Categoria: Imagens

Serão os documentos novos sobre Kardec lançados no jarro de barro, como os evangelhos apócrifos?

 

Se a água não passa duas vezes sob a mesma ponte, qual é a água que passa sob a ponte?

 

Em companhia do pesquisador Ivan Franzolim (na foto à direita), estivemos na FEAL com a assessoria do coordenador do acervo, Paulo Henrique Figueiredo (ao centro).
Um trabalho sério está sendo executado por especialistas, para conservação e digitalização dos documentos.

Quando o espiritismo abriu as portas tão desejadas da espiritualidade com a chave da razão, deixou à mostra um novo mundo de informações, tão vasto que sua absorção demandará um largo tempo de maturação humana.

A quantidade de documentos e Cartas de Kardec, bem como de Chico Xavier, surpreende os observadores.

A uma delas, a que brota das relações entre espíritos e homens de carne, Herculano Pires chamou de interexistencialismo, ou seja, o ser humano vive em dois tempos simultâneos: a vida do corpo conectada com os seus semelhantes, e a vida do espírito, em conexão com aqueles que já viveram por aqui.

As inúmeras possibilidades que esta vida comunicativa em dois planos nos oferece são incalculáveis. Basta refletir sobre o que se passa aqui na Terra, onde a comunicação social demanda permanente esforço de compreensão e de adaptação de todos, visto à sua complexidade. Palavras, imagens, sinais são muito mais do que significam em termos semânticos. São, na verdade, signos simbólicos, cujo significado não está visível, mas contido sob a capa das aparências a pedir significação para cada situação em que são aplicados na comunicação humana. (mais…)

Para os vaidosos o espiritismo é apenas o mote

 

Confesso que me constrange ver espíritas fazendo apologia de si mesmos. Retorno ao assunto pelo fato de leitores me solicitarem a opinião sobre casos e pessoas específicas.

 

Não cabe aqui ficar nomeando este ou aquele, nem mesmo neste tipo de situação. Basta o constrangimento que nos causam. E de mais a mais eles estão aí, na imprensa espírita e nas redes sociais, podendo ser facilmente identificados.

Parece que entre os danos morais que a vaidade ocasiona está uma notória desfaçatez e uma incapacidade absurda de não perceber o nível a que descem.

Lembra-me Augusto Veiga, um velho solteirão de minha terra natal. Tinha ele uma vida estável por conta de sua condição social familiar, mas precisava falar ao mundo que existia e era uma pessoa útil à comunidade. Escrevia semanalmente no jornal da cidade, especialmente notícias sobre acontecimentos locais ou nas metrópoles e, por hábito, sempre terminava referindo-se a si mesmo como sujeito de atitudes importantes. Falava na terceira pessoa do singular. Dizia assim: o jornalista Augusto Veiga esteve presente representando o doutor fulano de tal. E transcrevia pronunciamentos que havia eventualmente feito. Ele, na verdade, era a notícia. O acontecimento narrado apenas servia de mote para introduzir a si próprio, atribuindo-se destaque. Era contumaz nesse tipo de comportamento. Ninguém no jornal lhe dava mais crédito e os leitores se acostumaram com essas notícias sem valor. Com o tempo, tornou-se figura de chacota nas conversas de esquina. (mais…)

Jorge Rizzini entre luzes e sombras, pela Editora Pixel

A Editora Pixel Books acaba de lançar, pela plataforma digital da Apple, o livro Jorge Rizzini entre luzes e sombras, de autoria de Wilson Garcia. Trata-se do maior acervo de informações sobre a personalidade daquele que foi conhecido como um dos mais destacados polemistas espíritas do Brasil, com uma trajetória intensa na divulgação e defesa da doutrina de Allan Kardec. A presente edição compreende a ampliação e atualização da edição disponibilizada pela Scrib, de título “Muito além das sombras”, a qual permanece à disposição dos interessados, com download livre.

O livro aborda, de maneira inédita, inúmeras situações do escritor e médium:

# A sua relação de quase trinta anos com o filósofo, escritor e jornalista José Herculano Pires. (mais…)

Os guardiães dos apriscos do templo

Federação Espírita de Goiás: orador chega para fazer palestra e encontra as portas fechadas. Indignados, promotores do evento recorrem a outra instituição para manter o programa. Fatos revelam covardia, desrespeito e tudo o mais que a boa moral condena.

A fraqueza humana é capaz de conduzir o indivíduo às mais desprezíveis ações. Debalde o homem desse jaez lutará para mostrar-se digno da moral espírita, porque não conseguirá superar as próprias imperfeições enquanto não se oferecer à práxis cotidiana com a coragem dos estoicos. O homem fraco e desprezível, envolto pela embalagem do espiritismo e no comando das atividades espíritas, poderá ser luzidia e colorida imagem, mas nunca será um verdadeiro homem de bem.

Minha indignação provém da minha incapacidade de assistir aos atos indignos praticados por seres humanos, com acento ainda mais agudo quando esses homens coexistem no mesmo meio doutrinário no qual me coloco. Admiravelmente, o invejável Leon Denis afirma que a tudo podemos suportar desde que não sejam ultrapassados os limites da dignidade humana. A dignidade é o pórtico humano do inatacável, a muralha inexpugnável do direito e da vida. Ao contrário da realidade constatada por Herculano Pires na frase que dá título a este artigo. Sim, o inesquecível amigo não fala, na frase, de um passado que o espiritismo ajuda a superar, mas de uma realidade que se mostra exatamente no contexto social de hoje, onde muitos espíritas operam e farisaicamente sorriem. (mais…)

Significados e significantes importam. Mas as significações são definitivas

Se um significante jamais oferece apenas um significado possível, porque isso seria a literalidade aprisionante dos sentidos, então, o que Chico Xavier quis dizer com a expressão “o telefone só toca de lá para cá”?

Vê-se aqui e ali a repetição da frase expressa pelo médium mineiro como uma condenação explícita e direta ao desejo de chamar a atenção de espíritos e obter deles mensagens, isto é, conselhos, informações, desejos e conhecimento de seus conflitos no contexto da vida em que se situam. Em uma palavra: condenação da evocação dos espíritos, pois, dizem, se há quem possa decidir se tem ou não condições de dialogar com os encarnados seriam eles, os desencarnados. Oh Deus, quanto engano se comete quando a literalidade aprisiona a significação!

Quando isso ocorre, ou seja, quando se afirma que Chico proíbe que se façam evocações se está atribuindo ao significante – “o telefone toca de lá para cá” – apenas um e único significado que se pode, em mau português, chamar de significado semântico. Ora, digam-me, senhores, qual é o significante que possui um único e preciso significado? Que não se oferece às significações de tantas quantas mentes dele façam uso?

Ah, sim, há médiuns que fazem promessas de ouvir os espíritos que a pessoa deseja; há pessoas que querem ouvir dos espíritos coisas que eles, espíritos, não sabem; há lugares que estranhamente ensinam como os médiuns entram em contato com espíritos familiares; há outras pessoas que querem resolver o vazio da separação de filhos, maridos e esposas mortas conversando com eles sobre, talvez, as miudezas da vida familiar. Sim, há tudo isso e muito mais perfeitamente criticável. Ora, nenhuma definição literal resolverá o problema que pertence ao campo da educação, então, vamos fazer o esforço de educar para que a significação possa substituir a literalidade dos sentidos e, assim, resolver os problemas da individualidade diante da vida. (mais…)

USE-70, caminhos e desafios

Em dezembro de 2015, publiquei aqui em meu blog uma análise do livro dos 50 anos da USE, com alguns apontamentos necessários. Agora, quero recuperar certos fatos que me parecem importantes por sua função interligadora na história do Espiritismo. Refiro-me às fontes das ideias que deram origem ao desejo de organizar estruturalmente o movimento em torno da doutrina espírita na sociedade, ideias que desembocaram na fundação de associações federativas, no Brasil, especialmente, mas também no Exterior.

Ninguém há de negar que o Projeto 1868, elaborado e publicado por Allan Kardec na revista espírita de dezembro daquele ano, constitui-se em fonte de orientação para a formação de sociedades espíritas do tipo centros ou federativas. Ali estão as reflexões e as sugestões que o codificador oferece, dentro das preocupações que o dominavam em relação ao futuro do Espiritismo. Kardec apresenta elementos gerais, mas também chega a detalhar minúcias dos procedimentos no entendimento de que a forma muitas vezes se torna necessária à concretização efetiva do conteúdo. (mais…)

50 anos do Correio Fraterno (do ABC) – o que a história não conta

Entre o nepotismo e a exaltação da figura paterna foi deixada uma lacuna de muitos braços, mãos e cérebros que construíram a obra.

Logo criado em 1980 e utilizado até hoje. A ideia e a execução foram de um profissional da publicidade em São Paulo.

O Correio Fraterno (do ABC) publica em sua atual edição (no 477, setembro/outubro de 2017) reportagem-entrevista de capa assinada pela jornalista Eliana Haddad, com o título “50 anos de espiritismo do Correio Fraterno”. As entrevistas ocupam as páginas 4 e 5, e a reportagem está nas páginas centrais 8 e 9. São, portanto, quatro páginas do jornal tabloide ou ¼ de suas páginas destinadas a colocar para o leitor o resumo de uma história de 50 anos. Mas sua leitura deixa à mostra uma verdade: o resumo ao invés de revelar a história, esconde-a. Em primeiro lugar, cuida de exaltar a figura paterna e a da filha numa entrevista em que a obra perde lugar para apenas duas pessoas. Veja-se o seu título: “De pai para filha”. Um nepotismo clássico e uma ideia capitalista de sucessão como se o jornal e a editora fossem objeto de herança. Nepotismo porque os entrevistados não são apenas pai e filha; Izabel Vitusso é (mais…)

Entre traças, poeira e páginas rotas

Por diferentes vias e de diversas maneiras, chegaram-me às mãos ao longo dos últimos 50 anos uma quantidade considerável de livros, revistas e documentos importantes para a história do espiritismo, livros em boa parte esgotados e alguns até mesmo ignorados do público, bem como as referidas revistas. Dei início à publicação das respectivas resenhas com o trabalho sobre a Revista Metapsíquica, como forma de desincumbir-me deste que considero um compromisso público, uma vez que formo entre aqueles que entendem que nada que seja de interesse público pode ficar retido sob a rubrica de patrimônio particular; que tudo deve ser disponibilizado, aberta e livremente, ao conhecimento da sociedade, pois que, no fim das contas, a ela de fato pertence. Na sequência, dei conhecimento de outra revista – Verdade e Luz – e, após, iniciei a publicação em separado de resenhas mais extensas de alguns livros cuja importância pedia um destaque especial. Agora, aqui, faço a conclusão do trabalho, publicando sobre aqueles documentos que, de maior ou menor interesse, guardam todos eles a oportunidade de esclarecer, informar ou enriquecer este ou aquele estudioso e pesquisador. Todos estes livros estarão à disposição dos interessados, uma vez que ficarão sob a guarda da Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires, que, certamente, os disponibilizará ao público. A coleção inteira, contudo, dos textos publicados, poderá ser encontrada aqui, neste blog, na página DOCUMENTOS e suas consequentes subpáginas: Revista Ilustração Espírita, Revista Metapsíquica, Revista Verdade e Luz, Opúsculos raros e Livros raros 


O espiritismo, sua natureza, seus perigos – Alexander Jenniard Du Dot, o autor, era em sua época uma espécie de Padre Quevedo dos católicos, ou seja, trabalhou muito para “compreender” os fatos espíritas à luz do catolicismo e de uma visão da ciência um tanto estrábica. Ele afirma sem medo que à frente da ciência de seu tempo (nasceu em 1840 e este livro data do final daquele século) “nós pomos o catecismo”. (mais…)

Marx e Kardec, materialismo e espiritismo

Espiritismo e Socialismo estão unidos por laços estreitos, visto que um oferece ao outro o que lhe falta a mais, isto é, o elemento de sabedoria, de justiça, de ponderação, as altas verdades e o nobre ideal sem o qual corre ele o risco de permanecer impotente ou de mergulhar na escuridão da anarquia. Léon Denis

 O socialismo de Denis foi classificado como idealista, uma maneira de ver que em princípio não combina com a dura realidade na qual a vida em sociedade se manifesta e desenvolve. Desde a eclosão das ideias socialistas, com Marx, às experiências de implantação de regimes políticos e econômicos marcados pelo fundamento socialista, que se discute a questão. No espiritismo não foi diferente e aqui está um exemplo de contenda em que as ideias se chocam e se distanciam até se encontrarem nas pontas, na irrefreável leveza da física.

Os espíritas e as questões sociais – em sua edição primeira, feita em 1955 em Niterói, RJ, este livro reúne artigos publicados na imprensa por dois conhecidos espíritas: Eusínio Lavigne, advogado e empresário de Ilhéus, BA, e Sousa do Prado, ex-membro da Federação Espírita Brasileira. Trata-se de um grande debate que teve início quando a Revista Internacional de Espiritismo, de Matão, recusou-se a publicar um artigo de Lavigne em resposta a outro, que saiu em suas colunas na edição de setembro de 1950, intitulado “Pela vitória do espírito” e assinado por Pereira Guedes, cujo conteúdo analisava o livro Materialismo dialético e materialismo histórico, de José Stalin. Lavigne procurou, então, o Jornal de Debates, onde encontrou guarida e por vários meses expôs seus argumentos sobre a teoria marxista, o socialismo e as conexões com o espiritismo, além de, ao defender o marxismo, deixar claro que o fazia ao que de científico ele continha e não à sua condição materialista contrária ao fundamento espiritual da doutrina de Kardec. (mais…)

Ismael, um Anjo na FEB

A trajetória de um destacado grupo mediúnico e as polêmicas em torno das raízes místicas do espiritismo no Brasil podem ser vistas pelas palavras dos próprios personagens centrais da história.

 Livro:

Trabalhos do Grupo Ismael da Federação Espírita Brasileira (1941)

Autor: Guillon Ribeiro, Ed. FEB

Página de rosto do livro com o autógrafo do ex-presidente da FEB, Francisco Thiesen.

A história do Grupo Ismael está registrada neste livro a partir da reprodução de um trabalho desenvolvido por Pedro Richard e publicado 40 anos antes, ou seja, em 1901, nas páginas do Reformador, da FEB. Embora o livro se destine a transcrever e comentar as mensagens recebidas pelos médiuns do grupo no período de julho de 1939 a dezembro de 1940, Guillon Ribeiro aproveita da oportunidade para destacar este histórico como forma de fixar aquelas que julga serem importantes contribuições ao espiritismo brasileiro, sendo, porém, certo que elas estão circunstancialmente presas ao contexto de crenças onde a FEB localizou-se.

Sob este aspecto, o texto de Richard é também um daqueles instrumentos que permitem avaliar as condições das práticas mediúnicas, antevistas por Allan Kardec em O livro dos médiuns, em que as influências do meio recaem sobre os médiuns e das quais quase sempre não é possível fugir. O clima psicológico e espiritual do grupo é de crença absoluta na sua importância enquanto conjunto de seres especialmente destacados pela espiritualidade superior para levar avante uma tarefa de semeadura da doutrina espírita, bem como de sua condução pelos tempos futuros. Trata-se, sem dúvida, para os líderes do grupo, de um mandato divino e único, ou seja, declaradamente não há dois grupos com as mesmas atribuições, nem dentro da FEB, à qual o grupo se subordina a partir de determinado momento, nem fora da FEB, por mais que houvesse instituições respeitáveis alhures. (mais…)