Um dia pra não esquecer

(Dedicado à minha amiga Valda Leal)

Corro o risco de ser pedante, contando certas histórias pessoais. Corro, conscientemente.

Nasci em um casebre, de uma mulher mãe de sete filhos, todos com diferenças de doze a dezoito meses entre si. Mas nasci mineiro, onde pululam corações generosos. Minha mãe viúva fez-se lavadeira de muitas trouxas imensas e um quarador de taquara estendido no quintal do casebre emprestado. Dia e noite, pra por o pão de cada dia na boca dos passarinhos quase indefesos.

Digo quase, porque nesse mundo ninguém está totalmente indefeso.

Minha primeira lembrança daquele povo generoso onde vivi vinte anos vem do dia em que descobri por acaso a sopa do nosso jantar de algumas noites. Presenciei aos oito anos de idade uma cena que jamais sairia de minha retina. Fui entregar uma encomenda na casa em frente, a pedido de minha mãe, mais ou menos às sete horas da noite quente de um verão forte, quando fui chamado à cozinha. Ali, terminava-se o jantar um tanto frugal, mas o grande caldeirão da sopa estava ainda pela metade. Puseram-no nas minhas frágeis mãos e recomendaram-me ir devagar levá-lo à minha casa.

Magrinho, mas corajoso, consegui chegar em casa sem acidentes e nosso jantar daquela noite estava garantido, como estivera em muitas noites antes e como estaria muitas noites depois. Foi quando percebi de onde vinha aquela iguaria que nossa fome temperava de modo inimaginável por aquele que não vivenciou nenhuma experiência semelhante.

A descoberta daquela noite estava, porém, incompleta e só algum tempo mais tarde se revelou por inteiro. A família que nos abastecia triplicava toda noite a quantidade de que precisava para se alimentar com o único objetivo de nos enviar uma parte, e o fazia silenciosamente, respeitosamente, generosamente.

A segunda imagem daqueles tempos que rodopiam inda hoje em meu imaginário me veio de outro exemplo significativo, quando meu pai, doente, foi socorrido por um vizinho de posses e por este conduzido ao hospital em seu automóvel. Eu, ainda com oito anos de idade, segui no banco de traz, convidado pelo vizinho que, notando pelo retrovisor meu semblante de tristeza, disse, com afetividade: não chore, seu pai ficará bom.

Fui o último da família a ver meu pai ainda no corpo físico; ele se foi naquela mesma noite. Mas o vizinho, desde então, apegou-se a mim e se me fez um conselheiro e amigo enquanto esteve vivo. Foi responsável pelos meus estudos, pela minha primeira profissão e por tantos e tantos momentos de lazer que um filho de família pobre jamais teria.

Minha terceira experiência marcante da generosidade humana chegou pelas mãos de um desconhecido que, espontaneamente, se predispôs a avalizar um documento bancário em uma cidade desconhecida, onde, jovem, me encontrava a trabalho. Quando, resolvido o problema que me parecia insanável, dirigi-me até o desconhecido para agradecer e antes que pudesse dizer a última palavra, olhou-me ternamente e disse: “quando encontrares alguém com necessidades e puderes ajudar, faça-o”.

Minha experiência nas terras de Tiradentes foi substituída, aos vinte anos, pela experiência em terras bandeirantes e foi naquela cidade imensa que um dia a mídia resolveu iconizar como “selva de pedra” que descobri novos amigos, mas agora totalmente, literalmente invisíveis. Descobri-os circunstancialmente, abrindo caminhos entre os blocos de cimento e selecionando corações generosos entre a aparente frieza daquela gente apressada.

Os momentos mais difíceis, mais duros; as portas trancadas diante das quais me vi muitas vezes; as transformações sociais, culturais e tecnológicas que obrigaram muitos a buscar soluções para suas profissões em desvalia eram, para mim, antecipadas e meus caminhos redirecionados a partir da mão desses seres invisíveis que, pacientemente, apoiam aqueles que estão deste lado da matéria.

Se quando criança frágil o alimento me chegava por mãos generosas e discretas, quando adulto me eram mostrados à frente, no caminho a percorrer. Tive a felicidade de não temer, de não sofrer com a falta de coragem, de nunca pensar em desistir.

De tudo, a lição mais significativa ficou. Dar a mão, dar o pão, dar a vida se preciso for.

E como a poesia habita meus sonhos desde pequenino, não é demais relembrar aqueles versos que, dentre tantas e tantas construções expressivas, foram marcantes, independente de sua simplicidade. Ambas me foram apresentadas ainda na juventude mineira, num tempo em que o sentido permanecia e o autor se esvanecia, pelo que me penitencio.

A primeira, uma trova:

“Na correnteza da vida / és madeira que flutua, / são os outros que te levam / e pensas que a força é tua”.

A segunda, um poema:

“Da de ti para os homens. Não somente o paletó que não usas, a calça que não te serve ou o sapato que não calças. Darás tudo: o carinho, a ternura e o coração. Darás sem refletir, de modo que não te digam obrigado nem te devam obrigação. Darás tudo: o carinho, a ternura e o coração. E com que espanto notarás um dia, que viveste fazendo economia de carinho, de ternura e de coração”.

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