Cosme Mariño e sua importância para o espiritismo na Argentina

Destacado

Mariño foi presenteado com o título de “o Kardec argentino” e o livro a seguir, por ele escrito, revela sua atuação e o desenvolvimento da doutrina em terras portenhas.

El espiritismo em la Argentina (1963) – Cosme Mariño – Esta edição é, na verdade, a 2ª edição, e vem acrescida de um Apêndice antecedido por uma Nota explicativa, que estende o período histórico abordado por Mariño correspondente aos anos 1870-1923 para até 1932. O autor do texto do Apêndice não é mencionado. O prefácio feito para esta edição é assinado por Carlos Luis Chiesa, presidente da Associação Espírita Constancia. Mariño deixou o corpo físico em 1927, aos 80 anos e é considerado um dos maiores defensores do espiritismo na Argentina. Neste seu livro, relata ele os fatos que viveu diretamente, que presenciou ou de que tomou conhecimento durante os quase 50 anos em que viveu na defesa e divulgação do espiritismo, cujo marco inicial foi o ano de 1879, Continuar lendo

Inovação, ocupação parcial de espaço ou simplesmente um novo rótulo?

Destacado

A propósito de um artigo do meu amigo Cesar Perri, intitulado “Congresso dos 70 anos da USE – Inovação das “rodas de conversa”, que foi posto ontem, 21 de junho de 2017, em circulação na rede digital, volto ao assunto que já externei aqui, em março de 2016, quando a notícia do evento circulou pela primeira vez e sobre a qual recebi opiniões e e-mails prós e contra. Perri refere-se ao espaço denominado Roda de Conversa, para o qual a coordenação do congresso destinou quatro horas divididas em dois períodos de duas horas cada, sendo três temas a serem debatidos simultaneamente em cada período e a mesa contando com um moderador e dois debatedores, conforme programação já divulgada. A questão colocada é, de um lado, se isso de fato é inovação e, de outro, se atende às reclamações justas por espaço de livre manifestação do pensamento, a exemplo do que ocorre nos congressos onde o conhecimento é colocado como meta principal?

O título dado a este “novo” espaço é bonito – Rodas de Conversa – mas é preciso convir que tal título é apenas outro rótulo Continuar lendo

Sob duas sombras: a história e o invisível

Destacado

O RESGATE DO WERNECK


 Eis aí um líder que só aceitava a liderança de alguém que possuísse as características do grande líder. Allan Kardec foi um deles. Tornou-se um espírita tardio e dos poucos que, nestas alturas da vida, logrou penetrar com rara lucidez no abrangente conteúdo do mestre lionês.

 “A minha alma não é propriedade do Estado, nem das seitas. Tenho sobre ela jurisdição absoluta. Não tolero que a guiem contra a minha vontade. Hei de salvá-la eu mesmo, ou ela estará perdida. A menos que forças, livremente aceitas, lhe mudem a direção, ela resistirá aos decretos emanados do poder humano”.

Publicado em 1923, este livro tornou-se verdadeira raridade e o museu que leva o nome do autor dispõe de apenas um exemplar.

Essa feliz e comovente declaração faz parte da profissão de fé contida no livro Um punhado de verdades, livro escrito por Américo Werneck e publicado em 1923, no Rio de Janeiro. E quem era Américo Werneck? Quando me presenteou com o exemplar desse livro em 1981, meu amigo Francisco Klörs Werneck, o grande tradutor das obras de Ernesto Bozzano para o português, me disse em bilhete separado: “Meu tio Américo Werneck, engenheiro civil, deputado estadual pelo estado do Rio, foi convidado pelo presidente do estado de Minas Gerais, Silviano Brandão, para ocupar o cargo de Secretário de Agricultura, Viação, Obras Públicas, Indústria e Comércio, que aceitou. Foi construtor de Lambari e prefeito interino de Belo Horizonte. Em Lambari, a rua principal tem o seu nome e o seu busto. Famoso pelo seu trabalho em Minas Gerais, como o seu primo dr. Hugo Werneck”. Até aí, muito pouco. Alguma coisa sobre a participação política dele e nada sobre o espiritismo. É que não havia tempo na ocasião para as devidas ampliações, pois, quando Continuar lendo

O que tem a ver entre si estes três personagens da história brasileira?

Destacado

ARNALDO VIEIRA DE CARVALHO, HORÁCIO DE CARVALHO E CAIRBAR SCHUTEL

 Nada os ligaria, em princípio, não fosse um detalhe: Arnaldo Vieira de Carvalho teria dado duas mensagens dias após sua desencarnação e foram ambas recebidas no círculo mediúnico de Cairbar Schutel, em Matão. E Horácio de Carvalho era amigo de Arnaldo, conhecia Cairbar e estudava o hipnotismo e o espiritismo. Isso tudo os uniu numa apreciação crítica das mensagens atribuídas a Arnaldo que o Horácio fez e encaminhou, em formato de livro, a Cairbar Schutel. Quase 100 anos depois podemos retomar o fato como uma parte importante da história do espiritismo no Brasil.

À esquerda em preto e branco a capa e à direita a cores a página de rosto. Um livro singular datado de 1920 e todo feito a mão.

 ESPIRITISMO. Análise de duas mensagens atribuídas a Arnaldo Vieira de Carvalho – livro de exemplar único, em escrita manual, datado de 1920, de autoria de Horácio de Carvalho, dedicado a Cairbar Schutel com a seguinte mensagem: “Ao prezado amigo e ilustre jornalista espírita, homenagem de Horácio de Carvalho”. Contém a análise, feita por Horácio, de duas mensagens recebidas mediunicamente no grupo de Cairbar Schutel em Matão, assinadas por Arnaldo Vieira de Carvalho, a primeira delas dois dias após a desencarnação do conhecido médico em São Paulo, e a segunda sete dias após. Continuar lendo

A polêmica pureza doutrinária – um viés

Destacado

A Dora Incontri me provoca questionando se não quero entrar na polêmica da pureza doutrinária, um fenômeno tão antigo quanto o trabalho de Kardec, basta ver as edições da Revista Espírita ainda ao tempo da direção do codificador. Mas tem ela passado ao longo do tempo por mudanças pontuais devido, especialmente, à cultura predominante em cada época, pois, como se sabe, o fenômeno cultural sofre um processo contínuo de mudanças, como é de sua natureza, e muda mais acentuadamente ao passo que as tecnologias e o conhecimento se modificam. Na era digital em que vivemos, as mudanças correm frenéticas, e com elas o modo como o pensamento se comporta. Continuar lendo

Tendência histórica da FEB de deturpação de livros produz novas vítimas

Destacado

É de estarrecer. Federação Espírita Brasileira é denunciada agora por deturpar obras psicografadas por Chico Xavier e Waldo Vieira.

Alguém disse alhures que a tradução de Guillon Ribeiro, ex-presidente da FEB, para as obras de Roustaing é melhor do que o original. Ironia ou não, já as referidas obras sofreram acusações de mudanças e supressões por conta dos editores febianos. É dessa maneira que, historicamente, a instituição que dirige o movimento espírita brasileiro dito oficial é acusada por ações semelhantes, fato também ocorrido em outras ocasiões, como no caso do livro famoso Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, no qual as deturpações se deram por conta da introdução de partes favoráveis a Roustaing, em especial. Coincidentemente, os originais da psicografia de Chico Xavier do referido livro jamais vieram a público, apesar de insistentemente solicitado por diversos críticos. Continuar lendo

A Metapsíquica de Canuto de Abreu

Destacado

No período de maio de 1936 a janeiro de 1937 (datas estimadas, carecendo de comprovação definitiva) a Sociedade Metapsíquica de São Paulo publicou uma revista no formato 16 x 23 cm, em preto e branco tanto na capa como no miolo. A direção esteve a cargo do membro da Sociedade, Canuto de Abreu, hoje reconhecido por seus livros, pesquisas e, especialmente, pela posse de documentos valiosos sobre Allan Kardec obtidos diretamente na França pouco antes da eclosão da segunda guerra mundial, em Paris. Canuto era advogado e médico homeopata, além de formado em Farmácia.

Possuo quatro dos cinco números dessa revista, menos o exemplar de número 1. A publicação saía bimestralmente com material assinado por articulistas reconhecidos e foi nesta revista que Canuto de Abreu deu início a série de artigos sobre Bezerra de Menezes, que depois foi reunida em livro. Além de dirigir e escrever, Canuto de Abreu Continuar lendo

Notas para notar

Destacado

A semana começa com alguns destaques sobre os quais vale a pena refletir: 1) os jovens britânicos que não querem ter filhos e buscam o caminho da esterilização; 2) os brasileiros com doenças raras que, desenganados, enganaram a morte; 3) e a pesquisa tida como condenatória dos refrigerantes diet, mas que não é conclusiva.

Não aos filhos

Esterilização, esse é o caminho que tem sido escolhido por jovens britânicos que não desejam ter filhos. As razões são diversas vão desde a liberdade para atuar sexualmente sem preocupações até a existência de doenças hereditárias, cujos portadores não desejam passar adiante. Continuar lendo

Uma obra social digna

Destacado

Aqui em Recife, várias obras sociais criadas e dirigidas por espíritas são realmente dignas de admiração. Tenho particular afeição pelo Lar Paulo de Tarso, localizado no Bairro do Ipsep. É uma casa simples com capacidade de abrigar até 15 crianças, que ali chegam por meio de um convênio com o Juizado da Infância e Juventude. A direção e manutenção do Lar tem na sua liderança o casal Glauce e Gezsler, dois amigos do coração, incansáveis, dedicados e afetuosos.

O Lar é uma casa de passagem, onde crianças em situação de risco são abrigadas e preparadas para o retorno ao lar de origem ou são entregues para adoção, razão pela qual não permanecem longos períodos no local, a não ser em situações excepcionais. O trabalho de preparação dessas crianças movimenta uma rede considerável de pessoas e profissionais e possui como fundamento de orientação o alicerce da doutrina espírita.

Para os interessados em conhecer melhor o trabalho dessa digna instituição de caráter assistencial, aqui vai o link da apostila recém-publicada, intitulada “Lar Paulo de Tarso, um oásis de esperança” 

Imprensa espírita em dois toques

Uma boa entrevista, a definição incompleta do principal objetivo do Espiritismo e o desafio dos cuidados da mediunidade nas crianças e nos jovens.

Em uma leitura rápida, encontro dois temas na mesma matéria do jornal Correio Fraterno[i] a me chamarem a atenção de modo diferente. Trata-se da entrevista da psicopedagoga Roseli Galves sobre educação das crianças e Espiritismo. As ideias e o modo como a entrevistada responde às provocações da repórter são de forma geral elogiáveis. Há senões aqui e ali que podem ser repercutidos de maneira a ampliar as reflexões, mas o saldo é bastante positivo.

Em primeiro lugar, a forma como a entrevista é conduzida deveria ser levada em consideração por aqueles que se lançam a produzir jornais, revistas e que tais como meio de propagar a doutrina espírita. Isto porque há um exagerado apelo ao formato de entrevista feita por correspondência do tipo e-mails, visto que este meio eletrônico se tornou expressamente atraente por apresentar facilidade no contato com as fontes. No caso em foco, nota-se que a jornalista está frente a frente com a entrevistada e é esta condição que lhe permite manter um diálogo crítico, ou seja, seguir por um caminho de elucidação dos pontos que ficam obscuros nas respostas formuladas pela entrevistada. Não é preciso dizer que as entrevistas desse tipo fornecem aquilo que se denomina material quente, tornando-o muito mais atraente, inteligente, objetivo e claro. Quando se utiliza apenas o e-mail elencando as perguntas e se contentando com as respostas dadas a entrevista tende a ficar fria, monótona e burocrática, pouco clara e com menores atrativos.

Roseli Galves surpreende pela visão técnica e a linguagem objetiva que emprega na abordagem dos temas propostos, mostrando-se integrada à realidade cultural do momento e chamando a atenção para aspectos da relação educador e educando de grande importância para os objetivos pretendidos. Tem-se visto muitas vezes um despreparo daqueles que se envolvem com a educação infantil nos centros espíritas, tomando-a como uma atividade mais moralizadora que educadora, propriamente, daí as fragilidades que ficam visíveis quando de uma análise mais acurada desse tipo de atividade. Toda a linguagem empregada por Roseli Galves nas respostas se mostra livre dos ranços religiosos de boa parte daqueles que lidam nessa área da educação espírita.

Agora vamos aos pontos que merecem reparo.

Chama a atenção a seguinte frase de Roseli Galves: “O objetivo maior da doutrina espírita é a transformação moral”. A princípio, sem surpresas, pois este é o pensamento predominante no movimento espírita atual, especialmente aquele em que a influência dos órgãos representativos se dá de forma majoritária. Não se pode negar, contudo, que se trata de uma visão parcial e reducionista na medida em que tende a minimizar a importância do conhecimento para as mudanças no campo da ética, deixando transparecer que todo esforço da doutrina para contribuir com o progresso humano é meramente no âmbito da moral comportamental. Tem-se a ideia limitada de que se o ser humano alterar o seu modo de agir, trocando o ódio pelo amor, por exemplo, tudo o mais se resolve facilmente. Por mais que esta ideia cative os corações das pessoas, o fato é que o câmbio de sentimentos ditos negativos por sentimentos positivos não se torna sustentável se o ser não contar com bases de compreensão sólidas para entender a essência do ódio e do amor e de como tornar o sentimento em algo totalmente dominado. Essas bases não estão em outro campo senão no do conhecimento e é por isso que o Espiritismo enquanto doutrina contributiva para o progresso promove claramente a fusão do saber e da moral em uma unidade indissolúvel, sintetizada por Kardec na expressão “amai-vos e instrui-vos”. É preciso superar o tempo da ilusão, que quase sempre produz resultados semelhantes aos da loucura, levando ao engano de acreditar em conquistas que de fato não ocorreram, como é exemplo a ideia empregada em alguns ambientes espíritas de que o ser munido de um caderno de anotações elencaria, um a um, os sentimentos negativos que se manifestam nele, concentrando esforços para os ir eliminando, de maneira que ao fim de um ciclo ele teria alcançado todo o progresso necessário no campo da moral, tempo em que haveria riscado das páginas os sentimentos elencados por não mais precisar se recordar deles nem duvidar de que os superou. A ilusão do progresso aparente no campo ético subtrai a percepção da importância do conhecimento da reencarnação e do que ela representa para o ser em termos de progresso evolutivo. No mais, é preciso dizer que Ética e Conhecimento formam uma unidade indivisível, da mesma maneira que os diversos sentimentos também se reúnem e se concentram numa unidade, não se podendo, portanto, falar, por exemplo, em amor desligado de solidariedade, fraternidade, igualdade, liberdade, respeito, generosidade e assim por diante, pois qualquer desses valores, para de fato existir, implica todos os demais, ou seja, nenhum existe isoladamente à perfeição. Sigamos.

Outro ponto da boa entrevista da Roseli Galves aborda a questão da mediunidade nas crianças em resposta ao questionamento feito pela jornalista sobre como proceder neste terreno. O tema é complexo e Roseli o deixa sem resposta, detendo-se na mediunidade nos jovens que, em resumo, não opinião dela devem ser coibidos dessa prática por não contarem com condições físicas e emocionais muito por conta da idade. A arguta jornalista insiste na questão, solicitando esclarecimentos sobre o que fazer quando o problema surgir (e aqui parece novamente voltar à questão das crianças), ao que a entrevistada sugere a integração dos jovens em outras atividades da casa, à parte das sessões mediúnicas, que devem ser consideradas apenas mais à frente, em outra oportunidade. Vê-se, pois, que a solução oferecida não resolve a questão porque se uma criança ou jovem apresenta sinais de mediunidade será oportuno diagnosticar e tratar com os instrumentos que o Espiritismo oferece. Costuma-se recorrer a Kardec, sempre muito prudente no assunto, como também a alguns espíritos de referência que nem sempre são objetivos quanto à questão. Não se pode esquecer que Kardec teve a companhia de duas médiuns adolescentes a partir de certo ponto de seu trabalho, as quais se tornaram importantes para a finalização de O livro dos espíritos. Além disso, historicamente se sabe que inúmeros médiuns de projeção iniciaram muito cedo suas atividades, sem contar outros muitos que não tiveram seus nomes no mesmo nível de destaque, mas seguiram caminho semelhante. Também não se deve colocar esses exemplos na conta das exceções com a finalidade de dar a questão por resolvida. A pergunta é: como tratar os casos de mediunidade nas crianças e nos jovens quando os sinais aparecem e se mostram perturbadores? São duas abordagens distintas, com encaminhamentos também distintos. As crianças devem receber o tratamento capaz de auxiliar no seu reequilíbrio, deixando-as distantes das práticas mediúnicas, ou seja, não se pode inclui-las em qualquer atividade mediúnica, mas não se pode também olvidar a presença do fundo mediúnico quando for o caso, nem mesmo de possíveis processos obsessivos de fundo mediúnico ou não. No caso dos jovens, a questão envolve mais do que tratamentos possíveis, solicita esclarecimentos e, quando for oportuno, apoio objetivo para o caso da existência de mediunato em eclosão a ser devidamente processado sem pressa nem negligência. Do contrário, em havendo o fenômeno presente, simplesmente afastar o jovem das atividades mediúnicas à espera de um tal tempo certo pode redundar em aprofundamento das crises perturbadoras. Ou seja, não há regras fixas que possam ser extensivas a todos, seja para determinar o afastamento seja para levar às práticas mediúnicas. Requisita-se, isto sim, capacidade para diagnosticar e condições para tratar cada caso em sua especificidade. Ao lado disso, um bom conhecimento da doutrina.

 Exemplo para não ser seguido

A propósito, vale recordar o modo como o tema mediunidade e os jovens foi indevidamente tratado certa ocasião. O fato ocorreu numa instituição importante da capital paulista no início dos anos 1980. O salão estava repleto de pessoas das mais diferentes idades, cerca de 300 ao todo, e o palestrante já havia se colocado à frente do microfone para dar início à primeira aula teórica do ano no curso básico de mediunidade quando a diretora de cursos, chegando de surpresa, interveio e pediu para dar um aviso. Assumindo o microfone, disse mais ou menos assim:

– Quero informar a todos os jovens que foram encaminhados para este curso que estão proibidos de participarem de qualquer atividade que envolva mediunidade, porque a doutrina não permite que nesta idade as pessoas participem deste tipo de atividade. Sei que aqui estão mais de 20 jovens que têm entre 18 e 20 anos e informo que devem deixar a sala imediatamente e procurarem seus coordenadores na mocidade para se matricularem nos cursos devidos. Repito, todos estes estão proibidos de permanecerem nesta sala.

Dito isto, a senhora simplesmente se retirou do salão, deixando no ar um mal-estar terrível. O palestrante mostrou-se visivelmente constrangido com o que ouviu, o mesmo constrangimento que se observou dominar toda a plateia. Por vergonha de se mostrar ou por qualquer outra razão desconhecida, nenhum jovem tomou a iniciativa de se levantar e deixar o auditório. Voltando o microfone, o palestrante houve por bem falar aos jovens, mais ou menos nestes termos:

– Quero me dirigir neste momento aos jovens aqui presentes e pedir-lhes que, por favor, relevem a forma como este comunicado lhes foi agora a pouco transmitido. Naturalmente, deve ter havido uma falha de caráter administrativo que gerou um desencontro entre aqueles que são responsáveis pelo presente curso, desaguando neste momento de muito constrangimento para todos nós. Não fiquem mais aborrecidos do que o normal, afinal ninguém gostaria de estar na pele de vocês ou de ver seus desejos cerceados de modo tão abrupto. Quero crer que esse mal-entendido será logo, logo esclarecido, uma vez que a doutrina espírita requer bom-senso, o mesmo bom-senso demonstrado por Allan Kardec ao ter entre seus médiuns mais respeitáveis duas jovens de 14 e 15 anos, cujos serviços ao Espiritismo foram inestimáveis. Sigam em frente e levem com vocês a minha solidariedade.

Decorridos alguns segundos, um a um os jovens se levantaram e deixaram o ambiente. Só então a palestra teve início.


[i] Edição de janeiro-fevereiro de 2017, pág. 4 e 5.