Categoria: Comunicação-Cultura

Sonho, utopia, realidade. As colônias espirituais em destaque

RESENHA

Crer por crer é desperdício. Não crer por não crer é estultice. Mas crer por saber é inteligente. Quando surgiu a primeira edição do livro Nosso lar, psicografia do Chico Xavier e autoria de André Luiz, fez-se um grande alvoroço no Brasil. A crítica marcou a obra como pura ficção, os leitores simples tomaram-se de encanto com a possibilidade de viver depois da morte em condições assemelhadas à vida na Terra, mas muitas lideranças espíritas se surpreenderam com as revelações e não tiveram receio de rejeitá-la, tendo por argumento principal a falta de informações na obra básica da codificação empreendida por Allan Kardec. As mais prudentes preferiram colocar o livro de molho e aguardar maiores confirmações.

O fato é que antes mesmo de Kardec o assunto entrou nas cogitações a partir de inúmeras obras apresentadas por médiuns de diversos matizes. Com Kardec, o assunto ganhou foros de possibilidade dadas ainda as pequenas, mas consistentes abordagens que ofereciam uma base lógica dessa realidade, acrescida de exemplos.

Após Kardec, lideranças representativas dos verdadeiros e dedicados estudiosos se reproduziram, convictas de que a vida no mundo espiritual não se dá simplesmente sobre a matéria fluídica imponderável, senão sob uma consistente base de solidez e planejamento, construção e organização social, de maneira que, se não possui as mesmas condições da vida material que o planeta Terra conhece, tem semelhanças com esta que, em certos casos, mais parecem ser uma extensão da vida material terrena. A informação, contudo, mais forte nos conduz a ver pelo lado contrário, ou seja, é a vida na Terra que se assemelha à espiritual, embora a semelhança seja, segundo dizem os espíritos, ainda bastante nebulosa. (mais…)

Gasparetto: o médium dos pintores invisíveis

Gasparetto, apresentador de tv

Conheci-o no começo da década de 1970. Antes, havia conhecido seus pais, Zíbia e Aldo, que atuavam como expositores nos cursos da Federação Espírita do Estado de São Paulo, onde me matriculei com o desejo de aprofundar meus conhecimentos espíritas. Zíbia, na ocasião, já despontava com sua mediunidade psicográfica, tendo publicado dois livros: O amor venceu e O morro das ilusões. Já como integrante da equipe do jornal Correio Fraterno do ABC, recebi de Zíbia os direitos de publicação do livro Entre o amor e a guerra, que teve ali duas edições. Zíbia cancelou os direitos por conta da contrariedade que teve com uma crítica publicada no Correio, feita por especialista em literatura, apontando deficiências técnicas na obra. Nem a resenha publicada ao lado, exortando as qualidades do conteúdo do livro foi suficiente para demovê-la da decisão. A partir de então, Zíbia passou a publicar seus livros por sua própria editora.

Estive mais próximo de Luiz Antônio Gasparetto depois que Elsie Dubugras entregou-me a responsabilidade de planejar e publicar o livro Renoir, é você?, obra bilíngue português/inglês cujo título resultou de um programa de tv veiculado na Europa, programa este que teve ampla repercussão e foi reprisado inúmeras vezes, no qual Gasparetto produz telas mediúnicas com a assinatura do conhecido pintor francês. Durante o período de preparação do livro, acompanhei Gasparetto em diversas apresentações na cidade de São Paulo, testemunhando de perto o extraordinário fenômeno, bem como reunindo-me com ele e Elsie por inúmeras ocasiões. O livro Renoir, é você? foi o primeiro publicado sobre a produção mediúnica de Gasparetto, mas é muito pouco conhecido hoje e sequer consta da bibliografia do médium. É assinado por Elsie, Gasparetto e Espíritos que possuem obras reproduzidas no livro. (mais…)

A prece do Salomão e o ensino de Kardec

O amigo Salomão Benchaya, de Porto Alegre, com seu artigo “Questão da prece” (texto abaixo) abre espaço para importante crítica da prece, ou seja, para ampla reflexão a respeito deste tema que tem movimentado os meios espíritas desde Kardec. Benchaya aponta para diversos problemas e faz algumas afirmações contundentes, a principal delas: “O Deus da primeira pergunta do LE não é o mesmo Deus referido no restante da codificação”.

Salomão exagerou? Sem dúvida.

Com o espiritismo, a prece deixou de ser uma simples questão de fé e mudou-se para o campo da razão, constituindo-se, pois, um objeto de conhecimento. A prece e tudo o mais que antes pertencia ao domínio da religião. Daí porque deve e pode ser discutida, analisada e aprofundada em seu conteúdo, como o faz o Benchaya. Todavia, trata-se de um tema muito mais complexo do que se imagina à primeira vista, porque envolve uma gama enorme de sub-questões que não podem ser negligenciadas.

Vamos, todavia, neste primeiro momento centrar nosso foco na afirmação de que o Deus da primeira questão de O livro dos espíritos chegou esgarçado ao final da codificação. É preciso recordar que Benchaya parte para esta conclusão após entender que Kardec apresenta em muitas partes da codificação um Deus teísta, enquanto que a primeira questão do Livro dos espíritos nos mostra um Deus deísta. Sim, no espiritismo, o Deísmo tem supremacia sobre o Teísmo, porquanto o primeiro insere a razão como proposta de conhecimento, enquanto que o segundo permanece no campo da crença que prescinde da razão. (mais…)

Modos de ver o espiritismo

Carlos Vereza, um desastre – No que transformaram a doutrina! – A reportagem da vida – Colônias espirituais: afinal, ¿existen? – O Sr. Marketing

É verdade que na linha do sofisma há muitos espiritismos, sendo que o espiritismo da codificação e o espiritismo do movimento espírita é o mais visível – alguns acadêmicos entendem que o espiritismo real é o que nasce das práticas, não importa o que ensinem os postulados doutrinários. Ao seu lado, vigora o espiritismo popular, que soma o espiritismo das práticas com o entendimento que dele fazem os seus praticantes, o qual se expressa hoje, muito fortemente, nas redes sociais.

A bem da verdade, há apenas um espiritismo: o que está exposto na filosofia organizada por Allan Kardec e com base nessa ideia muitas lideranças expressivas defendem, com razão, que o espiritismo popular resulta de um só fato: ausência ou conhecimento impreciso da filosofia espírita.

Mas não se pode remar contra a maré o tempo todo, haja vista para o fato da presença diuturna das manifestações populares sob o guarda-chuva do logotipo espiritismo. Digo logotipo para enfatizar que a sua presença, nesse caso, é mera condição “mercadológica”, mero signo utilizado para dar força de marca ao que se diz ou se expressa. Visa, pois, direcionar a produção de significados, como se o que se escreve ou se expressa fosse de fato decorrente do ensinamento espírita. (mais…)

Quando os espíritos puseram o bispo para correr

Nestes tempos bicudos, um pouco de humor não fará mal a ninguém.

O caso a seguir é narrado por Alexander Jenniard Du Dot, escritor católico defensor da proibição pela Igreja das sessões de mesas girante e crente de que os espíritos que apareciam nessas sessões eram os demônios. Para ele, há somente três tipos de espíritos: os anjos decaídos (demônios), os espíritos dos vivos e os espíritos dos mortos. Vivos não se manifestam a vivos, os mortos estão proibidos de manifestar, restam, pois, os demônios. O caso está registrado no livro O espiritismo, sua natureza, seus perigos, publicado em Portugal em fins de 1800 e é interpretado por Du Dot como prova das suas convicções, mas ficará melhor interpretado como fato probatório da existência e manifestação dos espíritos dos que viveram na Terra.

Vamos a ele.

“Cinco bispos de uma província reuniram-se em 1849, para tratarem de diferentes pontos de doutrina e de direito eclesiástico. No decorrer deste sínodo, como as mesas giratórias estavam em moda, e como as práticas espíritas, implicitamente proibidas pela Igreja, eram geralmente toleradas, os prelados quiseram experimentar por si próprios estas pretensas novidades. Colocaram-se em roda de uma mesa e obtiveram movimentos de rotação, e depois respostas por meio do pé da mesa. Suspeitando que eram demônios os espíritos que faziam mover a mesa, lembraram-se um dia de colocar em cima um rosário e um breviário; a mesa arrojou-os para longe com furor; depois, encarniçando-se muito especialmente contra o bispo da diocese, que era talvez o promotor dessas experiências, tomou a seu cargo expulsá-lo da sala, perseguindo-o até a porta, apesar da resistência que ele opunha. Sem dúvida, os cinco prelados não exigiam tantas provas. Apressaram-se a proibir, nas suas respectivas dioceses, o exercício da mesa girante, prática perigosa cujo caráter infernal lhes fora revelado por fatos tão brutais”.

Moral da história: quando você não puder com as mesas e não quiser estudá-las, proíba-as de virem perturbar os vivos.

Congressos espíritas: a massa e o diálogo ausente

“Nenhuma fala monológica pode comunicar a um auditório algo com sucesso, se os ouvintes não têm condições de, ao menos potencialmente, tornarem-se parceiros dialógicos do falante” – Lúcia Santaella

Em um sistema perverso, como o prevalecente no planeta de forma geral, falar de justiça, ética e filosofia de vida são coisas do idealismo utópico, embora o idealismo utópico ainda alimente mentes e corações livres das peias dos sistemas. O pragmatismo nos impõe a ousar nas brechas do perverso sistema, para não deixar morrer as belas letras do sonho que alimenta a esperança de um futuro melhor. Lembra-me a insistente conversa de Chico Xavier, nos anos 1970, com o livreiro Stig Roland Ibsen, advertindo-lhe de que era preciso vender os livros com lucro sob pena de ver sua livraria as portas da falência. A fala de Chico era extensiva ao espiritismo brasileiro, especialmente àqueles que exerciam constante crítica aos valores desses mesmos livros e os comercializavam a preço de custo, dentro da ideia de torná-los mais acessíveis aos menos favorecidos socialmente.

Volto, pois, ao discurso da razão do que está por trás dos atuais congressos ditos espíritas, que implementam o sentido do espetáculo como forma de alcançar um grande número de pessoas, enchendo salões e corredores dos imensos espaços custosos previamente alugados para atrai-las. É o espetáculo, na sua formulação teórica, resultante da densa crítica de que a espetacularizacão esconde uma questão ética de fundamental importância, que é a justiça social. É ela uma das piores facetas de um sistema dominante pendular apenas em aparência, pois que impõe o permanente consumo de bens e serviços sob a capa da necessidade e do desejo de tornar feliz a estada provisória do ser no planeta. (mais…)

Significados e significantes importam. Mas as significações são definitivas

Se um significante jamais oferece apenas um significado possível, porque isso seria a literalidade aprisionante dos sentidos, então, o que Chico Xavier quis dizer com a expressão “o telefone só toca de lá para cá”?

Vê-se aqui e ali a repetição da frase expressa pelo médium mineiro como uma condenação explícita e direta ao desejo de chamar a atenção de espíritos e obter deles mensagens, isto é, conselhos, informações, desejos e conhecimento de seus conflitos no contexto da vida em que se situam. Em uma palavra: condenação da evocação dos espíritos, pois, dizem, se há quem possa decidir se tem ou não condições de dialogar com os encarnados seriam eles, os desencarnados. Oh Deus, quanto engano se comete quando a literalidade aprisiona a significação!

Quando isso ocorre, ou seja, quando se afirma que Chico proíbe que se façam evocações se está atribuindo ao significante – “o telefone toca de lá para cá” – apenas um e único significado que se pode, em mau português, chamar de significado semântico. Ora, digam-me, senhores, qual é o significante que possui um único e preciso significado? Que não se oferece às significações de tantas quantas mentes dele façam uso?

Ah, sim, há médiuns que fazem promessas de ouvir os espíritos que a pessoa deseja; há pessoas que querem ouvir dos espíritos coisas que eles, espíritos, não sabem; há lugares que estranhamente ensinam como os médiuns entram em contato com espíritos familiares; há outras pessoas que querem resolver o vazio da separação de filhos, maridos e esposas mortas conversando com eles sobre, talvez, as miudezas da vida familiar. Sim, há tudo isso e muito mais perfeitamente criticável. Ora, nenhuma definição literal resolverá o problema que pertence ao campo da educação, então, vamos fazer o esforço de educar para que a significação possa substituir a literalidade dos sentidos e, assim, resolver os problemas da individualidade diante da vida. (mais…)

Divaldo, Chico, direita e esquerda. Onde está o centro?

Para o espiritismo, como de resto para a sociedade em que a liberdade de pensamento e expressão é garantida constitucionalmente, não há cidadão imune à responsabilidade pelas suas opiniões.

 Quando o manifesto crítico a Divaldo Franco apareceu na lista da Abrade, afirmei que eu também assinaria embaixo. A questão, para mim, está clara: as opiniões exaradas pelo médium na entrevista que deu origem ao manifesto são absurdas do ponto de vista do bom senso que caracteriza a racionalidade espírita. Pouco importa assinalar se o manifesto contém pontos convergentes e divergentes, pois raros são os discursos críticos de qualquer natureza que não esbarram neste aspecto. O que é relevante é o fato de que é preciso colocar em discussão as opiniões, de quem quer que seja, quando estas ferem os princípios elementares do bom senso e da lógica que caracterizam a doutrina espírita, em especial, quando essas opiniões pertencem a líderes de expressão, como é o caso presente de Divaldo Franco, aqui, pelas repercussões elevadas à potência máxima que geram. Ora, o que está no foco das atenções é o conhecimento e suas interpretações, coerentes ou não, que repercutem na sociedade, na eterna dualidade do bem e do mal, do certo e do errado, da verdade e da mentira. Ao direito de opinião se opõe o direito da discordância, que mais não é que direito de opinião também. A liberdade de pensamento e expressão emerge das conquistas do ser ao longo de suas múltiplas experiências no corpo físico e se insere entre os direitos supremos, inalienáveis, como ensina Kardec.

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O AMIGO E O LAÇO

(Dedicado ao CPDoc, neste ano 30 de sua existência)

Se cais, caímos todos os que miramos tua força.

Se levantas, nos enchemos de energia todos os que conhecemos tua capacidade.

Se estacionas, paramos juntos todos os que te amam.

Se prossegues, caminhamos ao teu lado todos nós que admiramos.

Se cansas, apontas para nós que há esgotamento.

Se fortaleces, somos capazes de animar.

Tudo o que és somos sempre, porque iguais.

Tudo o que fazes, fazemos também, porque em ti encontramos aquilo que por nós estamos a construir.

És o amigo, aquele que tem a força dos heróis e as fraquezas dos sonhadores. Não sabes, mas és nossa esperança e nossa certeza. Quedas não te fazem menor nem menos farol para nós, porque sabemos que logo após te ergues.

Há entre nós o laço, da matéria plástica extraordinária do afeto do universo. Estica e enfraquece sem jamais romper.

Se te vais e à distância te pões, sofremos, em vigília permanente no tempo do espaço. Consola-nos a certeza do reencontro, ali ou lá na frente.

Tens a eternidade gravada em ti. Temos a consciência velando por nós.

Vivamos.

Quem é a vítima?

Desconfio sempre desses artigos de opinião genéricos e ao mesmo tempo insinuantes, aos quais falta a coragem do homem de bem e a franqueza do homem justo. E o artigo assinado pelo Marco Milani publicado pelo Correio Fraterno (do ABC), edição no 477 de setembro/outubro de 2017 se insere na relação desses artigos. Confesso que não sei ao que ele veio, mas desconfio que se destina a alvos determinados, mas não colocados às claras. E isso é muito ruim.

Seja quem e o que seja que motivou o autor do artigo a escrever, o fato é que ao utilizar a técnica da generalidade Marco Milani se coloca na mesma condição da possível vítima. E como vítima, age sem a devida franqueza, incorrendo em faltas ainda mais graves. O medo de ser franco é sinônimo de falta de coragem, contrário ao sim, sim e ao não, não de Jesus. (mais…)