Categoria: Artigos

O paralelo da SPEE e o centro espírita*

Por que é inapropriado afirmar que a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE) foi o primeiro centro espírita da história?

Passagem Sant´Anne, antigo endereço da SPEE.

Estamos há mais de 160 anos da data de fundação da SPEE, que se deu em abril de 1858, por decisão de Allan Kardec e alguns amigos. O codificador havia publicado, um ano antes, o Livro dos espíritos, o qual seria sucedido, em 1861, pela publicação de O livro dos médiuns. O livro dos espíritos resultou dos esforços pessoais de Allan Kardec na reunião e análise das comunicações dos espíritos que obteve diretamente com médiuns ou recebeu de diversas fontes e localidades. As reedições dali para frente de O livro dos espíritos, bem como a publicação da próxima obra, O livro dos médiuns, e as demais teriam na SPEE uma espécie de laboratório onde as análises, reflexões, diálogos por médiuns com os espíritos e aprofundamento se dariam, com muitos benefícios para as obras.

De uns tempos a essa parte, em vista da importância que a SPEE adquiriu e de como ela contribuiu como modelo para a fundação de outras congêneres na França e além dela, passou-se a fazer uma comparação simbólica entre a SPEE e aqueles que vieram a ser conhecidos, (mais…)

De tempos em tempos e por muito tempo*

Somos seres do agora, como fomos do ontem, mas nem o ontem e menos o agora nos impedem de nos descobrirmos também seres do futuro.

Foto: Gettyimages

As correntes que retêm os seres humanos ao seu instante jamais serão suficientes para impedi-los de se lançarem ao futuro como forma de desbravar a própria vida em busca de respostas. As correntes são culturais e a essência do humano e, portanto, do humanismo é supra cultural. Já em Kardec aprende-se que o ser humano pode ser aprisionado em cárceres e masmorras, mas não pode ser impedido de pensar e o pensamento é sua forma superior de exercício da liberdade. Embora os conceitos temporais de presente, passado e futuro signifiquem meros instrumentos de entendimento da duração das coisas, portanto, signos linguísticos representativos da ideia de tempo, vive-se fixado no agora, enlaçado pelo que se foi e debruçado no que virá.

Bons filósofos questionaram e ainda questionam: quem somos, de onde viemos e para onde vamos? A surrada expressão vive nessa via crucis da história e permanece desperta no (mais…)

O desafio das dúvidas e o caminho que leva ao plano das certezas

Algumas provas servem para firmar convicções definitivas; outras para crenças provisórias. Só as provas irretorquíveis se prestam à construção dos argumentos capazes de convencer pelos fatos.

É certo que a questão das alterações efetuadas no livro A gênese alcançou um estágio bastante avançado, desde que foi levantada em 1884 na União Espírita Francesa por alguns dos seus então membros, como Gabriel Delanne, Henri Sausse e Berthe Fropo. A descoberta quase ocasional de que a 5ª edição de A gênese recebera modificações que não foram comprovadas como tendo sido feitas por Kardec provocou uma onda de protestos dirigidas especialmente a Leymarie por ser quem estava à frente do legado de Kardec e fora então responsável pela publicação daquela edição 12 anos antes, em 1872. 

Este fato, porém, ficou esquecido até ser retomado nos tempos atuais em que uma outra onda, agora de estudo e pesquisa documental, eclodiu e permeia positivamente o movimento espírita brasileiro. Discute-se hoje de tudo e com proveito para o este movimento, desde temas que dizem respeito aos direitos humanos à participação dos espíritas na sociedade, naquilo que Herculano Pires definia como a “usina das relações” e sua importância na evolução dos indivíduos e das coletividades. (mais…)

Livro com pesquisas na França sobre adulterações na obra ´O céu e o inferno` é lançado virtualmente.

Em evento ao vivo pelas redes sociais e TV Mundo Maior, os autores Paulo Henrique de Figueiredo e Lucas Sampaio anunciam alterações feitas na penúltima obra de Allan Kardec sem que este as tenha feito.

Livro revela a trajetória das pesquisas.
Paulo expôs mudanças de conteúdo que contradizem filosofia.
Lucas fez pesquisas em Paris e reuniu documentação.

Foi realizado na noite de ontem, 29 de outubro de 2020, o lançamento oficial e as primeiras revelações do conteúdo do livro Nem céu nem inferno – as leis da alma segundo o espiritismo, assinado em coautoria por Lucas Sampaio e Paulo Henrique de Figueiredo, com o selo FEAL. O evento teve transmissão ao vivo pela TV Mundo Maior (clique para assistir na íntegra), da Fundação Espírita André Luiz, e pelas redes sociais Facebook e YouTube, sendo acompanhada interativamente por cerca de cinco centenas de pessoas. Pré venda ultrapassa mil exemplares. (mais…)

´A gênese` e, agora, o livro ´O céu e o inferno` vistos por dois prismas opostos

As hipóteses existem para serem testadas. Enquanto não o são ou, sendo, não se evidenciam nem se mostram viáveis, não servem sequer para validar o imaginário do possível.

Alguns se apaixonam pelas hipóteses e sob o signo delas produzem evidências imaginárias e as utilizam como outras hipóteses e assim sucessivamente. Hoje, no campo dos estudos, pesquisas e análises da ampla documentação sobre Allan Kardec, entre as quais o Acervo Canuto de Abreu, os livros A gênese e O céu e o inferno dividem as opiniões e colocam em dois lados diferentes os envolvidos.

É sabido que as discussões sobre a 5ª edição de A gênese não são de agora, pois as diferenças entre as 1ª e a referida 5ª edição suscitam discussões enormes, podendo-se dizer que as suspeitas de que a 5ª edição contém enxertos, supressões e alterações textuais vêm desde 1884 ainda na França. Coube a Simoni Privato levantar documentos e registros sobre o assunto e desvendar a verdade sobre a publicação desta 5ª edição, inclusive o ano da sua publicação que não consta da obra. Com isso, os enxertos, supressões e alterações apontavam para a responsabilidade de Leymarie, que foi quem mandou publicar a edição. Era justo. (mais…)

Nestes tempos de pandemia, uma ótima notícia é a fala de Charles Kempf sobre o espiritismo na França (e no Brasil)

O espírita francês que residiu no Brasil, onde conheceu a doutrina, deixou patente que o espiritismo de feição religiosa dominante por aqui tem poucas chances de despertar interesse nos países europeus.

Kempf fez uma apreciação histórica da doutrina desde os tempos de Kardec.

Com uma palestra-entrevista na noite de ontem, 29 de setembro de 2020, o espírita francês Charles Kempf falou sobre diversos aspectos históricos e atuais da doutrina espírita, demonstrou sua apreciação pela tese da autonomia contra a heteronomia do movimento religioso espírita no Brasil, autonomia que melhor representa o pensamento de Allan Kardec para o espiritismo, segundo Kempf.

Charles Kempf que, depois de retornar à França e viver por cinco anos no Brasil, tornou-se um ativo integrante do movimento espírita, fez uma apreciação histórica da doutrina desde os tempos de Kardec, dando destaque entre outras coisas para as divisões que se acentuaram com a morte física do codificador e os desvios promovidos que resultaram na descaracterização de fundamentos básicos. (mais…)

Uma verdade: na prática, a compreensão doutrinária quase nunca é a mesma da razão filosófica

É importante saber que há dois tipos de compreensão do espiritismo: aquele que deriva da argumentação teórica e sua lógica e aquele tipo que surge da prática cotidiana. Esta segunda forma é a que define, de fato, o que se compreende coletiva e socialmente por espiritismo.

Quando se afirma que Allan Kardec definiu, em 1868 em A gênese, que o espiritismo pode ser visto como uma religião no sentido filosófico do termo, não há quem de bom senso discuta. A afirmação é categórica. No sentido usual do termo, religião remete ao significado dominante e por todos consagrado: trata-se de algo que obedece a dogmas, à prática ritualística, submete-se a uma hierarquia de poderes, a um conjunto de cultos, práticas exteriores de adoração, casta sacerdotal, cerimônias, crenças etc. No sentido filosófico, religião se coloca como laço fraterno e solidário entre os seres humanos, não comportando nenhuma das expressões que caracterizam a palavra em seu sentido habitual e pelas quais é implicitamente compreendida. (mais…)

Que mudança de fato muda?

Espalha-se, como se fosse um vírus da moralidade, a versão de que a sociedade mundial não será mais a mesma após a pandemia devastadora instalada. As fraturas do existencialismo estão expostas.

O #fiqueemcasa simboliza de modo indicativo o panorama social dos dias presentes e faz com que as pessoas se vejam diante de algo inusitado: o modus solidão em que se agitam e a convivência familiar em tempo integral, os dois polos de uma mesma situação, cujo pano de fundo é impedir que o covid-19 exploda numericamente e leve de arrasto o precário sistema hospitalar.

Uma das condições deste novo estado de coisas, à parte todas as questões médico-sanitárias previstas e previsíveis, é que a população se vê diante de um estado de coisas tal que, queira ou não, impõe reflexões que desencadearão mudanças. Daí o dizer que a sociedade não será mais (mais…)

Os disfarces de uma postura frente à questão política*

Ser de esquerda, de direita, de centro ou de qualquer outro ponto do espectro político é diferente do agir político que todo ser humano naturalmente se impõe, independente de quaisquer crenças ou ponto de vista espiritual.

As tecnologias da comunicação avançam, mas as questões éticas e morais permanecem como elementos indispensáveis ao bom jornalismo.

O debate in movimento espírita sobre política utiliza desvios e disfarces, mas não esconde opções e idiossincrasias. Na revista eletrônica O Consolador, edição de 22 de dezembro/2019, Jorge Hessen discute seu ponto de vista no artigo “O espírita diante do debate político e ideológico – “esquerdista” ou “conservador”?” Não vai bem o autor, por misturar coisas distintas e fazer interpretações capciosas. Antes, por dever, impõe-se distinguir duas coisas quando se trata de Doutrina Espírita: desde Kardec, tem-se por obrigação separar o Espiritismo da Política enquanto setor importante da Sociedade e, por extensão, jamais pretender criar no meio espírita qualquer forma de junção com a política partidária, não fazendo sentido, portanto, um velho anseio de alguns espíritas do passado pela criação de um partido político espírita.

O único partido que interessa à doutrina espírita se denomina Espiritualidade e, como se vê, este partido não é político. Contudo, o agir político não é estranho ao tema Espiritualidade e a toda a sua abrangência, porquanto, é o Ser Humano, que é ao mesmo tempo um ser político, o ator implicado com a Espiritualidade, que estabelece formas e define ações fundamentalmente políticas nas suas relações sociais.

Isto posto, resta esclarecer: qualquer espírita é livre para optar por seguir os caminhos da Política, tanto como o é por decidir adotar e integrar-se nos estatutos de um partido político que lhe seja afim. Em o fazendo, utilizar-se-á do direito à autonomia que possui e nem por isso deverá ser classificado como mal indivíduo, ou por qualquer que seja o adjetivo (mais…)

Espíritas à esquerda. E eu?

Apenas quem está no interior pode buscar saídas laterais; ninguém sai se não estiver no interior, mas a entrada, esta, sim, pode ser feita pelas laterais.

Ademar Chioro dos Reis entre os ex-ministros Carlos Gaba e Miguel Rosseto.

O assunto, espiritismo e política, vem de longe, da época em que se lançaram alguns a refletir sobre o quanto há de identidade entre as propostas sociais espíritas e os pensamentos fundadores dos diversos movimentos filosóficos, sociológicos e outros, tornados públicos ao longo dos tempos. Alguns enlaces, como marxismo e espiritismo, causaram arrepios em muitos, enquanto outros, como os movimentos de fundação de partidos políticos espíritas, impuseram fortes discussões de intensidade elevada que acabaram abortados. O tema – a política e as ideologias que a orientam – passaram pelo movimento espírita jovem e pelo movimento espírita dos velhos, assim mesmo, no sentido pragmático da anotação. Os jovens, em seus arroubos naturais à idade, com louváveis capacidades de se lançarem aos novos ideais, impendentemente dos “perigos” e os velhos, em sua imatura decisão de implantar projetos inexequíveis, incompatíveis e desnecessários como aquele da fundação de um partido político espírita pelos idos de 1960, ou outros tipos de inflexões extremadas.

O movimento espírita nasceu nas elites e se expandiu para a classe média, especialmente no Brasil, onde essa classe é por muitos vista por seus comportamentos conservadores das conquistas e modos de vida consumista, (mais…)