Me dá algo para ver. E também para tocar

A experiência fundamenta o saber, mas o tempo que se perde na prisão dos sentidos retarda seus efeitos benéficos.

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A história de Tomé e sua incredulidade simboliza ainda hoje a do ser humano sequioso da segurança psicológica, aquele que age como quem tem a posse da percepção pelo olhar e o tato, pelos quais pode conhecer e decidir sobre sua relação com o mundo. Quer não apenas ver com os olhos, mas também com os dedos, as mãos e mais aonde o sentido tátil alcança, sem viver a experiência direta no mais das vezes, mas encontrar prontas imagens e coisas e servir-se destas oferendas de outrem, em quem depositam total confiança.

Não se pode negar que há um princípio de razão e ciência no ser que não se conforma com a informação, a lógica e a crença compartilhada por outrem. Porém, se este princípio aí está, está na sua forma latente no mais das vezes, pois o que move o ser que deseja crer apenas depois do ver e tatear quando dominado pela busca do consolo que estabilize, mesmo que aparentemente ou provisoriamente, o seu equilíbrio psicológico, é muito mais dar-se uma resposta que assegure as decisões a tomar do que propriamente o agir racional, cientifico.

A doutrina espírita, na forma como Kardec a apresenta, oferece ao olhar um mundo de imagens para ver e a matéria em toda a sua extensão para tocar. O corpo é e está em contato com a matéria e os sentidos visuais permitem a percepção daquilo que ocorre ou é oferecido à retina. Essa doutrina, porém, formaliza uma ação racional para embasamento do que se vê e se toca, com suas explicações sobre as causas e os efeitos, as origens e as finalidades, as estruturas fundamentais da matéria e do espírito, como a dizer que os sentidos presentes no corpo precisam do direcionamento da razão e do agir científico desde as coisas mais simples até as complexas.

Mas a doutrina nem sempre é disponibilizada em seu quadro geral, com suas partes integradas. As lideranças espíritas, o mais das vezes, têm feito opção pelas partes da totalidade que mais lhes tocam, com escolhas que recaem preponderantemente sobre aquilo que responde aos sentidos imediatos, aí centralizando as atenções na duração que domina o tempo e não dá, também no mais das vezes, oportunidade para complementar o agir consolador com os fundamentos racionais da vida. Oferecem nossas lideranças as imagens para o olhar e a matéria para o toque, valorizando um crer com pouca ciência, ou com a oferta de razões repetitivas a partir de um discurso autoritário, centrado num compartimento específico onde se alojam causas e razões parciais, que passam a dominantes, como se a totalidade ali se encontrasse.

O discurso autoritário substitui o discurso libertário; aquele porque se mostra de mais fácil aplicação, pois dispensa razões extensas, que demandam a posse de conhecimentos amplos da doutrina; já o discurso libertador, que integra a razão espírita e se apoia na experiência que o ser humano pode escolher – e escolhe, quando livre –  como forma única de progredir, este discurso é negado nas práxis do cotidiano, seja por preguiça, seja por opção enganosa das lideranças.

O sentido consolador, na sua face mais imediatista, assume o controle dos discursos e das oferendas feitas ao olhar e ao toque, de modo tal que as mudanças, que só podem ocorrer de fato quando a compreensão abastece a consciência, ficam premidas pela percepção das respostas mágicas, das soluções aparentes, dos sentimentos superficiais, a embalar mitos, fantasias e desejos irrealizáveis. Passa-se do convite ao saber que liberta, assim oferecido pela doutrina, ao crer que mantém a ignorância mas consola os corações em descompasso com promessas de futuro embebidas no pano da ingenuidade.

Jesus, o homem, que o Espiritismo recolocou acima dos milagres e em consonância com a natureza, é de novo elevado ao monte das oliveiras dos sonhos e ali volta a ser adorado, na medida exata da exaltação pelo nome, como se o crer por acreditar fosse suficiente para conduzir o ser a atingir suas metas evolutivas. Novos andores foram concebidos para colocar sobre eles os santos que a massa passou a admirar e a incluir nos seus rosários sem contas, alimentando-se, pois, de suas capacidades de garantir o futuro. São os Bezerras, Chicos e outros tantos, que tomam o tempo e o espaço no SOS dos perigos que a vida teima em apresentar.

Os olhos, sem o embasamento do saber, são incapazes de superar a ilusão intrínseca das imagens naturais ou culturais. Não à toa Kardec chama a atenção para os perigos da vidência enquanto fenômeno mediúnico, alertado por seus sentidos de que o imaginário é pródigo em produzir efeitos aparentes e confundi-los com a realidade que foge aos sentidos comuns. A solução para a interpretação das imagens está na palavra e a palavra é o verbo em suas diversas e diferentes conjugações. Os olhos podem, assim, ser a porta da percepção da natureza ou a entrada para o autoengano.

A seu turno, o tato não vai além das propriedades aparentes da matéria e sua função mais precisa está em complementar aquilo de que o saber se apropriou. O que foi armazenado no cérebro é o que vai direcionar no seu emprego. Portanto, a carência de conhecimento implica na percepção incompleta quando não também ilusória.

As lideranças espíritas têm duas opções para o desempenho de seus compromissos: fomentar o conhecimento racional, resultado de uma base teórica e da experiência na vida, para sustentar o sentimento, as emoções e seus efeitos, aí incluídas as virtudes todas, ou estimular a permanência do ser que acorre aos recintos dos centros espíritas na sustentação das ilusões, oferecendo-lhes apenas o consolo que dura somente o curto tempo que intermedeia o centro espírita e sua residência, onde, de volta à realidade do mundo da vida, ninguém consegue fugir das escolhas e das decisões a serem tomadas.

No primeiro caso, trata-se de optar pelo discurso da liberdade, base do verdadeiro amor, e no segundo, pelo discurso de autoridade, base da dominação.

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