Mês: outubro 2016

Um convite para o futuro

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O flash e a imagem, ou divulgar nem sempre comunica com eficiência

A palavra evangelizar, por exemplo, não está presente no dicionário das obras básicas, sequer tem acento em O Evangelho segundo o Espiritismo, o livro de cunho moral em que Kardec estuda os ensinos de Jesus. Foi a divulgação que consagrou o termo evangelizar no espiritismo brasileiro.

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Esta série de imagens utilizadas na evangelização infantil espírita oferece uma boa ideia da centralidade do Evangelho nesta atividade e de como os espíritas entenderam o que deveria prevalecer enquanto atividade educadora.

Não muito tempo atrás, o estudo do uso do termo divulgar como sinônimo de comunicar causou furor e descontentamento nos meios abradeanos[i]. Sem ilusão e indo direto ao ponto: causou verdadeira divisão e teve consequências que até hoje se vê presentes. Teóricos da comunicação defendiam que a palavra divulgar não contempla o cerne da comunicação, ou seja, a possibilidade de diálogo como meio para o entendimento nas relações comunicativas que os espíritas pretendem estabelecer com a sociedade. Os práticos da comunicação entendiam, como ainda entendem, que a divulgação basta a si mesma.

E assim é. Divulgar está mais para o monólogo, como ação de convencimento do outro, de conquista de mentes e corações e, por que não, do proselitismo. Comunicar, pelo contrário, implica dialogar, ouvir, criar consciência, desenvolver pela reflexão a capacidade crítica e permitir-se despojar do sentimento de propriedade da verdade.

A divulgação está para o flash da câmera fotográfica assim como a imagem está para a comunicação. Ou seja, a imagem implica o diálogo enquanto que o flash apenas clareia a imagem.

Por exemplo. Uma ação publicitária mais do que comunicar pretende divulgar. A mensagem aí se vale de dois elementos completamente nocivos à comunicação dialógica se empregados como finalidade, ou seja, sedução e a persuasão. Por isso mesmo, a possibilidade de diálogo numa mensagem publicitária é zero, mesmo que ela se utilize de argumentos que aparentemente valorizem o diálogo e lhe dê foro de superioridade. A força da mensagem publicitária está na sua capacidade de persuadir e seduzir para o consumo, única verdade que lhe interessa.

No fundo é o seguinte: todo conhecimento só alcança verdadeiro efeito se construído pelo diálogo. O contrário também é verdadeiro: nenhum conhecimento será fundamentado somente pela divulgação. A divulgação não comunica, apenas informa sobre a existência do conhecimento. No entanto, se a divulgação se utiliza do elemento persuasivo, como no modelo publicitário, mais do que informar pretende convencer, mas o convencimento sem o diálogo é o caminho para a crença cega. Daí o confronto inevitável com a razão espírita.

Tomemos o termo evangelizar para reflexão. Trata-se de uma palavra que não tem presença na obra de Allan Kardec e aparece em toda ela uma única vez, na Revista Espírita de março de 1861, como menção ao trabalho dos missionários católicos junto às tribos indígenas. No entanto, o termo ganhou terreno no espiritismo brasileiro de tal modo que está presente na maioria dos centros e federações espíritas. Onde está a causa disso? Na divulgação intensa de seu emprego como expressão significativa da ação espírita junto à infância. Neste caso, a divulgação funcionou como a anticomunicação, ou seja, houve um convencimento altamente persuasivo de que evangelizar é uma ação imediata, necessária e urgente, e para designar tal ação emprega-se o substantivo evangelização.

Assim, quando se divulga o trabalho de educação infantil de um determinado centro espírita empregando-se a expressão Evangelização Infantil, ficam implicadas várias significações e a primeira delas é que a evangelização se assemelha àquela executada pelos jesuítas junto às tribos indígenas, com a diferença de que agora o livro base é O Evangelho segundo o Espiritismo. Um segundo significado é o de esconder uma verdade indiscutível: O Evangelho segundo o Espiritismo não existe fora de O livro dos Espíritos. Atribuir a ele, isoladamente, a função educadora pode significar, junto ao público-alvo, que o livro possui uma espécie de capacidade mágica de resolver o problema da educação do ser humano.

Se, em lugar de divulgar, houvesse a intenção de comunicar, provavelmente o termo evangelizar teria sido substituído por outro, que melhor expressasse esta ação de educar as crianças segundo as noções espíritas da vida. E foi este sentido que, intencionalmente, levou Kardec a abdicar deste e de outros termos para melhor comunicar a nova doutrina que entregou ao mundo.

De uma coisa se está certo: a divulgação não consegue ultrapassar os limites do simbólico, só a comunicação tem esse poder. É o símbolo que age persuasivamente, ferindo e marcando o público que pouco ou nada sabe sobre determinado conhecimento. Por isso, muita gente se coloca no campo da divulgação de crenças, utilizando interpretações particulares dos símbolos que lhe foram oferecidos, sem perceber a extensão real de suas ações e ilusões.

Entre as noções básicas da comunicação está a do emprego de termos em seu significado claro, preciso, de modo a não permitir confusões de sentido e dar à mensagem a objetividade necessária. O uso de palavras devastadas por muitos sentidos para designar um conhecimento novo implica em imensas dificuldades, às vezes intransponíveis, para informar e comunicar esse conhecimento. No meio do caminho se encontram as confusões entre os sentidos consagrados e os novos significados, que a boa comunicação evitaria com naturalidade.

Não se pode negar que houve um intenso trabalho de convencimento dos espíritas para o emprego do termo evangelizar, convencimento que estava atrelado à noção de que a ação por si só justificava o uso dessa palavra, mas que, no fundo, derivava da cultura herdada de velhas tradições religiosas.

Junto ao termo evangelizar se encontram outros, com semelhante situação, tais como templo, céu, inferno, umbral, alma, anjos, demônios etc., a depender de clareza conceitual sempre que empregados.

Recordando, quando das disputas estabelecidas pelos teóricos da comunicação da Abrade entre comunicar e divulgar, restou no final a incerteza e um imenso vazio. Os teóricos, sempre muito atrevidos, ficaram sem espaço e os práticos, na defesa insana da divulgação, ficaram sem a comunicação. O traço que existe entre os dois lados hoje não é de união, senão de separação e separação atada a uma cruel eternidade em sua duração.

[i] Refiro-me aos membros da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (Abrade).

Me dá algo para ver. E também para tocar

A experiência fundamenta o saber, mas o tempo que se perde na prisão dos sentidos retarda seus efeitos benéficos.

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A história de Tomé e sua incredulidade simboliza ainda hoje a do ser humano sequioso da segurança psicológica, aquele que age como quem tem a posse da percepção pelo olhar e o tato, pelos quais pode conhecer e decidir sobre sua relação com o mundo. Quer não apenas ver com os olhos, mas também com os dedos, as mãos e mais aonde o sentido tátil alcança, sem viver a experiência direta no mais das vezes, mas encontrar prontas imagens e coisas e servir-se destas oferendas de outrem, em quem depositam total confiança.

Não se pode negar que há um princípio de razão e ciência no ser que não se conforma com a informação, a lógica e a crença compartilhada por outrem. Porém, se este princípio aí está, está na sua forma latente no mais das vezes, pois o que move o ser que deseja crer apenas depois do ver e tatear quando dominado pela busca do consolo que estabilize, mesmo que aparentemente ou provisoriamente, o seu equilíbrio psicológico, é muito mais dar-se uma resposta que assegure as decisões a tomar do que propriamente o agir racional, cientifico.

A doutrina espírita, na forma como Kardec a apresenta, oferece ao olhar um mundo de imagens para ver e a matéria em toda a sua extensão para tocar. O corpo é e está em contato com a matéria e os sentidos visuais permitem a percepção daquilo que ocorre ou é oferecido à retina. Essa doutrina, porém, formaliza uma ação racional para embasamento do que se vê e se toca, com suas explicações sobre as causas e os efeitos, as origens e as finalidades, as estruturas fundamentais da matéria e do espírito, como a dizer que os sentidos presentes no corpo precisam do direcionamento da razão e do agir científico desde as coisas mais simples até as complexas.

Mas a doutrina nem sempre é disponibilizada em seu quadro geral, com suas partes integradas. As lideranças espíritas, o mais das vezes, têm feito opção pelas partes da totalidade que mais lhes tocam, com escolhas que recaem preponderantemente sobre aquilo que responde aos sentidos imediatos, aí centralizando as atenções na duração que domina o tempo e não dá, também no mais das vezes, oportunidade para complementar o agir consolador com os fundamentos racionais da vida. Oferecem nossas lideranças as imagens para o olhar e a matéria para o toque, valorizando um crer com pouca ciência, ou com a oferta de razões repetitivas a partir de um discurso autoritário, centrado num compartimento específico onde se alojam causas e razões parciais, que passam a dominantes, como se a totalidade ali se encontrasse.

O discurso autoritário substitui o discurso libertário; aquele porque se mostra de mais fácil aplicação, pois dispensa razões extensas, que demandam a posse de conhecimentos amplos da doutrina; já o discurso libertador, que integra a razão espírita e se apoia na experiência que o ser humano pode escolher – e escolhe, quando livre –  como forma única de progredir, este discurso é negado nas práxis do cotidiano, seja por preguiça, seja por opção enganosa das lideranças.

O sentido consolador, na sua face mais imediatista, assume o controle dos discursos e das oferendas feitas ao olhar e ao toque, de modo tal que as mudanças, que só podem ocorrer de fato quando a compreensão abastece a consciência, ficam premidas pela percepção das respostas mágicas, das soluções aparentes, dos sentimentos superficiais, a embalar mitos, fantasias e desejos irrealizáveis. Passa-se do convite ao saber que liberta, assim oferecido pela doutrina, ao crer que mantém a ignorância mas consola os corações em descompasso com promessas de futuro embebidas no pano da ingenuidade.

Jesus, o homem, que o Espiritismo recolocou acima dos milagres e em consonância com a natureza, é de novo elevado ao monte das oliveiras dos sonhos e ali volta a ser adorado, na medida exata da exaltação pelo nome, como se o crer por acreditar fosse suficiente para conduzir o ser a atingir suas metas evolutivas. Novos andores foram concebidos para colocar sobre eles os santos que a massa passou a admirar e a incluir nos seus rosários sem contas, alimentando-se, pois, de suas capacidades de garantir o futuro. São os Bezerras, Chicos e outros tantos, que tomam o tempo e o espaço no SOS dos perigos que a vida teima em apresentar.

Os olhos, sem o embasamento do saber, são incapazes de superar a ilusão intrínseca das imagens naturais ou culturais. Não à toa Kardec chama a atenção para os perigos da vidência enquanto fenômeno mediúnico, alertado por seus sentidos de que o imaginário é pródigo em produzir efeitos aparentes e confundi-los com a realidade que foge aos sentidos comuns. A solução para a interpretação das imagens está na palavra e a palavra é o verbo em suas diversas e diferentes conjugações. Os olhos podem, assim, ser a porta da percepção da natureza ou a entrada para o autoengano.

A seu turno, o tato não vai além das propriedades aparentes da matéria e sua função mais precisa está em complementar aquilo de que o saber se apropriou. O que foi armazenado no cérebro é o que vai direcionar no seu emprego. Portanto, a carência de conhecimento implica na percepção incompleta quando não também ilusória.

As lideranças espíritas têm duas opções para o desempenho de seus compromissos: fomentar o conhecimento racional, resultado de uma base teórica e da experiência na vida, para sustentar o sentimento, as emoções e seus efeitos, aí incluídas as virtudes todas, ou estimular a permanência do ser que acorre aos recintos dos centros espíritas na sustentação das ilusões, oferecendo-lhes apenas o consolo que dura somente o curto tempo que intermedeia o centro espírita e sua residência, onde, de volta à realidade do mundo da vida, ninguém consegue fugir das escolhas e das decisões a serem tomadas.

No primeiro caso, trata-se de optar pelo discurso da liberdade, base do verdadeiro amor, e no segundo, pelo discurso de autoridade, base da dominação.