Mês: novembro 2015

De calma e de dor

 

Quem me acompanha já conhece o Sérgio e talvez esteja se perguntando por onde anda ele. Eu mesmo me fiz essa pergunta nos últimos meses. Imaginei que tivesse desistido das pendengas comigo, mas fui alcançado por uma preocupação: estará ele doente?

Então liguei.

Saí da rotina. Ele é quem sempre liga, mesmo que para atormentar-me com suas evasivas teorias do nada.

O sinal foi aquele: este aparelho está fora de área.

Desisti depois de algumas tentativas. Ele não. Quando ouvi o som do celular, era ele. Incrível, parecia que na foto dele sisudo havia um riso meio de canto de boca, irônico.

– Ha ha! Não aguentou muito tempo, não é?

Tive ímpetos de dizer: – seu canalha, mas contive-me. Resolvi dar o troco com mais ironia ainda.

– Está enganado. Completamente. Queria ligar para o meu cunhado em Manaus, que malgrado o sol também se chama Sérgio, mas liguei errado. Bom dia e até outra hora.

E desliguei.

Ele não se deu por rogado. Ligou novamente. E foi dizendo:

– Tá bom, não vou discutir essa sua desculpa gloriosamente inútil. O seu orgulho nem com mil supostas reencarnações vai ser consertado.

E desancou a falar.

– Você viu, aquele seu amigo lá da Saúde caiu feio. Parecia até bom moço, simpático, mas não aguentou.

E lá veio com sua pergunta maldosa.

– Por que os tais espíritos que vocês tanto admiram não avisaram a ele que a cama estava feita, que seria uma fria ele ir para lá?

Ponderar com Sérgio é inútil. Mas ponderei:

– E por que haveriam de avisar? Você por muito menos já me deixou sozinho inúmeras vezes…

– Uai, eles não sabem tudo? – falou com a mesma ironia.

– Não – respondi e acrescentei: quem sabe tudo é você.

– Agora você vai me agredir, é isto? – gaguejou.

– Olha aqui, se você quer discutir coisas do espírito faça o favor de ler aquele exemplar que lhe dei há muitos anos. Aquele que continua fechado e cheio de poeira na sua estante.

Houve um breve silêncio. Até pensei que Sérgio ia desligar. Se o fizesse não seria o Sérgio.

– Ora, ora, então você está irritado – retornou ele.

Dei uma gargalhada imensa e vi que ele se desconcertou. Então, finalizei:

– Vou resumir pela enésima vez. Os espíritos são como os amigos: se bons, respeitam-nos em nossas decisões, sem abandonar o desejo de sermos felizes em nossos projetos e as oportunidades de nos abraçarem. Se maus, querem que decidamos segundo sua vontade e nos abandonam quando não lhes damos atenção. Em qual das duas categorias você se coloca?

Sem demora, disse ele:

– Na primeira. E tenho dito.

Desligou.

Mediunidade de cura – Alto lá!

 

Confundir a prática mediúnica com a própria mediunidade não é de bom tom. O Espiritismo oferece um manual de conduta para a prática mediúnica e para além disso discorre sobre a importância da mediunidade no progresso humano.

João de Deus
De costas, o médium João de Deus em seu local de atividades.

A indignação que naturalmente toma de assalto qualquer pessoa de bem quando diante de um quadro de desumanidade, levou o amigo Jorge Hessen a repercutir a matéria publicada pela revista Veja/Brasília acerca do médium João de Deus, de Abadiânia, Goiás. Incisivo, Hessen ataca o uso indevido da mediunidade, especialmente para fins comerciais, de enriquecimento pessoal, no que é de uma objetividade indiscutível.

Para ler a matéria de Veja/Brasília siga este link. Quem desejar ler o texto de Hessen (recomendável) clique aqui.

Hessen não deixa passar nem certos fatos da vida pessoal do dito médium: João de Deus tem 11 filhos com 10 mulheres. Além disso, tem não um carro, mas uma verdadeira frota entre veículos nacionais e importados. E um faturamento extraordinário, junto com um patrimônio invejável.

Alguns espíritas andresistas hão de ficar avexados com estas revelações de cunho da vida pessoal das pessoas, mas não deveriam. Afinal, eles deixam de ser da vida privada para se tornarem públicos, uma vez que são auferidos à custa do público, enganado em sua boa-fé.

Onde eu discordo de Hessen?

Em alguns de seus argumentos e, especialmente, nos excessos que comete. Ele mesmo reconhece tais excessos, mas os mantém e os justifica apoiado em citações de Chico Xavier e Kardec.

Por que discordo de Hessen?

Como disse lá em cima, é preciso separar a mediunidade das práticas. Mediunidade é conquista evolutiva e prática mediúnica é experiência humana que o ser exercita bem ou não. É vida cotidiana.

Cito Hessen: “Por sérias razões, não apreciamos e sequer indicamos esse tipo de mediunidade, embora, excepcionalmente, acatemos os efeitos mediúnicos atingidos por alguns poucos médiuns humildes e honestos”.

Hessen reconhece os efeitos mediúnicos positivos obtidos por alguns poucos médiuns de cura, mas sua ideia sepulta esse tipo de mediunidade. Penso que deveria ser o contrário: deveria valorizar a mediunidade. O argumento mais simples para isso é o de que as práticas fora da boa ética não invalidam nem desmerecem o fenômeno mediúnico, como o mau médico não invalida a medicina e assim por diante.

A opinião do Chico entra no argumento do Hessen. Chico em entrevista de 1988 condena o uso de “objetos cortantes” por parte de médiuns não clínicos. É uma opinião de Chico, datada. O Chico da década de 1960 era admirador de Zé Arigó e não tinha à época essa opinião, o que não é tão importante também, porque as pessoas devem mesmo ter suas opiniões, senão se anulam.

Sendo opinião de Chico ou de outro, vale como opinião e não regra. A menos que se admita, por exemplo, como alguns imprudentes andam propagando, que Chico foi Kardec reencarnado e, portanto, sua opinião vale em dobro. Mas isso é o mais deslavado absurdo que o simples bom-senso rejeita.

E por lembrar Arigó, vem na esteira a enorme atenção que despertou nacional e internacionalmente com sua faca enferrujada. De cientistas e estudiosos, mas também do público. Não se pode dizer que o Espiritismo enquanto doutrina não teve ganhos aí. Teve porque é a única doutrina capaz de explicar com fatos e lógica o fenômeno mediúnico.

Hessen reforça seu argumento com a opinião de Emmanuel, que repreende Chico. Boa oportunidade para mostrar que Chico era humano e não um “santo dos nossos dias”, como escorregou o amigo Ranieri. Mas também de dizer que em tais circunstâncias, Emmanuel parece querer desacomodar Chico de sua cadeira de balanço, com uma sacudidela.

Ainda o Chico e o recado do Zé Arigó relembrado por Hessen. Chico diz que recusou a ajuda do conhecido médium e preferiu fazer a cirurgia de próstata pelos meios médicos convencionais, com bisturi, assepsia e anestesia. Ótimo. Foi sua escolha. Aliás, muitos antes e depois do Chico também fizeram idêntica escolha. A mediunidade prossegue.

É oportuno mencionar aqui a predição de Kardec. Disse ele que quando os médicos compreendessem o valor da mediunidade, a medicina ampliaria enormemente o seu poder curador. Kardec cria num futuro dos médicos-médiuns.

Hessen conclui a transcrição da negativa de Chico à oferta de auxilio mediúnico de Zé Arigó com a frase: “Por isso, o Espírito André Luiz advertiu para “aceitar o auxílio dos missionários e obreiros da medicina terrena, não exigindo proteção e responsabilidade exclusivos dos médicos desencarnados”. Esse por isso confunde, porque deixa no ar que houve um apoio de André Luiz à decisão do Chico de recusar o auxílio de Zé Arigó. Mas não. Vê-se que são coisas totalmente distintas, diferentes e distantes entre si. A ideia de André Luiz nada tem a ver com a cirurgia do Chico. Ficou mal.

Ficou mal também, em Hessen, duas coisas subsequentes.

Primeiro, quando coloca no mesmo balaio todos os médiuns de cura, de modo que todos eles devem ser condenados como embusteiros. Ou seja, não há exceção alguma. Nem para os espíritos que agem por esses médiuns (que, aliás, recebem de Hessen um choque de ironia por ostentarem nomes alemães ou hindus). Isso é contraditório, pois Hessen havia dito anteriormente que alguns poucos obtinham resultados positivos.

Segundo, ao transcrever mais uma vez André Luiz tirando-o do seu contexto e aplicando-o inadvertidamente a outro contexto. Eis a frase: “aproveitar a moléstia como período de lições, sobretudo como tempo de aplicação de valores alusivos à convicção religiosa. A enfermidade pode ser considerada por termômetro da fé”. Se André Luiz aqui tem um propósito outro não é que de consolação com uma base racional. Seja paciente, tire proveito de algo de que não tem solução à vista. Algo como não há mal que não venha para bem. Fora isso, o doente tem o direito e o dever de lutar pela cura, mesmo que o último recurso seja o educativo.

Ao reconhecer seu excesso, Hessen se vale de Kardec para justificá-lo. Eis a frase do codificador: “vale mais pecar por excesso de prudência do que por excesso de confiança”. A frase está fora do contexto. Kardec trata de espíritas meticulosos que vasculham tudo o que dizem espíritos mentirosos, a fim de não serem enganados. E nesse caso, diz Kardec, vale ser excessivo na prudência.

Creio que em se tratando de mediunidade como matéria do conhecimento espírita precisamos de outro tipo de cautela. Há excessos, descuidos e excentricidades germinando nos meios espíritas por conta de preconceitos e, em larga escala, por conta da ignorância que um bom estudo eliminaria.

Quando não se quer educar, proíbe-se. É mais fácil.

Há entre nós quem acredita e propaga que não precisamos mais dos espíritos. Já temos tudo o que necessitamos, dizem. Pregam, assim, um Espiritismo sem espíritos e, por decorrência, decretam o fim da mediunidade. E não se acanham de dizer que este é o nosso futuro. Já não sei se são néscios ou loucos.

Há centro espíritas que decretaram: médiuns de cura, seja de que tipo forem, aqui não têm vez. E levam isso a sério. Jogam-nos na rua quando surge algum na sua mesa mediúnica. Contribuem, assim, para que a obsessão se amplie.

Outros dão atenção apenas a dois tipos de mediunidade: psicografia e psicofonia. São, acreditam, tipos “limpos” de mediunidade, superiores. Têm parte da culpa pela profusão de romances mediúnicos que às centenas são lançados no mercado, de baixíssima qualidade.

Os médiuns interesseiros, desonestos, aproveitadores, enganadores devem ser denunciados. A mediunidade, contudo, deve ser preservada. Kardec, ao seu tempo, já os enfrentava. Alguns mostraram em presença dele provas evidentes da sobrevivência da alma. Para, em seguida e distantes, claudicarem vergonhosamente.

Se catalogarmos apenas os médiuns imaculados não precisaremos de muitas páginas.

Os maus profissionais se misturam com os bons. Às vezes, dão a impressão de serem fragorosa maioria. Nem por isso os seres humanos devem ser condenados à escuridão da noite. Os médicos recebem seu diploma sob a égide do compromisso ético e muitos se tornam carniceiros da saúde. A medicina, contudo, prossegue.

Como diz Herculano Pires, curar e educar é de todos os tempos. O ser adoece e busca a cura. Quando se educa, adoece menos ou não adoece mais.

O centro espírita deve privilegiar as duas coisas. Não pode ser apenas voltado à cura, nem unicamente dedicado à educação. Se cura, precisa educar, se educa, precisa curar. As duas coisas andam juntas. E são dadas quase de graça. Disse quase, porque alguém tem de arcar com os custos do centro.

Hessen reproduz fala de Chico obtida em entrevista de Divaldo. Chico teria, outra vez, recusado oferta de Zé Arigó, mas agora justificando que o seu problema das vistas era um carma. E disse que sabia que Arigó poderia curá-lo, o que é interessante. Sendo carma, Chico acreditava que a doença das vistas, se curada, permitiria aparecer outra doença em alguma outra parte do corpo. O argumento é ruim e ingênuo e de ingênuo Chico não tinha nada. Talvez fosse melhor dizer que tinha medo da faca enferrujada de Arigó.

Somos responsáveis pela conservação da vida. Para isso, contamos com o instinto próprio, que nos empurra agir. Quem sofre por prazer é duplamente doente.

Por conta dos maus praticantes não podemos condenar a mediunidade. Ela está no dia a dia, no cotidiano de cada um. Isso é conhecimento doutrinário. E se manifesta por tipos mediúnicos diversos, que não foram inventados pelo homem, mas herdados nessa longa estrada evolutiva que percorremos.

Repito Herculano: a mediunidade é o nosso passaporte para a espiritualidade.

Do filho, do pai e do…

 

Entrei na sala e fui logo questionado:

­– Por que o filho não continuou espírita?

– Não sei, respondi.

O mesmo questionamento me fiz por muito tempo, até desistir de compreender. Afinal, muitos filhos de muitos outros também não continuaram.

Há uma certa frustração no ar por isso, especialmente quando o filho se torna personalidade pública de destaque. Se continuasse, teríamos (?) um proeminente companheiro a ajudar a vencer as barreiras do conhecimento e dos preconceitos na sociedade. Sem dizer que estaríamos em boa companhia.

Filho de peixe peixinho é. Tudo bem, mas uns nadam em mar aberto, outros em riachos. Há até os que preferem as águas lodosas das cavernas mal iluminadas, em cujos habitats a vida ainda desafia a ciência.

– O pai foi maior que o filho? – questionei ao meu inesperado interlocutor.

– Evidentemente – respondeu de imediato.

Tenho cá minhas dúvidas, pensei. Não que eu não mantenha admiração pelo pai com a mesma intensidade da convivência que tivemos. Que sei eu do filho? Nada relevante para um julgamento justo, conclusivo.

Vejo-o quase diariamente pela tela, ouço-o e leio o que escreve. Minha distância do homem, porém, é abissal. Sei onde mora, como vive, conheço muitos de seus amigos e parceiros. O que não diminui em nada essa distância. A tela ilude, a voz engana, o texto trai. E os amigos, bem, os amigos só quem os tem sabe o que valem.

– Só porque era espírita? – perguntei com discreta ironia.

– Sim e não – respondeu, sem demonstrar segurança.

Dois observadores próximos sorriram. Um terceiro se aproximou, com ares de curiosidade. Fiz menção de seguir adiante, encerrando o diálogo. Mas resolvi perguntar ainda.

– Se o filho se declarasse espírita, seria maior que o pai? E o pai seria maior do que foi?

Ele não respondeu. Então, segui à frente e apresentei meus apontamentos para uma plateia em expectativa. Afinal, meu foco era o pai. Humano e por isso mesmo admirável.

Como estar por dentro sem estar dentro? Ou como estar dentro e ficar por dentro?

 

Se seu amigo lhe fizer uma dessas perguntas, ou as duas, saiba que ele está querendo lhe complicar. Fuja. Depois de tecida, a rede praticamente elimina a possibilidade de você encontrar o verdadeiro fio da meada. É por isso que muitos dos que estão fora jamais conseguirão ficar por dentro. E muitos dos que estão dentro também.

Não bastasse a complexidade da vida em sua combinação espírito-corpo, há ainda a complexidade da mente humana na sua relação sócio comunicativa. Que pode ser afetiva ou simplesmente não. Uma complexidade complexa. E por isso terrível.

Estando fora, podemos ficar por dentro em parte, e isso com muita argúcia e um pouco de esperteza. A trama da rede lhe oferece ene possibilidades e muitos caminhos falsos. Por isso é rede e para isso é tecida.

Se lhe interessa desvendar a rede, qualquer rede, cuida de não se iludir com os balões de ensaio e as falsas indicações. Os balões e as indicações costumam ser preparados ao mesmo tempo em que se tece a rede. Na verdade, fazem parte da rede.

A comunicação é uma rede que está na rede e a tecnologia é um aparato da rede que não pode ser analisado ou compreendido fora da rede. O senso comum toma a mídia como sinônimo de tecnologia, o que nem sempre é de bom senso. Não há tecnologia sem rede nem rede sem tecnologia. Desde sempre.

O ser humano é o tecelão da rede, mas também sujeito dela. Está nela enquanto a tece, sem ocupar um lugar fixo visto que se movimenta como um aracnídeo em seu vai e vem constante. Isso explica sua onipresença parcial e sua profunda incapacidade de sempre estar por dentro, embora esteja dentro.

Escutar é do ato comunicativo dialógico praticado na rede, contudo tomou-se providências para regular a escuta. Ela ou é legal ou não. A regulação não é da natureza da rede, mas do seu ocupante e do desejo abissal que o ser tem de dominá-la.

Eis então duas ilusões simultâneas: a possibilidade do domínio da rede é uma, a outra é controlar as escutas. Em qualquer nível ou ponto da rede. A razão disso está nas vozes que circulam na rede.

A voz e a escuta são assim os dois fundamentos da comunicação e explicam porque o controle de uma e outra o tempo todo é absolutamente impossível. Como parar as vozes sem violência? E como manter a violência sem as vozes? Pois se há voz há escuta implícita na relação comunicativa. Se legal ou ilegal é pouco significativo para um ato, o comunicativo, que está na base de tessitura da rede.

Sem comunicação impossível tecer a rede. Onde ela para, a rede se rompe ou estanca. A trama prossegue sempre sob o comando comunicativo, na direção que este lhe imprime. Assim, muitas vozes, muitas escutas, direções diversas.

Se tomarmos um ponto demarcado da rede, significativo em termos de universo de observação, ainda assim veremos uma situação caótica pela complexidade comunicativa. Estamos dentro sem necessariamente estarmos por dentro, ou seja, sabemos pouco ou nada de muito, mesmo que pouco e muito sejam termos indefiníveis.

Por outro lado, para nos apropriarmos da rede precisamos dar visibilidade a ela. O que só pode ocorrer pelo simbolismo. Mas isso é conversa para outra ocasião.

Importa destacar o fato de o ser estar presente na rede como seu autor ao mesmo tempo em que a compreensão disso o desafia e solicita esforço enorme para estar por dentro, situando-se próximo ou distante dos pontos da rede onde os acontecimentos ocorrem.

Em suma, necessita do saber para um agir consciente mínimo. E para além de qualquer ilusão.

Meus sonhos me assustam… e não!

 

Quando um sonho me assusta, quer saber, não me vergo. Se abandono um sonho – e abandono constantemente – substituo por outros.

Sonho muito pela manhã, ao acordar, mas muito pouco ao meio-dia, após o almoço, pois o alimento entorpece o imaginário. Sem ele não há sonhos.

Vivo dos sonhos, nos sonhos, pelos sonhos. Quando desejam me matar, matam primeiro meus sonhos. O que não sabem, ou sabem e fingem que não, é que os sonhos também se refazem quando abruptamente seccionados.

Os sonhos matinais são os melhores, porque motivam meus passos, menos aqueles do banho, que são libidinosos.

Imagino que todos saibam que os sonhos e o imaginário se confundem em quantidade e velocidade. Talvez por isso seja tão difícil separar o que é imaginação do que é sonho. Eu pelo menos não consigo.

Se me pego sonhando com poder e glória, me imagino o mais justo e ético dos seres, capaz de construir o mundo dos sonhos de todos que são do bem. Se me pego a analisar o sonho desfeito do homem frágil de boas intenções, tenho certeza de que não farei jamais como ele.

Saber-se forte é um sonho irrealizado.

O sonho concretizado é fonte de prazer. Sinto-me feliz e disposto a sonhar mais e mais. A realização do sonho é o sonho do sonho e o prazer que se sente é sonho de mais prazer.

Já o sonho malogrado me embrutece e faz meus demônios interiores aflorarem. Nesse momento me torno assassino potencial dos sonhos de todos os que sonham, porque surge em mim essa sanha incontrolável de dominar egoisticamente a fonte da vera felicidade.

Em primeiro lugar meus sonhos. Depois… os outros!

Mas como disse os sonhos matinais são os melhores. Primeiro, porque desfazem alguns sonhos noturnos assustadores. Depois porque são floridos e risonhos. Me deixam contente e o contentamento é sonho de que tudo pode ser imaginado.

O poder da imaginação é sonho.

Sonho de manhã também para esquecer os sonhos noturnos e aqueles do dia anterior que apenas imaginei e julguei serem sonhos. Bem como os sonhos que foram destruídos pelo sopro da realidade, essa inimiga natural dos sonhos.

Os sonhos que são sonhos têm o poder da renovação.

Dias atrás, era um sábado, acordei seco. Sem lembranças e sonhos. Desci até à Jaqueira, sentei-me solitário e vi, como num sonho, o verde fecundo da relva reproduzindo sonhos de crescimento.

Levantei-me e caminhei, porque andar é imaginar e sonhar e viver.

Sobre editoras, romances, capitalismo e afins

 

Luiz Gonzaga Pinheiro*

Li recentemente um artigo do amigo Wilson Garcia sobre o mercado de livros espíritas no Brasil e me reconheci naquele recado gráfico, naquela velha ferida gangrenada que desisti de por unguentos. Há muito tempo os escritores sabem que a caridade, o ideal de divulgar a doutrina, o questionamento sério, a atualização científica doutrinária e outros temas congêneres, não mais interessa à grande maioria de editores preocupados mais com o crescimento de suas empresas do que com a reforma moral da Humanidade.

Andam a caça de romances açucarados que não forcem a mente do aprendiz, mas que vende muito, sem proporcionar resultados práticos na aprendizagem qual ocorre com estudos ou pesquisas. Romances adocicados, alguns são realmente bons, apenas visam o deleite do aprendiz que se sente gratificado por encontrar provas de que a reencarnação, as leis de causa e efeito e outras particularidades espíritas existem mesmo, pois um Espírito está lhes dando atestado através de uma obra.

Todavia, o fato de ter uma prova, geralmente proporciona mais responsabilidade a quem a recebe. Não entendo porque um romance, simplesmente por ser mediúnico, tenha maior valor do que outro vivido, estudado e acontecido na casa espírita levado a público por um pesquisador. Os pesquisadores, que são raros, diante dessa insensatez que é a invasão na literatura espírita de romances melífluos, mas que nada adicionam à Doutrina, se retraem e continuam seus trabalhos longe desse cenário.

A atualização científica da Doutrina, por exemplo, assunto do interesse de Kardec e de inúmeros desencarnados honestos e progressistas não recebe o interesse dos editores, porque segundo eles, é um assunto antipático, anti-doutrinário e não vende. Será?

Posso garantir que nesses tempos de transição é no que os Espíritos interessados no progresso e na evolução doutrinária mais falam. Não se trabalha mais para o progresso do Espiritismo, mas para agradar parcelas do movimento que se acomodam em literatura inócua, repetida dezenas de vezes sob o nome de autoajuda ou sob a forma de romances que se assemelham como se fosse cópias.

A realidade nua e crua do lado obscuro do astral inferior, alvo de todas as atenções dos Espíritos iluminados, o trabalho dos missionários que têm como objetivo higienizar o planeta, o dia a dia da desobsessão que se alastra pelo mundo, a pesquisa séria levada a efeito por grupos de estudiosos e de pesquisadores, os questionamentos, as nuanças e a evolução da mediunidade não interessam a algumas editoras por estarem amarradas ao que Kardec disse ou não disse, pela fobia ao novo. Argumentam o conceito de pureza doutrinária, mas no fundo negam a lei do progresso, pois a Doutrina é evolutiva; outras editam para um público ávido por novelas quixotescas.

Temas como doutrinação, perispírito, mediunidade, obsessão, corpos espirituais, física quântica, tecnologia dos desencarnados e outros escancaradamente apresentados pelos mentores nas reuniões sérias são deixados de lado para que tópicos secundários que nada acrescentam ao corpo doutrinário sejam divulgados.

É comum escritores espíritas doarem seus direitos autorais para Centros Espíritas e obras sociais. Não seguem este exemplo as editoras. A começar pelos direitos autorais de apenas 10% para quem escreve e 90% para quem edita. Somente este fato já demonstra o dedo capitalista nesta fatia. Seria mais natural que os escritores se unissem, formassem uma cooperativa e subtraído os custos da obra doassem seus lucros para entidades filantrópicas e Centros Espíritas que fazem trabalhos sérios.         Alguns donos de editoras têm um discurso pronto citando os custos, os empregados, os encargos sociais, a canseira com o trabalho, mas esquecem de citar a margem de lucro. Nesse mar de insensatez louvo a Editora EME que sempre se norteou pela excelência na apresentação da obra, no menor custo para o público e na coerência doutrinária. Jamais fui abordado por ela para mudar a essência do que escrevi para satisfazer a quem quer que seja. Um dono de editora não tem o direito de distorcer a mensagem espírita de um autor encarnado ou desencarnado para satisfazer a seu público. Não pode induzir para que alguém escreva um romance desta ou daquela natureza ou estilo só porque vende mais ou é do agrado de determinado público. Os mentores não estão à disposição de médiuns que exijam romances ao seu gosto, principalmente quando o objetivo é a ganância.

Ando um pouco afastado e silencioso ultimamente devido a decepções causadas justamente por este tema. Como um amigo o abordou, imediatamente me solidarizo com ele. Lembremos de que somos testemunhas de um período em que tais procedimentos são analisados profundamente pelos mentores, um período de separação do que é de Deus e do que não é. E para tudo que é de Deus não haverá impedimentos. Igualmente, para tudo que não é de Deus será banido da face do planeta.

* Luiz Gonzaga Pinheiro é natural de Fortaleza-CE, onde exerce a profissão de professor de Ciências e de Matemática, na rede pública do Estado. É engenheiro pela Universidade Federal do Ceará e licenciado em Ciências pela Universidade Federal do Ceará. Tem mais de uma dezena de livros publicados, entre os quais os consagrados Terapia das Obsessões, Pérolas da Infância e Mediunidade – Tire suas Dúvidas, entre outros.

 

Nossas editoras entraram num caminho comum. E agora?

A OPINIÃO DE JOSEVAL CARNEIRO, SALVADOR, BA

(Resposta enviada ao editor e diretor da Editora EME, Capivari, SP)

Obrigado, caro amigo, por homenagear-me com um texto bem elaborado, que será objeto das nossas reflexões.
Todavia permita-me, acho que ingressamos numa Nova Era Psicológica, Joana de Ângelis e Divaldo Franco, à frente.
É que a psique humana vem sendo objeto, cada vez, mais, com os avanços, inclusive, da neuropsicopatologia, de investigações, como se retornássemos à La Salpetrére, com Jean Marie Charcot., Richard Richet, Crooks e tantos outros investigadores da fenomenologia, agora aprofundando a sonda nos escaninhos da alma e da conduta psicológica humana. Por isso venho me dedicando à autoajuda. Com a ajuda inestimável do nosso prestimoso editor, Arnaldo Camargo.
No dia 17,. na Mansão do Caminho, Divaldo e um grupo de psicólogos, estará mais uma vez adentrando o imenso terreno da psicologia, com um Seminário, entrada franca, mediante alimentos não perecíveis. A Série Psicológica avança. E eu costumo acreditar em tudo que Divaldo faz. A era romanceada, adocicada, vem cedendo lugar ao estudo da psique, na busca de respostas para os ingentes problemas do homem de hoje, como a ansiedade, o estresse e a depressão, que avultarão, segundo a OMS, como primeira causa mortis no mundo, até o ano 2025.
E a rearrumação etnicogeográfica, dos povos do oriente, certamente acrescentarão um novo tempero à Nova Era de Regeneração Planetária.

Crônica da imortalidade

 

Se a vida não fosse finita o  mundo terminaria rapidamente em caos.

A certeza da morte e ela própria colocam freio nas loucuras da vida. A imortalidade não tem a mínima possibilidade. A morte põe termo ao vazio, à ignorância que se acumula pelo envelhecimento físico, à incapacidade de acompanhar o progresso e às novas tecnologias e às exigências de um mundo que não permite estagnar.

Fôssemos imortais estacionaríamos, inevitavelmente. Talvez regredíssemos ante o desespero da incapacidade de acompanhar a onda da criação permanente. Leia mais.

Nossas editoras entraram num caminho comum. E agora?

 

Recebo informações diárias das editoras espíritas, das distribuidoras, como todo mundo que colocou lá seu e-mail. Ofertas e mais ofertas diárias. O espantoso é que elas fazem o mesmo que as editoras comerciais: oferecem descontos, frete grátis e coisas do gênero. Precisam vender, o mercado está restritivo, a economia encolheu e o consumidor parece que sumiu.

É preciso pagar as despesas, ter lucro e… disputar o mercado. Num regime capitalista, o mercado sempre existiu, mas assume características próprias segundo o momento. Quando o primeiro livro espírita foi traduzido e editado no Brasil, o mercado para esse tipo de produto não existia: foi preciso desenvolvê-lo. Portanto, se concorrência havia, era com produtos similares, mas não diretamente. Nem por isso as vendas eram fáceis. Naquela ocasião, leitores formavam uma elite no Brasil e grande parte dos consumidores era, ainda, analfabeta ou quase, além do poder aquisitivo restrito.

Quando Chico Xavier surgiu pelas asas editoriais da Feb, o mercado do livro espírita já estava se estabelecendo. Sua obra deu um impulso grande a este mercado, mas, ainda assim continuava restrito e a Feb não tinha quase concorrência, o que implicava em produtos de custos baixos e embalagem deficiente, ou seja, capa, miolo e acabamento ruins.

Na década de 1970, a Feb dominava os principais títulos de Chico Xavier, mas havia perdido o domínio dos direitos autorais das obras a partir de então psicografadas pelo famoso médium mineiro. Chico libertou-se editorialmente de sua fiel escudeira e passou a publicar seus livros para editoras novas e algumas já com certo grau de experiência. O que, diga-se, a bem da verdade, despertou uma quase guerra pela conquista de seus títulos entre alguns editores.

O mercado, então, havia sofrido mudanças profundas e o consumidor de livros espíritas já fazia comparações entre o produto que adquiria e aqueles que eram oferecidos pelas editoras comerciais. A Feb descobriu que precisava mudar a qualidade do seu produto, caso quisesse continuar a participar do mercado com presença forte. Como já antevira Kardec muito tempo atrás e não por conta das questões de mercado, o conteúdo é importante, mas a apresentação tem sua equivalência.

Na década de 1980 observou-se um fenômeno ascendente no mercado do livro espírita: as três ou quatro editoras comerciais, de propriedade de espíritas, mas destinadas a produzir lucro para seus detentores começaram a enfrentar uma forte concorrência dos novos empresários interessados nesse mercado. Embora aqueles proprietários visassem lucros, tinham eles uma característica especial própria dos empresários que desejavam e dedicavam-se a investir muito mais interessados na expansão do conhecimento espírita, preocupando-se menos com sua sobrevivência enquanto empresários.

Três exemplos nestes ares rareados: A Lake, fundada por Batista Lino, passou para outras mãos após sua morte e deixou de lado, em parte, essa característica; A Edicel, de propriedade do dedicado editor Gianninni, que quase foi à falência por lançar, principalmente, a volumosa Revista Espírita comandada por Kardec, também mudou de condições após sua morte; e a Editora Calvário, uma espécie de apêndice da Editora Saraiva, viu seus dias encerrados com a morte de seu idealizador.

A década de 1990 vai consolidar o mercado do livro espírita. Inúmeros empresários vislumbram o potencial desse mercado e resolvem investir fortemente; algumas editoras já consolidadas criam departamentos e selos especiais para livros espíritas, contratando profissionais conhecedores desse mercado, todos espíritas. E os editores espíritas se vêm obrigados a adaptarem-se à nova realidade de um mercado altamente concorrente. A ideia do produto barato e de apresentação simples já não mais se sustentava frente às novas realidades.

Assim, os anos 1990 sepultam definitivamente a era romântica do mercado editorial espírita. A quantidade de editoras mais que triplicou e o receio de empreender neste mercado segundo as regras do capitalismo foi superado, até mesmo por aquelas editoras espíritas remanescentes da era romântica, que logo viram-se obrigadas a adaptarem-se para não desaparecerem.

O mercado do livro espírita está hoje profissionalizado, mas também estruturado segundo os melhores princípios da administração e aqueles que eventualmente teimam em se manter próximo da era romântica estão fadados ao fracasso. Setores antes descuidados sofreram profundas mudanças, tais como os do planejamento editorial, editoração, impressão e acabamento. Ao mesmo tempo, um dos principais gargalos que era a área de logística não só encontrou soluções rápidas com as mudanças tecnológicas, mas principalmente com o aparecimento de distribuidoras de livros espíritas nos moldes das melhores empresas do mercado editorial brasileiro.

Ao mesmo tempo em que a profissionalização do mercado editorial espírita trouxe ganhos para a disseminação social dos princípios doutrinários, impôs condições de concorrência dura. Profissionais de marketing, de gestão empresarial, de logística e outros aportaram nas nossas organizações editoriais e dotaram-nas de planejamento estratégico com vistas a alcançarem objetivos específicos do sistema capitalista, ou seja, o lucro. E quando se fala em lucro fica difícil apartar-se da mais valia.

As consequências disso é a busca pelo mercado, onde os termos lealdade e deslealdade encontram significados próprios e nem sempre em acordo com os princípios éticos defendidos pelo espiritismo.

Ações agressivas de marketing num mercado acostumado a uma espécie de caridade e desprendimento geram reações de desconforto; campanhas publicitárias planejadas segundo os princípios da persuasão e da sedução ocasionam constrangimentos, mas vão convencendo um público acostumado às mensagens pagas de uma cultura de consumo na qual foram educados.

O editor espírita olha para o seu público alvo como qualquer empresário do mundo capitalista e vê desejos, necessidades existentes ou potenciais, fazendo com que os cilindros das impressoras girem no ritmo das pesquisas indicadoras dos números da demanda. Enquanto o editor da era romântica se preocupava com o equilíbrio da oferta, especialmente relativo aos títulos, o editor do novo mercado imagina, principalmente, a capacidade do público de consumir. Qualquer encalhe será considerado danoso para o negócio.

Estamos no mundo do capital, em que editores, distribuidores e pontos de venda (livrarias) pressionam uns aos outros em busca do máximo lucro. O editor planeja o lançamento de uma nova obra e consulta seus distribuidores, oferecendo-lhes descontos progressivos; os distribuidores, munidos de instrumentos de negociação poderosos, condicionam a compra a uma operação casada: publicidade em seus catálogos de livros a preços não poucas vezes salgados. O quadro coloca o editor espírita diante de uma situação sem saída; precisam dos distribuidores, mas sabem que o custo do produto precisa considerar essa situação, uma vez que seu poder de alcançar diretamente o público consumidor é diminuto.

Na ponta encontram-se as livrarias, com suas exigências de margens de lucro que muitas vezes as próprias editoras não possuem. O seu poder de negociação é também considerável e os descontos sobre o preço de capa tendem a se situar na faixa de 30% a 50%, quando não exigem, como certas distribuidoras, receber o produto em consignação, situação em que nada precisam investir para vender. Os riscos do negócio estão todos nas mãos do editor.

As condições impostas por um mundo capitalista costumam ser, e são, altamente danosas quando se trata de egoísmo lucrativo. Já não se precisa mais de pesquisas para saber que o público consumidor de livros espíritas dá preferência aos romances e são estes que dominam o atual mercado editorial espírita. Na ânsia da sobrevivência comercial, as editoras disputam os médiuns e estes parecem brotar das entranhas do fenômeno numa profusão incalculável, com obras de conteúdo, o mais das vezes, duvidosos, para não dizer do estilo quase digital de seus textos sem brilho.

As mensagens publicitárias persuasivas que os apresentam ao consumidor falam de um conteúdo rico de dramas e sonhos, em contraste com a preocupação dessas obras de apresentarem, o mais das vezes, tramas enlaçadas em situações reencarnatórias submetidas à lei de causa e efeito que beira à de Talião. Aí, o equilíbrio dos princípios que harmonizam a vida se esconde sob o tapete da ilusão, ajudando a criar quadros traumáticos em lugar de oferecer esperanças e consolações baseadas na razão espírita.

O mundo literário espírita atual trabalha para formar uma cultura do livro consumível, com tramas ficcionais frágeis e ingênuas. O espírita forjado nessa cultura ignora por completo a literatura clássica e não sabe dizer quem foram Leon Denis, Gabriel Dellanne, Alexandre Aksakof, William Crockes e outros tantos, que ajudaram a traçar as bases da razão espírita. Até mesmo autores contemporâneos de envergadura, como Deolindo Amorim e J. Herculano Pires, vão sendo paulatinamente esquecidos diante da fúria editorial dos romances mediúnicos.

Resta, com muita sorte, as obras de Kardec, mas nem todas. Por claras razões preferenciais e afetivas, “O evangelho segundo o espiritismo” desponta como o livro básico mais vendido e, portanto, editado, vindo na sua esteira, muito distante, “O livro dos espíritos”. Já “O livro dos médiuns” entra numa falta de interesse editorial junto com “O céu e o inferno” e “A gênese”, por causa do pequeno público desejoso de seu consumo. Mas é preciso deixar patenteado que “O evangelho segundo o espiritismo” não existe sem “O livro dos espíritos”, o que não é fácil convencer, assim como não existe um “espiritismo segundo o evangelho” como – pasmem – parece se cristalizar dia a dia.

Eu não culpo os editores, distribuidores e livreiros espíritas por esse quadro caótico da literatura espírita. Eu me culpo a mim mesmo por acreditar teimosamente que a era romântica deveria andar lado a lado com o capitalismo, reduzindo a desenfreada busca pelo lucro e a mais valia e colocando um pouco da alma humana na ingente tarefa de oferecer também conhecimento ao público ávido de distração. Enfim, não me perdoarei jamais por pensar assim.

Crônica da imortalidade

 

Se a vida não fosse finita o  mundo terminaria rapidamente em caos.

A certeza da morte e ela própria colocam freio nas loucuras da vida. A imortalidade não tem a mínima possibilidade. A morte põe termo ao vazio, à ignorância que se acumula pelo envelhecimento físico, à incapacidade de acompanhar o progresso e às novas tecnologias e às exigências de um mundo que não permite estagnar.

Fôssemos imortais estacionaríamos, inevitavelmente. Talvez regredíssemos ante o desespero da incapacidade de acompanhar a onda da criação permanente.

Aqui, não temos escolha; morreremos naturalmente ou antecipadamente, mas morreremos. Pelo próprio curso da vida, que nos impulsiona para fora do corpo e depois nos devolve a ele, no silêncio sagrado do sentido de ser.

A imortalidade é um símbolo e como todo símbolo precisa de ressignificação permanente. Ela tremula ao sabor do vento que sopra dos sonhos, até ser descerrada pela voz do tempo, rota, puída. A ideia da imortalidade renasce a cada vagido das entranhas uterinas, anunciando a esperança, a razão das razões, a utopia e o desejo.

O ser surge para a imortalidade, vive e morre nela, não importa qual seja a noção que tenha dela. Qual onda possante que ruma para a praia, ela avança sobre a vida é se quebra na areia das ilusões, deixando um rastro branco de espuma evanescente.

Da sucumbência na imortalidade levanta-se o ser, com os olhos perquirindo e a boca sedenta de comprovação. A imortalidade desaparece, mas continua rondando-lhe o espaço mental, como a afirmar que é e não é e antes que compreenda esse volátil enigma, o ser se vê no túnel do retorno, silente, sem lembranças claras.

A vida segue a vida, a imortalidade segue apenas um pouco mais temporalizada pela duração. Mas enquanto dura, a vida cuida de reposionar o ser e convencê-lo de que mais do que ser imortal ele é vida e morte e vida e sempre.

O impermanente permanece, mas não dura; a duração desaparece entre uma conquista e outra. A imortalidade fica ressecada quando o ser tropeça nas próprias pernas e acorda dias depois perdido e se perguntando: mas então eu sou imortal? E responde a si mesmo: não pode ser!

A lição de ser logo coloca uma dúvida em seu colo carente: onde estou? É cruel acreditar no que não é e mais cruel é perceber o que não é, quando pensava que era. Qualquer raio de luz nesse instante grande confusão há de criar. Melhor permanecer entre brumas, porque se sabe que toda bruma é também permanente por breves instantes. Quando ela dissipa, não só costuma trazer um halo cálido, mas também a claridade.

E quando um estrondo ensurdecer seus olhos molhados, o ser poderá erguer-se, mesmo que trôpego, e iniciar um grito sem eco para confirmar: sim, imortal eu sou!!! Porque a imortalidade inevitável é dupla sensação: é ilusão da certeza e certeza da ilusão a confundir e esclarecer, destruir e reviver no claro escuro da duração.

Se sou sei que sou, mas se não sou posso ignorar. No meio da noite da caminhada acordo e medito; no fim do sono tenho dúvidas se devo acordar, despido da coragem que me enlaça quando caminho resoluto pelas alamedas sob o frescor da chuva miúda. Folhas mortas caídas me falam do fim, mas as flores róseas do ipê espalhadas me falam do sempre.

A imortalidade é breve assim, enquanto a vida dura a eterna permanência do inexplicável.