Betsy, Betsy, por que te abandonaste?

Na década de 1980, tive um amigo que adquiriu a esclerose lateral amiotrófica. Aos 37 anos. Rapidamente, perdeu os movimentos e pouco mais de um ano depois morreu. Era pai de duas crianças, alegre, de convivência fácil. Quando a doença surgiu agressiva e o levou a afastar-se das atividades profissionais, ninguém ousava falar no assunto, senão em conversas de canto de sala. A rapidez com que progrediu e a morte também rápida deixou no ar um certo mistério, pois alguns alimentavam preconceitos contra doenças dessa ordem e preferiam o silêncio.

Agora vem o caso de Betsy. Estou diante de dois olhares diferentes a me encararem, questionando-me. O primeiro, nem tanto, uma vez que Carlos Augusto tem opinião definida como niilista que é. Seu questionamento é mais o desafio que me lança sobre a tal da imortalidade que defendo. É como se me perguntasse: – e aí o que você tem a dizer agora? Já o olhar de Orlando é o da dúvida, ou melhor, das muitas dúvidas que alimenta sobre a atitude de Betsy e o desfecho espiritual gerado por sua decisão de praticar a eutanásia e abreviar o sofrimento causado pela doença. É como se Orlando me perguntasse: – se eu tomar essa atitude, o que será de mim como ser imortal que sou?Carlos Augusto não precisa de minha opinião, estou certo disso. Esse meu grande amigo de muitos anos dará de ombro a tudo o que eu disser sobre imortalidade e espiritualidade, como sempre o faz, pois, sua convicção parece inabalável diante dos quadros que relacionam a vida e a morte. Para ele, a vida é o existir e a morte o seu contrário. Tudo muito simples. Então, por que lhe lança esse olhar penetrante e questionador, você pode se perguntar. É a forma que tem de disputar o poder com alguém que admira e respeita. Apenas isso. Gosto de repetir para ele de vez em quando: – se nada existir após a morte, nem eu nem você saberemos; porém, se a vida continuar temo dizer que levarei pequena vantagem sobre você. Nesses momentos ele costuma rir e dar-me as costas.

As dúvidas de Orlando, essas, sim, me preocupam, pois, temo que diante de uma situação como a de Betsy possa ele entrar em desespero tal que caminhe para um túnel de sofrimentos em que não se tem coragem para viver nem para morrer. Esse é o pior dos mundos, porque a perda da esperança é quase uma eutanásia, com a diferença de que a morte não chegará com hora marcada. Pelo contrário, chegará antes da hora.

Que ninguém tente me perguntar o que é de Betsy agora que o fato consummatum est. Não sou vidente nem tenho um mentor espiritual disponível para questões desse tipo. E não ouso me colocar na posição de um juiz. Betsy tomou uma decisão segundo a liberdade de que desfrutava e a lei do país onde vivia. Poderia eu avocar aqui a famosa expressão paulina, segundo a qual “tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”, mas a quem ela serviria de fato senão a mim mesmo? Afinal, penso eu que se estiver numa situação dessas não devo adotar a opção de Betsy, mas não estou, não sou Betsy e muito menos Orlando. Afinal, não desejo queimar a própria língua.

Uma das coisas que Orlando certamente quer saber é se Betsy é uma suicida e como tal merecedora dos atrozes sofrimentos que aguardam as pessoas que atentam contra a própria existência, segundo a literatura espírita sobre o assunto. Ora, então é uma pergunta sentencial, ou seja, traz em si o peso da pena. Tecnicamente, Betsy suicidou-se, sim, pois determinou o fim da sua vida física ao programar a própria morte assistida para depois do encerramento da festa de despedida, para a qual convidou os amigos e parentes e proibiu a todos de olharem para ela com tristeza ou amargura, e de ninguém escondeu o que ocorreria ao final.

A beleza da liberdade é esta, o poder de decidir. Os hipócritas, acostumados a agir deferentemente do que proclamam, hão de gritar a favor da noção de responsabilidade que julgam dever anteceder as decisões. São hipócritas exatamente por terem a dita noção e não a utilizarem, mas velhacamente a cobram do outro. Como se a responsabilidade não fosse consequente à liberdade. O ser humano aprende de tanto repetir suas decisões e só depois constrói teorias explicativas. Nada funciona nem ensina mais do que viver as consequências das decisões adotadas.

Betsy tomou uma decisão que incidiu fundamentalmente sobre ela mesma e amparou-se na decisão da sociedade que legalizou a eutanásia, ou seja, as consequências da decisão de Betsy já não se estendem a outros, limitada que está ao seu corpo e ao seu fim. Se porventura sua decisão tivesse consequências diretas sobre a vida do outro, aí então a sociedade teria o poder de impedi-la por questão de justiça. Mas foi esta sociedade que lhe disse ao permitir a eutanásia: pode matar-se; nós te eximimos de culpa.

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