Ano: 2017

Quem é a vítima?

Desconfio sempre desses artigos de opinião genéricos e ao mesmo tempo insinuantes, aos quais falta a coragem do homem de bem e a franqueza do homem justo. E o artigo assinado pelo Marco Milani publicado pelo Correio Fraterno (do ABC), edição no 477 de setembro/outubro de 2017 se insere na relação desses artigos. Confesso que não sei ao que ele veio, mas desconfio que se destina a alvos determinados, mas não colocados às claras. E isso é muito ruim.

Seja quem e o que seja que motivou o autor do artigo a escrever, o fato é que ao utilizar a técnica da generalidade Marco Milani se coloca na mesma condição da possível vítima. E como vítima, age sem a devida franqueza, incorrendo em faltas ainda mais graves. O medo de ser franco é sinônimo de falta de coragem, contrário ao sim, sim e ao não, não de Jesus. (mais…)

50 anos do Correio Fraterno (do ABC) – o que a história não conta

Entre o nepotismo e a exaltação da figura paterna foi deixada uma lacuna de muitos braços, mãos e cérebros que construíram a obra.

Logo criado em 1980 e utilizado até hoje. A ideia e a execução foram de um profissional da publicidade em São Paulo.

O Correio Fraterno (do ABC) publica em sua atual edição (no 477, setembro/outubro de 2017) reportagem-entrevista de capa assinada pela jornalista Eliana Haddad, com o título “50 anos de espiritismo do Correio Fraterno”. As entrevistas ocupam as páginas 4 e 5, e a reportagem está nas páginas centrais 8 e 9. São, portanto, quatro páginas do jornal tabloide ou ¼ de suas páginas destinadas a colocar para o leitor o resumo de uma história de 50 anos. Mas sua leitura deixa à mostra uma verdade: o resumo ao invés de revelar a história, esconde-a. Em primeiro lugar, cuida de exaltar a figura paterna e a da filha numa entrevista em que a obra perde lugar para apenas duas pessoas. Veja-se o seu título: “De pai para filha”. Um nepotismo clássico e uma ideia capitalista de sucessão como se o jornal e a editora fossem objeto de herança. Nepotismo porque os entrevistados não são apenas pai e filha; Izabel Vitusso é (mais…)

Os perigos da fama – muito mais do que 15 minutos

Os fatores de risco do sucesso estão presentes na construção do mito, mas poucos são capazes de subtrair a eles ou de os considerar com a devida atenção. Por que? Isso é coisa para se analisar com carinho.

O movimento espírita – entenda aí os espíritas – entraram num ritmo frenético de produção de mitos desde que Chico Xavier partiu em 2002, antes que o silêncio das arquibancadas caísse sobre a seleção brasileira de futebol. Chico estava a caminho do centenário no corpo físico, mas a coletividade espírita como um todo esperava que ele se tornasse uma espécie de personagem bíblico que não morre antes dos 150 anos. Como se viu, foi em vão, apesar da surpresa que a morte causou.

O mito Chico, porém, ganhou forças com a ausência do espírito, de modo que continua aí plainando sobre as cabeças coroadas dos reencarnacionistas com ideias fixas de vidas anteriores e esperança vã de um futuro na imortalidade amparado pelo extraordinário médium mineiro. Os amigos do rei mantêm a chama com o combustível moldado pela ilusão, (mais…)

Entre traças, poeira e páginas rotas

Por diferentes vias e de diversas maneiras, chegaram-me às mãos ao longo dos últimos 50 anos uma quantidade considerável de livros, revistas e documentos importantes para a história do espiritismo, livros em boa parte esgotados e alguns até mesmo ignorados do público, bem como as referidas revistas. Dei início à publicação das respectivas resenhas com o trabalho sobre a Revista Metapsíquica, como forma de desincumbir-me deste que considero um compromisso público, uma vez que formo entre aqueles que entendem que nada que seja de interesse público pode ficar retido sob a rubrica de patrimônio particular; que tudo deve ser disponibilizado, aberta e livremente, ao conhecimento da sociedade, pois que, no fim das contas, a ela de fato pertence. Na sequência, dei conhecimento de outra revista – Verdade e Luz – e, após, iniciei a publicação em separado de resenhas mais extensas de alguns livros cuja importância pedia um destaque especial. Agora, aqui, faço a conclusão do trabalho, publicando sobre aqueles documentos que, de maior ou menor interesse, guardam todos eles a oportunidade de esclarecer, informar ou enriquecer este ou aquele estudioso e pesquisador. Todos estes livros estarão à disposição dos interessados, uma vez que ficarão sob a guarda da Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires, que, certamente, os disponibilizará ao público. A coleção inteira, contudo, dos textos publicados, poderá ser encontrada aqui, neste blog, na página DOCUMENTOS e suas consequentes subpáginas: Revista Ilustração Espírita, Revista Metapsíquica, Revista Verdade e Luz, Opúsculos raros e Livros raros 


O espiritismo, sua natureza, seus perigos – Alexander Jenniard Du Dot, o autor, era em sua época uma espécie de Padre Quevedo dos católicos, ou seja, trabalhou muito para “compreender” os fatos espíritas à luz do catolicismo e de uma visão da ciência um tanto estrábica. Ele afirma sem medo que à frente da ciência de seu tempo (nasceu em 1840 e este livro data do final daquele século) “nós pomos o catecismo”. (mais…)

Marx e Kardec, materialismo e espiritismo

Espiritismo e Socialismo estão unidos por laços estreitos, visto que um oferece ao outro o que lhe falta a mais, isto é, o elemento de sabedoria, de justiça, de ponderação, as altas verdades e o nobre ideal sem o qual corre ele o risco de permanecer impotente ou de mergulhar na escuridão da anarquia. Léon Denis

 O socialismo de Denis foi classificado como idealista, uma maneira de ver que em princípio não combina com a dura realidade na qual a vida em sociedade se manifesta e desenvolve. Desde a eclosão das ideias socialistas, com Marx, às experiências de implantação de regimes políticos e econômicos marcados pelo fundamento socialista, que se discute a questão. No espiritismo não foi diferente e aqui está um exemplo de contenda em que as ideias se chocam e se distanciam até se encontrarem nas pontas, na irrefreável leveza da física.

Os espíritas e as questões sociais – em sua edição primeira, feita em 1955 em Niterói, RJ, este livro reúne artigos publicados na imprensa por dois conhecidos espíritas: Eusínio Lavigne, advogado e empresário de Ilhéus, BA, e Sousa do Prado, ex-membro da Federação Espírita Brasileira. Trata-se de um grande debate que teve início quando a Revista Internacional de Espiritismo, de Matão, recusou-se a publicar um artigo de Lavigne em resposta a outro, que saiu em suas colunas na edição de setembro de 1950, intitulado “Pela vitória do espírito” e assinado por Pereira Guedes, cujo conteúdo analisava o livro Materialismo dialético e materialismo histórico, de José Stalin. Lavigne procurou, então, o Jornal de Debates, onde encontrou guarida e por vários meses expôs seus argumentos sobre a teoria marxista, o socialismo e as conexões com o espiritismo, além de, ao defender o marxismo, deixar claro que o fazia ao que de científico ele continha e não à sua condição materialista contrária ao fundamento espiritual da doutrina de Kardec. (mais…)

Ismael, um Anjo na FEB

A trajetória de um destacado grupo mediúnico e as polêmicas em torno das raízes místicas do espiritismo no Brasil podem ser vistas pelas palavras dos próprios personagens centrais da história.

 Livro:

Trabalhos do Grupo Ismael da Federação Espírita Brasileira (1941)

Autor: Guillon Ribeiro, Ed. FEB

Página de rosto do livro com o autógrafo do ex-presidente da FEB, Francisco Thiesen.

A história do Grupo Ismael está registrada neste livro a partir da reprodução de um trabalho desenvolvido por Pedro Richard e publicado 40 anos antes, ou seja, em 1901, nas páginas do Reformador, da FEB. Embora o livro se destine a transcrever e comentar as mensagens recebidas pelos médiuns do grupo no período de julho de 1939 a dezembro de 1940, Guillon Ribeiro aproveita da oportunidade para destacar este histórico como forma de fixar aquelas que julga serem importantes contribuições ao espiritismo brasileiro, sendo, porém, certo que elas estão circunstancialmente presas ao contexto de crenças onde a FEB localizou-se.

Sob este aspecto, o texto de Richard é também um daqueles instrumentos que permitem avaliar as condições das práticas mediúnicas, antevistas por Allan Kardec em O livro dos médiuns, em que as influências do meio recaem sobre os médiuns e das quais quase sempre não é possível fugir. O clima psicológico e espiritual do grupo é de crença absoluta na sua importância enquanto conjunto de seres especialmente destacados pela espiritualidade superior para levar avante uma tarefa de semeadura da doutrina espírita, bem como de sua condução pelos tempos futuros. Trata-se, sem dúvida, para os líderes do grupo, de um mandato divino e único, ou seja, declaradamente não há dois grupos com as mesmas atribuições, nem dentro da FEB, à qual o grupo se subordina a partir de determinado momento, nem fora da FEB, por mais que houvesse instituições respeitáveis alhures. (mais…)

Cosme Mariño e sua importância para o espiritismo na Argentina

Mariño foi presenteado com o título de “o Kardec argentino” e o livro a seguir, por ele escrito, revela sua atuação e o desenvolvimento da doutrina em terras portenhas.

El espiritismo em la Argentina (1963) – Cosme Mariño – Esta edição é, na verdade, a 2ª edição, e vem acrescida de um Apêndice antecedido por uma Nota explicativa, que estende o período histórico abordado por Mariño correspondente aos anos 1870-1923 para até 1932. O autor do texto do Apêndice não é mencionado. O prefácio feito para esta edição é assinado por Carlos Luis Chiesa, presidente da Associação Espírita Constancia. Mariño deixou o corpo físico em 1927, aos 80 anos e é considerado um dos maiores defensores do espiritismo na Argentina. Neste seu livro, relata ele os fatos que viveu diretamente, que presenciou ou de que tomou conhecimento durante os quase 50 anos em que viveu na defesa e divulgação do espiritismo, cujo marco inicial foi o ano de 1879, (mais…)

A voz que escancara e o silêncio que amordaça

O mais novo episódio envolvendo a Federação Espírita Brasileira é A Carta Aberta à FEB, comentada em publicação de 13 de junho de 2017 por Jorge Hessen e amigos, em que acusam a velha instituição de um novo pecado ético, ou seja, usar a Ética a seu modo para prosseguir nos ajustes institucionais que garantam a retomada pelos roustainguistas do comando da federativa. Os autores cobram explicações sobre assembleia realizada dias antes, quase na surdina, à socapa, para eleger os membros da Conselho Superior e promover mudanças estatutárias, sem obedecer a normalidade dos preceitos estabelecidos, com objetivos escusos como os de expurgar membros sem que eles próprios tomassem conhecimento senão após os atos da assembleia.

Estamos diante de um escândalo, mais um. Em situações como essa, costuma-se fechar em copas, estabelecer o silêncio com o fim de pôr uma pá de cal sobre o assunto, de deixar o tempo passar e o assunto cair no esquecimento. Mas também de escapar do dever de oferecer explicações convincentes para o ato.

O pensamento que está na base deste tipo de comportamento é mais ou menos assim: para atender os “desígnios superiores”, tudo é permitido, ou seja, por um bem maior todo mal menor será perdoado. É o velho chavão dos fins que justificam os meios.

A Feb deve explicações públicas para os atos públicos que toma, mas também para muitas coisas que decide e defende e que tocam nos destinos do movimento espírita. A Feb, contudo, como instituição do tipo autoritário, não vê necessidade de esclarecer sobre seus atos, talvez porque entende que deve explicações apenas aos espíritos que lhe “comunicaram” a missão de conduzir o rebanho.

Esclarecer e informar é sinal de fraqueza para aqueles que velam pelo trono de Ismael, que se dizem herdeiros de um mandato superior e colocam-se, dessa forma, acima dos juízos humanos. Tornaram-se, pois, sentinelas do templo e vivem preocupados com os possíveis usurpadores de uma luz que não é brilhante o bastante para clarear os subterrâneos da consciência.

Por seu turno, as Federativas estaduais, mesmo quando acuadas diante de situações semelhantes e sofrer visíveis prejuízos, preferem respeitar o silêncio obsequioso de sua líder, sob o falso entendimento de que qualquer ação mais incisiva na defesa de seus direitos vai gerar instabilidade e desunião. E pensar que a estabilidade existente se assenta sobre a ética que atende a ótica dos interesses particulares, mesquinhos, a gerar uma união de papel.

Em tempos de cobrança social pela transparência na administração pública, a Feb é o exemplo mais bem-acabado de uma opacidade estarrecedora enquanto instituição de um movimento cuja doutrina defende a ética da imortalidade. Talvez tenha razão Roustaing ao anunciar na sua obscura obra que a Igreja Católica retomará no futuro o comando dos destinos humanos, a julgar pelos apelos e pelas declarações dadas pelo seu principal mandatário, o Papa Francisco, incisivas, corajosas, capazes de fazer corar aqueles que são portadores de uma doutrina mais avançada e por isso deveriam encabeçar a lista dos homens comprometidos com o bem comum.

Espiritismo livre só para homens livres. O resto é mordaça.

A voz que escancara e o silêncio que amordaça

O mais novo episódio envolvendo a Federação Espírita Brasileira é A Carta Aberta à FEB, comentada em publicação de 13 de junho último por Jorge Hessen e amigos, em que acusam a velha instituição de um novo pecado ético, ou seja, usar a Ética a seu modo para prosseguir nos ajustes institucionais que garantam a retomada pelos roustainguistas do comando da federativa. Os autores cobram explicações sobre assembleia realizada dias antes, quase na surdina, à socapa, para eleger os membros da Conselho Superior e promover mudanças estatutárias, sem obedecer a normalidade dos preceitos estabelecidos, com objetivos escusos como os de expurgar membros sem que eles próprios tomassem conhecimento senão após os atos da assembleia.

Estamos diante de um escândalo, mais um. Em situações como essa, costuma-se fechar em copas, estabelecer o silêncio com o fim de pôr uma pá de cal sobre o assunto, de deixar o tempo passar e o assunto cair no esquecimento. Mas também de escapar do dever de oferecer explicações convincentes para o ato.

O pensamento que está na base deste tipo de comportamento é mais ou menos assim: para atender os “desígnios superiores”, tudo é permitido, ou seja, por um bem maior todo mal menor será perdoado. É o velho chavão dos fins que justificam os meios.

A Feb deve explicações públicas para os atos públicos que toma, mas também para muitas coisas que decide e defende e que tocam nos destinos do movimento espírita. A Feb, contudo, como instituição do tipo autoritário, não vê necessidade de esclarecer sobre seus atos, talvez porque entende que deve explicações apenas aos espíritos que lhe “comunicaram” a missão de conduzir o rebanho.

Esclarecer e informar é sinal de fraqueza para aqueles que velam pelo trono de Ismael, que se dizem herdeiros de um mandato superior e colocam-se, dessa forma, acima dos juízos humanos. Tornaram-se, pois, sentinelas do templo e vivem preocupados com os possíveis usurpadores de uma luz que não é brilhante o bastante para clarear os subterrâneos da consciência.

Por seu turno, as Federativas estaduais, mesmo quando acuadas diante de situações semelhantes e sofrer visíveis prejuízos, preferem respeitar o silêncio obsequioso de sua líder, sob o falso entendimento de que qualquer ação mais incisiva na defesa de seus direitos vai gerar instabilidade e desunião. E pensar que a estabilidade existente se assenta sobre a ética que atende a ótica dos interesses particulares, mesquinhos, a gerar uma união de papel.

Em tempos de cobrança social pela transparência na administração pública, a Feb é o exemplo mais bem-acabado de uma opacidade estarrecedora enquanto instituição de um movimento cuja doutrina defende a ética da imortalidade. Talvez tenha razão Roustaing ao anunciar na sua obscura obra que a Igreja Católica retomará no futuro o comando dos destinos humanos, a julgar pelos apelos e pelas declarações dadas pelo seu principal mandatário, o Papa Francisco, incisivas, corajosas, capazes de fazer corar aqueles que são portadores de uma doutrina mais avançada e por isso deveriam encabeçar a lista dos homens comprometidos com o bem comum.

Espiritismo livre só para homens livres. O resto é mordaça.

Inovação, ocupação parcial de espaço ou simplesmente um novo rótulo?

A propósito de um artigo do meu amigo Cesar Perri, intitulado “Congresso dos 70 anos da USE – Inovação das “rodas de conversa”, que foi posto ontem, 21 de junho de 2017, em circulação na rede digital, volto ao assunto que já externei aqui, em março de 2016, quando a notícia do evento circulou pela primeira vez e sobre a qual recebi opiniões e e-mails prós e contra. Perri refere-se ao espaço denominado Roda de Conversa, para o qual a coordenação do congresso destinou quatro horas divididas em dois períodos de duas horas cada, sendo três temas a serem debatidos simultaneamente em cada período e a mesa contando com um moderador e dois debatedores, conforme programação já divulgada. A questão colocada é, de um lado, se isso de fato é inovação e, de outro, se atende às reclamações justas por espaço de livre manifestação do pensamento, a exemplo do que ocorre nos congressos onde o conhecimento é colocado como meta principal?

O título dado a este “novo” espaço é bonito – Rodas de Conversa – mas é preciso convir que tal título é apenas outro rótulo (mais…)