Categoria: Artigos

Espiritismo para surdos e mudos e outros tipos de deficiências

Li a interessantíssima entrevista publicada no jornal Correio Fraterno feita com a professora Eliane Alves de Carvalho Costa, sobre a inclusão de deficientes auditivos nas casas espíritas. Como o assunto me interessa e, também, se faz importante trago aqui o meu depoimento a respeito do assunto.

Talvez, o primeiro caso de deficientes que me tenha despertado a atenção ocorreu quando do meu ingresso no Ensino Superior. Havia um aluno cego e, por coincidência, passou a sentar-se ao meu lado. Detinha o domínio do Braile, língua, como se sabe, criada especialmente para os deficientes visuais. Isso facilitava muito sua vida, pois podia ouvir e transcrever as aulas, de maneira a estudá-las melhor em casa.

Conversávamos bastante e isso é um fator interessante, pois durante as aulas estava ele sempre atento ao que era dito pelo professor, mas fora desses momentos gostava de uma prosa e, inclusive, de tirar dúvidas sobre o que tinha ouvido. Era calmo, seguro de si, falava mansamente e estava sempre com um sorriso no rosto. Um ano após, seguiu ele para outro destino, de maneira que não nos vimos mais.

Anos mais tarde, vindo eu a exercer a docência no ensino superior, deparei-me pela primeira (mais…)

Período do livre pensamento. Estamos nele?

O caro amigo Milton Medran, do jornal Opinião Espírita, na edição presente, janeiro/fevereiro de 2019 sugere/propõe que a atual fase do espiritismo seja reconhecida como o período do livre pensamento. Argumenta, com propriedade, que Kardec havia apontado seis períodos para a doutrina, nomeando os quatro primeiros e o sexto, mas deixando ao quinto, que seria o atual na visão do Milton, em aberto sua denominação. Ao quarto período, Kardec denominou religioso e para o quinto propõe Milton seja denominado período do livre pensamento.

A conclusão do Milton é interessante e desperta reflexões diversas, uma delas podendo ser analisada no seguinte questionamento: temos, de fato, um período religioso em andamento ou alcançando seu final? E quais seriam os sinais a sustentar que um novo período, o quinto, estaria marcado pelo livre pensamento?

Em primeiro lugar, a demarcação por períodos do andamento da doutrina espírita, que Kardec de fato fez, é sempre um exercício muito complexo, seja para ele, em seu tempo, seja para qualquer outro em qualquer tempo. Qual era a motivação de Kardec quando estabeleceu aqueles períodos? Suas reflexões a respeito indicam um esforço de compreensão dos fatos e o tempo deles, com vistas a enfrentar o momento por que passava e preparar-se para o futuro. Naquele instante, Kardec enfrentava uma tempestade de granito formada pelos contestadores da doutrina espírita. Tinha, pois, razão para denominar aquele o período de lutas para sustentação da obra em curso. Neste pé, ficava mais tranquilo entender que o seu marco inicial estava no aparecimento do fenômeno mediúnico em largas proporções (mais…)

Manifesto é mais uma ação por um espiritismo sem donos e sem danos

Lançado com assinaturas individuais e institucionais, é ele mais um brado contra o religiosismo, o poder hegemônico, a negação da diversidade e as práticas absurdas.

 

Sob a coordenação da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (ABPE), mais de 150 espíritas e instituições assinam o documento – Manifesto por um espiritismo kardecista livre – que promove um espiritismo de livres-pensadores capitaneado por Allan Kardec. O conteúdo desse manifesto deixa claro sua oposição a uma série de pensamentos de instituições e lideranças que se distanciam e distorcem a doutrina espírita ou fazem dela uma escada para a promoção de vaidades e personalismos, como também de práticas que atentam contra o bom senso destacado pelo fundador.

Nesse instante de avassaladoras atitudes populistas nos meios doutrinários, com congressos de voz única dominante, eventos exploratórios da credibilidade pública e assentados em arrecadações financeiras, exaltação do nome de Jesus como bandeira, sufocamento da razão kardecista, abusos das crenças ingênuas, tentativas de restabelecimento de textos ultrapassados e autoritários em sua essência, distanciamento do conhecimento como suporte do progresso e tantos outros sinais de engessamento doutrinário, o documento representa uma postura digna e necessária. (mais…)

O humano, o sagrado e as verdades da experiência mediúnica

 

Diante de fatos condenáveis relatados na imprensa, envolvendo médiuns, muitos perguntam por que os bons espíritos permitem que tais coisas ocorram e alguns vão além e questionam se esses bons espíritos, inclusive os mentores, participam dessa trama horrível.

 

Estudos sobre a mediunidade, desde Kardec, não só desvelam o quadro da sua integração com a natureza, mas, também, o desafio colocado ao ser humano ao lidar com o fenômeno mediúnico.

Ninguém pode fugir da realidade mediúnica que existe na natureza humana. A mediunidade está no ser terreno assim como estão os sentidos físicos e, como estes, aperfeiçoa-se ao longo da experiência milenar da civilização. Os sentidos físicos ligam o corpo material à terra e a mediunidade coloca a alma na relação comunicativa com os espíritos, relação permanente e cotidiana, mas ainda incompreendida pela maioria.

Quando a mediunidade assume a condição de mediunato, como interpretou Herculano Pires, ela se constitui ferramenta de experiência específica, dando ao seu portador condições para subir um degrau acima na escada de Jacó em que todos seres humanos se encontram. Trata-se de um compromisso reencarnatório para trabalhar em prol do bem de todos. Quem assim renasce logo será denominado médium, diferenciando-se dos demais seres humanos não por possuir poderes especiais e privilégios, mas por conta de um compromisso livremente assumido e válido para a vida atual.

A diferença entre os médiuns e os demais seres humanos está em que estes também possuem mediunidade, mas em grau diferente, suficiente, apenas, para a relação com os seres invisíveis, os espíritos ditos desencarnados, no nível de uma comunicação pelo pensamento. Explicando: há um diálogo permanente entre encarnados e desencarnados, com trocas de ideias, sugestões, solicitações, conselhos, etc., assim como ocorre com os encarnados entre si. A diferença está no fato dos encarnados, (mais…)

O mercado editorial espírita comporta o idealismo doutrinário?

 

(Publicado por Kardec.com, ed. 12/2018)

 

Feira do livro espírita no Riopreto Shopping em março de 2018.

A pergunta foi feita ao jornalista e escritor Wilson Garcia, que conhece como ninguém os aspectos do mercado editorial. Os desdobramentos da questão serviram de estudo feito pelo competente pesquisador Ivan Renê Franzolim (São Paulo, SP). Segundo Garcia, autores, editores, distribuidores e livrarias espíritas estão “no olho do furacão capitalista e a sobrevivência do ideal da difusão do Espiritismo pelo livro parece comprometida pela dura imposição do lucro sem medidas”. Leia a entrevista e tire as suas conclusões. Depois acesse o blog de Franzolim para ver o resultado de sua pesquisa.

 

Ivan – O que é ou deveria ser uma Editora Espírita?

WG. Os tempos mudaram e muito. No campo editorial espírita, essas mudanças foram colossais, não só em termos de mentalidade como, também, em termos tecnológicos. Nas décadas de 1960 / 1970, uma editora espírita deveria ser aquela que fosse comandada por espíritas com amplo conhecimento doutrinário, capazes de escolher apenas obras que tivessem aderência plena ao espiritismo. Em parte, isso ocorria. Mas, em termos editoriais, os livros sofriam com capas feias, papel de miolo ruim e uma divulgação de alcance limitado. Só era encontrado nas poucas livrarias espíritas, com alguma exceção. Os títulos disponíveis nas estantes eram também reduzidos em número. Os editores espíritas dedicados se foram, o capitalismo ampliou seus braços e dominou a tudo, a área editorial espírita, inclusive. Com isso, a força da alta concentração em grupos econômicos mundiais passou a exercer seu domínio e as editoras espíritas não fugiram disso. Foram cooptadas pela realidade dura de uma economia que concentra o poder e mata aquelas empresas que não conseguem crescer segundo o padrão dominante. Assim, falar em editores espíritas hoje é quase uma heresia. O que temos são editoras com visão capitalista, norteadas pelo lucro, balizadas por pesquisas de mercado. Com isso, os livros passaram por um enquadramento no que tange ao gosto do público, capas belíssimas, papel de miolo ecológico, ampla atenção ao marketing, grande quantidade de títulos e pouca ou nenhuma preocupação com o conteúdo em termos doutrinários. Todo o poder de crítica (mais…)

Um centro espírita atual, profilático e profético

 

Surgido em 1980 e, certamente, concluído antes dessa data, o texto de Herculano Pires se revela um discurso cada vez mais atual, o que lhe confere alguma coisa de profético ante uma realidade bastante triste.

 

Herculano Pires fala do presente e ao mesmo tempo aponta para o futuro.

O movimento espírita anda de lado, desviando-se da própria doutrina? Os fatos dizem que sim e Herculano Pires já no final da existência terrena registrava o seu inconformismo para com esse desvio. Logo na introdução do livro O centro espírita, publicado após sua partida, apresenta um verdadeiro desabafo ante a situação, cada vez mais presente, de um religiosismo dominante no movimento, com uma afirmação categórica: “o que fazemos, em todo este vasto continente espírita é um imenso esforço de igrejificar o Espiritismo”. Ou seja, estamos ouvindo Herculano falar para um público passivo antes de começar o ano 1980, há, portanto, quase 40 anos. De lá para cá, a religiosidade humana dos adeptos está perdendo cada vez mais para o religiosismo apoiado na bengala do misticismo.

Se o passado histórico do Espiritismo em terras brasílicas já registrava o conflito entre místicos e científicos ainda no final do século XIX, na década de 1970, última de Herculano, o caminho para o religiosismo parecia definitivo. Hoje, pode-se dizer que é irreversível. Há uma maioria religiosista e cega, pois não se vê como tal, antes comandada apenas pela Feb e algumas federativas e, agora, por todas elas. Não há uma sequer fora dessa linha igrejeira – ou que não contribua para ela. Salvam-se desse imenso fosso alguns movimentos e centros espíritas comandados por adeptos estudiosos e dedicados votados ao bom senso que preside as reflexões e a compreensão doutrinária.

O discurso de Herculano menciona os “espíritas rezadores”, aqueles que são eternos pedintes de ajuda dos céus. Hoje, há centros espíritas multiplicando as possibilidades dos seus frequentadores (mais…)

A Gênese, por Cosme Massi, e a pesquisa de Simoni Privato

 

Por Antonio Leite, NYC

 

Quando pela primeira vez ouvi a entrevista de Cosme Massi sobre a polêmica 5ª edição de A Gênese, de Allan Kardec – no momento em que escrevo estas linhas já a ouvi múltiplas vezes – duas coisas me intrigaram sobremaneira. Eu havia à época concluído a segunda leitura da obra da Simoni Privato Goidanich, “O Legado de Allan Kardec”. Não consegui aguardar a edição brasileira dela e fiz a primeira leitura em espanhol. Havia igualmente terminado a leitura da obra “Revolução Espírita” de autoria de Paulo Henrique de Figueiredo, a mais completa e extraordinária obra que já li no campo da pesquisa espírita. Ambas abordam temas pelos quais sempre tive o maior interesse.

 

De fato, em meus estudos de algumas décadas da Doutrina dos Espíritos, sempre com base nas obras de Allan Kardec, todas indistintamente, em especial as obras fundamentais e a Revista Espírita, o meu interesse não ficou preso tão somente ao aspecto doutrinário. Sempre tive igualmente um enorme interesse pelo estudo da história do movimento espírita desde o período de elaboração da ciência espírita e posterior, bem como igualmente o período da formação do movimento espírita em terras brasileiras. Desde cedo em meus estudos segui à risca a advertência do filósofo e escritor espírita J. Herculano Pires que nos orienta: “As obras de Kardec são a única fonte verdadeira do saber espírita. Quem não ler e estudar essas obras com humildade e vontade legítima de aprender, não conhece o Espiritismo.” (mais…)

O espírita, o espiritismo e os congressos

 

Nota-se uma grande diferença quando comparados o formato, os objetivos e os resultados dos congressos feitos nos diversos campos do saber e os que são realizados nos meios espíritas. Todos buscam o progresso, menos os espíritas, que pretendem apenas uma acanhada divulgação.

 

É preciso dar um basta nesse repetitivo, retrógrado e pernicioso modelo de congresso que se vê nos meios espíritas da atualidade. É preciso lutar contra essa mentalidade medíocre que se instalou e que determina que o progresso do espiritismo fique estacionado nas conquistas do passado, como se a doutrina estivesse completa em termos de conhecimento, resolvida enquanto formadora de consciências e alcançado a excelência do saber, como se depois dela nada mais houvesse. Temos que dissolver essa ideia de que tudo o que nos resta é aprender melhor o que está posto, como se o que está posto não possuísse ligação com o que veio ou virá da filosofia e da ciência.

Meus amigos de diversas áreas – do Direito, da Saúde, da Educação, dos Esportes, da Política e tantas mais – saem de seus habitats profissionais e viajam distâncias às vezes incomensuráveis, gastam significativas somas financeiras para aprender, adquirir novas técnicas e acompanhar o que há de mais expressivo e atual no mundo do conhecimento, enquanto os espíritas fazem tudo isso para simplesmente ver oradores famosos, ouvir palestras de temas repetitivos e confraternizar risonhamente nos intervalos festivos. (mais…)

Serão os documentos novos sobre Kardec lançados no jarro de barro, como os evangelhos apócrifos?

 

Se a água não passa duas vezes sob a mesma ponte, qual é a água que passa sob a ponte?

 

Em companhia do pesquisador Ivan Franzolim (na foto à direita), estivemos na FEAL com a assessoria do coordenador do acervo, Paulo Henrique Figueiredo (ao centro).
Um trabalho sério está sendo executado por especialistas, para conservação e digitalização dos documentos.

Quando o espiritismo abriu as portas tão desejadas da espiritualidade com a chave da razão, deixou à mostra um novo mundo de informações, tão vasto que sua absorção demandará um largo tempo de maturação humana.

A quantidade de documentos e Cartas de Kardec, bem como de Chico Xavier, surpreende os observadores.

A uma delas, a que brota das relações entre espíritos e homens de carne, Herculano Pires chamou de interexistencialismo, ou seja, o ser humano vive em dois tempos simultâneos: a vida do corpo conectada com os seus semelhantes, e a vida do espírito, em conexão com aqueles que já viveram por aqui.

As inúmeras possibilidades que esta vida comunicativa em dois planos nos oferece são incalculáveis. Basta refletir sobre o que se passa aqui na Terra, onde a comunicação social demanda permanente esforço de compreensão e de adaptação de todos, visto à sua complexidade. Palavras, imagens, sinais são muito mais do que significam em termos semânticos. São, na verdade, signos simbólicos, cujo significado não está visível, mas contido sob a capa das aparências a pedir significação para cada situação em que são aplicados na comunicação humana. (mais…)

Para os vaidosos o espiritismo é apenas o mote

 

Confesso que me constrange ver espíritas fazendo apologia de si mesmos. Retorno ao assunto pelo fato de leitores me solicitarem a opinião sobre casos e pessoas específicas.

 

Não cabe aqui ficar nomeando este ou aquele, nem mesmo neste tipo de situação. Basta o constrangimento que nos causam. E de mais a mais eles estão aí, na imprensa espírita e nas redes sociais, podendo ser facilmente identificados.

Parece que entre os danos morais que a vaidade ocasiona está uma notória desfaçatez e uma incapacidade absurda de não perceber o nível a que descem.

Lembra-me Augusto Veiga, um velho solteirão de minha terra natal. Tinha ele uma vida estável por conta de sua condição social familiar, mas precisava falar ao mundo que existia e era uma pessoa útil à comunidade. Escrevia semanalmente no jornal da cidade, especialmente notícias sobre acontecimentos locais ou nas metrópoles e, por hábito, sempre terminava referindo-se a si mesmo como sujeito de atitudes importantes. Falava na terceira pessoa do singular. Dizia assim: o jornalista Augusto Veiga esteve presente representando o doutor fulano de tal. E transcrevia pronunciamentos que havia eventualmente feito. Ele, na verdade, era a notícia. O acontecimento narrado apenas servia de mote para introduzir a si próprio, atribuindo-se destaque. Era contumaz nesse tipo de comportamento. Ninguém no jornal lhe dava mais crédito e os leitores se acostumaram com essas notícias sem valor. Com o tempo, tornou-se figura de chacota nas conversas de esquina. (mais…)