Categoria: Resenha

Père-Lachaise: lá onde Kardec jamais esteve

Allan Kardec, filho do seu tempo enquanto reencarnado, deixou escrito obras tão imortais quanto os espíritos que encontrou pelo caminho. Os diversos tradutores dessas obras para o português, cada um em seu tempo, procuraram as melhores relações gramaticais para as verter do francês do século XIX à língua de Camões. Ninguém, talvez, como Herculano Pires, portador que era de uma bem-sucedida experiência com o texto jornalístico, conseguiu uma tradução de Kardec com sucesso impondo a técnica da narrativa dos fatos: concisão, clareza e objetividade.

O fato é que boa parte dos indivíduos contemporâneos, ao ler Kardec, reclama das dificuldades que um texto com tais vínculos linguísticos impõe aos sentidos, mas também à paciência. Já muitos são críticos da forma, pois o Livro dos Espíritos, particularmente, está vazado em perguntas e respostas, em contraste com as narrativas literárias dos bons autores, muito mais envolventes.

Assim é e assim permanecerá.

Também filho de sua época e submetido aos laços sociais e profissionais dos círculos em que se situa, Antonio Cezar Lima da Fonseca em seu livro recém lançado Encontrando Allan Kardec, revela que em determinada ocasião incomodou-se com esses livros espíritas de leitura difícil, desejando vencer essa etapa com a presente escritura. Logra sucesso? Em parte, porque Buffon continua (mais…)

Livro do Cesar Perri propõe união, mas de partida exclui parcelas expressivas do espiritismo brasileiro

O que seria uma união entre as forças espíritas do Brasil? Essa pergunta surge de imediato quando se toma o recente livro escrito por Antonio Cesar Perri de Carvalho, publicado pela Editora EME, de Capivari, São Paulo.

Desde que saiu de Brasília e voltou a residir em São Paulo, após deixar a presidência da FEB, Cesar Perri iniciou uma jornada intensa de reflexões críticas sobre o movimento espírita brasileiro no que tange à sua organização político-administrativa. O seu livro – União dos espíritas. Para onde vamos? – é o resumo dessa jornada e do seu pensamento atual.

A questão, como sabem todos aqueles que estudam o assunto, é antiga e cheia de curvas, desvios e atalhos. Além do mais, está no cerne de toda filosofia que propõe a paz e se funda na espiritualidade humana a busca pela união de pensamentos e ações entre os seres. O espiritismo está entre as mais distintas filosofias e esse propósito de união subjaz como sentimento natural entre os seus adeptos e admiradores, o que pode ser observado desde os primórdios da chegada da doutrina no Brasil, na segunda metade do século XIX.

Nesse período de cerca de 150 anos de presença do espiritismo em solo brasileiro, as tratativas de união e sua efetivação são uma história cujo resumo é uma pálida e frágil peça, onde os grupos excluídos, poucos no início, se multiplicaram a ponto de se questionar hoje, como o faz Cesar Perri, sua validade para os novos tempos. A evidência é que responde enfaticamente: a união que aí está não representa os anseios nem a realidade do espiritismo do século XXI, embora a união continue sendo um objetivo importante. (mais…)

Sonho, utopia, realidade. As colônias espirituais em destaque

RESENHA

Crer por crer é desperdício. Não crer por não crer é estultice. Mas crer por saber é inteligente. Quando surgiu a primeira edição do livro Nosso lar, psicografia do Chico Xavier e autoria de André Luiz, fez-se um grande alvoroço no Brasil. A crítica marcou a obra como pura ficção, os leitores simples tomaram-se de encanto com a possibilidade de viver depois da morte em condições assemelhadas à vida na Terra, mas muitas lideranças espíritas se surpreenderam com as revelações e não tiveram receio de rejeitá-la, tendo por argumento principal a falta de informações na obra básica da codificação empreendida por Allan Kardec. As mais prudentes preferiram colocar o livro de molho e aguardar maiores confirmações.

O fato é que antes mesmo de Kardec o assunto entrou nas cogitações a partir de inúmeras obras apresentadas por médiuns de diversos matizes. Com Kardec, o assunto ganhou foros de possibilidade dadas ainda as pequenas, mas consistentes abordagens que ofereciam uma base lógica dessa realidade, acrescida de exemplos.

Após Kardec, lideranças representativas dos verdadeiros e dedicados estudiosos se reproduziram, convictas de que a vida no mundo espiritual não se dá simplesmente sobre a matéria fluídica imponderável, senão sob uma consistente base de solidez e planejamento, construção e organização social, de maneira que, se não possui as mesmas condições da vida material que o planeta Terra conhece, tem semelhanças com esta que, em certos casos, mais parecem ser uma extensão da vida material terrena. A informação, contudo, mais forte nos conduz a ver pelo lado contrário, ou seja, é a vida na Terra que se assemelha à espiritual, embora a semelhança seja, segundo dizem os espíritos, ainda bastante nebulosa. (mais…)

Entre traças, poeira e páginas rotas

Por diferentes vias e de diversas maneiras, chegaram-me às mãos ao longo dos últimos 50 anos uma quantidade considerável de livros, revistas e documentos importantes para a história do espiritismo, livros em boa parte esgotados e alguns até mesmo ignorados do público, bem como as referidas revistas. Dei início à publicação das respectivas resenhas com o trabalho sobre a Revista Metapsíquica, como forma de desincumbir-me deste que considero um compromisso público, uma vez que formo entre aqueles que entendem que nada que seja de interesse público pode ficar retido sob a rubrica de patrimônio particular; que tudo deve ser disponibilizado, aberta e livremente, ao conhecimento da sociedade, pois que, no fim das contas, a ela de fato pertence. Na sequência, dei conhecimento de outra revista – Verdade e Luz – e, após, iniciei a publicação em separado de resenhas mais extensas de alguns livros cuja importância pedia um destaque especial. Agora, aqui, faço a conclusão do trabalho, publicando sobre aqueles documentos que, de maior ou menor interesse, guardam todos eles a oportunidade de esclarecer, informar ou enriquecer este ou aquele estudioso e pesquisador. Todos estes livros estarão à disposição dos interessados, uma vez que ficarão sob a guarda da Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires, que, certamente, os disponibilizará ao público. A coleção inteira, contudo, dos textos publicados, poderá ser encontrada aqui, neste blog, na página DOCUMENTOS e suas consequentes subpáginas: Revista Ilustração Espírita, Revista Metapsíquica, Revista Verdade e Luz, Opúsculos raros e Livros raros 


O espiritismo, sua natureza, seus perigos – Alexander Jenniard Du Dot, o autor, era em sua época uma espécie de Padre Quevedo dos católicos, ou seja, trabalhou muito para “compreender” os fatos espíritas à luz do catolicismo e de uma visão da ciência um tanto estrábica. Ele afirma sem medo que à frente da ciência de seu tempo (nasceu em 1840 e este livro data do final daquele século) “nós pomos o catecismo”. (mais…)

Marx e Kardec, materialismo e espiritismo

Espiritismo e Socialismo estão unidos por laços estreitos, visto que um oferece ao outro o que lhe falta a mais, isto é, o elemento de sabedoria, de justiça, de ponderação, as altas verdades e o nobre ideal sem o qual corre ele o risco de permanecer impotente ou de mergulhar na escuridão da anarquia. Léon Denis

 O socialismo de Denis foi classificado como idealista, uma maneira de ver que em princípio não combina com a dura realidade na qual a vida em sociedade se manifesta e desenvolve. Desde a eclosão das ideias socialistas, com Marx, às experiências de implantação de regimes políticos e econômicos marcados pelo fundamento socialista, que se discute a questão. No espiritismo não foi diferente e aqui está um exemplo de contenda em que as ideias se chocam e se distanciam até se encontrarem nas pontas, na irrefreável leveza da física.

Os espíritas e as questões sociais – em sua edição primeira, feita em 1955 em Niterói, RJ, este livro reúne artigos publicados na imprensa por dois conhecidos espíritas: Eusínio Lavigne, advogado e empresário de Ilhéus, BA, e Sousa do Prado, ex-membro da Federação Espírita Brasileira. Trata-se de um grande debate que teve início quando a Revista Internacional de Espiritismo, de Matão, recusou-se a publicar um artigo de Lavigne em resposta a outro, que saiu em suas colunas na edição de setembro de 1950, intitulado “Pela vitória do espírito” e assinado por Pereira Guedes, cujo conteúdo analisava o livro Materialismo dialético e materialismo histórico, de José Stalin. Lavigne procurou, então, o Jornal de Debates, onde encontrou guarida e por vários meses expôs seus argumentos sobre a teoria marxista, o socialismo e as conexões com o espiritismo, além de, ao defender o marxismo, deixar claro que o fazia ao que de científico ele continha e não à sua condição materialista contrária ao fundamento espiritual da doutrina de Kardec. (mais…)

Ismael, um Anjo na FEB

A trajetória de um destacado grupo mediúnico e as polêmicas em torno das raízes místicas do espiritismo no Brasil podem ser vistas pelas palavras dos próprios personagens centrais da história.

 Livro:

Trabalhos do Grupo Ismael da Federação Espírita Brasileira (1941)

Autor: Guillon Ribeiro, Ed. FEB

Página de rosto do livro com o autógrafo do ex-presidente da FEB, Francisco Thiesen.

A história do Grupo Ismael está registrada neste livro a partir da reprodução de um trabalho desenvolvido por Pedro Richard e publicado 40 anos antes, ou seja, em 1901, nas páginas do Reformador, da FEB. Embora o livro se destine a transcrever e comentar as mensagens recebidas pelos médiuns do grupo no período de julho de 1939 a dezembro de 1940, Guillon Ribeiro aproveita da oportunidade para destacar este histórico como forma de fixar aquelas que julga serem importantes contribuições ao espiritismo brasileiro, sendo, porém, certo que elas estão circunstancialmente presas ao contexto de crenças onde a FEB localizou-se.

Sob este aspecto, o texto de Richard é também um daqueles instrumentos que permitem avaliar as condições das práticas mediúnicas, antevistas por Allan Kardec em O livro dos médiuns, em que as influências do meio recaem sobre os médiuns e das quais quase sempre não é possível fugir. O clima psicológico e espiritual do grupo é de crença absoluta na sua importância enquanto conjunto de seres especialmente destacados pela espiritualidade superior para levar avante uma tarefa de semeadura da doutrina espírita, bem como de sua condução pelos tempos futuros. Trata-se, sem dúvida, para os líderes do grupo, de um mandato divino e único, ou seja, declaradamente não há dois grupos com as mesmas atribuições, nem dentro da FEB, à qual o grupo se subordina a partir de determinado momento, nem fora da FEB, por mais que houvesse instituições respeitáveis alhures. (mais…)

Cosme Mariño e sua importância para o espiritismo na Argentina

Mariño foi presenteado com o título de “o Kardec argentino” e o livro a seguir, por ele escrito, revela sua atuação e o desenvolvimento da doutrina em terras portenhas.

El espiritismo em la Argentina (1963) – Cosme Mariño – Esta edição é, na verdade, a 2ª edição, e vem acrescida de um Apêndice antecedido por uma Nota explicativa, que estende o período histórico abordado por Mariño correspondente aos anos 1870-1923 para até 1932. O autor do texto do Apêndice não é mencionado. O prefácio feito para esta edição é assinado por Carlos Luis Chiesa, presidente da Associação Espírita Constancia. Mariño deixou o corpo físico em 1927, aos 80 anos e é considerado um dos maiores defensores do espiritismo na Argentina. Neste seu livro, relata ele os fatos que viveu diretamente, que presenciou ou de que tomou conhecimento durante os quase 50 anos em que viveu na defesa e divulgação do espiritismo, cujo marco inicial foi o ano de 1879, (mais…)

A história em pequenos textos

A presente publicação constitui a penúltima etapa de um projeto de divulgação do material que colecionei – livros, revistas e opúsculos, bem como documentos importantes da história do espiritismo – visando disponibilizá-los aos pesquisadores, estudiosos e até mesmo aos curiosos dos fatos espíritas. Apresento 35 opúsculos publicados durante o século XX, alguns bem no começo desse século – escritos na maioria por espíritas de considerável expressão do pensamento doutrinário ou que se tornaram líderes locais e nacionais. Entre eles estão Deolindo Amorim, Leopoldo Machado, Cairbar Schutel, Edgard Armond e  Jaci Regis. Alguns dos opúsculos estão disponíveis na Internet e para tanto ofereço o link para leitura e download; boa parte, contudo, não está com seu conteúdo à mão ou são desconhecidos de grande parte do público, de modo que para os ler os interessados deverão aguardar a respectiva digitalização. A próxima etapa – a última – vai disponibilizar inúmeras obras espíritas hoje fora de catálogo e em grande parte desconhecidas da maioria. Clique para ler

“Auto-observação é cura”

O LIVRO DO SAMPAINHO*

Capa SampainhoDe há muito se sabe que escrever é também uma maneira elegante de conversar consigo mesmo. Não só elegante mais viril, ainda. Quando não encontra o parceiro ideal para diálogos demasiado cansativos, o ser pode se tornar escritor e assim resolver o seu problema. E parceiro ideal, convenhamos, só mesmo no campo virginal da utopia.

O problema se agrava quando o ser se descobre num turbilhão de pensamentos estranhos e parecidos entre si. E por se enredar como presa nesse continuum o ser ou fala ou escreve, senão enlouquece. Evidentemente, as idiossincrasias se somam e dão uma dimensão maior, pressionando ainda mais a necessidade de diálogo.

É bom que se diga que não há ouvidos humanos capazes de atender à necessidade desse tipo de ser, para que nossos amigos e nossos amados familiares não fiquem consternados, constrangidos e decepcionados. O escritor é assim mesmo, solitário em meio à multidão. Envergonhado diante do elogio. Vaidoso sem nem sempre admitir. Necessitado daquilo que não pode alcançar em plenitude senão no papel: dialogar. Porque papel se amassa e atira ao lixo e gente se ama.

Falo isso a propósito do livro do meu amigo Sampainho, cujo título é: De repente a coisa modifica. O solo árido da capa aí acima com seu lírio não deve surpreender, mas interrogar.

A constante de lidar com a comunicação criou um hábito (ou defeito?) em mim. Quando leio ou vejo qualquer coisa artística me pergunto: qual é a mensagem? Agora não foi diferente. Acostumado a ter sua presença em nossas reuniões espíritas familiares, tomei do exemplar e procurei por Sampainho página por página com a finalidade maior de extrair o sentido do seu texto ou a mensagem final.

Como tenho quase o dobro da idade dele, conto com essa suposta vantagem para analisar o seu diálogo ficcional. Concentro-me na mensagem e deixo ao leu as preocupações com o apuro textual.

Sampainho é o sábio que procura a sabedoria. E sabe que ela se encontra disfarçada nos seres do mundo, nas coisas do mundo, no dia a dia da vida. Esse tipo de sabedoria é difícil de perceber porque vive no anonimato ou na pele das pessoas comuns, nem sempre capazes de serem confrontadas.

Primeiro surge o Sebastião, um senhor ansioso, experiente e portador de muitos conflitos. Em Sebastião, Sampainho coloca virtudes e a maior delas é o silêncio. Este permite observar a vida, os seres, os desejos, as ambições, crenças e vícios. Sem perder o objetivo maior: aprender.

Sebastião procura a experiência que Sampainho também procura.

Depois, surgem outros personagens, mas são todos eles o mesmo Sebastião. A diferença está na roupagem, que não altera a mensagem: observar e mudar, mudar e observar. O passado é, o presente será. E justifica a frase que mais me tocou: “Auto-observação é cura”.

Sexo, bebida, filosofia e poesia, tudo ao alcance das mãos, essas mãos que pegam e ao mesmo tempo se preparam para alcançar. Tudo isso pode ser visto pelo olhar pragmático ou através das metáforas tentadas e tentadoras, que fustigam constantemente a resistência do autor.

A maior dúvida, contudo, que me fica ao final do texto do Sampainho é: o livro é autorretrato ou outro retrato? Para contrastar com essa dúvida, minha certeza: o autor e amigo fez livro bom e fará melhor ainda quando seu tempo de vida dobrar e ele alcançar a curva da estrada, onde tem um pé de araçá, como constata o poeta.

* A edição é do autor e pode ser adquirida diretamente com ele. Contato: sasampaio2@hotmail.com

A história dos 50 anos da USE

 

Se a história é a narrativa dos fatos, da vida e das ideias, o livro do cinquentenário da Use cumpre apenas uma parte desse objetivo.

 

Capa USEO livro “USE, 50 anos de unificação”, assinado por Eduardo Carvalho Monteiro e Natalino D’Olivo tem sua gênese quando a Use, por seus presidente e diretor, respectivamente, Atílio Campanini e Antônio César Perri de Carvalho me solicitam apoio para a escritura de um livro histórico, o qual integraria as futuras comemorações do cinquentenário de fundação da instituição.

A ideia, a princípio, pareceu-me viável, mas logo me recordei dos idos de 1984, quando tomei a iniciativa de propor à Federação Espírita de São Paulo um projeto semelhante que foi aprovado por sua diretoria, mas não saiu do papel por conta das barreiras erguidas pela desconfiança e falta de apoio de pessoas que na Federação ocupavam, então, postos chaves na liberação de documentos. Perdi um ano de trabalho e ainda fui perseguido por alguns diretores para liberar à Federação documentos que havia conseguido por esforço, custo e tempo próprio fora da instituição.

Havia, porém, algumas diferenças substanciais no convite dos diretores da Use: a iniciativa partiu deles e este ponto é capital; a Use tinha minha admiração e ali consegui implantar alguns trabalhos que obtiveram resultados positivos, como é o caso da transformação do jornal Unificação em Dirigente Espírita, na gestão de Perri; finalmente, a história da Use é a história rara da vivência democrática no meio espírita, servindo ela nesse campo como modelo para qualquer outra instituição de mesmo gênero e finalidades em nível nacional.

Mas o tempo exíguo para a realização do trabalho me preocupou. Depois de alguns dias de reflexão, conversei com o Eduardo Carvalho Monteiro e propus a ele assumir a condução do projeto. Eduardo já possuía larga experiência nesse terreno e estava em melhores condições para tal. Foi o que de fato ocorreu depois de aceito pela direção useana.

O tempo conspirava contra. Eduardo, então, envolveu-se integralmente com o projeto e aceitou a contragosto a colaboração de Natalino D’Olivo, um bom quadro da Use, mas sem o preparo para tal cometimento. Por mais de uma vez confessou-me sua contrariedade com as dificuldades criadas por esse colaborador. E fez questão de registrar ao final de suas “palavras necessárias” um elogio ao seu coautor e dizer que “a redação do texto desta obra é de minha inteira responsabilidade”. Tinham eles visões opostas e ideia completamente diferente de como desenvolver o projeto, com a diferença a favor de Eduardo por ter experiência no assunto.

Eduardo, porém, era daqueles que pescava o peixe e se necessário arrastava o rio para perto de casa. Seu faro por documentos, sua capacidade de mergulhar na pesquisa e a energia com que se lançava ao trabalho diuturno eram garantia de que a obra seria concluída. O que de fato aconteceu e surpreendeu ao mais otimista dos espectadores. O livro possui mais de 330 páginas.

Em sua explicação sobre o livro, Eduardo tomou o cuidado de registrar que a obra produzida em curto espaço de tempo estava sujeita a imperfeições que poderiam ser superadas no futuro. Isso é fato. Ou seja, há lacunas inevitáveis e é possível corrigir muitas delas. E mais, diante da montanha de documentos que Eduardo recolheu e das dezenas de depoimentos que obteve, o autor sentou-se em sua cadeira e deixou-se levar pelas teclas do computador, com um só desejo: registrar os fatos segundo a melhor costura e a análise mais coerente que lhe fosse possível.

Eduardo, na condição de escritor (escrevemos em parceria quatro livros) sempre optou por se ocupar mais do conteúdo que da forma. Tinha verdadeiro prazer em localizar documentos raros e ouvir testemunhas oculares, mas não o fazia apenas pela pesquisa em si, senão porque seu espírito era ávido de reconhecer e compreender essa intricada rede de fatos que denominamos história. Via-se compelido a colocar no papel tudo o que lhe vinha às mãos, na convicção de que os documentos não lhe pertenciam, mas à sociedade e ao ser humano, além de julgar a todos de igual importância. Se isso é elogiável, por um lado, é também perturbador, por outro, pois se a forma não cuida de explicar-se e aos fatos, os documentos se perdem no vácuo da não significação.

Desde o seu primeiro livro – A extraordinária vida de Jésus Gonçalves – em que o texto final precisou passar por profunda revisão formal e editorial, até o livro do cinquentenário da Use lançado em 1997, Eduardo progrediu muito nos cuidados com a forma final, mas ainda assim não deixou de sacrificar essa forma em benefício do conteúdo quando julgou preciso. É o caso do livro em análise. Por todas as razões expostas.

Eduardo era um escritor emocional, não só por consequência de sua personalidade, mas porque não tinha receio de tomar partido e assumir causas alheias se isso lhe parecesse importante e combinasse com suas ideias. Diz-se que o bom historiador é aquele que se coloca na devida distância dos acontecimentos para compreendê-los em sua condição factual. Mas não deixa de ser historiador aquele cuja distância dos fatos é quase imperceptível e ainda assim é capaz de colocar tais acontecimentos à vista dos estudiosos, mesmo que aplique sua interpretação particular. Ademais, é preferível ao autor expor sua interpretação dos fatos que resumir-se a relatá-los, simplesmente. As interpretações são mais sensíveis à mudança.

É por isso que a história será sempre uma sucessão contínua de percepções dos historiadores.

No livro do cinquentenário, Eduardo assume por inteiro a causa da Use e emite conceitos pessoais sobre os fatos, ou seja, aplica adjetivos que deixam o leitor mais crítico insatisfeito. Eduardo chega a adotar um ufanismo que bem ressalta sua ligação emotiva. Esse é um detalhe que fala contra a própria obra enquanto história da Use, porque expressa pensamentos que são em si mesmos parciais e defendidos por grupos que disputam o poder. E neste tipo de comportamento não se consegue evitar falhas perceptivas e até mesmo injustiças para com personagens envolvidos.

É curioso que Eduardo o tenha feito sem ter, até que foi convidado para o projeto do livro, demonstrado maior proximidade com a Use e sua história. Não que essa história não possa ou deva ser analisada no contexto em que se deu, do qual surge como conquista excepcional e ainda mais admirável se percebido que se vivia um momento político e econômico conturbado e o país tradicionalmente privilegiava as estruturas piramidais, com o poder emanado de cima, estruturas que também marcavam fortemente o movimento espírita de então. Ao assumir uma ideia e defendê-la sem, contudo, ter vivido a ambiência da Use, os fatos geradores ou até mesmo o contexto no qual se deram os acontecimentos, o autor assume o risco da contradita ao mesmo tempo em que expressa o seu sentimento ou sua percepção comprometida.

Eduardo optou por escrever o livro como sendo ele próprio a voz da Use: aquele que a defende e aquele que a elogia. E um historiador cioso torcerá certamente o nariz também aí. Essa a origem do posicionamento pelo autor de uma Use que às vezes beira às raias do sagrado porque gestada com indiscutível apoio espiritual superior. Não se pode olvidar que o modelo inspirador para Eduardo é a própria história da Feb, escrita com tintas brilhantes para convencer da sua escolha por parte da espiritualidade superior. Aplicada essa ideia à Use, resulta em contradição histórica e em desnecessidade argumentativa. Ao longo do seu texto, a Eduardo surge com especial destaque as mensagens assinadas por espíritos de significativo apoio aos esforços do bem, logo tomadas como apoio à causa unificacionista empunhada pela Use. As circunstâncias do aparecimento dessas mensagens são vistas pelo ângulo pelo qual se olha a realidade, a qual é, contudo, um conjunto de muitos outros ângulos.

Essa mesma posição será assumida em relação a outras instituições semelhantes à Use, em cuja história conhecida o cheiro do sagrado é sentido por todos os lados.

Ao mesmo tempo e de forma positiva na análise, Eduardo, por convicção ética, não se permite furtar à narrativa de acontecimentos e conflitos que marcam profundamente a existência da Use, acontecimentos que seriam facilmente ignorados por outros pelo simples desejo de registrar apenas os fatos agradáveis à ideologia do poder. Apesar disso, o olhar analítico de Eduardo é sempre o olhar useano, de dentro e de entre os que estão no poder.

Creio que uma das principais falhas de Eduardo na composição da história da Use tenha sido a grande confiança depositada em alguns documentos que, indiscutivelmente, narram acontecimentos sem o rigor necessário e, pelo contrário, não escondem o comprometimento com os fatos e o desejo de adorná-los de forma a passar uma ideia tendente a formar mitos. Tomá-los por fontes primárias e atribuir-lhes valor de verdade é correr riscos desnecessários.

Um exemplo claro está logo no início do primeiro capítulo, que deseja reconstituir os primeiros passos do espiritismo no Brasil. Ao resumir a criação da Feb, Eduardo toma como orientação o livro “Esboço Histórico da Federação Espírita Brasileira”, publicado pela própria Feb, e o faz apartado do olhar perquiridor indispensável. E por não tomar cuidado, escreve: “A pesarosa crise encaminhava a Feb para a extinção, mas um sopro do Alto guindou à sua presidência, em 3 de agosto de 1895, o médico e político Adolfo Bezerra de Menezes…”. As aspas são minhas, a frase é de Eduardo. Não há sinais indicativos de que fez transcrição, mas a ideia não tem sua fonte no autor, com certeza. Foi por ele assumida.

Muitas das narrativas de Eduardo estão centradas nesse tipo de documento e não são poucas as vezes em que ele se vale de transcrições literais e as toma como orientação para sua percepção. É assim que a escritura do autor e as transcrições se misturam e formam uma narrativa integrada, constituindo uma só ideia. Daí por que o livro peca em grande medida pela omissão do contraditório, da percepção contrária, da ausência daquele jogo de opiniões diferentes em torno do mesmo acontecimento em análise. Se por ventura aparece aqui e ali essas opiniões e percepções contrárias, tão necessárias para qualquer reflexão mais profunda, elas estão de certa maneira ordenadas que resultam inevitavelmente em reforço à opinião ou conclusão do autor.

É interessante registrar também a clara opção do autor por personalidades que lhe eram muito queridas e pelas quais tinha grande admiração. Essas personalidades são tomadas, quase imperceptivelmente por Eduardo, como autoridades cuja palavra está acima das demais. Nosso querido Pedro de Camargo, Vinicius, que foi objeto de estudo biográfico por nós co-assinado, é claramente uma dessas personalidades que em alguns momentos terá a primazia da decisão correta, mesmo que enfrentando outras personalidades tão dignas quanto. Por isso, Eduardo não terá como evitar a contradição interna de seu texto nesses momentos.

No registro a seguir, não apenas a opinião do autor sobressai como também ressalta uma percepção que certamente será contraditada por quem conviveu de perto com alguns dos citados: “Confrades de gênio difícil de lidar como Trindade, Milano Neto, Caetano Mero, D’Angelo Neto, em contraposição à afabilidade e humildade de Carlos Jordão, Vinícius, Anita Brisa, Aristóteles Rocha…”. De todos os citados, Eduardo teve contato direto e breve apenas com Anita Brisa, a quem entrevistou para o livro. Sobre os demais nada acrescenta que possa orientar sobre o julgamento que faz de suas personalidades.

Na pressa da escritura, mas muito também pelo estilo de abordagem escolhido ou assumido, Eduardo analisa superficialmente alguns acontecimentos, a outros apenas menciona e a alguns mais dá o seu tom pessoal, que é ao mesmo tempo interpretação e opinião. Diante de conflitos de grande monta, deixa transparecer que sofre pressões e dá a entender que algumas delas se originaram a partir da decisão pessoal de abordar tais conflitos, enquanto outras parecem pressões auto assumidas, ou seja, a percepção da repercussão que deverá causar o torna arrojado ou contido.

O episódio da fusão da Use com a Feesp, cuja gênese Eduardo localiza no segundo congresso, bem como o da disputam eleitoral de 1986, que opôs o grupo de Santos ao dos religiosos são exemplos de fatos que carecem de melhor abordagem seja na forma narrativa, na interpretativa e dos fatos em si. Personagens importantes desses acontecimentos precisam e devem ser ouvidos.

Por fim, às características relacionadas some-se o fato de Eduardo ter deixado o livro em boa medida relatorial, o que o torna cansativo à leitura e dispersivo quanto à relação entre muitos dos fatos históricos, embora permita que os interessados em história possam tomar das dezenas de documentos ali reproduzidos e ressignificá-los numa perspectiva mais interpretativa e contextual, ou seja, menos emotiva.

Conclusão: o livro do cinquentenário da Use, uma instituição modelar quanto à sua origem democrática (resultou da decisão de dirigentes de centros espíritas e nesse particular constitui experiência única e pioneira no Brasil) possui, entre seus méritos, o fato de reunir documentos importantes sobre sua história institucional no estado de São Paulo e no Brasil. Padece, contudo, da necessidade de resolver seus pontos obscuros e de ampliar a compreensão de episódios diversos que são, em si mesmos, partes delicadas, mas necessárias à vida do espiritismo brasileiro.