Imprensa espírita em dois toques

Uma boa entrevista, a definição incompleta do principal objetivo do Espiritismo e o desafio dos cuidados da mediunidade nas crianças e nos jovens.

Em uma leitura rápida, encontro dois temas na mesma matéria do jornal Correio Fraterno[i] a me chamarem a atenção de modo diferente. Trata-se da entrevista da psicopedagoga Roseli Galves sobre educação das crianças e Espiritismo. As ideias e o modo como a entrevistada responde às provocações da repórter são de forma geral elogiáveis. Há senões aqui e ali que podem ser repercutidos de maneira a ampliar as reflexões, mas o saldo é bastante positivo.

Em primeiro lugar, a forma como a entrevista é conduzida deveria ser levada em consideração por aqueles que se lançam a produzir jornais, revistas e que tais como meio de propagar a doutrina espírita. Isto porque há um exagerado apelo ao formato de entrevista feita por correspondência do tipo e-mails, visto que este meio eletrônico se tornou expressamente atraente por apresentar facilidade no contato com as fontes. No caso em foco, nota-se que a jornalista está frente a frente com a entrevistada e é esta condição que lhe permite manter um diálogo crítico, ou seja, seguir por um caminho de elucidação dos pontos que ficam obscuros nas respostas formuladas pela entrevistada. Não é preciso dizer que as entrevistas desse tipo fornecem aquilo que se denomina material quente, tornando-o muito mais atraente, inteligente, objetivo e claro. Quando se utiliza apenas o e-mail elencando as perguntas e se contentando com as respostas dadas a entrevista tende a ficar fria, monótona e burocrática, pouco clara e com menores atrativos.

Roseli Galves surpreende pela visão técnica e a linguagem objetiva que emprega na abordagem dos temas propostos, mostrando-se integrada à realidade cultural do momento e chamando a atenção para aspectos da relação educador e educando de grande importância para os objetivos pretendidos. Tem-se visto muitas vezes um despreparo daqueles que se envolvem com a educação infantil nos centros espíritas, tomando-a como uma atividade mais moralizadora que educadora, propriamente, daí as fragilidades que ficam visíveis quando de uma análise mais acurada desse tipo de atividade. Toda a linguagem empregada por Roseli Galves nas respostas se mostra livre dos ranços religiosos de boa parte daqueles que lidam nessa área da educação espírita.

Agora vamos aos pontos que merecem reparo.

Chama a atenção a seguinte frase de Roseli Galves: “O objetivo maior da doutrina espírita é a transformação moral”. A princípio, sem surpresas, pois este é o pensamento predominante no movimento espírita atual, especialmente aquele em que a influência dos órgãos representativos se dá de forma majoritária. Não se pode negar, contudo, que se trata de uma visão parcial e reducionista na medida em que tende a minimizar a importância do conhecimento para as mudanças no campo da ética, deixando transparecer que todo esforço da doutrina para contribuir com o progresso humano é meramente no âmbito da moral comportamental. Tem-se a ideia limitada de que se o ser humano alterar o seu modo de agir, trocando o ódio pelo amor, por exemplo, tudo o mais se resolve facilmente. Por mais que esta ideia cative os corações das pessoas, o fato é que o câmbio de sentimentos ditos negativos por sentimentos positivos não se torna sustentável se o ser não contar com bases de compreensão sólidas para entender a essência do ódio e do amor e de como tornar o sentimento em algo totalmente dominado. Essas bases não estão em outro campo senão no do conhecimento e é por isso que o Espiritismo enquanto doutrina contributiva para o progresso promove claramente a fusão do saber e da moral em uma unidade indissolúvel, sintetizada por Kardec na expressão “amai-vos e instrui-vos”. É preciso superar o tempo da ilusão, que quase sempre produz resultados semelhantes aos da loucura, levando ao engano de acreditar em conquistas que de fato não ocorreram, como é exemplo a ideia empregada em alguns ambientes espíritas de que o ser munido de um caderno de anotações elencaria, um a um, os sentimentos negativos que se manifestam nele, concentrando esforços para os ir eliminando, de maneira que ao fim de um ciclo ele teria alcançado todo o progresso necessário no campo da moral, tempo em que haveria riscado das páginas os sentimentos elencados por não mais precisar se recordar deles nem duvidar de que os superou. A ilusão do progresso aparente no campo ético subtrai a percepção da importância do conhecimento da reencarnação e do que ela representa para o ser em termos de progresso evolutivo. No mais, é preciso dizer que Ética e Conhecimento formam uma unidade indivisível, da mesma maneira que os diversos sentimentos também se reúnem e se concentram numa unidade, não se podendo, portanto, falar, por exemplo, em amor desligado de solidariedade, fraternidade, igualdade, liberdade, respeito, generosidade e assim por diante, pois qualquer desses valores, para de fato existir, implica todos os demais, ou seja, nenhum existe isoladamente à perfeição. Sigamos.

Outro ponto da boa entrevista da Roseli Galves aborda a questão da mediunidade nas crianças em resposta ao questionamento feito pela jornalista sobre como proceder neste terreno. O tema é complexo e Roseli o deixa sem resposta, detendo-se na mediunidade nos jovens que, em resumo, não opinião dela devem ser coibidos dessa prática por não contarem com condições físicas e emocionais muito por conta da idade. A arguta jornalista insiste na questão, solicitando esclarecimentos sobre o que fazer quando o problema surgir (e aqui parece novamente voltar à questão das crianças), ao que a entrevistada sugere a integração dos jovens em outras atividades da casa, à parte das sessões mediúnicas, que devem ser consideradas apenas mais à frente, em outra oportunidade. Vê-se, pois, que a solução oferecida não resolve a questão porque se uma criança ou jovem apresenta sinais de mediunidade será oportuno diagnosticar e tratar com os instrumentos que o Espiritismo oferece. Costuma-se recorrer a Kardec, sempre muito prudente no assunto, como também a alguns espíritos de referência que nem sempre são objetivos quanto à questão. Não se pode esquecer que Kardec teve a companhia de duas médiuns adolescentes a partir de certo ponto de seu trabalho, as quais se tornaram importantes para a finalização de O livro dos espíritos. Além disso, historicamente se sabe que inúmeros médiuns de projeção iniciaram muito cedo suas atividades, sem contar outros muitos que não tiveram seus nomes no mesmo nível de destaque, mas seguiram caminho semelhante. Também não se deve colocar esses exemplos na conta das exceções com a finalidade de dar a questão por resolvida. A pergunta é: como tratar os casos de mediunidade nas crianças e nos jovens quando os sinais aparecem e se mostram perturbadores? São duas abordagens distintas, com encaminhamentos também distintos. As crianças devem receber o tratamento capaz de auxiliar no seu reequilíbrio, deixando-as distantes das práticas mediúnicas, ou seja, não se pode inclui-las em qualquer atividade mediúnica, mas não se pode também olvidar a presença do fundo mediúnico quando for o caso, nem mesmo de possíveis processos obsessivos de fundo mediúnico ou não. No caso dos jovens, a questão envolve mais do que tratamentos possíveis, solicita esclarecimentos e, quando for oportuno, apoio objetivo para o caso da existência de mediunato em eclosão a ser devidamente processado sem pressa nem negligência. Do contrário, em havendo o fenômeno presente, simplesmente afastar o jovem das atividades mediúnicas à espera de um tal tempo certo pode redundar em aprofundamento das crises perturbadoras. Ou seja, não há regras fixas que possam ser extensivas a todos, seja para determinar o afastamento seja para levar às práticas mediúnicas. Requisita-se, isto sim, capacidade para diagnosticar e condições para tratar cada caso em sua especificidade. Ao lado disso, um bom conhecimento da doutrina.

 Exemplo para não ser seguido

A propósito, vale recordar o modo como o tema mediunidade e os jovens foi indevidamente tratado certa ocasião. O fato ocorreu numa instituição importante da capital paulista no início dos anos 1980. O salão estava repleto de pessoas das mais diferentes idades, cerca de 300 ao todo, e o palestrante já havia se colocado à frente do microfone para dar início à primeira aula teórica do ano no curso básico de mediunidade quando a diretora de cursos, chegando de surpresa, interveio e pediu para dar um aviso. Assumindo o microfone, disse mais ou menos assim:

– Quero informar a todos os jovens que foram encaminhados para este curso que estão proibidos de participarem de qualquer atividade que envolva mediunidade, porque a doutrina não permite que nesta idade as pessoas participem deste tipo de atividade. Sei que aqui estão mais de 20 jovens que têm entre 18 e 20 anos e informo que devem deixar a sala imediatamente e procurarem seus coordenadores na mocidade para se matricularem nos cursos devidos. Repito, todos estes estão proibidos de permanecerem nesta sala.

Dito isto, a senhora simplesmente se retirou do salão, deixando no ar um mal-estar terrível. O palestrante mostrou-se visivelmente constrangido com o que ouviu, o mesmo constrangimento que se observou dominar toda a plateia. Por vergonha de se mostrar ou por qualquer outra razão desconhecida, nenhum jovem tomou a iniciativa de se levantar e deixar o auditório. Voltando o microfone, o palestrante houve por bem falar aos jovens, mais ou menos nestes termos:

– Quero me dirigir neste momento aos jovens aqui presentes e pedir-lhes que, por favor, relevem a forma como este comunicado lhes foi agora a pouco transmitido. Naturalmente, deve ter havido uma falha de caráter administrativo que gerou um desencontro entre aqueles que são responsáveis pelo presente curso, desaguando neste momento de muito constrangimento para todos nós. Não fiquem mais aborrecidos do que o normal, afinal ninguém gostaria de estar na pele de vocês ou de ver seus desejos cerceados de modo tão abrupto. Quero crer que esse mal-entendido será logo, logo esclarecido, uma vez que a doutrina espírita requer bom-senso, o mesmo bom-senso demonstrado por Allan Kardec ao ter entre seus médiuns mais respeitáveis duas jovens de 14 e 15 anos, cujos serviços ao Espiritismo foram inestimáveis. Sigam em frente e levem com vocês a minha solidariedade.

Decorridos alguns segundos, um a um os jovens se levantaram e deixaram o ambiente. Só então a palestra teve início.


[i] Edição de janeiro-fevereiro de 2017, pág. 4 e 5.

3 ideias sobre “Imprensa espírita em dois toques

  1. Cada entrevistado dá do que tem e daquilo que não tem.

    Muito boa a análise, principalmente no tocante às crianças e jovens. Quantas flores que não desabrocham por pensamentos de gestão desconectados com as bases históricas e substanciais da Doutrina? E mais, um desentendimento humanista da necessidade do espírito que ora está no período biológico mais promissor de realizações criativas… Mecanicismos e muitos achismos norteando as decisões administrativas nessa salada russa que nós, espíritas, criamos na maioria dos núcleos.

    Obrigado por mais essa aula.

    abraços

  2. Como ficaria Chico Xavier, José Arigo, Mirabelli, Divaldo Franco e tantos outros anônimos, como você mesmo colocou…? E Kardec e suas jovens médiuns de 14, 15 e 20 anos???? Se as crianças, que estão vindo são crianças com inteligências e dons diferenciados para facilitar o processo de regeneração do Planeta, como ficarão diante de tal situação…. Jovens que nas casas espíritas ficam apenas participando de ensaios musicais ou divertimentos diversos vão se sentir incomodados, pois seus mentores vão lhes cobrar uma postura mais proativa em sua mediunidade???? Parabéns pelo seu ponto de vista…. Podemos fazer uma entrevista na Rádio Guarany 1300AM sobre o tema?????

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