Você se pergunta? Também eu

Aos amigos que perguntam por onde e como ando, respondo que entre as brumas raras do mar o a brisa que assopra o continente, na exata interseção dos dois planos da vida.

Estou no consultório em frente ao médico, que me olha com certo espanto. Tem nas mãos o exame cintilográfico que indica uma zona altamente comprometida no meu coração. As imagens são claras e até mesmo um leigo como eu as compreende. O meu cardiologista com sua ampla experiência de tantos anos de medicina tenta me convencer que é apenas um exame, simples assim, mas lá no fundo sei que está apavorado. As imagens são também contundentes e ele, visivelmente, não quer me preocupar. Não quer, mas liga imediatamente para o colega especialista em cateterismo e pede que me receba para um exame, também imediato, exploratório.

Neste instante, ele morre de medo do morrer e eu por dentro sorrio do medo que lhe mata, sem esconder uma leve ironia.

Após brigar com o plano de saúde – este é um capítulo comum da saúde brasileira – o cateter é realizado e mostra uma realidade que médico algum espera, imagine o paciente. Até agora o meu cardiologista está sem entender. A artéria mamária, utilizada na cirurgia de revascularização há vinte e cinco anos atrás, quando eu tinha apenas 42 anos de vida, foi responsável – é o que dizem eles – pela criação de um desvio que supriu a morte de uma das safenas. E dizem mais, que a safena, de vida curta, pois dura não mais que dez anos em média segundo alguns especialistas, havia secado, mas tudo indica que enquanto secava – eles é que afirmam, repito – a mamária construía o desvio e supria o coração do seu elemento fundamental. Não se esqueça que há oito anos vivi o meu último infarto e recebi na ocasião o terceiro estente na outra safena que ainda resiste.

Enquanto estou sob os efeitos da anestesia, a conversa dos dois médicos é com minha esposa. Ela sorri, aliviada, enquanto eles comentam sobre o fato sem esconder a enorme surpresa e finalizam: está melhor do que faria o mais renomado cirurgião. O diretor da área cardiológica do hospital é da mesma opinião. Quando acordo, vejo-os em torno do meu leito, ansiosos para dar-me a notícia. Seis horas depois, já me encontro no taxi, rumo à minha residência, com um único incômodo: o curativo na virilha, por onde o cateter foi introduzido.

Agora, as revelações. Aprendi a conviver com as fragilidades do meu coração desde a cirurgia em 1991. Após o infarto de 2008, o terceiro, tenho passado por experiências curiosas e não as revelei antes para não levar preocupações aos meus familiares. Nos últimos dois ou três anos, acordo durante a noite com a sensação de que o coração vai parar. Imagino, sempre, que minha hora está chegando. Logo após, os sintomas estranhos desaparecem e eu me sinto tão bem que atribuo à minha mente as sensações de há pouco. O acontecimento se repete inúmeras noites, mas cessa de uns tempos para cá, de modo que a cintilografia de rotina que levou pânico ao meu médico foi feita simplesmente para cumprir a obrigação. Quando o médico a analisa, pergunta-me se estou sentindo alguma coisa. Ante minha negativa, repete a pergunta. Insisto: estou bem, não sinto nada. Ele conclui: o paciente está assintomático. Ato seguinte, agiliza as providências e os cuidados que as imagens exigem, relegando a segundo plano o meu nada sentir.

Agora, um detalhe: por mais de uma vez e por mais de um médium desconhecido, sou informado espontaneamente de que estou sendo assistido por espíritos que – dizem – me querem muito bem. Fico feliz, mas não ligo muito para isso, especialmente quando as informações chegam por médiuns videntes. Não confio cegamente nem desconfio ceticamente. Sigo em frente.

Para mim, desculpem a ousadia, nenhuma surpresa diante da estupefação dos médicos. Mesmo porque não acho que exista alguém que possa afirmar que uma artéria mamária é capaz de agir intencional e inteligentemente, e criar caminhos por si mesma. Creio, sim, que inteligências possam conduzi-la por caminhos diferentes. Tudo natural, consequência das intervenções médicas no plano material ou da realidade da vida interexistencial que todos levamos, mas muitos duvidam, até amigos espíritas. Kardec quer que os médicos acreditem na intervenção dos espíritos no mundo material, mas ainda é pouco ouvido. A vida não se faz apenas de matéria, eis a realidade. Há dois planos interagindo, num intercâmbio permanente e não é preciso lembrar que se dois interagem, os dois agem e reagem.

Digo ao meu cardiologista recifense que a vida não pertence à Terra apenas, sem forçar convicções. Ele concorda, mas é católico e não compreende a rede invisível das interações. Diz que Deus é o agente de tudo. E tem razão, não é mesmo?

A cintilografia o apavora e ele tem o cuidado de não me apavorar também. Não sabe que estou pronto. São humanos, ele e o colega, querem me dizer que a vida continua até que a descontinuidade seja irreversível, mas então eu não terei consciência disso, no entender deles.

Agora, sou eu que os consolo. Só que não consigo falar dos seres invisíveis que vivem ao nosso lado diuturnamente, porque isso pode aumentar a preocupação deles, afinal, quem não concebe senão o aspecto racional e objetivo da vida pode se perder em conjecturas angustiantes. Que fazer senão esperar que o tempo lhes dê tempo para bem o tempo fruir, porque na falta de tempo poucos percebem o tempo a fugir (essa paródia dos versos do poeta me dá um upgrade).

Nas minhas reuniões familiares de tantas décadas, os espíritos são uma presença indiscutível. Vejo-os e com eles dialogo. Tem gente – e não são poucas pessoas – que tem medo dos espíritos se manifestarem em suas residências, pensando que podem trazer perturbações e prejuízos à casa e aos familiares. Apesar disso, os espíritos estão lá, invisíveis e ao mesmo tempo perceptíveis. Muitos fingem que não os sentem, temem ver, mas o que farão quando estiverem no lugar deles e sentirem a imensa necessidade de ser correspondidos pelos que aqui ficaram? Penso que o medo dos espíritos seja uma entre as muitas infantilidades do mundo contemporâneo. Infantilidade e ingenuidade aqui se confundem.

Assim nunca foi e nunca tem sido com os amigos que desenvolvem as suas experiências com os espíritos, experiências que, se bem conduzidas, produzem bons resultados e integram as linhas da educação para a vida e a morte. Os espíritos estão em todos os lugares, quer queiramos, quer não. Devemos aprender a conviver com eles, ao invés de temê-los. Eu não lhes peço ajuda, benefícios pessoais, não me movo por interesses particulares quando me relaciono com eles e se por acaso fizeram alguma coisa por meu coração de artérias velhas e fracas, foi por iniciativa própria. Fico-lhes nesta e em todas as outras ocasiões semelhantes imensamente agradecido, mas procuro conduzir tudo na base da naturalidade, isto mesmo, naturalidade das relações afetivas nos planos interativos da vida.

Ocorre que a preocupação com a saúde acontece na interseção dos dois planos da existência, pois os espíritos que na Terra praticaram a medicina com abnegação não abandonam jamais seus compromissos, mesmo depois de partirem para o outro lado. Prosseguem com suas experiências de vida, buscando e descobrindo formas de humanizar a saúde. Os encarnados são, de algum modo, as suas cobaias, no sentido mais humano do termo, mas também os meios das práticas solidárias.

Eu continuo aqui, pronto para o morrer, embora sem saber quando a morte virá. Eles do lado invisível continuam a trabalhar e, creio, despreocupados com o viver e o morrer, atentos apenas às conexões que ligam vivos e mortos. Quem pode compreender isso?

Acordei otimista, a manhã

O forte ficou fraco, o grande, pequeno, e o alto abaixou-se, envergonhado.

Da linha do horizonte mirante, mirei.

Do alto e à distância o varejo desaparece, o verde sobreaquece e a paz, enfim.

Datada manhã, a manhã.

Daqui ninguém tem idade, nenhum corpo se movimenta e, no entanto, tudo segue.

Agora posso descer, devo, obrigo-me.

Dispenso o ar rarefeito, abro meu peito que ainda não tenho.

Sei do futuro que me espera e, num instante, já não saberei mais.

Apresso sem pressa o passo.

O trem apitou.

Acordei apreensivo, ontem

Às cinco e vinte e oito, o sol invadiu meu escritório e eu não compreendi nada. Absorto, a pensar com meus botões, (es)tava.

Coisas de velho, disse intrusa e terna voz.

De luz, dependia, e sol ela não era. Aquece, não esclarece.

Pensava em (ver)dade, na confusa tensão da (banali)dade que mais parece (mal)dade.

Idade, pode ser. Sinto frio, embora ao sol. Os velhos são assim, friorentos.

O momento é banal. Não o marcado pelo relógio. O momento, este hoje que parece de infindável duração.

Estar nele é conviver com o que vem com ele. Mas o que vem e ele conspiram na (des)lealdade. Pura (mal)dade.

Há sol, mas não brisa nem vento. Nenhuma folha lá fora balança.

Sem dúvida, faz frio.

Vou ao jardim regar a (fideli)dade. Ela tem sede…

Acordei triste ontem

A despeito do letreiro do botequim cheio de teia de aranha de minha cidade natal, que dizia: “chegou, pediu/ bebeu, cuspiu/ pagou, saiu/ tropeçou, caiu/ levantou, sumiu”.

Apesar da placa do antigo alfaiate que em 1965 avisava: “fiado só para maiores de 80 anos acompanhados dos pais”, tão boa quanto esta outra, que na quitanda alertava: “fiado só amanhã”.

A despeito e apesar, acordei triste.

O botequim fechou as portas, o querido alfaiate faleceu antes dos 80 e a quitanda foi engolida pelo supermercado.

Triste assim, pela simples razão de constatar que o nosso país varonil dá preferência a mais algumas décadas de moratória à obrigação cívica de construir já a Canaã da justiça, do amor e do bem.

Pelo que me conheço, amanhã meu animus retornará…

RESPOSTA DO ALÉM

Página do livro “Luz no lar”, psicografado por Chico Xavier, de autoria de diversos espíritos. Leia o artigo “A palmatória e a oficina se destinam aos filhos alheios”, para melhor compreensão deste texto.

Minha irmã: valho-me do “correio do outro mundo” para responder à sua carta, cheia da sensibilidade do seu coração de mulher.

Pede-me a senhora o concurso de Espírito desencarnado para a solução de problemas domésticos no setor de educação aos filhinhos que Deus lhe confiou. Conforma-me, sobremaneira, a sua generosidade; entretanto, minha amiga, a opinião dos mortos, esclarecidos na realidade que lhes constitui o novo ambiente, será sempre muito diversa do conceito geral.

A verdade que o túmulo nos fornece renova quase todos os preceitos que nos pautavam as atitudes.

Aí no mundo, entrajados no velho manto das fantasias, raros pais conseguem fugir à cegueira do sangue. De orientadores positivos, que deveríamos ser, passamos à condição de servidores menos dignos dos filhos que a providência nos entrega, por algum tempo, ao carinho e ao cuidado.

Na Europa, trabalhada pelo sofrimento, existem coletividades que já se acautelam contra os perigos da inconsciência na educação infantil entre mimos e caprichos satisfeitos.

Conhecemos, por exemplo, um rifão inglês que recomenda: – “poupa a vara e entrega a criança”. Mas, na América, geralmente, poupamos os defeitos da criança para que o jovem nos deite a vara logo que possa vestir-se sem nós. Naturalmente que os britânicos não são pais desnaturados, nem monstros que atormentem os meninos na calada da noite, mas compreenderam, antes de nós, que o amor, para educar, não prescinde da energia e que a ternura, por mais valiosa, não pode dispensar o esclarecimento.

Dentro do Novo Mundo, e principalmente em nosso País, as crianças são pequeninos e detestáveis senhores do lar que, aos poucos, se transformam em perigosos verdugos.

Enchemo-las de brinquedos inúteis e de carinhos prejudiciais, sem a vigilância necessária, diante do futuro incerto. Lembro-me, admirado, do tempo em que se considerava herói o genitor que roubasse um guizo para satisfazer a impertinência de algum pequerrucho traquina e, muitas vezes, recordo, envergonhado, a veneração sincera com que via certas mães insensatas a se debulharem em pranto pela impossibilidade de adquirir uma grande boneca para a filhinha exigente. A morte, todavia, ensinou-me que tudo isso não passa de loucura do coração.

É necessário despertar a alegria e acender a luz da felicidade em torno das almas que recomeçam a luta humana, em corpos tenros e, muita vez, enfermiços. Fora tirania doméstica subtraí-las ao sol, ao jardim, à Natureza. Seria crime cerrar-lhes o sorriso gracioso, com os ralhos inoportunos, quando os seus olhos ingênuos e confiantes nos pedem compreensão. Entretanto, minha amiga, não cogitamos de proporcionar-lhes a alegria construtiva, nem nos preocupamos com a sua felicidade real. Viciamo-lhas simplesmente.

Começamos a tarefa ingrata, habituando-lhes a boca às piores palavras da gíria e incentivando-lhes as mãos pequenas à agressividade risonha. Horrorizamo-nos quando alguém nos fala em corrigenda e trabalho. A palmatória e a oficina destinam-se aos filhos alheios. Convertemos o lar, santuário edificante que a Majestade Divina nos confia na Terra, em fortaleza odiosa, dentro da qual ensinamos o menosprezo aos vizinhos e a guerra sistemática aos semelhantes. Satisfazendo-lhes os caprichos, dispomo-nos a esmagar afeições sublimes, ferindo nossos melhores amigos e descendo aos fundos abismos do ridículo e da estupidez. Fiéis às suas descabidas exigências, falhamos em setenta por cento de nossas oportunidades de realização espiritual na existência terrestre. Envelhecemo-nos prematuramente, contraímos dolorosas enfermidades da alma e, quase sempre, só reconhecem alguma coisa de nossa renúncia vazia; quando o matrimônio e a família direta os defrontam, no extenso caminho da vida, dilatando-lhes obrigações e trabalhos. Ainda aí, se a piedade não comparece no quadro de suas concepções renovadas, convertem-nos em avós escravos e submissos.

A morte, porém, colhe nossa alma em sua rede infalível para que nos aconselhemos, de novo, com a verdade. Cai-nos a venda dos olhos e observamos que os nossos supostos sacrifícios não representavam senão amargoso engano da personalidade egoística. Nossas longas vigílias e atritos angustiosos eram, apenas, a defesa improfícua de mentiroso sistema de proteção familiar. E humilhados, vencidos tentamos debalde o exercício tardio da correção. Absolutamente desamparados de nossa lealdade e de nossa indesejável ternura, os filhos do nosso amor rolam, vida afora, aprendendo na aspereza do caminho comum. É que, antes de serem os rebentos temporários de nosso sangue, eram companheiros espirituais do campo a vida infinita, e, se voltaram ao internato da reencarnação, é que necessitavam atender ao resgate, junto de nós outros, adquirindo mais luz no entendimento.

Não devíamos cercá-los de mimos inúteis, mas de lições proveitosas, preparando-os, em face das exigências da evolução e do aprimoramento para a vida eterna.

Desse modo, minha amiga, use os seus recursos educativos compatíveis com o temperamento de cada bebê, encaminhando-lhes o passo, desde cedo, na estrada do trabalho e dobem, da verdade e da compreensão, porque as escolas públicas ou particulares instruem a inteligência, mas não se podem responsabilizar pela edificação do sentimento.

Em cada cidade do mundo pode haver um Pestalozzi que coopere na formação do caráter infantil, mas ninguém pode substituir os pais na esfera educativa do coração. Se a senhora, porém, não acreditar em minhas palavras, por serem filhas da realidade indisfarçável e dura, exercite exclusivamente o carinho e espere pela lição do futuro, sem incomodar-se com os meus conselhos, porque eu também, se ainda estivesse envolvido na carne terrestre e se um amigo do “outro mundo” me viesse trazer os avisos que lhe dou, provavelmente não os aceitaria.

Irmão X

De quem falo senão de mim?

 

Depoimento de um crente em órbita geoestacionária no espaço do eu, colhida antes de ser postada nas redes sociais. A foto foi subtraída por um hacker preocupado com os perigos de uma exposição pública. Consegui apenas o texto, que em si mesmo é imagem.

Eu não me dou bem com os extremos, sejam quais forem. Não que não os visite. Ninguém consegue fixar-se em um ponto apenas do espectro sociocultural. E como sou ninguém, costumo viajar do centro para as periferias, mas entre me fixar numa delas e deixar-me levar pelos cantos da sereia vai uma distância enorme.

Sou maleável, mas não volúvel. Reconheço que os valores da virtude podem estar no lodaçal das disputas ou na mansidão de um oceano de águas esverdeadas. Deixo-me levar apenas pelas mãos do acaso, faço-me leve para o sopro da inspiração, mas quando estou no destino improvável não há quem de fato consiga me reter ali. Da mesma forma que chego sem ter planejado, saio sem despertar atenção.

Nasci assim, vivi e continuo a viver assim. Em todas as estações por que passei e desci, fiz o jogo da convicção e confiei nos acenos do destino. Demorei-me um tempo maior que desejava e menor do que esperavam. Decepcionei alguns por isso, surpreendi outros e sei que o mistério ainda toma conta de uns poucos, que não compreenderam minhas partidas. Talvez porque procurassem a lógica que os sentimentos incomunicáveis escondem. Procuram onde não estou, estou onde não procuram.

Fui hóspede das oportunidades atraído pelo chamado de uma voz amorosa. Demorei-me quase nada em cada canto do prazer e das conquistas. Tive medo, sempre, de ficar e não mais sair. Construí esse destino sem perceber que a rota verdadeira jamais conheci por antecipação. Acostumei-me ao imprevisto e de nada me arrependo. Foi melhor assim, pois reconheço minha incapacidade crônica de fazer previsões corretas.

A experiência ensinou-me a seguir a voz desconhecida e audível apenas nos vãos que se formam entre as sinapses cerebrais. Por compromisso com Descartes, analiso e reflito para decidir. Em decorrência das experiências bem-sucedidas, também decido para depois refletir. Há momentos que não comportam delongas, gostava de dizer um velho tipógrafo de minha terra.

As decisões, refletidas ou não, podem trazer arrependimentos e este sempre foi o risco que preferi seguir. Em expectativa, mas tranquilo, dei as mãos ao invisível e vi luzes brilhantes depois das curvas. Quando já não precisei desconfiar do destino, percebi que a confiança exagerada ameaçava tomar conta de mim, e então refleti, porque não era honesto entregar-me totalmente ao desconhecido. Toda decisão leva a resultados e todo resultado deve constituir razão para as próximas decisões. Os momentos infelizes não se me tornaram martírios permanentes porque me ensinaram a rever para as futuras decisões.

Como disse, não sou extremista, não tenho personalidade para isso.

Sou a chama que eu mesmo acendo, carretel que eu mesmo enrolo e o automóvel que eu mesmo dirijo. Parto e retorno. Se chego cansado, tomo fôlego. Quando o desânimo me alcança torno-me calmo. Sei que desaparecerá como chegou.

Ah, sou aquela partícula que estava e já não está mais, tão-somente porque seus olhos a procuravam.

Vivo a expectativa da partida e a esperança da chegada. O meu tempo não é espaço, é movimento.

Voilà!

De calma e de dor

 

Quem me acompanha já conhece o Sérgio e talvez esteja se perguntando por onde anda ele. Eu mesmo me fiz essa pergunta nos últimos meses. Imaginei que tivesse desistido das pendengas comigo, mas fui alcançado por uma preocupação: estará ele doente?

Então liguei.

Saí da rotina. Ele é quem sempre liga, mesmo que para atormentar-me com suas evasivas teorias do nada.

O sinal foi aquele: este aparelho está fora de área.

Desisti depois de algumas tentativas. Ele não. Quando ouvi o som do celular, era ele. Incrível, parecia que na foto dele sisudo havia um riso meio de canto de boca, irônico.

– Ha ha! Não aguentou muito tempo, não é?

Tive ímpetos de dizer: – seu canalha, mas contive-me. Resolvi dar o troco com mais ironia ainda.

– Está enganado. Completamente. Queria ligar para o meu cunhado em Manaus, que malgrado o sol também se chama Sérgio, mas liguei errado. Bom dia e até outra hora.

E desliguei.

Ele não se deu por rogado. Ligou novamente. E foi dizendo:

– Tá bom, não vou discutir essa sua desculpa gloriosamente inútil. O seu orgulho nem com mil supostas reencarnações vai ser consertado.

E desancou a falar.

– Você viu, aquele seu amigo lá da Saúde caiu feio. Parecia até bom moço, simpático, mas não aguentou.

E lá veio com sua pergunta maldosa.

– Por que os tais espíritos que vocês tanto admiram não avisaram a ele que a cama estava feita, que seria uma fria ele ir para lá?

Ponderar com Sérgio é inútil. Mas ponderei:

– E por que haveriam de avisar? Você por muito menos já me deixou sozinho inúmeras vezes…

– Uai, eles não sabem tudo? – falou com a mesma ironia.

– Não – respondi e acrescentei: quem sabe tudo é você.

– Agora você vai me agredir, é isto? – gaguejou.

– Olha aqui, se você quer discutir coisas do espírito faça o favor de ler aquele exemplar que lhe dei há muitos anos. Aquele que continua fechado e cheio de poeira na sua estante.

Houve um breve silêncio. Até pensei que Sérgio ia desligar. Se o fizesse não seria o Sérgio.

– Ora, ora, então você está irritado – retornou ele.

Dei uma gargalhada imensa e vi que ele se desconcertou. Então, finalizei:

– Vou resumir pela enésima vez. Os espíritos são como os amigos: se bons, respeitam-nos em nossas decisões, sem abandonar o desejo de sermos felizes em nossos projetos e as oportunidades de nos abraçarem. Se maus, querem que decidamos segundo sua vontade e nos abandonam quando não lhes damos atenção. Em qual das duas categorias você se coloca?

Sem demora, disse ele:

– Na primeira. E tenho dito.

Desligou.

Do filho, do pai e do…

 

Entrei na sala e fui logo questionado:

­– Por que o filho não continuou espírita?

– Não sei, respondi.

O mesmo questionamento me fiz por muito tempo, até desistir de compreender. Afinal, muitos filhos de muitos outros também não continuaram.

Há uma certa frustração no ar por isso, especialmente quando o filho se torna personalidade pública de destaque. Se continuasse, teríamos (?) um proeminente companheiro a ajudar a vencer as barreiras do conhecimento e dos preconceitos na sociedade. Sem dizer que estaríamos em boa companhia.

Filho de peixe peixinho é. Tudo bem, mas uns nadam em mar aberto, outros em riachos. Há até os que preferem as águas lodosas das cavernas mal iluminadas, em cujos habitats a vida ainda desafia a ciência.

– O pai foi maior que o filho? – questionei ao meu inesperado interlocutor.

– Evidentemente – respondeu de imediato.

Tenho cá minhas dúvidas, pensei. Não que eu não mantenha admiração pelo pai com a mesma intensidade da convivência que tivemos. Que sei eu do filho? Nada relevante para um julgamento justo, conclusivo.

Vejo-o quase diariamente pela tela, ouço-o e leio o que escreve. Minha distância do homem, porém, é abissal. Sei onde mora, como vive, conheço muitos de seus amigos e parceiros. O que não diminui em nada essa distância. A tela ilude, a voz engana, o texto trai. E os amigos, bem, os amigos só quem os tem sabe o que valem.

– Só porque era espírita? – perguntei com discreta ironia.

– Sim e não – respondeu, sem demonstrar segurança.

Dois observadores próximos sorriram. Um terceiro se aproximou, com ares de curiosidade. Fiz menção de seguir adiante, encerrando o diálogo. Mas resolvi perguntar ainda.

– Se o filho se declarasse espírita, seria maior que o pai? E o pai seria maior do que foi?

Ele não respondeu. Então, segui à frente e apresentei meus apontamentos para uma plateia em expectativa. Afinal, meu foco era o pai. Humano e por isso mesmo admirável.

Meus sonhos me assustam… e não!

 

Quando um sonho me assusta, quer saber, não me vergo. Se abandono um sonho – e abandono constantemente – substituo por outros.

Sonho muito pela manhã, ao acordar, mas muito pouco ao meio-dia, após o almoço, pois o alimento entorpece o imaginário. Sem ele não há sonhos.

Vivo dos sonhos, nos sonhos, pelos sonhos. Quando desejam me matar, matam primeiro meus sonhos. O que não sabem, ou sabem e fingem que não, é que os sonhos também se refazem quando abruptamente seccionados.

Os sonhos matinais são os melhores, porque motivam meus passos, menos aqueles do banho, que são libidinosos.

Imagino que todos saibam que os sonhos e o imaginário se confundem em quantidade e velocidade. Talvez por isso seja tão difícil separar o que é imaginação do que é sonho. Eu pelo menos não consigo.

Se me pego sonhando com poder e glória, me imagino o mais justo e ético dos seres, capaz de construir o mundo dos sonhos de todos que são do bem. Se me pego a analisar o sonho desfeito do homem frágil de boas intenções, tenho certeza de que não farei jamais como ele.

Saber-se forte é um sonho irrealizado.

O sonho concretizado é fonte de prazer. Sinto-me feliz e disposto a sonhar mais e mais. A realização do sonho é o sonho do sonho e o prazer que se sente é sonho de mais prazer.

Já o sonho malogrado me embrutece e faz meus demônios interiores aflorarem. Nesse momento me torno assassino potencial dos sonhos de todos os que sonham, porque surge em mim essa sanha incontrolável de dominar egoisticamente a fonte da vera felicidade.

Em primeiro lugar meus sonhos. Depois… os outros!

Mas como disse os sonhos matinais são os melhores. Primeiro, porque desfazem alguns sonhos noturnos assustadores. Depois porque são floridos e risonhos. Me deixam contente e o contentamento é sonho de que tudo pode ser imaginado.

O poder da imaginação é sonho.

Sonho de manhã também para esquecer os sonhos noturnos e aqueles do dia anterior que apenas imaginei e julguei serem sonhos. Bem como os sonhos que foram destruídos pelo sopro da realidade, essa inimiga natural dos sonhos.

Os sonhos que são sonhos têm o poder da renovação.

Dias atrás, era um sábado, acordei seco. Sem lembranças e sonhos. Desci até à Jaqueira, sentei-me solitário e vi, como num sonho, o verde fecundo da relva reproduzindo sonhos de crescimento.

Levantei-me e caminhei, porque andar é imaginar e sonhar e viver.

Crônica da imortalidade

 

Se a vida não fosse finita o  mundo terminaria rapidamente em caos.

A certeza da morte e ela própria colocam freio nas loucuras da vida. A imortalidade não tem a mínima possibilidade. A morte põe termo ao vazio, à ignorância que se acumula pelo envelhecimento físico, à incapacidade de acompanhar o progresso e às novas tecnologias e às exigências de um mundo que não permite estagnar.

Fôssemos imortais estacionaríamos, inevitavelmente. Talvez regredíssemos ante o desespero da incapacidade de acompanhar a onda da criação permanente. Leia mais.