Categoria: Cotidiano

Betsy, Betsy, por que te abandonaste?

Na década de 1980, tive um amigo que adquiriu a esclerose lateral amiotrófica. Aos 37 anos. Rapidamente, perdeu os movimentos e pouco mais de um ano depois morreu. Era pai de duas crianças, alegre, de convivência fácil. Quando a doença surgiu agressiva e o levou a afastar-se das atividades profissionais, ninguém ousava falar no assunto, senão em conversas de canto de sala. A rapidez com que progrediu e a morte também rápida deixou no ar um certo mistério, pois alguns alimentavam preconceitos contra doenças dessa ordem e preferiam o silêncio.

Agora vem o caso de Betsy. Estou diante de dois olhares diferentes a me encararem, questionando-me. O primeiro, nem tanto, uma vez que Carlos Augusto tem opinião definida como niilista que é. Seu questionamento é mais o desafio que me lança sobre a tal da imortalidade que defendo. É como se me perguntasse: – e aí o que você tem a dizer agora? Já o olhar de Orlando é o da dúvida, ou melhor, das muitas dúvidas que alimenta sobre a atitude de Betsy e o desfecho espiritual gerado por sua decisão de praticar a eutanásia e abreviar o sofrimento causado pela doença. É como se Orlando me perguntasse: – se eu tomar essa atitude, o que será de mim como ser imortal que sou? (mais…)

Os guardiães dos apriscos do templo

Federação Espírita de Goiás: orador chega para fazer palestra e encontra as portas fechadas. Indignados, promotores do evento recorrem a outra instituição para manter o programa. Fatos revelam covardia, desrespeito e tudo o mais que a boa moral condena.

A fraqueza humana é capaz de conduzir o indivíduo às mais desprezíveis ações. Debalde o homem desse jaez lutará para mostrar-se digno da moral espírita, porque não conseguirá superar as próprias imperfeições enquanto não se oferecer à práxis cotidiana com a coragem dos estoicos. O homem fraco e desprezível, envolto pela embalagem do espiritismo e no comando das atividades espíritas, poderá ser luzidia e colorida imagem, mas nunca será um verdadeiro homem de bem.

Minha indignação provém da minha incapacidade de assistir aos atos indignos praticados por seres humanos, com acento ainda mais agudo quando esses homens coexistem no mesmo meio doutrinário no qual me coloco. Admiravelmente, o invejável Leon Denis afirma que a tudo podemos suportar desde que não sejam ultrapassados os limites da dignidade humana. A dignidade é o pórtico humano do inatacável, a muralha inexpugnável do direito e da vida. Ao contrário da realidade constatada por Herculano Pires na frase que dá título a este artigo. Sim, o inesquecível amigo não fala, na frase, de um passado que o espiritismo ajuda a superar, mas de uma realidade que se mostra exatamente no contexto social de hoje, onde muitos espíritas operam e farisaicamente sorriem. (mais…)

Alguns médiuns se traem muito cedo, outros levam mais tempo. Poucos resistem até o fim

 

A pergunta é: por que certas pessoas fazem afirmações tão estranhas e contraditórias como essa ao lado publicada recentemente no Facebook? O que pretendem com isso? Qual é o grau de comprometimento efetivo delas para com o espiritismo? Trata-se de um deslize momentâneo ou de uma terrível necessidade de se mostrar livre e independente, instruído e capaz de promover mudanças numa doutrina tão extraordinária como a espírita?

Não, ninguém está amordaçado nem impedido de expressar suas opiniões sobre a doutrina, sejam quais sejam. Absolutamente. Faça-o, porém, com seriedade e demonstre por a+b onde e quando a doutrina está equivocada, envelhecida, ultrapassada. Depois, assine embaixo e coloque-se no campo dos conflitos, onde o contraditório necessariamente surgirá.

Não jogue com o espiritismo, não seja uma criança diante do desconhecido, não queira parecer moderninho, nem ser mais do que é, respeite a inteligência das pessoas. Acusar a doutrina de chata e velha é reação da mais absoluta infantilidade de alguém que anda à caça de sucesso barato. Só isso para compreender um ato tão leviano. (mais…)

Uma obra social digna

Aqui em Recife, várias obras sociais criadas e dirigidas por espíritas são realmente dignas de admiração. Tenho particular afeição pelo Lar Paulo de Tarso, localizado no Bairro do Ipsep. É uma casa simples com capacidade de abrigar até 15 crianças, que ali chegam por meio de um convênio com o Juizado da Infância e Juventude. A direção e manutenção do Lar tem na sua liderança o casal Glauce e Gezsler, dois amigos do coração, incansáveis, dedicados e afetuosos.

O Lar é uma casa de passagem, onde crianças em situação de risco são abrigadas e preparadas para o retorno ao lar de origem ou são entregues para adoção, razão pela qual não permanecem longos períodos no local, a não ser em situações excepcionais. O trabalho de preparação dessas crianças movimenta uma rede considerável de pessoas e profissionais e possui como fundamento de orientação o alicerce da doutrina espírita.

Para os interessados em conhecer melhor o trabalho dessa digna instituição de caráter assistencial, aqui vai o link da apostila recém-publicada, intitulada “Lar Paulo de Tarso, um oásis de esperança” 

Você se pergunta? Também eu

Aos amigos que perguntam por onde e como ando, respondo que entre as brumas raras do mar o a brisa que assopra o continente, na exata interseção dos dois planos da vida.

Estou no consultório em frente ao médico, que me olha com certo espanto. Tem nas mãos o exame cintilográfico que indica uma zona altamente comprometida no meu coração. As imagens são claras e até mesmo um leigo como eu as compreende. O meu cardiologista com sua ampla experiência de tantos anos de medicina tenta me convencer que é apenas um exame, simples assim, mas lá no fundo sei que está apavorado. As imagens são também contundentes e ele, visivelmente, não quer me preocupar. Não quer, mas liga imediatamente para o colega especialista em cateterismo e pede que me receba para um exame, também imediato, exploratório.

Neste instante, ele morre de medo do morrer e eu por dentro sorrio do medo que lhe mata, sem esconder uma leve ironia.

Após brigar com o plano de saúde – este é um capítulo comum da saúde brasileira – o cateter é realizado e mostra uma realidade que médico algum espera, imagine o paciente. Até agora o meu cardiologista está sem entender. A artéria mamária, utilizada na cirurgia de revascularização há vinte e cinco anos atrás, quando eu tinha apenas 42 anos de vida, foi responsável – é o que dizem eles – pela criação de um desvio que supriu a morte de uma das safenas. E dizem mais, que a safena, de vida curta, pois dura não mais que dez anos em média segundo alguns especialistas, havia secado, mas tudo indica que enquanto secava – eles é que afirmam, repito – a mamária construía o desvio e supria o coração do seu elemento fundamental. Não se esqueça que há oito anos vivi o meu último infarto e recebi na ocasião o terceiro estente na outra safena que ainda resiste.

Enquanto estou sob os efeitos da anestesia, a conversa dos dois médicos é com minha esposa. Ela sorri, aliviada, enquanto eles comentam sobre o fato sem esconder a enorme surpresa e finalizam: está melhor do que faria o mais renomado cirurgião. O diretor da área cardiológica do hospital é da mesma opinião. Quando acordo, vejo-os em torno do meu leito, ansiosos para dar-me a notícia. Seis horas depois, já me encontro no taxi, rumo à minha residência, com um único incômodo: o curativo na virilha, por onde o cateter foi introduzido.

Agora, as revelações. Aprendi a conviver com as fragilidades do meu coração desde a cirurgia em 1991. Após o infarto de 2008, o terceiro, tenho passado por experiências curiosas e não as revelei antes para não levar preocupações aos meus familiares. Nos últimos dois ou três anos, acordo durante a noite com a sensação de que o coração vai parar. Imagino, sempre, que minha hora está chegando. Logo após, os sintomas estranhos desaparecem e eu me sinto tão bem que atribuo à minha mente as sensações de há pouco. O acontecimento se repete inúmeras noites, mas cessa de uns tempos para cá, de modo que a cintilografia de rotina que levou pânico ao meu médico foi feita simplesmente para cumprir a obrigação. Quando o médico a analisa, pergunta-me se estou sentindo alguma coisa. Ante minha negativa, repete a pergunta. Insisto: estou bem, não sinto nada. Ele conclui: o paciente está assintomático. Ato seguinte, agiliza as providências e os cuidados que as imagens exigem, relegando a segundo plano o meu nada sentir.

Agora, um detalhe: por mais de uma vez e por mais de um médium desconhecido, sou informado espontaneamente de que estou sendo assistido por espíritos que – dizem – me querem muito bem. Fico feliz, mas não ligo muito para isso, especialmente quando as informações chegam por médiuns videntes. Não confio cegamente nem desconfio ceticamente. Sigo em frente.

Para mim, desculpem a ousadia, nenhuma surpresa diante da estupefação dos médicos. Mesmo porque não acho que exista alguém que possa afirmar que uma artéria mamária é capaz de agir intencional e inteligentemente, e criar caminhos por si mesma. Creio, sim, que inteligências possam conduzi-la por caminhos diferentes. Tudo natural, consequência das intervenções médicas no plano material ou da realidade da vida interexistencial que todos levamos, mas muitos duvidam, até amigos espíritas. Kardec quer que os médicos acreditem na intervenção dos espíritos no mundo material, mas ainda é pouco ouvido. A vida não se faz apenas de matéria, eis a realidade. Há dois planos interagindo, num intercâmbio permanente e não é preciso lembrar que se dois interagem, os dois agem e reagem.

Digo ao meu cardiologista recifense que a vida não pertence à Terra apenas, sem forçar convicções. Ele concorda, mas é católico e não compreende a rede invisível das interações. Diz que Deus é o agente de tudo. E tem razão, não é mesmo?

A cintilografia o apavora e ele tem o cuidado de não me apavorar também. Não sabe que estou pronto. São humanos, ele e o colega, querem me dizer que a vida continua até que a descontinuidade seja irreversível, mas então eu não terei consciência disso, no entender deles.

Agora, sou eu que os consolo. Só que não consigo falar dos seres invisíveis que vivem ao nosso lado diuturnamente, porque isso pode aumentar a preocupação deles, afinal, quem não concebe senão o aspecto racional e objetivo da vida pode se perder em conjecturas angustiantes. Que fazer senão esperar que o tempo lhes dê tempo para bem o tempo fruir, porque na falta de tempo poucos percebem o tempo a fugir (essa paródia dos versos do poeta me dá um upgrade).

Nas minhas reuniões familiares de tantas décadas, os espíritos são uma presença indiscutível. Vejo-os e com eles dialogo. Tem gente – e não são poucas pessoas – que tem medo dos espíritos se manifestarem em suas residências, pensando que podem trazer perturbações e prejuízos à casa e aos familiares. Apesar disso, os espíritos estão lá, invisíveis e ao mesmo tempo perceptíveis. Muitos fingem que não os sentem, temem ver, mas o que farão quando estiverem no lugar deles e sentirem a imensa necessidade de ser correspondidos pelos que aqui ficaram? Penso que o medo dos espíritos seja uma entre as muitas infantilidades do mundo contemporâneo. Infantilidade e ingenuidade aqui se confundem.

Assim nunca foi e nunca tem sido com os amigos que desenvolvem as suas experiências com os espíritos, experiências que, se bem conduzidas, produzem bons resultados e integram as linhas da educação para a vida e a morte. Os espíritos estão em todos os lugares, quer queiramos, quer não. Devemos aprender a conviver com eles, ao invés de temê-los. Eu não lhes peço ajuda, benefícios pessoais, não me movo por interesses particulares quando me relaciono com eles e se por acaso fizeram alguma coisa por meu coração de artérias velhas e fracas, foi por iniciativa própria. Fico-lhes nesta e em todas as outras ocasiões semelhantes imensamente agradecido, mas procuro conduzir tudo na base da naturalidade, isto mesmo, naturalidade das relações afetivas nos planos interativos da vida.

Ocorre que a preocupação com a saúde acontece na interseção dos dois planos da existência, pois os espíritos que na Terra praticaram a medicina com abnegação não abandonam jamais seus compromissos, mesmo depois de partirem para o outro lado. Prosseguem com suas experiências de vida, buscando e descobrindo formas de humanizar a saúde. Os encarnados são, de algum modo, as suas cobaias, no sentido mais humano do termo, mas também os meios das práticas solidárias.

Eu continuo aqui, pronto para o morrer, embora sem saber quando a morte virá. Eles do lado invisível continuam a trabalhar e, creio, despreocupados com o viver e o morrer, atentos apenas às conexões que ligam vivos e mortos. Quem pode compreender isso?

Convictos ou Fanáticos?

Tenho o prazer de reproduzir aqui o texto publicado ontem, 19 de maio de 2016, pelo meu amigo Geo, seja pela qualidade do discurso, seja pela pertinência e atualidade. WG


Por Gezsler Carlos West, Recife, PE


Gezsler recorteOlhando o antigo trilho do trem de chegada dos prisioneiros, atravessei o portão de ferro onde estava escrita a histórica frase“Arbeit macht frei” (O trabalho liberta). Era um momento de reflexão, pois eu entrava no primeiro campo de concentração nazista denominado “Dachau”, que serviu de modelo na segunda guerra mundial, localizado perto da cidade de Munique na Alemanha.

Passaram por Dachau aproximadamente duzentas mil pessoas: negros, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, testemunhas de Jeová, comunistas, judeus etc. Todos aqueles que na ótica do nazismo prejudicariam a superioridade de uma raça.

Caminhei pelos pavilhões, vi os apertados dormitórios, os sanitários coletivos, onde vários homens e mulheres utilizavam ao mesmo tempo e sem qualquer divisória. Emocionei-me quando entrei na traiçoeira câmara de gás, em que as pessoas pensavam que teriam água no chuveiro. Observei as fornalhas do crematório. Era quase inacreditável admitir que tudo aquilo tinha acontecido.

Por que, perguntei a mim mesmo, há apenas 80 anos o povo deste atual país de excelente qualidade de vida, permitiu-se em sua maioria se fanatizar por uma proposta tão absurda? Por que seguiu lideranças que afirmavam que purificar a raça humana seria colaborar com Deus? Por que criou ídolos de barro? Por que se desumanizou a este ponto?

Ninguém se torna fanático da noite para o dia. Começa devagarzinho, alicerçado em lacunas no caráter, que ao serem alimentadas pelo orgulho, vão anestesiando o nosso discernimento. O orgulho é o inverso da humildade. Esta última quem tem pensa que não tem, e quem pensa que tem, não tem.

Se nos perguntarem se somos fanáticos, talvez até nos sintamos ofendidos, e salvo raras exceções, afirmaremos que não. O fanático ou quem está a caminho de se tornar, dificilmente percebe o seu estado, pois já foi ou está sendo absorvido pela ausência de autocrítica, quando imprudentemente descartou um sábio ensinamento do passado: “conhece-te a ti mesmo”.

Algumas perguntas reflexivas poderão nos ajudar pelos campos da vida, sejam em ambiências políticas, religiosas ou diversas:

– Escutamos com respeito o contraditório ou apenas queremos convencer o interlocutor colocando-o na condição de aprendiz?

– Acessamos livros, revistas, jornais, programas, blogs etc. de quem pensa diferente, enriquecendo-nos na diversidade, ou optamos por amaldiçoar o diferente criando um novo “índex” e, quando o acessamos, o único objetivo é detectar falhas para alimentar os nossos argumentos?

– Estamos sendo honestos intelectualmente com a verdade dos fatos ou usamos critérios diferenciados para episódios semelhantes?

– Invertemos os papéis, mas mantendo os mesmos fatos, para verificar se as nossas conclusões continuariam as mesmas ou a dureza do nosso discurso só serve para os que pensam diferente?

– Quando recebemos informações sobre os nossos contraditores, analisamos a veracidade e a pertinência em divulgá-las ou compartilhamos sem qualquer preocupação ética?

– Dialogamos de forma civilizada ou nos desequilibramos saindo do campo das ideias para adjetivar os seus autores?

– Relembramos de anteriores mudanças de posições pessoais, que no passado tínhamos como pétreas, ou nos colocamos na imutabilidade divina?

É na abertura para a análise equilibrada do contraditório, do diferente, que geralmente encontraremos o incentivo à inovação e ao arejamento das nossas ideias, às vezes já empoeiradas pelos limites do nosso “status quo”. Tenhamos uma janela aberta para novos ares, para o futuro, para a vida. Não sejamos os modernos algozes de Galileu.

Atuemos na sociedade de forma cidadã, democrática, pacífica e sem nunca esquecer o alerta do saudoso Nazareno: orar e vigiar.

A consciência é a nossa juíza. Perguntemos para ela: somos convictos ou fanáticos?

Acordei otimista, a manhã

O forte ficou fraco, o grande, pequeno, e o alto abaixou-se, envergonhado.

Da linha do horizonte mirante, mirei.

Do alto e à distância o varejo desaparece, o verde sobreaquece e a paz, enfim.

Datada manhã, a manhã.

Daqui ninguém tem idade, nenhum corpo se movimenta e, no entanto, tudo segue.

Agora posso descer, devo, obrigo-me.

Dispenso o ar rarefeito, abro meu peito que ainda não tenho.

Sei do futuro que me espera e, num instante, já não saberei mais.

Apresso sem pressa o passo.

O trem apitou.

Acordei apreensivo, ontem

Às cinco e vinte e oito, o sol invadiu meu escritório e eu não compreendi nada. Absorto, a pensar com meus botões, (es)tava.

Coisas de velho, disse intrusa e terna voz.

De luz, dependia, e sol ela não era. Aquece, não esclarece.

Pensava em (ver)dade, na confusa tensão da (banali)dade que mais parece (mal)dade.

Idade, pode ser. Sinto frio, embora ao sol. Os velhos são assim, friorentos.

O momento é banal. Não o marcado pelo relógio. O momento, este hoje que parece de infindável duração.

Estar nele é conviver com o que vem com ele. Mas o que vem e ele conspiram na (des)lealdade. Pura (mal)dade.

Há sol, mas não brisa nem vento. Nenhuma folha lá fora balança.

Sem dúvida, faz frio.

Vou ao jardim regar a (fideli)dade. Ela tem sede…

Acordei triste ontem

A despeito do letreiro do botequim cheio de teia de aranha de minha cidade natal, que dizia: “chegou, pediu/ bebeu, cuspiu/ pagou, saiu/ tropeçou, caiu/ levantou, sumiu”.

Apesar da placa do antigo alfaiate que em 1965 avisava: “fiado só para maiores de 80 anos acompanhados dos pais”, tão boa quanto esta outra, que na quitanda alertava: “fiado só amanhã”.

A despeito e apesar, acordei triste.

O botequim fechou as portas, o querido alfaiate faleceu antes dos 80 e a quitanda foi engolida pelo supermercado.

Triste assim, pela simples razão de constatar que o nosso país varonil dá preferência a mais algumas décadas de moratória à obrigação cívica de construir já a Canaã da justiça, do amor e do bem.

Pelo que me conheço, amanhã meu animus retornará…

RESPOSTA DO ALÉM

Página do livro “Luz no lar”, psicografado por Chico Xavier, de autoria de diversos espíritos. Leia o artigo “A palmatória e a oficina se destinam aos filhos alheios”, para melhor compreensão deste texto.

Minha irmã: valho-me do “correio do outro mundo” para responder à sua carta, cheia da sensibilidade do seu coração de mulher.

Pede-me a senhora o concurso de Espírito desencarnado para a solução de problemas domésticos no setor de educação aos filhinhos que Deus lhe confiou. Conforma-me, sobremaneira, a sua generosidade; entretanto, minha amiga, a opinião dos mortos, esclarecidos na realidade que lhes constitui o novo ambiente, será sempre muito diversa do conceito geral.

A verdade que o túmulo nos fornece renova quase todos os preceitos que nos pautavam as atitudes.

Aí no mundo, entrajados no velho manto das fantasias, raros pais conseguem fugir à cegueira do sangue. De orientadores positivos, que deveríamos ser, passamos à condição de servidores menos dignos dos filhos que a providência nos entrega, por algum tempo, ao carinho e ao cuidado.

Na Europa, trabalhada pelo sofrimento, existem coletividades que já se acautelam contra os perigos da inconsciência na educação infantil entre mimos e caprichos satisfeitos.

Conhecemos, por exemplo, um rifão inglês que recomenda: – “poupa a vara e entrega a criança”. Mas, na América, geralmente, poupamos os defeitos da criança para que o jovem nos deite a vara logo que possa vestir-se sem nós. Naturalmente que os britânicos não são pais desnaturados, nem monstros que atormentem os meninos na calada da noite, mas compreenderam, antes de nós, que o amor, para educar, não prescinde da energia e que a ternura, por mais valiosa, não pode dispensar o esclarecimento.

Dentro do Novo Mundo, e principalmente em nosso País, as crianças são pequeninos e detestáveis senhores do lar que, aos poucos, se transformam em perigosos verdugos.

Enchemo-las de brinquedos inúteis e de carinhos prejudiciais, sem a vigilância necessária, diante do futuro incerto. Lembro-me, admirado, do tempo em que se considerava herói o genitor que roubasse um guizo para satisfazer a impertinência de algum pequerrucho traquina e, muitas vezes, recordo, envergonhado, a veneração sincera com que via certas mães insensatas a se debulharem em pranto pela impossibilidade de adquirir uma grande boneca para a filhinha exigente. A morte, todavia, ensinou-me que tudo isso não passa de loucura do coração.

É necessário despertar a alegria e acender a luz da felicidade em torno das almas que recomeçam a luta humana, em corpos tenros e, muita vez, enfermiços. Fora tirania doméstica subtraí-las ao sol, ao jardim, à Natureza. Seria crime cerrar-lhes o sorriso gracioso, com os ralhos inoportunos, quando os seus olhos ingênuos e confiantes nos pedem compreensão. Entretanto, minha amiga, não cogitamos de proporcionar-lhes a alegria construtiva, nem nos preocupamos com a sua felicidade real. Viciamo-lhas simplesmente.

Começamos a tarefa ingrata, habituando-lhes a boca às piores palavras da gíria e incentivando-lhes as mãos pequenas à agressividade risonha. Horrorizamo-nos quando alguém nos fala em corrigenda e trabalho. A palmatória e a oficina destinam-se aos filhos alheios. Convertemos o lar, santuário edificante que a Majestade Divina nos confia na Terra, em fortaleza odiosa, dentro da qual ensinamos o menosprezo aos vizinhos e a guerra sistemática aos semelhantes. Satisfazendo-lhes os caprichos, dispomo-nos a esmagar afeições sublimes, ferindo nossos melhores amigos e descendo aos fundos abismos do ridículo e da estupidez. Fiéis às suas descabidas exigências, falhamos em setenta por cento de nossas oportunidades de realização espiritual na existência terrestre. Envelhecemo-nos prematuramente, contraímos dolorosas enfermidades da alma e, quase sempre, só reconhecem alguma coisa de nossa renúncia vazia; quando o matrimônio e a família direta os defrontam, no extenso caminho da vida, dilatando-lhes obrigações e trabalhos. Ainda aí, se a piedade não comparece no quadro de suas concepções renovadas, convertem-nos em avós escravos e submissos.

A morte, porém, colhe nossa alma em sua rede infalível para que nos aconselhemos, de novo, com a verdade. Cai-nos a venda dos olhos e observamos que os nossos supostos sacrifícios não representavam senão amargoso engano da personalidade egoística. Nossas longas vigílias e atritos angustiosos eram, apenas, a defesa improfícua de mentiroso sistema de proteção familiar. E humilhados, vencidos tentamos debalde o exercício tardio da correção. Absolutamente desamparados de nossa lealdade e de nossa indesejável ternura, os filhos do nosso amor rolam, vida afora, aprendendo na aspereza do caminho comum. É que, antes de serem os rebentos temporários de nosso sangue, eram companheiros espirituais do campo a vida infinita, e, se voltaram ao internato da reencarnação, é que necessitavam atender ao resgate, junto de nós outros, adquirindo mais luz no entendimento.

Não devíamos cercá-los de mimos inúteis, mas de lições proveitosas, preparando-os, em face das exigências da evolução e do aprimoramento para a vida eterna.

Desse modo, minha amiga, use os seus recursos educativos compatíveis com o temperamento de cada bebê, encaminhando-lhes o passo, desde cedo, na estrada do trabalho e dobem, da verdade e da compreensão, porque as escolas públicas ou particulares instruem a inteligência, mas não se podem responsabilizar pela edificação do sentimento.

Em cada cidade do mundo pode haver um Pestalozzi que coopere na formação do caráter infantil, mas ninguém pode substituir os pais na esfera educativa do coração. Se a senhora, porém, não acreditar em minhas palavras, por serem filhas da realidade indisfarçável e dura, exercite exclusivamente o carinho e espere pela lição do futuro, sem incomodar-se com os meus conselhos, porque eu também, se ainda estivesse envolvido na carne terrestre e se um amigo do “outro mundo” me viesse trazer os avisos que lhe dou, provavelmente não os aceitaria.

Irmão X