muitas outras de caráter científico, filosófico etc.: não foi e não será concluída, por não ser este o seu objetivo primordial.

E qual é este objetivo? Manter acesa a chama da busca pela verdade.

Seria ingênuo, como ingênuos são os argumentos que se valem da alegação de desnecessidade da discussão ou de que ela gera apenas perda de tempo, para se oporem àqueles que se mantêm na arena do debate. Afinal, não se está numa disputa da qual sairá um vencedor e um perdedor. A verdade não pertence a ninguém e (mais…)

O pensamento hegemônico que ata, enlaça e agrada. E o consolo que submete

A concertação de uma Religião Espírita atende a conveniências humanas, assim como a refutação da existência dessa mesma Religião Espírita. Ambos os que se debatem nesse meio discursivo pró e contra se apoiam em Allan Kardec, mas há uma diferença fundamental a favor daqueles que combatem a ideia da Religião Espírita, ou seja, estes contam com afirmação peremptória, pública e verbal de Kardec, que deixou patente em todas as ocasiões a que se referiu ao assunto que não havia espaço para uma afirmação de que o espiritismo é religião. Mesmo quando, em seu famoso discurso de 1868, constante da Revista Espírita, ele toma de volta o assunto, o faz na direção de uma reafirmação da não religião, ao abrir portas para uma possível religião da fraternidade se este fosse o entendimento e desejo. Ainda aí, pois, o sentido ou significado de religião constituída e organizada estava sendo repelido, da mesma maneira que o foi quando, em documento republicado já no século XX, dando a entender que buscava criar a religião da solidariedade, Kardec põem pá de cal na questão ao reafirmar que sua opinião sobre a questão se mantinha inalterada. (mais…)

Conselho da FEB aprova a alienação dos imóveis do Museu Espírita de São Paulo

Assembleia virtual desta 2ª feira, 15 de novembro, com apenas um voto contrário dentre os quase 60 votantes (alguns por procuração) decidiu pela aprovação da venda dos prédios. Perri, com apoio do CCDPE, tentou evitar a decisão, mas foi ignorado.

O prédio principal do Museu, fechado há alguns anos, está no coração do conhecido bairro paulistano da Lapa.

A situação estava decidida antes da assembleia ser instalada: os atuais dirigentes da FEB se haviam determinado a vender alguns imóveis recebidos em doação pela entidade a fim de fazer frente à sua situação econômico-financeira e a assembleia convocada para deliberar sobre o assunto foi mera formalidade. Prova disso é que o Edital de convocação, para cumprir a lei, trazia apenas a informação geral de discussão e aprovação de alienação de alguns imóveis, sem especificá-los. A indicação desses imóveis só foi veiculada dois ou três dias antes, com um adendo ao edital, quando se tomou conhecimento de que os prédios doados, junto com o acervo, pelo Museu Espírita de São Paulo eram os mais destacados entre eles.

Durante a assembleia tomou-se conhecimento, também, de que já há tratativas ou perspectiva de negociação dos imóveis com uma construtora interessada em levantar no local (mais…)

FEB decide nesta segunda-feira em assembleia a venda da sede do Museu Espírita

Recebido em doação do fundador, museu que a FEB deveria preservar como patrimônio do espiritismo poderá ter uma de suas partes importantes transformadas em moeda, perdendo, assim sua principal destinação.

Acima, a recepção do Museu. À direita, um dos ambientes dedicados a Allan Kardec. (Ver correção ao final da notícia.)

 

A notícia é verdadeira: a Federação Espírita Brasileira, FEB, discutirá nesta segunda-feira, dia 15 de novembro de 2021, a venda (alienação) de alguns de seus prédios, entre eles a sede do Museu Espírita na Capital paulista. A assembleia convocada em caráter extraordinário será realizada no modo virtual e tem o propósito de autorização de venda de parte do patrimônio físico da centenária instituição.

A notícia foi dada em primeira mão pelo ex-presidente da FEB, Antonio Cesar Perri de Carvalho e foi confirmada por documento veiculado entre os membros do Conselho, (mais…)

Em live, autor do livro Nem céu nem inferno esclarece sobre pontos controversos das polêmicas adulterações

Paulo H. Figueiredo diz o que pensa sobre as modificações introduzidas nos livros A gênese e O céu e o inferno, ambos de Allan Kardec, em encontro realizado virtualmente pelo canal da Abrade no dia 19 de outubro. Vale conferir.

É preciso mais do que contextualizar o espiritismo, afirma Paulo. Clique para assistir.

É preciso contextualizar Kardec, mas não basta essa contextualização para compreendê-lo. É preciso conhecer o pensamento da época e conectar esse pensamento com a atuação de Kardec. Essas e outras colocações puderam ser discutidas na entrevista ao vivo dada pelo autor do livro Nem céu nem inferno (e outros) à equipe da Abrade, tendo Marcelo Firmino na coordenação acompanhado por Luis Lira e Ivan Franzolim.

Em mais de duas horas de bate-papo, com alguns momentos intensos, Paulo H. Figueiredo tocou em pontos cruciais para o entendimento das questões que chamam a atenção do debate sobre as adulterações. (mais…)

Kardec reafirma: o espiritismo não pode ser visto como uma (nova) religião

Publicações reapresentadas na linha de documentos secundários, que deveriam provar que Kardec estava preparando a religião espírita, reafirmam exatamente o contrário: a posição clara do codificador a respeito do entendimento equivocado dos que procuram incluir o espiritismo na categoria Religião.

A publicação no formato digital, feita dia 29 de agosto último, do livro Religião e espiritismo – análise de novas fontes de informações, (download disponível aqui) recoloca ingredientes pouco conhecidos nas discussões da temática recorrente da questão religiosa no espiritismo. Ser ou não a doutrina espírita uma nova religião é um tema que surgiu logo depois da publicação de O livro dos espíritos, o que levou Allan Kardec, seu autor, a tratar do assunto e a deixar explícita sua posição contrária em diversas oportunidades, através de sólida argumentação. Para ele, o espiritismo era e continuou sendo durante sua vida inteira uma filosofia com amparo na ciência, de consequências morais ou religiosas. Mesmo após sua manifestação quase final no discurso reproduzido na Revista espírita, de 1868, reforçando essa posição contrária, o tema permaneceu em debate e, mais do que isso, tornou-se imperioso à vista de no Brasil as lideranças federativas, comandadas pela Federação Espírita Brasileira, FEB, adotarem oficialmente o tríplice aspecto expresso no paradigma Filosofia, Ciência e Religião. A simples colocação em dúvida do viés religioso é suficiente para exclusões – ou, na linguagem do dia, cancelamentos – dos entes discordantes, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas. (mais…)

Biógrafo afirma não acreditar que Bezerra de Menezes dirigiu a FEB com poderes discricionários

Ícone inconteste do espiritismo religioso, Bezerra, no entanto, confirma ter assumido a presidência da instituição com carta branca para decidir segundo suas conveniências.

 

Luciano Klein, à esquerda e à direita Marcelo Firmino (acima) e Luis Lira.

À espera do lançamento da biografia de Bezerra de Menezes, prometida para fins de setembro próximo, a Abrade, Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo, realizou entrevista ao vivo com o autor, Luciano Klein, que também é presidente da Federação Espírita do Estado do Ceará, no último dia 14 de agosto. A transmissão ocorreu pela página da Abrade no YouTube – assista aqui.

Segundo Klein, o livro já se encontra em fase de edição, conterá 1.300 páginas e é o resultado de 30 anos de pesquisas. Seu lançamento fará parte das comemorações dos 190 anos de nascimento de Bezerra de Menezes, que ocorrem neste mês de agosto.

Um dos momentos mais destacados da entrevista foi a abordagem do autor a respeito da informação que comento em meu livro Ponto Final, o reencontro do espiritismo com Allan Kardec, de que Bezerra de Menezes (mais…)

As memórias do Cesar Perri como relatos de trajetória existencial

RESENHA

As narrativas biográficas constituem um gênero literário bastante consumido no mundo, sejam elas escritas ou audiovisuais, tanto mais quanto revelam aspectos do pensamento, da identidade e das ações individuais e coletivas por parte daqueles que se destacam de algum modo na sociedade. Há pelo menos dois tipos de material a colher aí: aqueles que se ligam à subjetividade do biografado e os de caráter histórico.

Antonio Cesar Perri de Carvalho, ex-presidente da USE-SP e da Federação Espírita Brasileira, viu-se de repente impulsionado a registrar suas memórias logo no início da pandemia do Coronavírus, e o fez com tal fôlego que acaba de publicá-las em um denso volume – Pelos caminhos da vida, memórias e reflexões (Ed. Cocriação) – com mais de 600 páginas, avisando logo na capa que se trata de 3 volumes em 1, ou seja, uma trilogia, assim dividida: 1º, 2º e 3º Livro, cada qual deles com prefácio específico segundo o tipo de material e o tempo abordado.

À longa carreira acadêmica, cuja trajetória profissional atinge o cargo de pró-Reitor, chegando a pleitear a Reitoria sem o conseguir, Cesar Perri soma sua trajetória espírita, onde também (mais…)