Mês: junho 2016

O espírito da liberdade e a liberdade sem espírito

A essência da liberdade é a essência afetiva do bem e da justiça. Tudo o mais é liberdade sem espírito.

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Onde a liberdade do outro é por nós cerceada é um pouco da nossa liberdade que o é.

É absolutamente impensável adotar os princípios espíritas como base teórica do pensamento e não considerar o alto conceito de liberdade de que são dotados esses princípios. Esclarecendo, é impensável do ponto de vista da coerência, da lógica e das práticas no mundo da vida. A Liberdade – não a palavra, pois como se sabe nenhuma palavra tem relação direta com o seu objeto – é o bem maior, o fruto mais expressivo das leis da natureza e aquele que está na base da justiça e do progresso individual do ser humano.

Ser livre é respeitar, sempre. Não é apenas associar a uma doutrina, ideologia ou grupo social, família, partido ou clube esportivo. Nem mesmo manter ou deixar de manter ligação afetiva com as correntes de pensamento, sempre numerosas, dentro das associações, quando aquelas correntes se distanciam de nossas crenças. O respeito é laço, mas não prisão; oportunidade, mas não subserviência, forma de estar sem ser, em suma, concepção de liberdade e liberdade de manter concepções.

No discurso da liberdade, a teoria tem ocupado lugar precioso, mas não definitivo. Este só ocorre quando a teoria desce ao terreno das relações humanas e provoca ações simétricas, ou seja, se transforma em bem saber fazer bem, fazer saber, saber fazer. No estágio teórico, a liberdade é letra, no estágio completo a liberdade é o estado do bem, onde o que não é bem não é nada, não se consuma, não encontra espaço.

Ainda no plano teórico, a liberdade é um bem de que se tem posse quando se habita o plano humano. Ter liberdade não é ser livre, mas ter possibilidade de exercer o ato da escolha na relatividade do ser. E não há contradição quando a escolha recai na decisão de estar entre iguais e contrários ao mesmo tempo, pois é a lei natural que coloca o ser entre seus iguais e contrários como base do exercício do livre arbítrio. A tendência do ser é fugir dos contrários e estar entre os iguais, mas a plenitude possível da liberdade não se realiza quando se está apenas entre os iguais, onde a lei natural é parcialmente obstada.

O exercício da liberdade em seu estágio superior é um sofrimento atroz para aqueles que ainda precisam desse exercício para ampliar a própria liberdade. O ser e o estar contrário que ao outro satisfaz é o desafio da própria liberdade individual, pois provoca reações pouco afetivas, que não raro agridem a liberdade enquanto direito do outro. A administração das emoções quando o outro é o nosso contrário não é perda de parte da liberdade, mas desejo de mais liberdade, pois onde a liberdade do outro é por nós cerceada é um pouco da nossa liberdade que o é. Sentimentos mesquinhos, como ódios, são laços afetivos que mutilam duas liberdades: a minha e a do outro. Desfazer esses laços é aumentar a afetividade e conquistar mais poder de liberdade.

Estar entre iguais e contrários ao mesmo tempo é escolha quando se compreende que é o aspecto mais sábio da lei natural, pois podemos estar entre iguais e contrários sem que seja da nossa escolha ali estar, mas da lei que ali nos coloca. Pode-se saber estar e utilizar da liberdade para decidir estar com vistas a saber fazer saber querer, pois em minha liberdade de decidir eu posso dizer que quero para saber fazer a mim mesmo querer. Aí, a liberdade do mundo da vida, onde o ser resulta do fazer, que é sofrimento a princípio e felicidade como fim.

Estar entre os iguais também leva à descoberta de que se está entre os contrários ao mesmo tempo, pois os iguais se mostram diferentes quando pensam e decidem por coisas que, mesmo que surpreendam, estão no seu poder de decidir. A descoberta da liberdade de pensar como liberdade indominável e incontrolável é a confirmação de que o outro, que nos parece igual a nós, não deseja ceder naquilo que é o único bem que não se pode tirar a ninguém e, assim, sente-se diferente sem que a diferença divida e separe naquele instante.

Aquilo que une é aquilo que também separa. A desigualdade é a essência da igualdade que somente o ser livre pode compreender. Por isso mesmo, a liberdade é o respeito às diferenças no plano da justiça e do bem, onde o que o outro é, é porque é livre no seu direito de ser e decidir. A liberdade está para a justiça assim como o bem está para a liberdade. É na afetividade que o bem se concretiza, assim como a justiça. A essência da liberdade é a essência afetiva do bem e da justiça. Tudo o mais é liberdade sem espírito.

***

Com as reflexões acima, presto minha homenagem a uma pessoa que muito admiro, literalmente dedicada à liberdade, à justiça e ao bem: Jacira Jacinto da Silva, que acaba de ser eleita para presidência da Cepa, um espaço onde a liberdade, com todos os seus empenhos desempenhos, continua modelar num mundo ocupado em diminuí-la.

A audácia de Kardec e a atrofia dos nossos tempos

A consciência que tarda é a lacuna que permite e convida à permanência do velho.

A ideia nova precisa da palavra adequada.
A ideia nova precisa da palavra adequada.

A teimosia, ao lado de outros fatores como a preguiça intelectual e o orgulho prepotente, marca as ações de muitas lideranças do Espiritismo brasileiro. A mudança está no cerne do progresso do homem e onde não há a presença da mudança, há ausência de progresso. Mudar, já diziam os gregos, é o que justifica a permanência. No Espiritismo aprende-se que a vida se constitui de mutabilidade e de imutabilidade, assim como compreendia, também, Saussure no campo da linguística. As leis naturais são imutáveis, mas a natureza e tudo o mais são mutáveis, com o homem no centro das ações a impulsionar o progresso.

A considerar os tempos de Kardec, este terá sido de uma coragem imensa ao assumir a condução de um processo fadado a atrair forças contrárias de grande poder, e ao mesmo tempo a derrubar barreiras tão grandes quanto nos átrios das igrejas e nos depósitos do saber.

No entanto, a comparar a apatia que assola nossos tempos e as lideranças espíritas de forma geral, Kardec terá sido audacioso quando resolve adotar uma nova nomenclatura para a doutrina em gestação. Escolheu o termo Espiritismo, que, ao que se sabe, já estava presente em pelo menos um dicionário inglês, mas não tinha emprego corrente e não sofria da polissemia que costuma assolar as palavras depois de muito utilizadas, sob a lógica do próprio sentido daquilo que tinha em mãos. Para novas coisas, novos termos, diria.

Entendia Kardec, como entendem os homens dotados de saber, que as descobertas, as invenções, as tecnologias, as doutrinas, os conhecimentos quando amadurecidos pelos estudos e as pesquisas carecem de palavras específicas para se apresentar, cujo sentido seja o mais claro possível e, por consequência, de menor polissemia para que a consciência sobre e deles não pese senão na sua medida exata. Kardec fugiu do termo espiritualismo exatamente pela imensa quantidade de significados que compreendia e dotou sua doutrina do termo Espiritismo, ao adepto denominou espírita, o corpo espiritual chamou de perispírito e por essa trilha seguiu até o fim.

Ninguém de bom-senso poderia exigir que a sociedade humana tomasse o Espiritismo por sua doutrina, mas, efetivamente, ninguém que ouve o termo que identifica essa doutrina o confunde com outra, senão quando preso nas redes da ignorância ou quando atado à corrente da desonestidade.

A providência de Kardec na adoção dos novos termos o levaria a esperar que o mesmo procedimento fosse adotado por seus pósteros enquanto líderes dessa doutrina? Sem dúvida, essa é a lógica do pensamento fundador e está explicitada na ideia básica do progresso. Entretanto, mesmo que o fundador não se expressasse a respeito, a força interna dos novos conhecimentos conduz por si mesma à busca de palavras, novas ou de menor uso, para dar sentido às ideias que são colocadas e evitar as confusões prejudiciais dos significados diversos, especialmente no âmbito do senso comum.

O ser humano, vale repisar, vive da e na linguagem, ou seja, existe na linguagem e não sobrevive fora dela. Toda comunicação se faz pela linguagem e, embora não se possa alcançar uma comunicação com absoluta precisão, pode-se comunicar com alto grau de precisão, especialmente quando se cuida de cercar a mensagem de clareza de modo a evitar a multiplicidade de sentidos.

A doutrina, por seus inúmeros pilares, toca mais ou menos em grande parte dos conhecimentos humanos, e por o fazer conduz a mudanças continuamente, mudanças no viés da compreensão, ou seja, da consciência sobre a coisa, e mudanças nas formas de expressão para identificar tais coisas e sua relação com as novas ideias sobre elas mesmas. Assim, a adoção ou manutenção de velhas formas de expressão para designar as novas ideias não só facilita a confusão dos sentidos como impede que o processo de mudança se dê na velocidade necessária. Sem dizer que é terrível estultice manter antigas palavras de sentidos variados para designar as novas ideias, que alteram todos aqueles sentidos acumulados. O mesmo se pode dizer das palavras dominadas por um determinado sentido construído historicamente, de tal forma que absolutamente não conseguem designar outra, senão a ideia que a domina.

Grande parte das lideranças espíritas é preguiçosa, ou demasiado orgulhosa, quando se trata de mudar para melhorar. E se essas lideranças agem dessa forma, o que não esperar daqueles que são por elas conduzidos? Por razões como essa, proliferam e reproduzem-se termos carcomidos pelo tempo, com significado dominante não raro, e por isso mesmo impróprios para as novas ideias, expressões como: evangelizar, doutrinar, culto, templo, céu e tantas outras.

Aqui se faz o “culto do evangelho no lar”, ali a “doutrinação de espíritos”, acolá a “evangelização infantil” e assim por diante. Na esteira dessas adoções inapropriadas, surgem termos que acabam vendo suas ideias originais naufragar no mar dos significados das palavras que vieram substituir, como ocorre com “umbral”, empregado para substituir “inferno” quando seu significado é portador de ideia completamente inversa. O mesmo ocorre com “Nosso Lar”, quando utilizado como sinônimo de “céu”, “água fluídica” em lugar de “água benta”, numa lista imensa de inconsequências linguísticas.

Se o verbo doutrinar em seu significado semântico indica o ato ou ação de instruir sobre determinada doutrina, é certo que também na polissemia dos sentidos em que se insere revela o ato de impor ideias em detrimento de outras, numa ação que se aproxima da tão combatida ideia kardequiana de condenação do proselitismo. Dirigentes malformados não apenas se conduzem autoritariamente nos momentos de contato afetivo com os espíritos em situação de atraso ou desespero, como lhes nega o direito do diálogo ao estabelecer exigências impossíveis de serem atendidas por eles. E agem como detentores prepotentes da verdade, numa ação “doutrinadora” inoportuna e ineficiente.

Já o verbo evangelizar possui no seu sentido o significado de converter para sua crença utilizando os Evangelhos, o que não só pode se constituir em proselitismo, como, ainda e pior, assumir uma inversão de valores de tal ordem que o “Evangelho segundo o Espiritismo” passa a ser o “Espiritismo segundo o Evangelho”, eliminando-se, assim, o conteúdo espírita que pretende dar conta do ensino moral de Jesus. Sem este conteúdo, o Evangelho volta a ser letra morta em sua generalidade. Empregado por largos séculos e escala pela Igreja, em sua ação catequizadora, o ato de evangelizar mantém-se, predominantemente, no seu significado menos interessante para as novas ideias que o Espiritismo apresenta.

O substantivo culto indica claramente o ato de adoração ritualística da divindade, ideia desde sempre combatida pelo Espiritismo, por seus argumentos e a lógica interna deles, de modo que o seu emprego na denominação de atividades, seja nos estudos particulares, seja em reuniões em centros espíritas é não apenas sinal de mau gosto, mas de total despreparo para a ação de comunicar o Espiritismo.

O “imenso esforço de igrejificar o Espiritismo”, tão alertado por Herculano Pires tem merecido o desprezo de muitas lideranças, exatamente pelo fato de ser mais fácil manter o velho e roto tecido religioso do passado que trabalhar para que a doutrina se insira, realmente, na sociedade como um corpo capaz de contribuir para uma mudança cultural sem precedentes no mundo.

Chico Xavier e o desafio do discurso biográfico

Onde se situa o mito e onde está o dever de retratar o Homem?

Chico Xavier e o livreiro Stig Roland Ibsen
Chico Xavier e o livreiro Stig Roland Ibsen

Publicado originalmente no blog da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita, ABPE (clique para ler)


Alguns leitores demonstram incômodo diante dos retratos de Chico Xavier feitos pelas câmaras escuras dos seus biógrafos, indagando – e até culpando – esses biógrafos pela ausência da visão realista do ser humano existencial, prevalecendo muitas vezes a visão mítica que coloca o médium num pedestal distante e, consequentemente, o distancia do homem que ele foi. Se é certo que cada cabeça é uma sentença, os autores atuais e futuros da vida de Chico Xavier devem ser analisados na sua autonomia e objetivos; e só a partir daí sentenciados.

O discurso biográfico gera sempre discussões diante da percepção de cada leitor e não raras vezes aparece pleno de ambiguidades e contradições, tais como são as vidas dos próprios seres humanos. Há uma questão de resolução extremamente difícil nestes discursos, especialmente quando o pragmatismo não se mostra operativo no autor. Trata-se de decidir sobre quanto a realidade perceptível do homem enquanto ser contraditório deve receber os traços mais fortes. Quando se trata de personalidades do destaque de Chico Xavier essa questão aumenta exponencialmente.

Alguns exemplos servem de comparação. Ao pesquisarmos a vida de Cairbar Schutel[1] para o livro “O Bandeirante do Espiritismo”, que lançamos no IX Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, em 1986, Eduardo Monteiro e eu nos deparamos com momentos de grande angústia e, por que não, de questionamentos ante fatos de sua vida que poderiam alterar parcialmente a imagem geral que dele sempre foi veiculada. O pragmatismo que nos movia era o da verdade, que se coloca acima de qualquer óbice, mas, confesso, havia momentos em que isso não era suficiente, seja porque certas evidências não podiam ser comprovadas, seja porque havia do outro lado aqueles que defendiam não ser verdade o que nos parecia ter ocorrido.

No caso da biografia de outro espírita bastante conhecido no Sudeste brasileiro, Pedro de Camargo, o Vinicius[2], o dilema não se deveu a nós, os autores, mas a familiares do biografado, que não desejavam um discurso sem um forte conteúdo emocional, do qual procurávamos nos afastar. A biografia ficou estacionada por alguns anos, até que decidimos concluí-la apesar das deficiências por falta de parte das informações, que nos foram sonegadas.

Até que ponto o realismo não torna o discurso biográfico frio e pouco atrativo? Ou é o contrário? Qual é o limite entre a dura realidade do cotidiano dos seres humanos, em que se colocam no jogo existencial com suas virtudes e deficiências, ao mesmo tempo em que se mostram capazes de realizações extraordinárias? A fotografia nua e crua de seus momentos turvos deve conviver com as imagens coloridas de suas conquistas admiráveis? Se sim, em que medida?

Quando se trata de personagens conhecidas publicamente por suas proezas e suas mazelas, as biografias encontram um tipo de liberdade discursiva que nem sempre é bem vista quando o indivíduo retratado obteve o reconhecimento social por ações que marcam o sentimento, elevando-o a uma condição mitológica. Chico Xavier encontra-se certamente entre estes. Sua vida e sua obra, indissociáveis, não podem ser retratadas sem as cores das belas imagens e o preto e branco da realidade humana, mas é neste momento que o dilema se acentua. Tratado por uns como santo e por outros como infalível, posicionado na escala dos espíritos superiores por mais alguns, Chico tornou-se uma personalidade inalcançável de tal modo que praticamente tornou impossível representar com os toques da realidade sua dimensão humana.

O terreno aí é bastante pedregoso. Adversários de sua obra não aceitam o valor que admiradores lhe atribuem por conta do homem premido pelas exigências do corpo e do meio, que inevitavelmente exercem suas influências e contribuem para ações que deveriam ser vistas com naturalidade, mas não o são, pelo menos em tipos como Chico Xavier. Que outros se comportem por padrões menores é aceitável, mas aqueles que se elevam com feitos pouco comuns, não. Estes têm a obrigação de serem incomuns em tudo.

De outro lado, os admiradores fervorosos do médium costumam tornarem-se surdos aos comportamentos comuns aos seres humanos que o médium demonstrava, preferindo atribuir isto à falta de honestidade daqueles que desejam somente diminuir sua obra com acusações sem prova.

Com isso, constroem-se duas imagens ambíguas: de um lado, a do médium e obra perfeitos e, de outro, a do médium e obra condenáveis. Ambas padecem da falta dessa coerência que solicita a compreensão profunda da dimensão humana para lhe atribuir o valor devido. O ser humano não é o espírito ou o corpo, mas a fusão de ambos, o que o leva a existir no agora, sob a influência das experiências de vidas anteriores e das exigências naturais do mundo físico de agora. Para alcançar realizações expressivas, o ser dual se esforça e sofre, dividindo sua existência entre momentos de grandezas e de fraquezas, premido por uma realidade que o leva a fazer escolhas de experiências a vivenciar. Quando os desejos mais simples não alcançam seu termo, a decepção e a tristeza; quando a obra se projeta vigorosamente no futuro, a felicidade. O homem sonha, o médium age, mas o sonho e a ação mediúnica não estão necessariamente simétricos. Os sonhos estão ligados à dimensão humana do ser, enquanto a ação mediúnica se relaciona ao compromisso livremente assumido. O médium não imagina que deve deixar de ser homem e este não deseja que apenas o médium prepondere. Os conflitos que dessa dualidade surgem não costumam ser bem compreendidos nem pelos adversários nem pelos admiradores, quando deveriam representar apenas a realidade do ser.

Tratado na condição de mito, Chico se distancia do homem; visto somente na sua condição humana, Chico se afasta do médium. Apesar disso, o médium é o homem, o homem é o médium, associação esta que se deu desde o berço e não em um determinado ponto da existência do homem, nem de forma aleatória ou ocasional. Para se entender o médium, requisita-se a dimensão humana, da mesma maneira que, no caso de Chico, para entender o homem faz-se necessária e dimensão mediúnica.

O médium que Chico foi era o espirito no corpo, fundidos, cérebro e memória espiritual conjugados na ação de interpretar os seres invisíveis no momento afetivo da comunicação mediúnica. Nesse instante sublime, o homem não abandona sua condição humana para realizar a ação mediadora, antes, utiliza-a ou coloca-a à disposição do emissor invisível. Kardec descortina essa realidade e a reforça, clamando por uma compreensão capaz de auxiliar no julgamento do produto mediúnico, a mensagem. O médium no corpo é o ser no mundo, necessário ao comunicante, pelo qual este vislumbra a possibilidade de intervir e participar objetivamente deste mundo. O médium no corpo é o ser na matéria, de quem o espírito precisa para suas intervenções aqui, no planeta, desde o lugar invisível em que se encontra.

A rigor, o biógrafo não deveria enfrentar o dilema de um retrato em preto e branco ou somente em cores, porque, assim como as fotografias têm em sua gênese um período em preto e branco e em sua história outro em cores, as vidas humanas também têm. Pelo menos aqui no planeta onde o maior desafio é colorir o preto e branco das ações com os tons da experiência que embelezam a alma.

E o leitor? Bem, este aprenderá em algum momento que o ser no mundo é o espírito em busca da sua própria superação.


[1] Monteiro, E.C. & Garcia, W. Cairbar Schutel, o Bandeirante do Espiritismo, Ed. O Clarim, Matão, SP, 1986.

[2] Monteiro, E.C. & Garcia, W. Vinícius, educador de almas, Ed. EME, Capivari, SP, 1995.

A morte da liberdade é a morte do Homem

LiberdadeDe Leon Denis a Herculano Pires, a ideia de liberdade acompanha a do progresso ou do fracasso do Espiritismo enquanto movimento e vida. Ambos defendem que o futuro da doutrina se encontra nas mãos dos seres que a dirigem, pois é com a liberdade sagrada de pensar e agir que o homem põe e impõe sua direção.

A noção de liberdade que os dois filósofos ensinam nasce dos sulcos feitos na terra da reflexão espírita que Kardec desbravou, ao fazer surgir o espírito antecedente ao corpo e a este posterior. Estava ele contido nas nuvens tardias do nada e tornou-se, então, palpável a todos os olhares agudos. (mais…)