Mês: julho 2013

Crônica do sagrado

Sérgio mora em São Paulo, mas o vejo sempre pelo Skype. Ontem, achei-o um pouco desenxabido, daquele tipo que fica olhando para o lado como quem quer fugir de uma conversa mais franca.

Interessante, o virtual já se misturou com o real de tal maneira que as pessoas estão repetindo na imagem o comportamento que expressam no face-a-face e o virtual está tão high definition que se torna quase natural perceber essa nova realidade.

Sem me conter, indaguei: que há contigo?

Desculpou-se três vezes, antes de abrir-se. Estava decepcionado, pois acredita na mudança, na necessidade da mudança, no dever da mudança, no movimento que implica mudança já que a roda da evolução só gira para frente.

Não entendi, disse.

Enfim, desabafou: hoje li a notícia do fechamento pela Feb do contrato para a publicação da Bíblia. Isto é o fim de toda minha esperança de transformação no destino da velha instituição. No que devo acreditar, qual é o significado do novo se o novo repete o velho?

Ouvi-o por cerca de dez minutos, a desenrolar o seu imenso corolário de justificativas. E vi sua face tensa, triste, doída.

-Não precisa repetir-me os seus avisos, falou-me. Agora entendo.

Sérgio calou-se. Foi minha vez de falar.

O problema do novo é o novo. É difícil representá-lo, ser o porta-voz dele, encarná-lo. Onde está o novo? No espírito? Mas o espírito para ser o novo não pode ser apenas retórica e argumentos.

O problema do homem que se autoproclama representante do novo é deixar-se ver apenas em sua complexidade imagética: nos olhos, na face, na expressão corporal, detalhes do visível recortado iconicamente.

O discurso do homem-imagem pode ser o discurso da esperança, mas quando a realidade o confronta vê-se que a esperança dele não é a do homem novo. A imagem padece de conformidade com (ao negar) a realidade, e não a nega apenas pelo conteúdo ilusório que lhe é próprio, mas pela ilusão acrescida, deliberada, intencional.

O novo não é naturalmente inclusivo, não está nem faz parte por ser o novo. Sua inclusão se dá pela ação que decorre da convicção firmada. O discurso é a promessa, que a imagem incorpora magistralmente, e muito mais no cotidiano tecnológico de nosso tempo.

Quando o homem-imagem-discurso descobre o prazer da fantasia e a espetacularização o projeta socialmente, apodera-se da ilusão imagética para aumentar o fascínio do outro, alimentando-a com a retórica do novo, da mudança, infundindo no outro a falsa esperança.

É por isso que o homem-imagem não pode mais prescindir desse signo icônico. Sem ele, ver-se-ia despido, nu, transparente e nem sempre o nu é arte.

Há duas maneiras de interpretar a imagem: uma mais segura e muito difícil, decorre da análise semiótica e para ser realizada exige especialização; outra, mais fácil e também mais dolorosa, chega-nos pelos veios pedregosos da desilusão. É quando a realidade contorna a imagem e se mostra em sua própria nudez.

O homem-imagem sabe que está sempre em perigo, pois participa de um jogo onde a imagem persegue a realidade e a realidade só se deixa aprisionar em seus nacos mutáveis. Quando um flagrante do real é registrado, no instante seguinte a realidade já não é mais aquela.

A imagem sobrevive na duração, a realidade existe para além do tempo. A primeira resulta intencional, a segunda está acima de qualquer suspeita.

Quando, pois, o homem-imagem, apesar de comprometido na origem com o novo, age para manter o velho como a Feb ao propor-se a editar a Bíblia, meu caro Sérgio, o que deixa à mostra? A impossibilidade de dominar a realidade.

Ah, não se esqueça de uma coisa: a ilusão é elemento intrínseco à imagem e não à realidade.

As tristezas e alegrias do morrer

Indigno-me quando companheiro de crenças fala da morte como o fato triste. Contento-me quando um indivíduo de outras perspectivas espiritualistas chora a morte. Compreendo quando um materialista convicto se coloca indiferente à morte e consolo-me quando alguém comenta a morte como partida.

A morte espreita a vida, mas a vida renova a morte.

Tenho diante de mim três fatos: a contundência do incêndio de Santa Maria, a partida de uma figura conhecida do esporte brasileiro e a despedida de uma dirigente de centro espírita pernambucano conhecida em nossos meios.

Três fatos, distintos, três reações, distintas.

Confesso que fiquei chocado quando recebi a notícia da partida da dirigente espírita. A mensagem quase desconhecia a vida e dizia, implacável, mais ou menos assim: comunico com muita tristeza que nossa irmã… faleceu hoje.

Uma agressão à vida, que atingiu em cheio a minha, já combalida. Como se pode desconhecer o dia seguinte do espírito, o alvorecer do seu acordar, os reencontros, as alegrias das redescobertas, a sensação de alívio do pesado fardo deixado para trás?

Que a tristeza preencha os espaços mentais dos carentes de vida compreendo. Na perspectiva do nada ou da dúvida, na relação inocente, ingênua com o destino, na incompreensão da imortalidade que preserva a individualidade, compreendo.

O inverso disso não, não compreendo.

A história da dirigente é admirável. Dedicação, serviços, diligenciamento constante da solidariedade, superação, procura permanente das virtudes, demonstração inequívoca da postura moral, senso de justiça, amor em crescimento. Em suma, vida. Como não comungar com alegria do futuro imediato que lhe reserva imensas satisfações. Como imaginar que uma partida assim deixa de ser vida?

A contundência do fogo de Santa Maria tem sua realidade própria. O fogo, a fumaça, o descaso público, a irresponsabilidade, a perda instantânea das vidas jovens, o desaparecimento dos sonhos, o drama terrível dos pais e mães, tudo isso gera um horror coletivo e pessoal. Num átimo, parece que o existir desaparece, e com ele tudo o que o futuro poderia reservar.

Compreendo a tristeza. A vida acaba sem acabar em instantes assim, foge, deixa à mostra nossas fragilidades, cria um espaço vazio que parece não poder ser preenchido, traduz perdas irreparáveis. Estamos todos tristes pelo ceifar da alegria. Não é possível ficar indiferente, nem deixar de gritar o grito da vida contra aqueles que fabricam no silêncio do lucro e da venda da consciência a morte sorrateira.

Jamais pediria aqui uma alegria devida acima. Seria substituir a consciência por uma cruel racionalidade.

A morte do esportista tem outras conotações. Ele se foi em idade considerada justificável, e partiu depois de amargar os efeitos de uma doença asfixiante. Mas a vida finda parecia a vida em começo.

Amigos lamentaram, amigos informaram, amigos souberam. Um houve que, excepcionalmente, refletiu sobre as relações que teve com o esportista, afirmando ter nele um exemplo de amizade familiar, e concluiu que mais valem as boas relações, porque a morte prova nada ter valor maior. A tristeza que refletiu não era a tristeza do desespero, mas da compreensão, da conformação, da perspectiva que se abriu.

A morte pode ser alegria, mas a alegria nunca será a morte. A vida não pode ser a tristeza e a tristeza jamais será a vida. A tristeza é morte, desaparecimento, fim, destruição, fatalismo. A vida é fim e recomeço.

Meu filho partiu sem conhecer a vida; meu irmão partiu na entrada da maturidade. A saudade, a separação, a ruptura não esperada. Antes, quando ainda imberbe, meu pai se foi. Muito tempo depois, minha envelhecida mãe. Mas quando meu irmão ressurgiu das cinzas, espontaneamente, para traduzir suas experiências do pós-morte, percebi que a vida permanece com uma força desconhecida dos humanos. E acertei minhas contas com a alegria e a tristeza.

Uma amiga partiu no apogeu dos sonhos, aos 44 anos. Padeceu, negou, desesperou, revoltou. Um sofrimento atroz de minha tristeza a causa. Anos depois, retornou calma, para reafirmar a vitória da vida e agradecer a paciência dos amigos.

Eu vi de longe as labaredas que consumiram o circo de Niterói, e de perto assisti as mesmas labaredas a consumir o Andraus e o Joelma em São Paulo. O desespero rondou-me e os gritos de revolta estiveram sempre presentes em meu espaço.

A vida é mais, muito mais do que aparenta e a morte é a negação da vida. A morte e a tristeza, quando se irmanam, tornam a vida uma morte. E mortificam quem morre. Eu poderia aumentar o sofrer de minha amiga com minha dor, mas resolvi estancar o meu sofrer ao entender que ela merecia continuar viva.

Eu sou filho do espiritismo de razão kardequiana. E você?