Sob duas sombras: a história e o invisível

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O RESGATE DO WERNECK


 Eis aí um líder que só aceitava a liderança de alguém que possuísse as características do grande líder. Allan Kardec foi um deles. Tornou-se um espírita tardio e dos poucos que, nestas alturas da vida, logrou penetrar com rara lucidez no abrangente conteúdo do mestre lionês.

 “A minha alma não é propriedade do Estado, nem das seitas. Tenho sobre ela jurisdição absoluta. Não tolero que a guiem contra a minha vontade. Hei de salvá-la eu mesmo, ou ela estará perdida. A menos que forças, livremente aceitas, lhe mudem a direção, ela resistirá aos decretos emanados do poder humano”.

Publicado em 1923, este livro tornou-se verdadeira raridade e o museu que leva o nome do autor dispõe de apenas um exemplar.

Essa feliz e comovente declaração faz parte da profissão de fé contida no livro Um punhado de verdades, livro escrito por Américo Werneck e publicado em 1923, no Rio de Janeiro. E quem era Américo Werneck? Quando me presenteou com o exemplar desse livro em 1981, meu amigo Francisco Klörs Werneck, o grande tradutor das obras de Ernesto Bozzano para o português, me disse em bilhete separado: “Meu tio Américo Werneck, engenheiro civil, deputado estadual pelo estado do Rio, foi convidado pelo presidente do estado de Minas Gerais, Silviano Brandão, para ocupar o cargo de Secretário de Agricultura, Viação, Obras Públicas, Indústria e Comércio, que aceitou. Foi construtor de Lambari e prefeito interino de Belo Horizonte. Em Lambari, a rua principal tem o seu nome e o seu busto. Famoso pelo seu trabalho em Minas Gerais, como o seu primo dr. Hugo Werneck”. Até aí, muito pouco. Alguma coisa sobre a participação política dele e nada sobre o espiritismo. É que não havia tempo na ocasião para as devidas ampliações, pois, quando Continuar lendo

O que tem a ver entre si estes três personagens da história brasileira?

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ARNALDO VIEIRA DE CARVALHO, HORÁCIO DE CARVALHO E CAIRBAR SCHUTEL

 Nada os ligaria, em princípio, não fosse um detalhe: Arnaldo Vieira de Carvalho teria dado duas mensagens dias após sua desencarnação e foram ambas recebidas no círculo mediúnico de Cairbar Schutel, em Matão. E Horácio de Carvalho era amigo de Arnaldo, conhecia Cairbar e estudava o hipnotismo e o espiritismo. Isso tudo os uniu numa apreciação crítica das mensagens atribuídas a Arnaldo que o Horácio fez e encaminhou, em formato de livro, a Cairbar Schutel. Quase 100 anos depois podemos retomar o fato como uma parte importante da história do espiritismo no Brasil.

À esquerda em preto e branco a capa e à direita a cores a página de rosto. Um livro singular datado de 1920 e todo feito a mão.

 ESPIRITISMO. Análise de duas mensagens atribuídas a Arnaldo Vieira de Carvalho – livro de exemplar único, em escrita manual, datado de 1920, de autoria de Horácio de Carvalho, dedicado a Cairbar Schutel com a seguinte mensagem: “Ao prezado amigo e ilustre jornalista espírita, homenagem de Horácio de Carvalho”. Contém a análise, feita por Horácio, de duas mensagens recebidas mediunicamente no grupo de Cairbar Schutel em Matão, assinadas por Arnaldo Vieira de Carvalho, a primeira delas dois dias após a desencarnação do conhecido médico em São Paulo, e a segunda sete dias após. Continuar lendo

A história em pequenos textos

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A presente publicação constitui a penúltima etapa de um projeto de divulgação do material que colecionei – livros, revistas e opúsculos, bem como documentos importantes da história do espiritismo – visando disponibilizá-los aos pesquisadores, estudiosos e até mesmo aos curiosos dos fatos espíritas. Apresento 35 opúsculos publicados durante o século XX, alguns bem no começo desse século – escritos na maioria por espíritas de considerável expressão do pensamento doutrinário ou que se tornaram líderes locais e nacionais. Entre eles estão Deolindo Amorim, Leopoldo Machado, Cairbar Schutel, Edgard Armond e  Jaci Regis. Alguns dos opúsculos estão disponíveis na Internet e para tanto ofereço o link para leitura e download; boa parte, contudo, não está com seu conteúdo à mão ou são desconhecidos de grande parte do público, de modo que para os ler os interessados deverão aguardar a respectiva digitalização. A próxima etapa – a última – vai disponibilizar inúmeras obras espíritas hoje fora de catálogo e em grande parte desconhecidas da maioria. Clique para ler

A Verdade é a Luz

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A segunda época da revista Verdade e Luz, hoje praticamente esquecida, ajuda a recuperar parte importante da história do Espiritismo e a corrigir enganos cometidos na biografia do extraordinário espírita conhecido por Batuíra.

O jornal Verdade e Luz, fundado em São Paulo no final do século XIX pelo português Antonio Gonçalves da Silva, apelidado de Batuíra, teve uma vida e uma história considerável, dividida em duas partes: a primeira época, em que a publicação começou como jornal e quase ao final desse período transformou-se em revista, e a segunda época, quando retornou à circulação após um período de interrupção, como revista de boa qualidade. É desta segunda época que vamos falar, uma vez que ela se encontra esquecida e não conta com registros capazes de serem compulsados pelos pesquisadores e historiadores.

Tenho em mãos 36 exemplares da revista Verdade e Luz, segunda época, correspondendo aos anos 1922, quando foi retomada depois de quatro anos sem circular, até 1926. Tudo indica que saiu do cenário ao final de 1926 e não mais retornou. Seu diretor, Pedro Lameira de Andrade, após esse ano, seguiu como presidente da Instituição Verdade e Luz até a data de sua desencarnação, ocorrida em 1937. Leia mais

A Metapsíquica de Canuto de Abreu

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No período de maio de 1936 a janeiro de 1937 (datas estimadas, carecendo de comprovação definitiva) a Sociedade Metapsíquica de São Paulo publicou uma revista no formato 16 x 23 cm, em preto e branco tanto na capa como no miolo. A direção esteve a cargo do membro da Sociedade, Canuto de Abreu, hoje reconhecido por seus livros, pesquisas e, especialmente, pela posse de documentos valiosos sobre Allan Kardec obtidos diretamente na França pouco antes da eclosão da segunda guerra mundial, em Paris. Canuto era advogado e médico homeopata, além de formado em Farmácia.

Possuo quatro dos cinco números dessa revista, menos o exemplar de número 1. A publicação saía bimestralmente com material assinado por articulistas reconhecidos e foi nesta revista que Canuto de Abreu deu início a série de artigos sobre Bezerra de Menezes, que depois foi reunida em livro. Além de dirigir e escrever, Canuto de Abreu Continuar lendo

Sinapses, neurônios e arquivos da memória espírita

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Ao comentar uma das funções das imagens, Jacques Aumont informa que elas provocam a abertura de arquivos da memória, fato que permite o seu reconhecimento através da identificação dos elementos que as imagens contêm pela comparação entre o que está registrado na memória e o que é apresentado pelas imagens. Trata-se de um fenômeno simples e ao mesmo tempo extraordinário porque complexo, que se realiza ao contato do observador com o objeto na rapidez com que os sentidos conduzem silenciosamente ao cérebro os estímulos, provocando a abertura dos arquivos da memória e devolvendo imediatamente à consciência os registros ali presentes, que permitem ao indivíduo realizar a identificação e o reconhecimento, não dos significados da imagem, mas dos seus elementos constituintes. Continuar lendo

Me dá algo para ver. E também para tocar

A experiência fundamenta o saber, mas o tempo que se perde na prisão dos sentidos retarda seus efeitos benéficos.

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A história de Tomé e sua incredulidade simboliza ainda hoje a do ser humano sequioso da segurança psicológica, aquele que age como quem tem a posse da percepção pelo olhar e o tato, pelos quais pode conhecer e decidir sobre sua relação com o mundo. Quer não apenas ver com os olhos, mas também com os dedos, as mãos e mais aonde o sentido tátil alcança, sem viver a experiência direta no mais das vezes, mas encontrar prontas imagens e coisas e servir-se destas oferendas de outrem, em quem depositam total confiança.

Não se pode negar que há um princípio de razão e ciência no ser que não se conforma com a informação, a lógica e a crença compartilhada por outrem. Porém, se este princípio aí está, está na sua forma latente no mais das vezes, pois o que move o ser que deseja crer apenas depois do ver e tatear quando dominado pela busca do consolo que estabilize, mesmo que aparentemente ou provisoriamente, o seu equilíbrio psicológico, é muito mais dar-se uma resposta que assegure as decisões a tomar do que propriamente o agir racional, cientifico.

A doutrina espírita, na forma como Kardec a apresenta, oferece ao olhar um mundo de imagens para ver e a matéria em toda a sua extensão para tocar. O corpo é e está em contato com a matéria e os sentidos visuais permitem a percepção daquilo que ocorre ou é oferecido à retina. Essa doutrina, porém, formaliza uma ação racional para embasamento do que se vê e se toca, com suas explicações sobre as causas e os efeitos, as origens e as finalidades, as estruturas fundamentais da matéria e do espírito, como a dizer que os sentidos presentes no corpo precisam do direcionamento da razão e do agir científico desde as coisas mais simples até as complexas.

Mas a doutrina nem sempre é disponibilizada em seu quadro geral, com suas partes integradas. As lideranças espíritas, o mais das vezes, têm feito opção pelas partes da totalidade que mais lhes tocam, com escolhas que recaem preponderantemente sobre aquilo que responde aos sentidos imediatos, aí centralizando as atenções na duração que domina o tempo e não dá, também no mais das vezes, oportunidade para complementar o agir consolador com os fundamentos racionais da vida. Oferecem nossas lideranças as imagens para o olhar e a matéria para o toque, valorizando um crer com pouca ciência, ou com a oferta de razões repetitivas a partir de um discurso autoritário, centrado num compartimento específico onde se alojam causas e razões parciais, que passam a dominantes, como se a totalidade ali se encontrasse.

O discurso autoritário substitui o discurso libertário; aquele porque se mostra de mais fácil aplicação, pois dispensa razões extensas, que demandam a posse de conhecimentos amplos da doutrina; já o discurso libertador, que integra a razão espírita e se apoia na experiência que o ser humano pode escolher – e escolhe, quando livre –  como forma única de progredir, este discurso é negado nas práxis do cotidiano, seja por preguiça, seja por opção enganosa das lideranças.

O sentido consolador, na sua face mais imediatista, assume o controle dos discursos e das oferendas feitas ao olhar e ao toque, de modo tal que as mudanças, que só podem ocorrer de fato quando a compreensão abastece a consciência, ficam premidas pela percepção das respostas mágicas, das soluções aparentes, dos sentimentos superficiais, a embalar mitos, fantasias e desejos irrealizáveis. Passa-se do convite ao saber que liberta, assim oferecido pela doutrina, ao crer que mantém a ignorância mas consola os corações em descompasso com promessas de futuro embebidas no pano da ingenuidade.

Jesus, o homem, que o Espiritismo recolocou acima dos milagres e em consonância com a natureza, é de novo elevado ao monte das oliveiras dos sonhos e ali volta a ser adorado, na medida exata da exaltação pelo nome, como se o crer por acreditar fosse suficiente para conduzir o ser a atingir suas metas evolutivas. Novos andores foram concebidos para colocar sobre eles os santos que a massa passou a admirar e a incluir nos seus rosários sem contas, alimentando-se, pois, de suas capacidades de garantir o futuro. São os Bezerras, Chicos e outros tantos, que tomam o tempo e o espaço no SOS dos perigos que a vida teima em apresentar.

Os olhos, sem o embasamento do saber, são incapazes de superar a ilusão intrínseca das imagens naturais ou culturais. Não à toa Kardec chama a atenção para os perigos da vidência enquanto fenômeno mediúnico, alertado por seus sentidos de que o imaginário é pródigo em produzir efeitos aparentes e confundi-los com a realidade que foge aos sentidos comuns. A solução para a interpretação das imagens está na palavra e a palavra é o verbo em suas diversas e diferentes conjugações. Os olhos podem, assim, ser a porta da percepção da natureza ou a entrada para o autoengano.

A seu turno, o tato não vai além das propriedades aparentes da matéria e sua função mais precisa está em complementar aquilo de que o saber se apropriou. O que foi armazenado no cérebro é o que vai direcionar no seu emprego. Portanto, a carência de conhecimento implica na percepção incompleta quando não também ilusória.

As lideranças espíritas têm duas opções para o desempenho de seus compromissos: fomentar o conhecimento racional, resultado de uma base teórica e da experiência na vida, para sustentar o sentimento, as emoções e seus efeitos, aí incluídas as virtudes todas, ou estimular a permanência do ser que acorre aos recintos dos centros espíritas na sustentação das ilusões, oferecendo-lhes apenas o consolo que dura somente o curto tempo que intermedeia o centro espírita e sua residência, onde, de volta à realidade do mundo da vida, ninguém consegue fugir das escolhas e das decisões a serem tomadas.

No primeiro caso, trata-se de optar pelo discurso da liberdade, base do verdadeiro amor, e no segundo, pelo discurso de autoridade, base da dominação.

Cinema: partida e chegada. E o desafio Tornatore

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Roman Polanski e Gérard Depardieu protagonizam o suspense de Tornatore.

A temática espírita esplendidamente colocada nas telas da arte do real por um profissional reconhecido pela crítica.

A sala estava em silenciosa expectativa. Meus alunos de Teoria da Imagem deveriam resolver dois mistérios: primeiro, como assistir com atenção um filme que se passa a maior parte do tempo num quadrilátero diminuto e, segundo, qual é o discurso final do filme, a partir da localização do fator intencional do conhecido diretor Giuseppe Tornatore.

“Uma Simples Formalidade” tem sido um filme desafiador há mais de vinte anos. Diminuta porcentagem daqueles que o assistem consegue atinar com os propósitos do autor e com a realidade que apresenta. Todos concordam que se trata de uma excelente produção daquele que é considerado um dos grandes cineastas italianos da atualidade; ninguém duvida de que os dois principais protagonistas da história – Gérard Depardieu e Roman Polanski – têm um desempenho extraordinário. Mas o filme não foi sucesso comercial e costuma não aparecer entre os mais destacados de Tornatore.

De fato, trata-se de um filme inapropriado para consumo de massa e, talvez por isso, os espíritas não tenham se interessado por ele como podiam e deveriam, pois Tornatore faz um filme doutrinário sem dar na pinta e o faz com maestria, arte e imagens.

Os críticos e admiradores da arte do real produziram muitos textos sobre o filme de Tornatore, mas são na maioria inconclusivos, alguns lindamente ordenados, com abordagens psicológicas profundas, mas sem chegar a lugar algum, porque para chegar onde o autor pretendia seria preciso adotar, até mesmo por ética intelectual, uma ideia que não é apreciada pelo mundo acadêmico: pertence ao mundo do sagrado.

Entremos no filme: estamos numa delegacia de algum lugar isolado da Itália. Velha, suja, com pessoas estranhas. Frente a frente surgem o delegado, durão e o tempo quase todo irônico, e um escritor, suspeito de assassinato. O papel do delegado é fazer o escritor confessar o crime e o do suspeito é negar, negar, negar até…

Muitos elementos simbólicos estão presentes na imagem e a maioria deles, quando identificada, só o é depois que o filme acaba; às vezes – e não poucas – mesmo depois do fim o espectador sai sem perceber sua presença e seu significado específico. Ignorados, desconhecidos, esses símbolos acabam remetendo ao lugar comum do suspense, da simples trama policial, escondendo os sentidos e os fins pelos quais foram ali colocados.

Vejamos alguns:

  1. Chuva – permanente e torrencial, seu barulho é uma espécie de índice da necessidade de confessar, aceitar e assumir o crime cometido. Quando isso se concretiza, a chuva cessa imediatamente e o novo dia nasce.
  2. Delegacia – tudo ali é sinal de conturbação. A mente do acusado está confusa como o lugar onde se encontra: chove lá fora, dentro também por conta de inúmeras goteiras, que na verdade são buracos na mente por onde passam frações de lembranças dos fatos recentes. A delegacia é o espelho de uma consciência perturbada.
  3. Máquina de escrever – o depoimento infindável do acusado é registrado no papel pelo escrevente. O barulho das teclas e do carrinho da máquina no seu vai e vem apressado está avisando que a memória pode liberar a informação que está sendo exigida pelo delegado.
  4. Papel – as folhas de papel são substituídas na máquina de escrever numa sucessão contínua, mas elas permanecem em branco, assim como a memória do acusado. Elas são como um aviso do vazio a ser preenchido pelo escritor em apuros.
  5. Delegado – símbolo social da segurança, está ali não como condutor de um inquérito simplesmente, mas como um magistrado que sabe por antecipação da culpa do acusado e cujo veredito está pronto. É preciso, no entanto, levar o acusado à confissão, pois só a partir dela ele poderá ser compreendido.
  6. Vinho – símbolo de vida (o Espiritismo tomou a cepa como ícone), surge aos olhos do acusado que o sorve aos goles frenéticos. A seiva da uva age para diminuir as resistências conscienciais do acusado. Sendo simbólico, não é concreto mas imaginário. Logo desaparecerá junto com os demais símbolos.
  7. Inundação – no clímax da negação pelo acusado a chuva aumenta e os baldes, espalhados pelos diversos compartimentos da delegacia, são insuficientes para coletar a água das goteiras. É preciso tirar a água de dentro antes que tudo se alague, como quem retira da consciência o remorso e a dor resultantes do crime.
  8. Onoff – esse é o nome do escritor. Seu simbolismo é evidente e denuncia a intenção de Tornatore. Ligado/desligado, significa vida e morte. O escritor está vivo mas já morreu sem, no entanto ter perdido a vida. Quando foi preso ele estava On, vivo, mas queria estar Off, morto, por isso corria, sempre para frente, como quem foge de On ou como quem quer se afastar das lembranças perturbadoras dos últimos acontecimentos.

A dupla função de delegado e juiz atribuída por Tornatore ao personagem de Polanski fica clara na forma pela qual ele conduz o depoimento de Onoff. Ele tem ciência dos acontecimentos e de tudo o que diz respeito à vida e à obra do Onoff, conhece de memória os livros que este escreveu e pode reproduzir nos mínimos detalhes cada um. De posse desse arsenal, cerca de todos os lados o depoente para não deixá-lo dormir nem escapar de si mesmo e, enfim, levá-lo a assumir o crime.

Onoff se recusa a acessar a memória e deixar subir à tona os fatos ali arquivados, mas o delegado coloca-os diante dele na forma de centenas de imagens que o perturbam. Pouco antes, ao olhar pela janela, Onoff as havia visto chegar em um saco imenso, mas confundiu o conteúdo do saco com o de um corpo, possivelmente o de sua vítima. Tomando de algumas dessas fotos lembranças, Onoff se desarma, perde as resistências, cede.

Aos poucos, clareia o dia, cessa a chuva, a delegacia e os seus ocupantes entram num momento de sensível calmaria. Onoff está arrasado e ao mesmo tempo consciente de ter cometido o suicídio. É hora de ir; agora é ele que não quer deixar para traz as lembranças; insiste em levá-las consigo. O lugar que o aguarda não é uma cadeia ou presídio de segurança máxima; talvez uma clínica psicológica.

Antes, porém, de deixar a delegacia, uma surpresa: um novo acusado ali aparece em situação semelhante à qual ele chegou. Curioso, toma conhecimento de que todos os que lá trabalham, o delegado, inclusive, chegaram ali da mesma forma e pelo mesmo motivo: o suicídio.

Onoff segue em frente; agora é tão-somente ON. E o desafio Tornatore se explica: fez ele sua interpretação espiritual dos suicidas e de sua chegada ao além após colocarem fim em seus corpos físicos. Sob a capa de uma perturbação mental de fuga da realidade, escondem e se escondem da verdade, mas precisam dela para se livrarem da tormenta que os aflige. E quando a enfrentam, depois de encurralados, acordam mais leves diante da possibilidade de um outro recomeço.

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PS – Filme para ser visto em tela grande ou, em casa, em DVD. Mas está também disponível pelo Youtube em: https://www.youtube.com/watch?v=IYelkG2pkdc

Edson Queiroz, Deolindo Amorim e um projeto jornalístico

Edson Queiroz, médium de cura pernambucano, teve grande destaque durante oscnot_5039 anos 1980, no Brasil e além fronteiras. Hoje praticamente esquecido, foi intermediário do conhecido espírito do Dr. Adolpho Fritz, que por muito tempo atuou junto a outro famoso médium, Zé Arigó. Com Edson Queiroz, Dr. Fritz realizou cirurgias utilizando instrumentos cirúrgicos e dispensando a anestesia e a assepsia. Aqui, você conhece um pouco mais dessa história lendo: EDSON QUEIROZ – OS CONFLITOS DA MEDIUNIDADE DE CURA.

Deolindo Amorim, escritor e jornalista, continua sendo uma referência para muitos estudiosos do espiritismo no Brasil. Foi fundador do Instituto de Cultura Espírita do Brasil e idealizador do primeiro Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, evento que iniciou uma era de valorização da liberdade de expressão e pensamento no Brasil. Aqui está a última correspondência dele, escrita alguns dias antes de sua morte.

A história da imprensa espírita no Brasil revela fatos curiosos e muitas vezes decisivos. O jornal editado pela Federação Espírita de São Paulo, denominado O SEMEADOR esteve diretamente envolvido com a projeção do médium Edson Queiroz e viveu um período extraordinário nos anos 1980. Neste artigo – UM JORNAL, UM PROJETO E UMA POLÍTICA – você fica sabendo um pouco mais desses fatos.

Um jornal, um projeto e uma política

Laurito

Laurito deu o aval para a edição de um jornal mais atuante.

Estamos em 1982 e João Batista Laurito é o presidente da Federação Espírita de São Paulo. Seu jornal O Semeador, dirigido por Paulo Alves Godoy, passa por um período difícil. Godoy está só, sem equipe, e a tiragem de três mil exemplares fica praticamente encalhada, por falta de leitores interessados. O potencial da Federação é enorme e está claramente mal aproveitado. Ali circulavam, na ocasião, cerca de cinco mil pessoas diariamente e um número igual estava frequentando os diversos cursos de estudo do espiritismo oferecidos. As suas livrarias vendiam em torno de 18 mil exemplares de livros mensalmente, constituindo-se no maior ponto de vendas do país, no mercado de livros espíritas.

A bem da verdade, as instituições espíritas, de modo geral, à época, tinham na comunicação um dos seus principais focos de atuação, porém, a consciência das implicações que a comunicação apresenta era quase nula. Fazer jornal se resumia a ter um responsável, juntar as colaborações espontâneas que eram remetidas por articulistas, imprimir e distribuir o veículo. Mesmo instituições como a Federação, com poder econômico, espaço físico e material humano abundante, não disponibilizavam infraestrutura mínima adequada ao fazer jornalístico. O responsável ocupava um canto qualquer de uma sala qualquer num dia qualquer, analisava o material, juntava tudo e entregava à empresa gráfica, que se incumbia da diagramação e impressão. Godoy, como outros, viva as agruras desse processo.

Laurito nos convidou para assumir a direção do jornal em caráter colaborativo, com o objetivo de dinamizá-lo. Estava insatisfeito com a situação, afinal, alcançara o cargo máximo da instituição depois de uma verdadeira batalha eleitoral. O jornal deveria ser o espelho de sua proposta política, mas as condições em que se encontrava não permitiam esse luxo. Entregamos-lhe um projeto, com uma só exigência: fosse o mesmo levado ao conhecimento da diretoria para aprovação, de modo a poder contar com o respaldo político necessário para uma mudança ampla. Quem conhece o funcionamento das instituições do porte da Federação Espírita de São Paulo sabe que os interesses políticos estão em constante litígio e a democracia nelas praticada padece de insegurança permanente. Embora escorado no sistema presidencialista, em que o poder máximo se concentra nas mãos de uma só pessoa, na prática não funciona assim. Cada diretor e cada indivíduo que responde por um cargo de direção, em geral se sente na condição de autoridade máxima, especialmente quando o assunto é comunicação.

Laurito fora corajoso quando decidiu nos convidar para a assumir o jornal, afinal, nos últimos anos as divisões internas haviam se aprofundado como nunca, de modo que nosso nome não gozava da simpatia de expressiva ala de governistas. E, a bem da verdade, ele próprio não tinha noção clara do que seria feito e do que viria pela frente, como os fatos atestam. Sabia, apenas, que nas condições em que se encontrava, o jornal não poderia continuar. E foi bastante convincente ao apresentar o projeto para seus pares de diretoria, conseguindo aprova-lo.

O projeto estava ancorado em três pilares: nova linha editorial, infraestrutura e formação de uma equipe profissional e de colaboradores. Uma imprensa dinâmica não alcança sucesso se ficar nas mãos de amadores de boa vontade e não pode viver apenas de colaboradores espontâneos, como historicamente sempre ocorreu na maioria dos jornais espíritas. A imprensa, não importa onde esteja, tem suas regras, suas técnicas, sua linguagem e os que a fazem precisam ter uma noção clara do interesse público. Imprensa, mesmo sob o rótulo de espírita, não prescinde de liberdade e autonomia, se deseja realmente produzir resultados positivos. A matéria prima da imprensa é a notícia e a notícia não vem à redação; a redação precisa ir atrás dela. Os fatos precisam ser vistos, interpretados e narrados no seu momento e não foi sem razão que Machado de Assis disse que o jornal da manhã à tarde era produto com data de validade vencida.

Pela primeira vez em toda a sua existência o jornal O Semeador passou a contar com uma sala exclusiva, máquinas de escrever, arquivos, dois jornalistas profissionais contratados, um quadro de outros quatro jornalistas estagiários (estudantes de jornalismo recrutados nas faculdades), dois ilustradores, diagramador, equipamentos fotográficos e um plano editorial definido. A primeira edição da nova fase saiu com tiragem de 10 mil exemplares, trazendo reportagem exclusiva, opiniões, notícias e visual atualizado.

As bases de sustentação do projeto estavam lançadas e se completaram com a boa aceitação do público frequentador da Federação: todos os exemplares foram vendidos. Um mês após, em abril de 1982, uma equipe do jornal se deslocou a Salvador, Bahia, para cobertura do VIII Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, um evento organizado pela equipe de Ildefonso do Espírito Santo. Foi durante o congresso que se tornou conhecido o médium de cura Edson Queiroz, cuja atuação, até então, se restringia ao estado de Pernambuco. Apresentou-se ele para um grupo de convidados fora da programação do evento, demonstrando suas qualidades mediúnicas, desejoso de torna-la conhecida para além daquele estado nordestino. A repercussão dividiu opiniões: entre os convidados para sessão mediúnica estavam alguns membros da Associação Médico-Espírita de São Paulo, que manifestaram seu descontentamento com aquele tipo de mediunidade, não com relação aos fenômenos em si. Mas houve um mal-estar entre eles, por conta de haver o conhecido espírito do Dr. Fritz se pronunciado de forma viril com um dos membros.

A direção de O Semeador encampou uma proposta de levar a São Paulo o médium e a presidência da Federação endossou a proposta. Enquanto isso, os bastidores da instituição começavam a recolher desagrados de alguns dirigentes, que não viam seus trabalhos aceitos para publicação no jornal, por absoluta falta de sintonia entre os escritos e a nova linguagem assumida pelo veículo. E o presidente Laurito precisou, em mais de uma ocasião, mediar os conflitos.

Quando, finalmente, Edson Queiroz se apresentou em São Paulo, numa dupla programação, uma para atendimentos a pacientes previamente inscritos portadores de moléstias diversas, realizada em caráter privado, e outra, no dia seguinte, para atendimento de alguns pacientes em caráter público e cuja assistência seria formada por pessoas convidadas, O Semeador já havia alcançado uma projeção considerável. Mas a promoção da apresentação do médium seria um divisor de águas e desencadearia o fim do projeto do novo jornal. A explicação vem a seguir.

O fato de um médium de cura apresentar-se na Federação Espírita de São Paulo nas condições propostas constituía algo inédito e fora dos padrões, ocasionando um interesse extraordinário de curiosos, estudiosos e pessoas portadoras de doenças. Logo a notícia se espalhou e despertou o interesse de uma grande quantidade de pessoas, fazendo com que o número de atendimentos solicitados extrapolasse em muito ao acordado com o médium, de modo que fora preciso restringir e relação.

No dia 31 de março de 1983, em sala especialmente preparada, Edson Queiroz realizou o primeiro atendimento. Fritz. Convidamos para acompanhar o evento algumas pessoas que já haviam tido experiências com o espírito cirurgião por meio do médium Zé Arigó, entre estes Jorge Rizzini que havia filmado inúmeras atividades e divulgado mundo afora, portanto, conhecera o espírito de perto. Quando Rizzini entrou na sala com os trabalhos em andamento, o espírito se dirigiu a ele de forma particular, fazendo revelações que levaram Rizzini a afirmar com convicção: “este é, de fato, o mesmo Dr. Fritz que eu conheci anteriormente”. Assistimos a diversas intervenções sem assepsia e anestesia, em ambiente de tranquilidade, com as atividades terminando por volta das onze horas da noite.

No dia seguinte, Edson Queiroz exerceu suas atividades mediúnicas no salão nobre da Federação, diante de um grande público, entre os quais estavam a Dra. Marlene Nobre e o então presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo, Antonio Ferreira Filho, diretores da Federação, médicos, psicólogos e pessoas comuns. Deolindo Amorim, então lutando com uma doença, compareceu acompanhado do então presidente da Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas, Américo de Souza Borges. Haviam apenas dez pessoas selecionadas para atendimento, uma vez que o objetivo do espírito era demonstrar, mais uma vez, as possibilidades do fenômeno de cura nas condições que ele gostava de realizar. A cada intervenção, o espírito explicava para os presentes as particularidades do processo.

Encerradas as atividades, O Semeador saiu imediatamente em edição extra com uma reportagem completa, com fotografias, relatos e opiniões de pacientes e de autoridades presentes. Com grande surpresa para todos, a edição seguinte do jornal Folha Espírita, dirigida pela Dra. Marlene Nobre, trouxe um material com acusações ao espírito do Dr. Fritz e ao médium Edson Queiroz, bem como às intervenções cirúrgicas. Uma dessas acusações dizia que uma das pacientes, operada de um tumor no seio direito, gritava de dor e havia desmaiado durante a intervenção, o que não fora observado por mais ninguém, senão pela Dra. Marlene e pelo Dr. Antônio.

Indignados com a manifestação da Folha Espírita (mais detalhes no artigo sobre Edson Queiroz), lançamos pelo Semeador um editorial com duras críticas ao comportamento dos dois médicos e sua forma equivocada de traduzir para o público o que se passara nas sessões realizadas na Federação de São Paulo.

Por mais duas ocasiões, o assunto voltou à pauta e gerou repercussões fortes, uma vez que a Dra. Marlene e os demais membros da AME-SP prosseguiram com argumentos e acusações descabidas, numa tentativa óbvia de atingir o médium Edson Queiroz, o que de fato acabou acontecendo.

Este fato ocasionou um descontentamento grande na cúpula da Federação. João Batista Laurito não conseguiu contornar as críticas que eram dirigidas ao editor do Semeador e tomou a decisão de destitui-lo do cargo. A forma e o modo como o fez foram inusitados e demonstram como o comportamento que se condena, muitas vezes, na classe política se reproduz, inclusive, nos meios espíritas. Laurito, que convidara a mim pessoalmente para assumir o cargo, desta vez preferiu chamar o Paulo Alves Godoy e recoloca-lo no cargo, dando-lhe, como incumbência, a tarefa de, ele mesmo, Paulo, me comunicar que eu estava fora, incumbência esta que Paulo, sem maiores rodeios, realizou por telefone. Simplesmente, ligou-me e deu-me a notícia.

A carta é omissa quanto ao verdadeiro acontecimento.

A carta é omissa quanto ao verdadeiro acontecimento.

A equipe de profissionais que fora montada para essa nova fase do jornal, ao tomar ciência do fato, encheu-se de indignidade e preparou um manifesto que fez chegar à diretoria da Federação, tudo isso à minha revelia. E a equipe quase toda se demitiu, permanecendo, apenas, os dois profissionais contratados.

A nova fase do jornal durou, portanto, pouco mais de um ano. Alguns dias depois desses acontecimentos, Laurito fez chegar às minhas mãos uma correspondência oficial, por ele assinada, cujo texto é assaz intrigante: agradece, simplesmente, à minha colaboração durante aquele período, de forma que faz parecer que a minha saída fora decidida por mim mesmo, ou seja, de modo político não deixa transparecer a realidade dos fatos, coisa que, há de ser percebida, não corresponde à postura moral altiva que se espera de alguém que assume compromissos de tal ordem, seja de natureza doutrinária, seja de natureza moral.

O Semeador prosseguiu, embora, agora, com menos força e audiência. Ficou a experiência e a infraestrutura mínima, que no passado jamais existira.