Do filho, do pai e do…

 

Entrei na sala e fui logo questionado:

­– Por que o filho não continuou espírita?

– Não sei, respondi.

O mesmo questionamento me fiz por muito tempo, até desistir de compreender. Afinal, muitos filhos de muitos outros também não continuaram.

Há uma certa frustração no ar por isso, especialmente quando o filho se torna personalidade pública de destaque. Se continuasse, teríamos (?) um proeminente companheiro a ajudar a vencer as barreiras do conhecimento e dos preconceitos na sociedade. Sem dizer que estaríamos em boa companhia.

Filho de peixe peixinho é. Tudo bem, mas uns nadam em mar aberto, outros em riachos. Há até os que preferem as águas lodosas das cavernas mal iluminadas, em cujos habitats a vida ainda desafia a ciência.

– O pai foi maior que o filho? – questionei ao meu inesperado interlocutor.

– Evidentemente – respondeu de imediato.

Tenho cá minhas dúvidas, pensei. Não que eu não mantenha admiração pelo pai com a mesma intensidade da convivência que tivemos. Que sei eu do filho? Nada relevante para um julgamento justo, conclusivo.

Vejo-o quase diariamente pela tela, ouço-o e leio o que escreve. Minha distância do homem, porém, é abissal. Sei onde mora, como vive, conheço muitos de seus amigos e parceiros. O que não diminui em nada essa distância. A tela ilude, a voz engana, o texto trai. E os amigos, bem, os amigos só quem os tem sabe o que valem.

– Só porque era espírita? – perguntei com discreta ironia.

– Sim e não – respondeu, sem demonstrar segurança.

Dois observadores próximos sorriram. Um terceiro se aproximou, com ares de curiosidade. Fiz menção de seguir adiante, encerrando o diálogo. Mas resolvi perguntar ainda.

– Se o filho se declarasse espírita, seria maior que o pai? E o pai seria maior do que foi?

Ele não respondeu. Então, segui à frente e apresentei meus apontamentos para uma plateia em expectativa. Afinal, meu foco era o pai. Humano e por isso mesmo admirável.

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