Congressos espíritas: a ausência dos sem voz continua

A extensa programação e a presença de um time de expositores de primeira linha justificam o silêncio imposto aos que teriam o que dizer, mas não são convidados.

A grande pergunta permanece: para quem são feitos os congressos espíritas? A crer no que os multiplicados exemplos mostram, servem aos interesses dos supostos sentinelas da doutrina e a um público que se encanta com a festa, mas não pode se manifestar. São, esses eventos grandiosos, um conclave de múltiplos falantes e nenhum diálogo, por mais conflitante que essa definição pareça.

Veja o congresso do Estado do Rio de Janeiro, a ocorrer agora em outubro/18. Será, sem dúvida nenhuma, grandioso, como antecipa a peça de marketing na internet, pois deve contar com 2.000 participantes e é tratado como “o maior evento espírita” daquele estado. Assim mesmo, em letras garrafais, como se naquele Estado houvesse algum outro evento concorrente.

Leia-se a programação e ver-se-á uma sequência estonteante de palestras, painéis e mesas redondas a testar o fôlego dos participantes durante três dias, com mais de 20 horas de duração, tudo sob a responsabilidade de lideranças espíritas reconhecidas por seu bom desempenho na tribuna, do presidente da FEB a expositores de variados estados brasileiros. A escolha, logo se vê, deu-se por competência e por critérios políticos: nenhum deles sofre qualquer tipo de contestação da oficialidade ou não apresenta algum tipo de risco ao pensamento dominante. Divaldo, dessa vez, não vai estar presente, quiçá por conta de agenda.Até aí, quase tudo bem. Quase. É incrível como se faz concessões políticas, especialmente na seleção dos palestrantes, com exclusões criteriosas e inclusões muito bem estudadas. Tudo isso apoiado por um elenco de temas do mais alto valor. Na abertura, um assunto que homenageia os 150 anos do livro derradeiro de Kardec, A Gênese. Independente de quem o defenderá, por certo nenhuma menção se fará a todo o imbróglio que de um ano para cá a tradução do livro vem ocasionando, com a descoberta dos enxertos e desacertos da 5ª edição francesa tomada por base das traduções. Não é crível esperar-se isso, especialmente para não desagradar à FEB, cujos representantes estão distribuídos e muito bem alojados na programação, mas nenhum daqueles que respondem pelas novas pesquisas será bem-vindo. Para quem não sabe, a FEB entrincheirou-se na recusa dos novos documentos que reposicionam o livro A Gênese e lidera o grupo dos que preferem a edição adulterada.

A relação de temas e o quadro de expositores formam uma peça monolítica. Não apenas em termos de qualidade de ambos, por ser essa indiscutível. Mas também no sentido de afirmação dos critérios estabelecidos para o evento, uma vez que é preciso dar o melhor ao público visado. Eis que assim está na peça publicitária como estímulo à inscrição: “Aprenda os enigmas da criação com a obra A GÊNESE, de Allan Kardec; fortaleça a fé no futuro feliz da humanidade (mesmo que o mundo esteja passando por uma crise de valores); desabroche as potências da alma; construa a vontade de querer e a certeza de poder para transformar o mundo interior e iluminar os novos tempos!”. Para a massa de indivíduos, heterogênea, uma receita de bolo com ingredientes selecionados.

Em sendo um evento patrocinado pela federativa do Estado do Rio de Janeiro, é de se esperar que para lá acorram muitos trabalhadores e dirigentes de centros espíritas, por ser isso normal e até mesmo aconselhável. Farão eles, assim, parte da massa de escuta e sem voz. Dentro da liberdade possível, poderão decidir entre uma das seis salas simultâneas em que os temas serão abordados e se isso não for suficiente, terão ainda a possibilidade de outra escolha, apenas mais uma, ou seja, as seis salas se repetirão em dois períodos distintos. No mais, é ouvir os palestrantes nos painéis e mesas redondas.

Em comparecendo, esses trabalhadores e dirigentes levarão uma vantagem em relação aos que têm o que dizer, mas não são convidados; pelo menos poderão ouvir sobre os temas estabelecidos. Aos ausentes, reserva-se o dever de manter-se calado, mesmo que possuam trabalhos resultantes de extenuantes pesquisas, como é o caso dos atuais estudos sobre A Gênese, repletos de documentação inédita, e os que apresentam novas conclusões sobre a realidade do pensamento de Kardec, no contexto em que viveu, revelando condições culturais e intelectuais jamais abordadas até aqui. Sem mencionar inúmeros outros trabalhos, concluídos ou em andamento, como o que se anuncia sobre o acervo de Canuto de Abreu, no qual se inclui as cartas de Kardec, que prometem repor a individualidade do codificador em sua intimidade ainda não conhecida. Ah, mas isso é perigoso demais. Aliás, há grande expectativa sobre a publicação dessas cartas no que elas podem desencadear de efeitos sobre questões cristalizadas.

Enfim, nossos congressos são divertidos e cheios de oportunidade de congraçamento, especialmente por colocar frente a frente os ídolos e seus admiradores, mas não servem e não se propõem ao aporte de conhecimento, senão a “ensinar” o caminho da felicidade, por acreditar-se que tudo o que a doutrina espírita contempla está pronto e acabado. O conhecimento parou no tempo, ou então virá de fora sob a força dos fatos que não podem ser controlados. Tipo o que ocorreu com Galileu Galilei e sua teoria. Alguns, e não são poucos, preferem crer que se algo for necessário em termos de ajuste no saber espírita virá, indubitavelmente, dos espíritos superiores numa nova invasão organizada. Até lá, sonhemos, porque sonhar apazigua o coração angustiado.

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