Ismael, um Anjo na FEB

A trajetória de um destacado grupo mediúnico e as polêmicas em torno das raízes místicas do espiritismo no Brasil podem ser vistas pelas palavras dos próprios personagens centrais da história.

 Livro:

Trabalhos do Grupo Ismael da Federação Espírita Brasileira (1941)

Autor: Guillon Ribeiro, Ed. FEB

Página de rosto do livro com o autógrafo do ex-presidente da FEB, Francisco Thiesen.

A história do Grupo Ismael está registrada neste livro a partir da reprodução de um trabalho desenvolvido por Pedro Richard e publicado 40 anos antes, ou seja, em 1901, nas páginas do Reformador, da FEB. Embora o livro se destine a transcrever e comentar as mensagens recebidas pelos médiuns do grupo no período de julho de 1939 a dezembro de 1940, Guillon Ribeiro aproveita da oportunidade para destacar este histórico como forma de fixar aquelas que julga serem importantes contribuições ao espiritismo brasileiro, sendo, porém, certo que elas estão circunstancialmente presas ao contexto de crenças onde a FEB localizou-se.

Sob este aspecto, o texto de Richard é também um daqueles instrumentos que permitem avaliar as condições das práticas mediúnicas, antevistas por Allan Kardec em O livro dos médiuns, em que as influências do meio recaem sobre os médiuns e das quais quase sempre não é possível fugir. O clima psicológico e espiritual do grupo é de crença absoluta na sua importância enquanto conjunto de seres especialmente destacados pela espiritualidade superior para levar avante uma tarefa de semeadura da doutrina espírita, bem como de sua condução pelos tempos futuros. Trata-se, sem dúvida, para os líderes do grupo, de um mandato divino e único, ou seja, declaradamente não há dois grupos com as mesmas atribuições, nem dentro da FEB, à qual o grupo se subordina a partir de determinado momento, nem fora da FEB, por mais que houvesse instituições respeitáveis alhures.

Em cometimento dessa ordem, a narrativa de Richard busca deixar claro que a luta do grupo para se manter e se preservar da invasão de agentes sem clareza de consciência desse mandato é uma espécie de guerra entre a luz e as trevas. Por possuir tal responsabilidade, segundo Richard e seus pares, o grupo sofre a contestação dos adversários de modo contínuo, mas sua força está em sua perseverança e nesse núcleo da consciência de que o mandato justifica a luta, pois é a verdade – que o grupo crê saber avaliar melhor do que ninguém – que está sendo levada à frente. Este modo de ver e de ser vai conduzir a um ponto extremo, em que os conflitos não apenas de relacionamento no meio espírita, mas principalmente de interpretação doutrinária dificultam saber se as aludidas forças das trevas estão fora dos domínios do grupo ou dentro deste, a manipular, iludir e enganar.

Vejamos, pois, alguns aspectos curiosos da narrativa de Richard, que Guillon reproduz integralmente. Nota-se que o texto guarda a característica mística dos seus semelhantes à época, muito próxima da linguagem católico-cristã que os séculos enraizaram na cultura ocidental e a secularização afrouxou, sem eliminar, mas que a obra de Roustaing tratou de recompor para atender à demanda da ala de místicos que de fato se alojou nos meios espíritas. Por isso, esse é o primeiro destaque que se faz já a partir do parágrafo de abertura da narrativa de Richard, que está assim vazada:

“Quando, por determinação do Eterno, que é a manifestação integral do amor e da misericórdia, sem caprichos e sem imposição, pois o livre arbítrio é sempre respeitado, foi lançada a propaganda do Evangelho do seu Divino Filho, em espírito e verdade, nesta parte do planeta, essa nobre e penosa missão foi confiada ao bom Anjo Ismael, que, com dedicação de que só são capazes os Espíritos de enorme elevação moral, organizou o pequeno grupo denominado “Confúcio”, reunindo para isso meia dúzia de trabalhadores de boa vontade, e deu começo à obra santa do Senhor”.

O período a que Richard se refere é mais ou menos a década de 1870. Já então ou a partir daí começou-se a fortalecer a tese de que um certo anjo de nome Ismael recebera a missão de conduzir a implantação dos Evangelhos em espírito e verdade em terras brasileiras, o que seria e só poderia ser feito com a bandeira do espiritismo. Assim, com a criação do grupo Confúcio, a ponta inicial da história do Grupo Ismael, e com a escolha dos primeiros componentes diretamente por Ismael estava atribuída a missão divina que eles conduziriam até alcançar o momento em que a FEB apareceria no cenário e finalmente se faria herdeira dessa missão. Subjaz, aqui, a ideia de que Ismael detinha não só autoridade para agir diretamente no planeta, fazer escolhas e implantar atividades-fim, mas também alterar, modificar, mudar. A classe dos Anjos é na escala espírita de Kardec a mais elevada, o que, então justifica e dá força à figura do Anjo Ismael. Esse detalhe, contudo, é irrelevante se considerar-se que a escala espírita é um instrumento mais didático, destinado à reflexão a respeito da hierarquia espiritual e sua constituição do que propriamente um documento do tipo legal ou natural. Sua complexidade foi prevista por Kardec, dado que se trata de considerar individualidades inteligentes, com seus atributos, autonomia, níveis de consciências e trajetória evolutiva, fatores esses que impedem a determinação de níveis rígidos que as iguale em determinados tempos.

Assim, segundo Richard, em 1873 o grupo Confúcio é dissolvido por Ismael e para o seu lugar o Anjo cria uma sociedade, de nome “Deus, Cristo e Caridade”. A saga do grupo estava, então, em seu processo longo de maturação, seguindo a eterna dicotomia da luta entre a luz e as trevas, fato que vai prosseguir por anos. Para Richard, a escolha do nome da nova sociedade por Ismael é a escolha de um título “que por si só é a síntese da Doutrina Espírita”. Ele reafirma ainda a ideia de os colaboradores escolhidos por Ismael possuírem uma condição especial, ao dizer: “o Guia do Espiritismo no Brasil reuniu todos os trabalhadores de boa vontade que, ao encarnar, haviam tomado o compromisso de o auxiliar nesse memorável empreendimento”, ideia essa que, junto a outras de igual teor, acabarão por formar a tiara sagrada dos integrantes do grupo. Apesar disso, a nova sociedade encontrará seu termo ao alterar suas concepções e modificar o nome para Sociedade Acadêmica Deus Cristo e Caridade, o que, segundo Richard, ocorre por um desvio provocado pelas forças trevosas, gerando a divisão entre místicos e científicos, a merecer dele a crítica de que “a ciência que edifica e que exalta só pode ser adquirida por aqueles que possuem virtudes”, concepção essa que em certa medida é colocada em prática com extrema força nos dias atuais.

Assim, a nova Sociedade Espírita Fraternidade, criada logo após, torna-se a sucessora natural da anterior, salvando-se dos escombros aqueles poucos obreiros que permaneceram fiéis a Ismael. E um detalhe chama a atenção nestas palavras de Richard: “À sociedade foi traçado o programa espírita mais completo que jamais temos conhecido”. É que neste programa o polêmico Roustaing ganha presença destacada ao fornecer o material básico para as reuniões de estudo dos evangelhos, enquanto Kardec ficava com a parte complementar. Segundo o autor, foi aí, na Fraternidade, que Kardec teria dado algumas mensagens em 1888 e as confirmado dois anos depois. É também onde Bezerra de Menezes começa a fortalecer a sua imagem de condutor e mestre.

A saga, porém, não estava concluída. Os científicos mais uma vez se tornaram obstáculo aos místicos e a fraternidade se modificou, exigindo dos crentes a busca de novos ares. Bezerra acorreu à FEB que estava em situação difícil e para lá transportou os Estatutos da Fraternidade, ou seja, a concepção de um Espiritismo místico, piedoso, essencialmente evangélico. Bezerra tornou-se assim uma espécie da representante direto de Ismael na Terra, embora ele, Ismael, continuasse agindo diretamente sobre os destinos da doutrina, segundo crê Guillon e seus antecessores.

Entra em cena, agora, o “Grupo Sayão”, filho direto da antiga sociedade “Deus, Cristo e Caridade”, inicialmente conduzido por aquele que o fundou em sua própria residência e cujo nome completo era Antonio Luiz Sayão, místico e adepto inveterado de Roustaing, além seguidor de Bittencourt Sampaio, este escritor e poeta também da linha mística.

Os conceitos roustainguistas impregnavam o contexto interno dos adeptos e direcionavam os critérios para a escolha e aceitação destes. Consequências externas ocorriam e então inevitáveis conflitos se produziam a partir das divergências entre a interpretação do modo de ver de Kardec e o do seu adversário francês. Os adeptos de Roustaing produziam livros e livros na tentativa de validar suas ideias e justificar a opção por ele, opção que diziam estar em relação à interpretação dos Evangelhos, onde Roustaing era, acreditavam, mais completo do que Kardec. Esta concepção, aparentemente, não atingia os demais livros da obra kardequiana, mas era visível que essa retórica não se sustentava, haja vista para o fato de que O evangelho segundo o espiritismo, de Kardec, não subsiste sem os demais livros, especialmente o primeiro – O livro dos espíritos – ou seja, não se pode ver nenhuma das obras de Kardec de modo isolado das demais, especialmente aquela que busca aplicar aos evangelhos a interpretação espírita. Portanto, qualquer interpretação à base dos conceitos de Roustaing não só era vista como contrária à de O evangelho segundo o espiritismo, como também e especialmente à de O livro dos espíritos e seus consequentes. À semelhança da cultura judaica que ultrapassa os milênios de forma incisiva, os adeptos de Roustaing desenvolveram uma capacidade de resistir ao tempo sem ceder, mas também sem deixar de criar os espaços para que a crença geral se espalhasse, de forma a garantir sua presença junto à obra espírita dos séculos futuros. Essa marca está presente em grande parte dos adeptos de Roustaing que se destacaram na defesa dele e na propagação de suas ideias controversas, sob o slogan de Revelação da Revelação.

O Grupo Sayão foi levado para a FEB e lá se instalou sob o título de Grupo Ismael logo depois da morte de seu fundador, em 1901. Ali vai passar por diversas tribulações e viver períodos difíceis e constantemente seccionados, com Guillon atribuindo às forças das trevas a causa de todos os dissabores, e à incúria dos homens as influências perniciosas daquelas. Mas tem o autor um destaque que corrobora a interpretação de que Roustaing era imprescindível aos crentes. Guillon afirma que os lapsos de tempo – e foram muitos – em que o Grupo Ismael não funcionou não foram suficientes para interromper os estudos da obra de Roustaing. Eis como diz: “ […] jamais se interrompeu, de um só dia, desde 1880 até agora [o estudo] dos Evangelhos pela obra Revelação da Revelação, de J.B. Roustaing”. Então, por conta da repercussão negativa que esse tipo de situação gera, o Grupo Ismael e, de resto, toda a base da FEB, uma vez que o grupo lá se instalou, sente-se pressionado a dar explicações públicas sobre a doutrina roustainguista e este livro de mensagens não o faz por menos. Ainda em sua parte histórica conduzida por Guillon Ribeiro, este informa que a análise das mensagens objeto do próprio livro é uma demonstração de que a chamada espiritualidade superior conduzida pelo Anjo Ismael e representada por diversos espíritos nas mensagens mediúnicas sempre aprovou a doutrina de Roustaing, e o argumento aí está vazado nestes termos: “[…] nunca nenhum deles, em qualquer dos seus ditados, quer psicográficos, quer sonambúlicos, proferiu uma única palavra que se possa considerar de condenação, velada ou clara, de Os quatro evangelhos, de Roustaing, ou, sequer, como restritiva de alguma das revelações e explicações contidas nessa obra”.

Tais argumentos se assentam na ideia de que espíritos de tamanha grandeza jamais omitiriam pareceres esclarecedores àqueles que estudam e acreditam sinceramente no que fazem, especialmente porque acima de todos estava o Anjo Ismael, o mais destacado preposto de Jesus, sem perceber que no cerne desse argumento está o seu contrário, ou seja, o de que espíritos esclarecidos deixam por respeito à liberdade dos encarnados que estes tomem suas decisões por si mesmos, mormente nas questões de crença e especialmente quando estas assumem proporções extensas. Mas, se eventualmente algum comunicante faz uma incursão mais profunda neste tipo de assunto e deixa registrada sua preocupação com os excessos da crença, há de se perguntar que consequências isso teria em relação à credibilidade da fala do comunicante. Seria ele levado em consideração ou seria visto como um representante das trevas infiltrado entre eles e, quem sabe, utilizando-se de um conhecido nome alheio para melhor alcançar seus propósitos de desunião do grupo?

As palavras de Guillon, que fecham esse resumo histórico, refletem muito bem essa assertiva acima. Vejamos.

Diz ele: “Mas, então, é quanto basta para que a Federação, mesmo aos que nela mourejam e a têm humanamente dirigido falecessem todos os requisitos intelectuais e morais para por si mesmo lhe aprenderem o subido valor e a sabedoria do que nela se contém, como provindo dos mais luminosos planos da espiritualidade, aceitasse, adotasse e recomendasse, para inteligência integral de tudo o que nos Evangelhos se encerra e em especial no de João, a aludida Revelação da Revelação, sem se perturbar com as opiniões personalistas dos que, sem a conhecerem, por não a terem estudado convenientemente, condenam, combatem, repudiam e achincalham essa obra sábia, que completa admiravelmente a de Kardec, imprimindo à Revelação Espírita o seu cunho mais relevante – o de complementar a Revelação Cristã”.

Para finalizar, algumas informações necessárias ao livro em questão. A introdução e o resumo histórico ocupam cerca de 50 páginas do livro. As demais são divididas em duas partes, a primeira delas contendo a transcrição de comunicações mediúnicas recebidas no período aludido e a segunda parte contendo outras comunicações, mas acompanhadas de comentários do autor do livro. Traduzindo em números, são 32 mensagens assinadas na primeira parte e 31 na segunda parte. Entre estas, porém, aparecem algumas outras de espíritos em regime de orientação, sobre cuja presença e participação se tecem comentários. Todas as mensagens assinadas, porém, são dadas, em sua maioria, por espíritos que fizeram parte do grupo quando encarnados. Assim, temos Bittencourt Sampaio com 24 mensagens, Pedro Richard com 18, Romualdo com 9 e Bezerra com 3. Os demais espíritos nomeados que aparecem assinam 1 mensagem cada um. Há de se notar que estes espíritos são as antigas lideranças que parecem ter permanecido ali, sem arredar o pé, na continuidade de uma luta que começou lá atrás, no Grupo Confúcio. Por fim, registre-se que as mensagens de ambas as fases oferecem material para análise crítica e questionamento em todos os aspectos do processo mediúnico, desde a autoria ao conteúdo, o médium e o meio em que os fenômenos descritos ocorrem. Este é um trabalho a fazer, necessário, que permanece em aberto

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