USE-70, caminhos e desafios

Em dezembro de 2015, publiquei aqui em meu blog uma análise do livro dos 50 anos da USE, com alguns apontamentos necessários. Agora, quero recuperar certos fatos que me parecem importantes por sua função interligadora na história do Espiritismo. Refiro-me às fontes das ideias que deram origem ao desejo de organizar estruturalmente o movimento em torno da doutrina espírita na sociedade, ideias que desembocaram na fundação de associações federativas, no Brasil, especialmente, mas também no Exterior.

Ninguém há de negar que o Projeto 1868, elaborado e publicado por Allan Kardec na revista espírita de dezembro daquele ano, constitui-se em fonte de orientação para a formação de sociedades espíritas do tipo centros ou federativas. Ali estão as reflexões e as sugestões que o codificador oferece, dentro das preocupações que o dominavam em relação ao futuro do Espiritismo. Kardec apresenta elementos gerais, mas também chega a detalhar minúcias dos procedimentos no entendimento de que a forma muitas vezes se torna necessária à concretização efetiva do conteúdo.

O Comitê Central composto de 12 membros – talvez em alusão aos 12 apóstolos (hoje, as organizações do tipo preferem número ímpar, para que não haja possibilidade de empate nas decisões) – foi uma sugestão para evitar o personalismo nas diversas questões a serem decididas, forma de evitar que prevaleça uma opinião sobre as demais, mas também uma maneira, não infalível, evidentemente, de impedir que a doutrina ficasse à mercê de pessoas pouco versadas nela, ou de interesses individuais capazes de direcionar essa doutrina para caminhos contrários aos seus propósitos. Não se esqueça de que entre as preocupações anotadas por Allan Kardec se encontra uma que jamais foi posta em prática nos centros e nas federativas, pelo contrário, vem sendo tomada como perigosa. Sugere o Codificador no referido documento como atribuição de uma comissão “o estudo dos princípios novos, susceptíveis de entrar no corpo da Doutrina”. Este preceito tem sido motivo de verdadeira ojeriza por parte das lideranças espíritas, muitas delas preferindo argumentar que aos Espíritos Superiores, e somente a eles, cabe o papel de acrescentar ou retirar qualquer coisa da doutrina, o que, certamente, não foi o que Kardec propôs. Enfatizo este ponto porque vai tornar-se ainda mais importante nos dias atuais e mais à frente o explicaremos. À evidência, a contribuição dos Espíritos Superiores será sempre oportuna e bem-vinda, mas como enfatiza Kardec, não se pode aguardar a chegada de missionários mediúnicos para que este objetivo seja alcançado, nem entender que cabe aos Espíritos o acréscimo de conhecimento na cultura do mundo, pois, como ele mesmo bem o diz, os Espíritos possuem suas atribuições e não estão à disposição do homem para realizar aquilo que lhes pertence por obrigação.

De qualquer modo, está no Projeto 1868, repetimos, a fonte onde se bebe as ideias para a criação de centros e federativas, mas não é menos importante dizer que, independentemente do projeto, os homens têm demonstrado preocupações com isso destes os primeiros anos em que o Espiritismo aportou no Brasil, no século XIX, mas, na maioria das ocasiões, o conceito de coletividade que o projeto oferece não tem sido levado em consideração no momento em que é preciso criar estruturas ou aperfeiçoar aquelas já existentes.

Por vias, digamos, tortas, a fundação da USE-SP acabou se constituindo em sucesso a partir da decisão de uma coletividade, chamada a isso por um congresso especial realizado para este fim. Mas antes de tratar desse item, vejamos o que ocorre em São Paulo desde o fim do século XIX, especialmente desde 1890 até o ano de 1947, quando a USE-SP toma corpo. Em 1890, o português radicado em São Paulo, Antonio Gonçalves da Silva Batuíra, funda o jornal Verdade e Luz e, depois, a Instituição Verdade e Luz, com o objetivo de aumentar a penetração do Espiritismo na sociedade. Cito o jornal porque nenhum outro fez tanto estardalhaço na capital paulista como este, e nenhum então logrou tanta repercussão. E mais, a instituição que o publica vai ultrapassar o século e vai ligar-se, indiretamente ou pelas ideias, àquelas que darão origem à USE-SP. Quando Batuíra funda o jornal, já a FEB existe desde 1984, conquanto muito indefinida e contida, tendo sido ela originária da ação de pessoas e não nascida da ideia de coletividade presente no Projeto 1868.

O jornal Verdade e Luz, depois de 28 anos de circulação foi suspenso por falta de condições financeiras. Em 1922, quatro anos depois, ele retorna sob a direção de Pedro Lameira de Andrade e será nele que vamos encontrar viva a ideia da fundação de uma federativa nos moldes coletivos. Ou seja, embora algumas federativas já existissem, poucas, nenhuma estava assentada no princípio da coletividade e, fato interessante, o estado de São Paulo carecia de algo semelhante.

Em 1926 – note bem a data – Lameira de Andrade e seus companheiros criam as condições mínimas para fundar a Federação Espírita do Estado de São Paulo e realizam uma assembleia com a presença de indivíduos e de associações espíritas, dando o fato por consumado, ou seja, a federativa havia sido fundada e tinha uma diretoria eleita e um conselho formado. Lameira chega a declarar que a ideia de uma federativa sob as bases da coletividade era alimentada há alguns anos em seu grupo. Já no ano anterior, um acontecimento de importância havia ocorrido: a realização no Rio de Janeiro de uma Constituinte Espírita Nacional, um movimento contestador da FEB e reivindicador de uma organização que tivesse a participação das associações espíritas e fosse capaz de congregá-las, coisa que a FEB, então, não conseguia fazer apesar de se proclamar a única capaz de tal cometimento. A Constituinte logrou êxito e contou em seu congresso com a presença de representantes de quase 300 centros espíritas de várias partes do Brasil. Foi ali que se fundou a Liga Espírita do Brasil e à qual se deu a incumbência de concretizar os objetivos junto às associações espíritas. Mais tarde, a Liga vai transformar-se em uma federativa igual às demais e verá seus objetivos iniciais alterados.

O mais importante, contudo, para o objetivo deste trabalho está nesta declaração que reproduzo da revista Verdade e Luz, relativamente à fundação da Federação de São Paulo: “A Federação Espírita do Estado de São Paulo não é uma associação como todas as congêneres existentes no Brasil, sem exceção; é uma “associação de associações”, é uma “síntese de associações”, é o “centro”, o “pivô”, a “fonte”, a “fortaleza”, o “facho”, onde as associações adesas encontrarão o amparo, a bússola, a luz, a vida, enfim”. Ou seja, a ideia de coletividade está presente nessa fundação e tal ideia se estenderá até 1947, quando tomará vida a USE-SP. Apesar do esforço, a primeira Federação de São Paulo não conseguiu superar os conflitos que marcaram o seu começo e sequer chegou a instalar-se. Dez anos depois, em 1936, uma outra Federação será fundada, aquela que continua presente nos dias atuais e que deu origem à USE-SP, mas esta Federação repetiu em sua fundação o modelo individualista e não coletivo.

Chegamos, enfim, nas proximidades do ano em que a USE-SP seria fundada. Disse, anteriormente, que por caminhos tortos se chegou a ela porque a ideia e o contexto de sua fundação são os de um ambiente de conflitos em que quatro associações, fundadas, diga-se de passagem, sem a inspiração da coletividade, disputavam entre si a primazia de congregar os centros espíritas e, naturalmente, repetindo aquilo que Kardec alertara no Projeto 1868, ou seja, cada uma delas sustentada sob concepções doutrinárias diferentes e às vezes antagônicas, o que fazia da imagem da doutrina junto à sociedade a de um corpo com suas partes dispersas e contraditórias, além, é claro, de oferecer às associações espíritas motivos para confusões doutrinárias e práticas esdrúxulas.

Ora, o que motiva a criação da USE-SP não é, a princípio, o sentido de coletividade, mas, sim, a necessidade de colocar um ponto final na confusão estrutural que se estabelecera. A saída foi fazer um pacto entre as quatro associações federativas e realizar um congresso para a partir daí chegar a uma federativa que assumisse a função congregadora, sem que as demais perdessem a sua identidade. Nesse cometimento, não se pode deixar de registrar a liderança de Edgard Armond e da Federação Espírita do Estado de São Paulo, que tomaram a inciativa de dialogar com as demais federativas e chegar ao consenso da realização do congresso em 1947, embora houvesse – o que é um certo consenso – de parte da Federação de São Paulo um objetivo não declarado publicamente de, mais à frente, absorver a USE-SP e tornar-se a única instituição do gênero no Estado de São Paulo, fato este que esteve na iminência de ocorrer depois de anos de tratativas, mas que, enfim, foi encerrado definitivamente no ano de 1976, prevalecendo o modelo useano de federativa formada pela coletividades das associações espíritas. Atualmente, no Brasil, existem duas ou três federativas que possuem uma estrutura híbrida, em que participam sócios individuais ao lado de sócios coletivos. Todas as demais são constituídas no modelo tradicional de sócios individuais, o que não deixa de ser ambíguo, pois são os sócios individuais, o mais das vezes sem ligação direta com as associações adesas, que devem decidir o que elas, as associações, devem realizar.

Quanto ao futuro da USE-SP, após 70 anos de vida, é de esperar que ela se ajuste às ideias sugeridas por Allan Kardec no distante ano de 1868, no projeto acima mencionado. Há, ali, inúmeras ideias importantes, especialmente aquelas que falam do progresso do Espiritismo – insistimos – progresso não só material ou estrutural, mas, fundamentalmente doutrinário, em que a doutrina possa acompanhar o avanço das ciências e dos conhecimentos, colocando-se em consonância com eles, como forma de manter-se no tempo e não deixar ocorrer o mesmo que – alertava Kardec – ocorreu com as demais quando se deixaram cristalizar no tempo.

Neste aspecto, não se pode deixar de apontar para um retrocesso: a supressão cada vez mais de espaços antes destinados a promover e analisar as contribuições oferecidas pelas pesquisas e pelos estudos aprofundados, a fim de aceitá-los ou não; por outro lado, há a ausência de ações efetivas, por parte das federativas, de estímulo às pesquisas e aos estudos aprofundados. Não me refiro apenas aos estímulos verbais esporádicos e à defesa que alguns fazem de que são favoráveis ao progresso; falo de ações como o aproveitamento dos congressos com abertura de espaços para essas contribuições, como também a criação de espaços dentro da estrutura da instituição, como previa Kardec, destinados a perpetuar a preocupação com as pesquisas e os estudos aprofundados, administrando de perto o que ocorre dentro da instituição e fora, nas academias e nos grupos independentes com relação à razão científica, base do saber espírita. Evidentemente, não se desconsidera a importância de um mecanismo de controle para impedir que conhecimentos conflitantes ou contrários possam ser aceitos, como também para aprofundar a análise das contribuições. O que não é lógico é que o temor e a desconfiança para com toda e qualquer contribuição paralise a instituição e se constitua em barreira intransponível para as ações de manutenção dos canais de progresso do conhecimento espírita.

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