Mês: março 2016

Congressos espíritas: espaço público de conhecimento ou conhecimento público do espaço?

Há muito se sabe que os congressos espíritas, salvo raras exceções, se tornaram eventos muito mais para dar satisfação ao público da existência da doutrina do que para se tornar um espaço público de produção de conhecimento.

Nesse ponto, a história tem sido cruel com os espíritas. Se alguém deseja estudar, pesquisar e produzir ou o fará por sua própria conta e risco ou deverá desistir. As instituições espíritas, que se autoproclamaram coordenadoras do espaço público, sonegam em seus eventos qualquer possibilidade de apresentação de novos trabalhos, incorrendo em duro desestímulo para com os interessados.

A FEB, que se transformou na mais forte defensora da coordenação desse espaço público, tradicionalmente negou os congressos espíritas. (mais…)

Acordei otimista, a manhã

O forte ficou fraco, o grande, pequeno, e o alto abaixou-se, envergonhado.

Da linha do horizonte mirante, mirei.

Do alto e à distância o varejo desaparece, o verde sobreaquece e a paz, enfim.

Datada manhã, a manhã.

Daqui ninguém tem idade, nenhum corpo se movimenta e, no entanto, tudo segue.

Agora posso descer, devo, obrigo-me.

Dispenso o ar rarefeito, abro meu peito que ainda não tenho.

Sei do futuro que me espera e, num instante, já não saberei mais.

Apresso sem pressa o passo.

O trem apitou.

Acordei apreensivo, ontem

Às cinco e vinte e oito, o sol invadiu meu escritório e eu não compreendi nada. Absorto, a pensar com meus botões, (es)tava.

Coisas de velho, disse intrusa e terna voz.

De luz, dependia, e sol ela não era. Aquece, não esclarece.

Pensava em (ver)dade, na confusa tensão da (banali)dade que mais parece (mal)dade.

Idade, pode ser. Sinto frio, embora ao sol. Os velhos são assim, friorentos.

O momento é banal. Não o marcado pelo relógio. O momento, este hoje que parece de infindável duração.

Estar nele é conviver com o que vem com ele. Mas o que vem e ele conspiram na (des)lealdade. Pura (mal)dade.

Há sol, mas não brisa nem vento. Nenhuma folha lá fora balança.

Sem dúvida, faz frio.

Vou ao jardim regar a (fideli)dade. Ela tem sede…

Deolindo e os diversos espiritismos

Opinião*, a pílula do Dr. Ross do jornalismo espírita, republica em sua edição de jan./fev. 2016 interessante artigo do saudoso e respeitável Deolindo Amorim, intitulado “Desunião e divergência”. Ali está todo o espírito conciliador, dialógico e acima de tudo humanista do grande amigo baiano de nascimento e carioca por opção.

A essência do artigo está centrada na percepção de que as divergências não podem ser argumento para a desunião e o diálogo é o fundamento das relações humanas. Era o que fazia e vivia Deolindo.

O último parágrafo do texto deoliniano permite, contudo, exercer aquilo mesmo que transparece dos seus argumentos, isto é, divergir. Ali, Deolindo afirma que as divergências que estão no interior do movimento espírita desde o seu surgimento não quebraram a “unidade doutrinária, que é fundamental” (sic). (mais…)

Acordei triste ontem

A despeito do letreiro do botequim cheio de teia de aranha de minha cidade natal, que dizia: “chegou, pediu/ bebeu, cuspiu/ pagou, saiu/ tropeçou, caiu/ levantou, sumiu”.

Apesar da placa do antigo alfaiate que em 1965 avisava: “fiado só para maiores de 80 anos acompanhados dos pais”, tão boa quanto esta outra, que na quitanda alertava: “fiado só amanhã”.

A despeito e apesar, acordei triste.

O botequim fechou as portas, o querido alfaiate faleceu antes dos 80 e a quitanda foi engolida pelo supermercado.

Triste assim, pela simples razão de constatar que o nosso país varonil dá preferência a mais algumas décadas de moratória à obrigação cívica de construir já a Canaã da justiça, do amor e do bem.

Pelo que me conheço, amanhã meu animus retornará…