Pesar, dor, tristeza: quando aprenderemos?

As palavras mal ditas contaminam o significado e perpetuam o domínio da incoerência.

Natureza e morte são termos antagônicos na economia da vida, de tal modo que o primeiro não incorpora o segundo porque não existe morte na Natureza. A morte como destruição e ponto final é uma interpretação cultural, simbolismo criado para expressar o sentimento de impotência do ser ante os fenômenos da vida e do Universo. A flor quando perde sua vitalidade não está à morte, mas num ponto do ciclo de sua vida de transformações. O pássaro sem a energia vital parte para outro evento natural. Os corpos dos homens, sem o mesmo elemento vital, seguem semelhante ciclo e todos, flor, pássaro e corpos humanos, no curso das leis naturais, cumprem o mistério da libertação e deixam as essências imortais que os habitam livres para outras uniões. No ser humano, o espírito, liberto, segue impulsionado por sua história de conquistas e desafios, para mais tarde renascer e progredir sempre, pois, “tal é a lei”.

O espiritismo é doutrina de vida, valorizadora das leis que presidem a Natureza a demonstrar que a matéria e o espírito coexistem em regime esplêndido e harmonioso, sem, contudo, deixar de pôr à vista que o espírito se sobrepõe à matéria. O espírito é a inteligência que aviva a matéria, a matéria é o campo que permite ao espírito as experiências evolutivas. Ambos, espírito e matéria, existem antes e depois de sua união, mas a matéria sem o espírito é a flor sem vitalidade, o corpo sem inteligência, a máquina sem o motor. A matéria é perene em suas mutações, o espírito é imortal em sua aspiral evolutiva.

O espiritismo não tem espaço para a morte em seu trágico e inútil sentido de destruição total da vida. Não há, em ponto algum da sua filosofia um só sinal dessa morte, nem quando o espírito se encontra nos instantes cruciais do retorno ao corpo, nem mesmo quando está nos estertores do corpo físico que o abriga. Pronto para renascer no corpo o espírito ouve cânticos de esperanças e recebe votos calorosos de vitória; no instante em que se desfaz do corpo e reascende na espiritualidade, o espírito vitorioso reencontra os rostos risonhos daqueles que um dia desejaram seu engrandecimento. É a vida celebrando a vida.

O trágico, a dor e o pesar frente à morte do corpo físico resultam do culto da destruição presidido pela ignorância da Natureza e suas leis sublimes. São construções culturais, palavras de ordem de um modo de comunicar incapaz de expressar o fabuloso fenômeno do existir ou até de informar sobre a liberdade do ser ao deixar o casulo limitador de sua potência. Pesar é palavra reveladora do “sentimento de tristeza, comiseração, pena” que reduz o significado maior da vida exaltada nos acordes maravilhosos da canção do Universo. Pesar é expressão de uma cultura que se equilibra entre a incompreensão do fenômeno e a inconsequência da morte, por isso mesmo inapropriada para comunicar que um homem de bem deixou o corpo físico mais uma vez e outra vez viajou, levado pelas asas da liberdade. É, sim, termo inconsequente, que sai da boca e demonstra ausência do saber essencial da doutrina que proporcionou ao homem a maior e mais bela conquista de todos os tempos.

O espírito que chega no frágil corpo da criança que nasce é o mesmo, em essência, daquele que parte quando, enfraquecido, o corpo finaliza o seu ciclo de vitalidade. Vamos exaltá-lo em ambos os instantes e, caso não o consigamos por conta de nossa frágil condição cultural, vamos comunicar a vida em vez de divulgar a morte. O abraço de despedida e as palavras plenas de afetividade se entrelaçam ao sabor da complementaridade e dão ao momento transformador o sentido que as leis da Natureza expressam. Portanto, nada de pena, comiseração e tristeza. Vida é esperança, certeza e solidariedade, na exaltação do Bem e do Belo.

 

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