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Quando os espíritos puseram o bispo para correr

Nestes tempos bicudos, um pouco de humor não fará mal a ninguém.

O caso a seguir é narrado por Alexander Jenniard Du Dot, escritor católico defensor da proibição pela Igreja das sessões de mesas girante e crente de que os espíritos que apareciam nessas sessões eram os demônios. Para ele, há somente três tipos de espíritos: os anjos decaídos (demônios), os espíritos dos vivos e os espíritos dos mortos. Vivos não se manifestam a vivos, os mortos estão proibidos de manifestar, restam, pois, os demônios. O caso está registrado no livro O espiritismo, sua natureza, seus perigos, publicado em Portugal em fins de 1800 e é interpretado por Du Dot como prova das suas convicções, mas ficará melhor interpretado como fato probatório da existência e manifestação dos espíritos dos que viveram na Terra.

Vamos a ele.

“Cinco bispos de uma província reuniram-se em 1849, para tratarem de diferentes pontos de doutrina e de direito eclesiástico. No decorrer deste sínodo, como as mesas giratórias estavam em moda, e como as práticas espíritas, implicitamente proibidas pela Igreja, eram geralmente toleradas, os prelados quiseram experimentar por si próprios estas pretensas novidades. Colocaram-se em roda de uma mesa e obtiveram movimentos de rotação, e depois respostas por meio do pé da mesa. Suspeitando que eram demônios os espíritos que faziam mover a mesa, lembraram-se um dia de colocar em cima um rosário e um breviário; a mesa arrojou-os para longe com furor; depois, encarniçando-se muito especialmente contra o bispo da diocese, que era talvez o promotor dessas experiências, tomou a seu cargo expulsá-lo da sala, perseguindo-o até a porta, apesar da resistência que ele opunha. Sem dúvida, os cinco prelados não exigiam tantas provas. Apressaram-se a proibir, nas suas respectivas dioceses, o exercício da mesa girante, prática perigosa cujo caráter infernal lhes fora revelado por fatos tão brutais”.

Moral da história: quando você não puder com as mesas e não quiser estudá-las, proíba-as de virem perturbar os vivos.

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Congressos espíritas: a massa e o diálogo ausente

“Nenhuma fala monológica pode comunicar a um auditório algo com sucesso, se os ouvintes não têm condições de, ao menos potencialmente, tornarem-se parceiros dialógicos do falante” – Lúcia Santaella

Em um sistema perverso, como o prevalecente no planeta de forma geral, falar de justiça, ética e filosofia de vida são coisas do idealismo utópico, embora o idealismo utópico ainda alimente mentes e corações livres das peias dos sistemas. O pragmatismo nos impõe a ousar nas brechas do perverso sistema, para não deixar morrer as belas letras do sonho que alimenta a esperança de um futuro melhor. Lembra-me a insistente conversa de Chico Xavier, nos anos 1970, com o livreiro Stig Roland Ibsen, advertindo-lhe de que era preciso vender os livros com lucro sob pena de ver sua livraria as portas da falência. A fala de Chico era extensiva ao espiritismo brasileiro, especialmente àqueles que exerciam constante crítica aos valores desses mesmos livros e os comercializavam a preço de custo, dentro da ideia de torná-los mais acessíveis aos menos favorecidos socialmente.

Volto, pois, ao discurso da razão do que está por trás dos atuais congressos ditos espíritas, que implementam o sentido do espetáculo como forma de alcançar um grande número de pessoas, enchendo salões e corredores dos imensos espaços custosos previamente alugados para atrai-las. É o espetáculo, na sua formulação teórica, resultante da densa crítica de que a espetacularizacão esconde uma questão ética de fundamental importância, que é a justiça social. É ela uma das piores facetas de um sistema dominante pendular apenas em aparência, pois que impõe o permanente consumo de bens e serviços sob a capa da necessidade e do desejo de tornar feliz a estada provisória do ser no planeta. (mais…)

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Betsy, Betsy, por que te abandonaste?

Na década de 1980, tive um amigo que adquiriu a esclerose lateral amiotrófica. Aos 37 anos. Rapidamente, perdeu os movimentos e pouco mais de um ano depois morreu. Era pai de duas crianças, alegre, de convivência fácil. Quando a doença surgiu agressiva e o levou a afastar-se das atividades profissionais, ninguém ousava falar no assunto, senão em conversas de canto de sala. A rapidez com que progrediu e a morte também rápida deixou no ar um certo mistério, pois alguns alimentavam preconceitos contra doenças dessa ordem e preferiam o silêncio.

Agora vem o caso de Betsy. Estou diante de dois olhares diferentes a me encararem, questionando-me. O primeiro, nem tanto, uma vez que Carlos Augusto tem opinião definida como niilista que é. Seu questionamento é mais o desafio que me lança sobre a tal da imortalidade que defendo. É como se me perguntasse: – e aí o que você tem a dizer agora? Já o olhar de Orlando é o da dúvida, ou melhor, das muitas dúvidas que alimenta sobre a atitude de Betsy e o desfecho espiritual gerado por sua decisão de praticar a eutanásia e abreviar o sofrimento causado pela doença. É como se Orlando me perguntasse: – se eu tomar essa atitude, o que será de mim como ser imortal que sou? (mais…)

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Os guardiães dos apriscos do templo

Federação Espírita de Goiás: orador chega para fazer palestra e encontra as portas fechadas. Indignados, promotores do evento recorrem a outra instituição para manter o programa. Fatos revelam covardia, desrespeito e tudo o mais que a boa moral condena.

A fraqueza humana é capaz de conduzir o indivíduo às mais desprezíveis ações. Debalde o homem desse jaez lutará para mostrar-se digno da moral espírita, porque não conseguirá superar as próprias imperfeições enquanto não se oferecer à práxis cotidiana com a coragem dos estoicos. O homem fraco e desprezível, envolto pela embalagem do espiritismo e no comando das atividades espíritas, poderá ser luzidia e colorida imagem, mas nunca será um verdadeiro homem de bem.

Minha indignação provém da minha incapacidade de assistir aos atos indignos praticados por seres humanos, com acento ainda mais agudo quando esses homens coexistem no mesmo meio doutrinário no qual me coloco. Admiravelmente, o invejável Leon Denis afirma que a tudo podemos suportar desde que não sejam ultrapassados os limites da dignidade humana. A dignidade é o pórtico humano do inatacável, a muralha inexpugnável do direito e da vida. Ao contrário da realidade constatada por Herculano Pires na frase que dá título a este artigo. Sim, o inesquecível amigo não fala, na frase, de um passado que o espiritismo ajuda a superar, mas de uma realidade que se mostra exatamente no contexto social de hoje, onde muitos espíritas operam e farisaicamente sorriem. (mais…)

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Significados e significantes importam. Mas as significações são definitivas

Se um significante jamais oferece apenas um significado possível, porque isso seria a literalidade aprisionante dos sentidos, então, o que Chico Xavier quis dizer com a expressão “o telefone só toca de lá para cá”?

Vê-se aqui e ali a repetição da frase expressa pelo médium mineiro como uma condenação explícita e direta ao desejo de chamar a atenção de espíritos e obter deles mensagens, isto é, conselhos, informações, desejos e conhecimento de seus conflitos no contexto da vida em que se situam. Em uma palavra: condenação da evocação dos espíritos, pois, dizem, se há quem possa decidir se tem ou não condições de dialogar com os encarnados seriam eles, os desencarnados. Oh Deus, quanto engano se comete quando a literalidade aprisiona a significação!

Quando isso ocorre, ou seja, quando se afirma que Chico proíbe que se façam evocações se está atribuindo ao significante – “o telefone toca de lá para cá” – apenas um e único significado que se pode, em mau português, chamar de significado semântico. Ora, digam-me, senhores, qual é o significante que possui um único e preciso significado? Que não se oferece às significações de tantas quantas mentes dele façam uso?

Ah, sim, há médiuns que fazem promessas de ouvir os espíritos que a pessoa deseja; há pessoas que querem ouvir dos espíritos coisas que eles, espíritos, não sabem; há lugares que estranhamente ensinam como os médiuns entram em contato com espíritos familiares; há outras pessoas que querem resolver o vazio da separação de filhos, maridos e esposas mortas conversando com eles sobre, talvez, as miudezas da vida familiar. Sim, há tudo isso e muito mais perfeitamente criticável. Ora, nenhuma definição literal resolverá o problema que pertence ao campo da educação, então, vamos fazer o esforço de educar para que a significação possa substituir a literalidade dos sentidos e, assim, resolver os problemas da individualidade diante da vida. (mais…)

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USE-70, caminhos e desafios

Em dezembro de 2015, publiquei aqui em meu blog uma análise do livro dos 50 anos da USE, com alguns apontamentos necessários. Agora, quero recuperar certos fatos que me parecem importantes por sua função interligadora na história do Espiritismo. Refiro-me às fontes das ideias que deram origem ao desejo de organizar estruturalmente o movimento em torno da doutrina espírita na sociedade, ideias que desembocaram na fundação de associações federativas, no Brasil, especialmente, mas também no Exterior.

Ninguém há de negar que o Projeto 1868, elaborado e publicado por Allan Kardec na revista espírita de dezembro daquele ano, constitui-se em fonte de orientação para a formação de sociedades espíritas do tipo centros ou federativas. Ali estão as reflexões e as sugestões que o codificador oferece, dentro das preocupações que o dominavam em relação ao futuro do Espiritismo. Kardec apresenta elementos gerais, mas também chega a detalhar minúcias dos procedimentos no entendimento de que a forma muitas vezes se torna necessária à concretização efetiva do conteúdo. (mais…)

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Alguns médiuns se traem muito cedo, outros levam mais tempo. Poucos resistem até o fim

 

A pergunta é: por que certas pessoas fazem afirmações tão estranhas e contraditórias como essa ao lado publicada recentemente no Facebook? O que pretendem com isso? Qual é o grau de comprometimento efetivo delas para com o espiritismo? Trata-se de um deslize momentâneo ou de uma terrível necessidade de se mostrar livre e independente, instruído e capaz de promover mudanças numa doutrina tão extraordinária como a espírita?

Não, ninguém está amordaçado nem impedido de expressar suas opiniões sobre a doutrina, sejam quais sejam. Absolutamente. Faça-o, porém, com seriedade e demonstre por a+b onde e quando a doutrina está equivocada, envelhecida, ultrapassada. Depois, assine embaixo e coloque-se no campo dos conflitos, onde o contraditório necessariamente surgirá.

Não jogue com o espiritismo, não seja uma criança diante do desconhecido, não queira parecer moderninho, nem ser mais do que é, respeite a inteligência das pessoas. Acusar a doutrina de chata e velha é reação da mais absoluta infantilidade de alguém que anda à caça de sucesso barato. Só isso para compreender um ato tão leviano. (mais…)

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A Gênese: provas confirmam que Kardec não fez as mudanças contidas na 5ª edição francesa

Por mais que os defensores da 5ª edição francesa de A gênese, os milagres e as predições, procurem inverter o ônus da prova e aleguem que não existem evidências de que as modificações em relação às edições anteriores, 1ª a 4ª, não foram feitas por Kardec, os fatos comprovam exatamente o contrário.

Isso fica medianamente claro após os estudos e pesquisas realizados por Simoni Privato Goidanich, reunidos em seu livro – O legado de Allan Kardec – escrito originalmente em espanhol, agora traduzido para o português e publicado pela USE de São Paulo. O seminário promovido também pela USE, neste domingo, 4 de março, na capital paulista, intitulado A Gênese, o resgate histórico, serviu para confirmar tudo aquilo que a autora havia coligido, estudado e reunido em seu livro, mas acabou por revelar inúmeros outros envolvimentos no assunto, de igual importância.

A questão é seríssima e antiga. Apareceu de forma clara 12 anos após o lançamento da 5ª edição de A gênese, lançamento este ocorrido em 1872, três anos após a morte de Allan Kardec. E apareceu pela ação firme de Henri Sausse, com o apoio de Gabriel Delanne e Leon Denis, três nomes da mais alta consideração do espiritismo francês e mundial.  A edição de 1872, a 5ª, foi considerada a definitiva e passou a servir de base para as diversas traduções que se fizeram mundo afora, inclusive no Brasil, daí a sua importância.

Henri Sausse assustou-se quando percebeu os fatos. Publicou um vigoroso artigo no jornal O Espiritismo, da União Espírita Francesa, denunciando a adulteração e elencando as mudanças de textos, as supressões e as indevidas inclusões. Os autores desta infeliz façanha, Jean Leymarie à frente, jamais puderam comprovar que foi Allan Kardec quem promoveu as alterações, apesar das ameaças feitas a Sausse, inclusive de o levar às barras do tribunal. (mais…)

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Divaldo, Chico, direita e esquerda. Onde está o centro?

Para o espiritismo, como de resto para a sociedade em que a liberdade de pensamento e expressão é garantida constitucionalmente, não há cidadão imune à responsabilidade pelas suas opiniões.

 Quando o manifesto crítico a Divaldo Franco apareceu na lista da Abrade, afirmei que eu também assinaria embaixo. A questão, para mim, está clara: as opiniões exaradas pelo médium na entrevista que deu origem ao manifesto são absurdas do ponto de vista do bom senso que caracteriza a racionalidade espírita. Pouco importa assinalar se o manifesto contém pontos convergentes e divergentes, pois raros são os discursos críticos de qualquer natureza que não esbarram neste aspecto. O que é relevante é o fato de que é preciso colocar em discussão as opiniões, de quem quer que seja, quando estas ferem os princípios elementares do bom senso e da lógica que caracterizam a doutrina espírita, em especial, quando essas opiniões pertencem a líderes de expressão, como é o caso presente de Divaldo Franco, aqui, pelas repercussões elevadas à potência máxima que geram. Ora, o que está no foco das atenções é o conhecimento e suas interpretações, coerentes ou não, que repercutem na sociedade, na eterna dualidade do bem e do mal, do certo e do errado, da verdade e da mentira. Ao direito de opinião se opõe o direito da discordância, que mais não é que direito de opinião também. A liberdade de pensamento e expressão emerge das conquistas do ser ao longo de suas múltiplas experiências no corpo físico e se insere entre os direitos supremos, inalienáveis, como ensina Kardec.

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O AMIGO E O LAÇO

(Dedicado ao CPDoc, neste ano 30 de sua existência)

Se cais, caímos todos os que miramos tua força.

Se levantas, nos enchemos de energia todos os que conhecemos tua capacidade.

Se estacionas, paramos juntos todos os que te amam.

Se prossegues, caminhamos ao teu lado todos nós que admiramos.

Se cansas, apontas para nós que há esgotamento.

Se fortaleces, somos capazes de animar.

Tudo o que és somos sempre, porque iguais.

Tudo o que fazes, fazemos também, porque em ti encontramos aquilo que por nós estamos a construir.

És o amigo, aquele que tem a força dos heróis e as fraquezas dos sonhadores. Não sabes, mas és nossa esperança e nossa certeza. Quedas não te fazem menor nem menos farol para nós, porque sabemos que logo após te ergues.

Há entre nós o laço, da matéria plástica extraordinária do afeto do universo. Estica e enfraquece sem jamais romper.

Se te vais e à distância te pões, sofremos, em vigília permanente no tempo do espaço. Consola-nos a certeza do reencontro, ali ou lá na frente.

Tens a eternidade gravada em ti. Temos a consciência velando por nós.

Vivamos.

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Quem é a vítima?

Desconfio sempre desses artigos de opinião genéricos e ao mesmo tempo insinuantes, aos quais falta a coragem do homem de bem e a franqueza do homem justo. E o artigo assinado pelo Marco Milani publicado pelo Correio Fraterno (do ABC), edição no 477 de setembro/outubro de 2017 se insere na relação desses artigos. Confesso que não sei ao que ele veio, mas desconfio que se destina a alvos determinados, mas não colocados às claras. E isso é muito ruim.

Seja quem e o que seja que motivou o autor do artigo a escrever, o fato é que ao utilizar a técnica da generalidade Marco Milani se coloca na mesma condição da possível vítima. E como vítima, age sem a devida franqueza, incorrendo em faltas ainda mais graves. O medo de ser franco é sinônimo de falta de coragem, contrário ao sim, sim e ao não, não de Jesus. (mais…)

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50 anos do Correio Fraterno (do ABC) – o que a história não conta

Entre o nepotismo e a exaltação da figura paterna foi deixada uma lacuna de muitos braços, mãos e cérebros que construíram a obra.

Logo criado em 1980 e utilizado até hoje. A ideia e a execução foram de um profissional da publicidade em São Paulo.

O Correio Fraterno (do ABC) publica em sua atual edição (no 477, setembro/outubro de 2017) reportagem-entrevista de capa assinada pela jornalista Eliana Haddad, com o título “50 anos de espiritismo do Correio Fraterno”. As entrevistas ocupam as páginas 4 e 5, e a reportagem está nas páginas centrais 8 e 9. São, portanto, quatro páginas do jornal tabloide ou ¼ de suas páginas destinadas a colocar para o leitor o resumo de uma história de 50 anos. Mas sua leitura deixa à mostra uma verdade: o resumo ao invés de revelar a história, esconde-a. Em primeiro lugar, cuida de exaltar a figura paterna e a da filha numa entrevista em que a obra perde lugar para apenas duas pessoas. Veja-se o seu título: “De pai para filha”. Um nepotismo clássico e uma ideia capitalista de sucessão como se o jornal e a editora fossem objeto de herança. Nepotismo porque os entrevistados não são apenas pai e filha; Izabel Vitusso é (mais…)

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Os perigos da fama – muito mais do que 15 minutos

Os fatores de risco do sucesso estão presentes na construção do mito, mas poucos são capazes de subtrair a eles ou de os considerar com a devida atenção. Por que? Isso é coisa para se analisar com carinho.

O movimento espírita – entenda aí os espíritas – entraram num ritmo frenético de produção de mitos desde que Chico Xavier partiu em 2002, antes que o silêncio das arquibancadas caísse sobre a seleção brasileira de futebol. Chico estava a caminho do centenário no corpo físico, mas a coletividade espírita como um todo esperava que ele se tornasse uma espécie de personagem bíblico que não morre antes dos 150 anos. Como se viu, foi em vão, apesar da surpresa que a morte causou.

O mito Chico, porém, ganhou forças com a ausência do espírito, de modo que continua aí plainando sobre as cabeças coroadas dos reencarnacionistas com ideias fixas de vidas anteriores e esperança vã de um futuro na imortalidade amparado pelo extraordinário médium mineiro. Os amigos do rei mantêm a chama com o combustível moldado pela ilusão, (mais…)

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Entre traças, poeira e páginas rotas

Por diferentes vias e de diversas maneiras, chegaram-me às mãos ao longo dos últimos 50 anos uma quantidade considerável de livros, revistas e documentos importantes para a história do espiritismo, livros em boa parte esgotados e alguns até mesmo ignorados do público, bem como as referidas revistas. Dei início à publicação das respectivas resenhas com o trabalho sobre a Revista Metapsíquica, como forma de desincumbir-me deste que considero um compromisso público, uma vez que formo entre aqueles que entendem que nada que seja de interesse público pode ficar retido sob a rubrica de patrimônio particular; que tudo deve ser disponibilizado, aberta e livremente, ao conhecimento da sociedade, pois que, no fim das contas, a ela de fato pertence. Na sequência, dei conhecimento de outra revista – Verdade e Luz – e, após, iniciei a publicação em separado de resenhas mais extensas de alguns livros cuja importância pedia um destaque especial. Agora, aqui, faço a conclusão do trabalho, publicando sobre aqueles documentos que, de maior ou menor interesse, guardam todos eles a oportunidade de esclarecer, informar ou enriquecer este ou aquele estudioso e pesquisador. Todos estes livros estarão à disposição dos interessados, uma vez que ficarão sob a guarda da Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires, que, certamente, os disponibilizará ao público. A coleção inteira, contudo, dos textos publicados, poderá ser encontrada aqui, neste blog, na página DOCUMENTOS e suas consequentes subpáginas: Revista Ilustração Espírita, Revista Metapsíquica, Revista Verdade e Luz, Opúsculos raros e Livros raros 


O espiritismo, sua natureza, seus perigos – Alexander Jenniard Du Dot, o autor, era em sua época uma espécie de Padre Quevedo dos católicos, ou seja, trabalhou muito para “compreender” os fatos espíritas à luz do catolicismo e de uma visão da ciência um tanto estrábica. Ele afirma sem medo que à frente da ciência de seu tempo (nasceu em 1840 e este livro data do final daquele século) “nós pomos o catecismo”. (mais…)

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Marx e Kardec, materialismo e espiritismo

Espiritismo e Socialismo estão unidos por laços estreitos, visto que um oferece ao outro o que lhe falta a mais, isto é, o elemento de sabedoria, de justiça, de ponderação, as altas verdades e o nobre ideal sem o qual corre ele o risco de permanecer impotente ou de mergulhar na escuridão da anarquia. Léon Denis

 O socialismo de Denis foi classificado como idealista, uma maneira de ver que em princípio não combina com a dura realidade na qual a vida em sociedade se manifesta e desenvolve. Desde a eclosão das ideias socialistas, com Marx, às experiências de implantação de regimes políticos e econômicos marcados pelo fundamento socialista, que se discute a questão. No espiritismo não foi diferente e aqui está um exemplo de contenda em que as ideias se chocam e se distanciam até se encontrarem nas pontas, na irrefreável leveza da física.

Os espíritas e as questões sociais – em sua edição primeira, feita em 1955 em Niterói, RJ, este livro reúne artigos publicados na imprensa por dois conhecidos espíritas: Eusínio Lavigne, advogado e empresário de Ilhéus, BA, e Sousa do Prado, ex-membro da Federação Espírita Brasileira. Trata-se de um grande debate que teve início quando a Revista Internacional de Espiritismo, de Matão, recusou-se a publicar um artigo de Lavigne em resposta a outro, que saiu em suas colunas na edição de setembro de 1950, intitulado “Pela vitória do espírito” e assinado por Pereira Guedes, cujo conteúdo analisava o livro Materialismo dialético e materialismo histórico, de José Stalin. Lavigne procurou, então, o Jornal de Debates, onde encontrou guarida e por vários meses expôs seus argumentos sobre a teoria marxista, o socialismo e as conexões com o espiritismo, além de, ao defender o marxismo, deixar claro que o fazia ao que de científico ele continha e não à sua condição materialista contrária ao fundamento espiritual da doutrina de Kardec. (mais…)

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Ismael, um Anjo na FEB

A trajetória de um destacado grupo mediúnico e as polêmicas em torno das raízes místicas do espiritismo no Brasil podem ser vistas pelas palavras dos próprios personagens centrais da história.

 Livro:

Trabalhos do Grupo Ismael da Federação Espírita Brasileira (1941)

Autor: Guillon Ribeiro, Ed. FEB

Página de rosto do livro com o autógrafo do ex-presidente da FEB, Francisco Thiesen.

A história do Grupo Ismael está registrada neste livro a partir da reprodução de um trabalho desenvolvido por Pedro Richard e publicado 40 anos antes, ou seja, em 1901, nas páginas do Reformador, da FEB. Embora o livro se destine a transcrever e comentar as mensagens recebidas pelos médiuns do grupo no período de julho de 1939 a dezembro de 1940, Guillon Ribeiro aproveita da oportunidade para destacar este histórico como forma de fixar aquelas que julga serem importantes contribuições ao espiritismo brasileiro, sendo, porém, certo que elas estão circunstancialmente presas ao contexto de crenças onde a FEB localizou-se.

Sob este aspecto, o texto de Richard é também um daqueles instrumentos que permitem avaliar as condições das práticas mediúnicas, antevistas por Allan Kardec em O livro dos médiuns, em que as influências do meio recaem sobre os médiuns e das quais quase sempre não é possível fugir. O clima psicológico e espiritual do grupo é de crença absoluta na sua importância enquanto conjunto de seres especialmente destacados pela espiritualidade superior para levar avante uma tarefa de semeadura da doutrina espírita, bem como de sua condução pelos tempos futuros. Trata-se, sem dúvida, para os líderes do grupo, de um mandato divino e único, ou seja, declaradamente não há dois grupos com as mesmas atribuições, nem dentro da FEB, à qual o grupo se subordina a partir de determinado momento, nem fora da FEB, por mais que houvesse instituições respeitáveis alhures. (mais…)

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Cosme Mariño e sua importância para o espiritismo na Argentina

Mariño foi presenteado com o título de “o Kardec argentino” e o livro a seguir, por ele escrito, revela sua atuação e o desenvolvimento da doutrina em terras portenhas.

El espiritismo em la Argentina (1963) – Cosme Mariño – Esta edição é, na verdade, a 2ª edição, e vem acrescida de um Apêndice antecedido por uma Nota explicativa, que estende o período histórico abordado por Mariño correspondente aos anos 1870-1923 para até 1932. O autor do texto do Apêndice não é mencionado. O prefácio feito para esta edição é assinado por Carlos Luis Chiesa, presidente da Associação Espírita Constancia. Mariño deixou o corpo físico em 1927, aos 80 anos e é considerado um dos maiores defensores do espiritismo na Argentina. Neste seu livro, relata ele os fatos que viveu diretamente, que presenciou ou de que tomou conhecimento durante os quase 50 anos em que viveu na defesa e divulgação do espiritismo, cujo marco inicial foi o ano de 1879, (mais…)

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Inovação, ocupação parcial de espaço ou simplesmente um novo rótulo?

A propósito de um artigo do meu amigo Cesar Perri, intitulado “Congresso dos 70 anos da USE – Inovação das “rodas de conversa”, que foi posto ontem, 21 de junho de 2017, em circulação na rede digital, volto ao assunto que já externei aqui, em março de 2016, quando a notícia do evento circulou pela primeira vez e sobre a qual recebi opiniões e e-mails prós e contra. Perri refere-se ao espaço denominado Roda de Conversa, para o qual a coordenação do congresso destinou quatro horas divididas em dois períodos de duas horas cada, sendo três temas a serem debatidos simultaneamente em cada período e a mesa contando com um moderador e dois debatedores, conforme programação já divulgada. A questão colocada é, de um lado, se isso de fato é inovação e, de outro, se atende às reclamações justas por espaço de livre manifestação do pensamento, a exemplo do que ocorre nos congressos onde o conhecimento é colocado como meta principal?

O título dado a este “novo” espaço é bonito – Rodas de Conversa – mas é preciso convir que tal título é apenas outro rótulo (mais…)

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Sob duas sombras: a história e o invisível

O RESGATE DO WERNECK


 Eis aí um líder que só aceitava a liderança de alguém que possuísse as características do grande líder. Allan Kardec foi um deles. Tornou-se um espírita tardio e dos poucos que, nestas alturas da vida, logrou penetrar com rara lucidez no abrangente conteúdo do mestre lionês.

 “A minha alma não é propriedade do Estado, nem das seitas. Tenho sobre ela jurisdição absoluta. Não tolero que a guiem contra a minha vontade. Hei de salvá-la eu mesmo, ou ela estará perdida. A menos que forças, livremente aceitas, lhe mudem a direção, ela resistirá aos decretos emanados do poder humano”.

Publicado em 1923, este livro tornou-se verdadeira raridade e o museu que leva o nome do autor dispõe de apenas um exemplar.

Essa feliz e comovente declaração faz parte da profissão de fé contida no livro Um punhado de verdades, livro escrito por Américo Werneck e publicado em 1923, no Rio de Janeiro. E quem era Américo Werneck? Quando me presenteou com o exemplar desse livro em 1981, meu amigo Francisco Klörs Werneck, o grande tradutor das obras de Ernesto Bozzano para o português, me disse em bilhete separado: “Meu tio Américo Werneck, engenheiro civil, deputado estadual pelo estado do Rio, foi convidado pelo presidente do estado de Minas Gerais, Silviano Brandão, para ocupar o cargo de Secretário de Agricultura, Viação, Obras Públicas, Indústria e Comércio, que aceitou. Foi construtor de Lambari e prefeito interino de Belo Horizonte. Em Lambari, a rua principal tem o seu nome e o seu busto. Famoso pelo seu trabalho em Minas Gerais, como o seu primo dr. Hugo Werneck”. Até aí, muito pouco. Alguma coisa sobre a participação política dele e nada sobre o espiritismo. É que não havia tempo na ocasião para as devidas ampliações, pois, quando (mais…)

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O que tem a ver entre si estes três personagens da história brasileira?

ARNALDO VIEIRA DE CARVALHO, HORÁCIO DE CARVALHO E CAIRBAR SCHUTEL

 Nada os ligaria, em princípio, não fosse um detalhe: Arnaldo Vieira de Carvalho teria dado duas mensagens dias após sua desencarnação e foram ambas recebidas no círculo mediúnico de Cairbar Schutel, em Matão. E Horácio de Carvalho era amigo de Arnaldo, conhecia Cairbar e estudava o hipnotismo e o espiritismo. Isso tudo os uniu numa apreciação crítica das mensagens atribuídas a Arnaldo que o Horácio fez e encaminhou, em formato de livro, a Cairbar Schutel. Quase 100 anos depois podemos retomar o fato como uma parte importante da história do espiritismo no Brasil.

À esquerda em preto e branco a capa e à direita a cores a página de rosto. Um livro singular datado de 1920 e todo feito a mão.

 ESPIRITISMO. Análise de duas mensagens atribuídas a Arnaldo Vieira de Carvalho – livro de exemplar único, em escrita manual, datado de 1920, de autoria de Horácio de Carvalho, dedicado a Cairbar Schutel com a seguinte mensagem: “Ao prezado amigo e ilustre jornalista espírita, homenagem de Horácio de Carvalho”. Contém a análise, feita por Horácio, de duas mensagens recebidas mediunicamente no grupo de Cairbar Schutel em Matão, assinadas por Arnaldo Vieira de Carvalho, a primeira delas dois dias após a desencarnação do conhecido médico em São Paulo, e a segunda sete dias após. (mais…)

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A polêmica pureza doutrinária – um viés

A Dora Incontri me provoca questionando se não quero entrar na polêmica da pureza doutrinária, um fenômeno tão antigo quanto o trabalho de Kardec, basta ver as edições da Revista Espírita ainda ao tempo da direção do codificador. Mas tem ela passado ao longo do tempo por mudanças pontuais devido, especialmente, à cultura predominante em cada época, pois, como se sabe, o fenômeno cultural sofre um processo contínuo de mudanças, como é de sua natureza, e muda mais acentuadamente ao passo que as tecnologias e o conhecimento se modificam. Na era digital em que vivemos, as mudanças correm frenéticas, e com elas o modo como o pensamento se comporta. (mais…)

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Tendência histórica da FEB de deturpação de livros produz novas vítimas

É de estarrecer. Federação Espírita Brasileira é denunciada agora por deturpar obras psicografadas por Chico Xavier e Waldo Vieira.

Alguém disse alhures que a tradução de Guillon Ribeiro, ex-presidente da FEB, para as obras de Roustaing é melhor do que o original. Ironia ou não, já as referidas obras sofreram acusações de mudanças e supressões por conta dos editores febianos. É dessa maneira que, historicamente, a instituição que dirige o movimento espírita brasileiro dito oficial é acusada por ações semelhantes, fato também ocorrido em outras ocasiões, como no caso do livro famoso Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, no qual as deturpações se deram por conta da introdução de partes favoráveis a Roustaing, em especial. Coincidentemente, os originais da psicografia de Chico Xavier do referido livro jamais vieram a público, apesar de insistentemente solicitado por diversos críticos. (mais…)

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A história em pequenos textos

A presente publicação constitui a penúltima etapa de um projeto de divulgação do material que colecionei – livros, revistas e opúsculos, bem como documentos importantes da história do espiritismo – visando disponibilizá-los aos pesquisadores, estudiosos e até mesmo aos curiosos dos fatos espíritas. Apresento 35 opúsculos publicados durante o século XX, alguns bem no começo desse século – escritos na maioria por espíritas de considerável expressão do pensamento doutrinário ou que se tornaram líderes locais e nacionais. Entre eles estão Deolindo Amorim, Leopoldo Machado, Cairbar Schutel, Edgard Armond e  Jaci Regis. Alguns dos opúsculos estão disponíveis na Internet e para tanto ofereço o link para leitura e download; boa parte, contudo, não está com seu conteúdo à mão ou são desconhecidos de grande parte do público, de modo que para os ler os interessados deverão aguardar a respectiva digitalização. A próxima etapa – a última – vai disponibilizar inúmeras obras espíritas hoje fora de catálogo e em grande parte desconhecidas da maioria. Clique para ler

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A Verdade é a Luz

A segunda época da revista Verdade e Luz, hoje praticamente esquecida, ajuda a recuperar parte importante da história do Espiritismo e a corrigir enganos cometidos na biografia do extraordinário espírita conhecido por Batuíra.

O jornal Verdade e Luz, fundado em São Paulo no final do século XIX pelo português Antonio Gonçalves da Silva, apelidado de Batuíra, teve uma vida e uma história considerável, dividida em duas partes: a primeira época, em que a publicação começou como jornal e quase ao final desse período transformou-se em revista, e a segunda época, quando retornou à circulação após um período de interrupção, como revista de boa qualidade. É desta segunda época que vamos falar, uma vez que ela se encontra esquecida e não conta com registros capazes de serem compulsados pelos pesquisadores e historiadores.

Tenho em mãos 36 exemplares da revista Verdade e Luz, segunda época, correspondendo aos anos 1922, quando foi retomada depois de quatro anos sem circular, até 1926. Tudo indica que saiu do cenário ao final de 1926 e não mais retornou. Seu diretor, Pedro Lameira de Andrade, após esse ano, seguiu como presidente da Instituição Verdade e Luz até a data de sua desencarnação, ocorrida em 1937. Leia mais

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A Metapsíquica de Canuto de Abreu

No período de maio de 1936 a janeiro de 1937 (datas estimadas, carecendo de comprovação definitiva) a Sociedade Metapsíquica de São Paulo publicou uma revista no formato 16 x 23 cm, em preto e branco tanto na capa como no miolo. A direção esteve a cargo do membro da Sociedade, Canuto de Abreu, hoje reconhecido por seus livros, pesquisas e, especialmente, pela posse de documentos valiosos sobre Allan Kardec obtidos diretamente na França pouco antes da eclosão da segunda guerra mundial, em Paris. Canuto era advogado e médico homeopata, além de formado em Farmácia.

Possuo quatro dos cinco números dessa revista, menos o exemplar de número 1. A publicação saía bimestralmente com material assinado por articulistas reconhecidos e foi nesta revista que Canuto de Abreu deu início a série de artigos sobre Bezerra de Menezes, que depois foi reunida em livro. Além de dirigir e escrever, Canuto de Abreu (mais…)

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Sinapses, neurônios e arquivos da memória espírita

Ao comentar uma das funções das imagens, Jacques Aumont informa que elas provocam a abertura de arquivos da memória, fato que permite o seu reconhecimento através da identificação dos elementos que as imagens contêm pela comparação entre o que está registrado na memória e o que é apresentado pelas imagens. Trata-se de um fenômeno simples e ao mesmo tempo extraordinário porque complexo, que se realiza ao contato do observador com o objeto na rapidez com que os sentidos conduzem silenciosamente ao cérebro os estímulos, provocando a abertura dos arquivos da memória e devolvendo imediatamente à consciência os registros ali presentes, que permitem ao indivíduo realizar a identificação e o reconhecimento, não dos significados da imagem, mas dos seus elementos constituintes. (mais…)

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Notas para notar

A semana começa com alguns destaques sobre os quais vale a pena refletir: 1) os jovens britânicos que não querem ter filhos e buscam o caminho da esterilização; 2) os brasileiros com doenças raras que, desenganados, enganaram a morte; 3) e a pesquisa tida como condenatória dos refrigerantes diet, mas que não é conclusiva.

Não aos filhos

Esterilização, esse é o caminho que tem sido escolhido por jovens britânicos que não desejam ter filhos. As razões são diversas vão desde a liberdade para atuar sexualmente sem preocupações até a existência de doenças hereditárias, cujos portadores não desejam passar adiante. (mais…)

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Uma obra social digna

Aqui em Recife, várias obras sociais criadas e dirigidas por espíritas são realmente dignas de admiração. Tenho particular afeição pelo Lar Paulo de Tarso, localizado no Bairro do Ipsep. É uma casa simples com capacidade de abrigar até 15 crianças, que ali chegam por meio de um convênio com o Juizado da Infância e Juventude. A direção e manutenção do Lar tem na sua liderança o casal Glauce e Gezsler, dois amigos do coração, incansáveis, dedicados e afetuosos.

O Lar é uma casa de passagem, onde crianças em situação de risco são abrigadas e preparadas para o retorno ao lar de origem ou são entregues para adoção, razão pela qual não permanecem longos períodos no local, a não ser em situações excepcionais. O trabalho de preparação dessas crianças movimenta uma rede considerável de pessoas e profissionais e possui como fundamento de orientação o alicerce da doutrina espírita.

Para os interessados em conhecer melhor o trabalho dessa digna instituição de caráter assistencial, aqui vai o link da apostila recém-publicada, intitulada “Lar Paulo de Tarso, um oásis de esperança” 

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Dora Incontri e o Chico de todos

doraDe repente, o artigo O lado cinzento da mediunidade no espiritismo contemporâneo, começou a produzir aqui no blog uma nova série de opiniões, como se redescoberto assim do nada. Afinal, já faz alguns meses que o dei à luz. Até que descubro que a fonte é minha querida amiga Dora Incontri e seu prestígio comprovado pelas páginas do Facebook, onde fez reaparecer o assunto.

O interessante é a quantidade de opiniões que a republicação despertou, como pode ser visto no link abaixo, deixando à mostra a diversidade das reações e das posições. Para quem gosta do assunto ou do estudo dele, convido a clicar e participar.

Fonte: Dora Incontri – Como sempre, Wilson Garcia, escrevendo com sua…

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Um convite para o futuro

Assista ao vídeo de lançamento do DVD HERCULANO PIRES, um convite para o futuro. Clique na imagem. Para adquirir o vídeo, dirija-se às melhores livrarias do país.

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A morte da liberdade é a morte do Homem

LiberdadeDe Leon Denis a Herculano Pires, a ideia de liberdade acompanha a do progresso ou do fracasso do Espiritismo enquanto movimento e vida. Ambos defendem que o futuro da doutrina se encontra nas mãos dos seres que a dirigem, pois é com a liberdade sagrada de pensar e agir que o homem põe e impõe sua direção.

A noção de liberdade que os dois filósofos ensinam nasce dos sulcos feitos na terra da reflexão espírita que Kardec desbravou, ao fazer surgir o espírito antecedente ao corpo e a este posterior. Estava ele contido nas nuvens tardias do nada e tornou-se, então, palpável a todos os olhares agudos. (mais…)

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Congressos espíritas: espaço público de conhecimento ou conhecimento público do espaço?

Há muito se sabe que os congressos espíritas, salvo raras exceções, se tornaram eventos muito mais para dar satisfação ao público da existência da doutrina do que para se tornar um espaço público de produção de conhecimento.

Nesse ponto, a história tem sido cruel com os espíritas. Se alguém deseja estudar, pesquisar e produzir ou o fará por sua própria conta e risco ou deverá desistir. As instituições espíritas, que se autoproclamaram coordenadoras do espaço público, sonegam em seus eventos qualquer possibilidade de apresentação de novos trabalhos, incorrendo em duro desestímulo para com os interessados.

A FEB, que se transformou na mais forte defensora da coordenação desse espaço público, tradicionalmente negou os congressos espíritas. (mais…)

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Deolindo e os diversos espiritismos

Opinião*, a pílula do Dr. Ross do jornalismo espírita, republica em sua edição de jan./fev. 2016 interessante artigo do saudoso e respeitável Deolindo Amorim, intitulado “Desunião e divergência”. Ali está todo o espírito conciliador, dialógico e acima de tudo humanista do grande amigo baiano de nascimento e carioca por opção.

A essência do artigo está centrada na percepção de que as divergências não podem ser argumento para a desunião e o diálogo é o fundamento das relações humanas. Era o que fazia e vivia Deolindo.

O último parágrafo do texto deoliniano permite, contudo, exercer aquilo mesmo que transparece dos seus argumentos, isto é, divergir. Ali, Deolindo afirma que as divergências que estão no interior do movimento espírita desde o seu surgimento não quebraram a “unidade doutrinária, que é fundamental” (sic). (mais…)

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De repente se descobre que a mensagem mediúnica é de péssima qualidade. De quem é a culpa?

As mensagens mediúnicas têm um tripé formado pelo espírito intencional, o médium interpretante e a mensagem final. Na impossibilidade real de haver um médium perfeito, capaz de recolher a mensagem na sua fonte sem nenhum tipo de influência sua sobre essa mensagem, a análise se apresenta como necessária quando se trata de considerar o valor da mensagem. Acrescente-se a noção kardequiana do Espírito, como sendo aquele que tem seus conhecimentos limitados à sua evolução.

As partes presentes no tripé mediúnico – espírito, médium, mensagem – pedem atenção no momento da análise. Outros elementos devem ser considerados, também, mas podem ser colocados em posição de espera até que o tripé seja compreendido*.

O médium está literalmente no centro do processo mediúnico. O contato é feito com ele ou ele faz o contato com o comunicante. A expressão atribuída a Chico Xavier de que “o telefone toca de lá para cá” não deve ser vista como imperativa. Não, segundo Kardec. O médium também pode teclar para o Espírito. Kardec entendeu desde cedo a noção de comunicação como diálogo cujo equilíbrio se traduz por poder igual das partes comunicantes. (mais…)

O resgate histórico de A gênese – síntese do seminário de São Paulo

por Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O Seminário “150 anos de A Gênese – O Resgate Histórico”, desenvolvido no dia 4 de março, pela União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE-SP), em parceria com o Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo – Eduardo Carvalho Monteiro, Liga de Pesquisadores do Espiritismo (LIHPE) e Site Autores Clássicos Espíritas, teve como expositora Simoni Privato Goidanich. Esta se reportou às pesquisas contidas no seu livro “El legado de Allan Kardec”, editado em outubro de 2017 na Argentina, e, lançado neste Seminário, em português, editado pela USE-SP e pelo CCDPE.1 Houve transmissão ao vivo pela Rede Amigo Espírita e por web rádios. A prece de abertura foi proferida por Sandra Moraes (Amazonas) e a de encerramento por Heloísa Pires.

Louvamos a iniciativa da Confederação Espírita Argentina que no ano de 2017 editou A Gênese, de Allan Kardec, traduzida para o espanhol da 1a edição francesa de 1868; apoiou e editou o livro “El legado de Allan Kardec”; e teve a iniciativa de levar o alerta e informações das providências para reunião do Conselho Espírita Internacional, ocorrida em Bogotá em outubro de 2017. Destacamos que Gustavo N. Martínez, presidente da Confederação Espírita Argentina, não podendo comparecer ao evento de São Paulo, encaminhou atenciosa carta para a presidência da USE-SP.

O evento foi aberto pela presidente da USE-SP Júlia Nezu Oliveira, seguindo-se a exposição feita pela convidada, o lançamento de O legado de Allan Kardec, em português, e, um painel, com atuação dos representantes das quatro entidades promotoras e perguntas emanadas do plenário, contando com nossa coordenação.

Na apresentação de Simoni e no painel vieram à tona fatos sobre as alterações ocorridas na 5ª edição francesa (1872) de A Gênese. Na pesquisa documental da autora fica claro que as alterações do texto publicado por Kardec em La genèse foram feitas na quinta edição, registrada apenas em dezembro de 1872, ou seja, mais de três anos depois da desencarnação do Codificador. As quatro edições registradas por Kardec, datadas de 1868, têm o mesmo conteúdo e são a versão definitiva da obra.1

No livro objeto desse Seminário ficam evidentes as alterações de propósitos da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec, e, também na linha editorial da Revista Espírita. O livro O legado de Allan Kardec reúne informações e documentações sobre as primeiras décadas em seguida à desencarnação de Allan Kardec, sendo um rico repositório da história do movimento espírita francês. Avulta o valor de Amélie Boudet, Léon Denis, Gabriel Delanne e Berthe Fropo.

Além da iniciativa pioneira da Argentina, em fevereiro de 2018 foi lançada a versão original de A Gênese, em francês, pelo Movimento Espírita Francofônico. Há providências editoriais correlatas no Uruguai e Colômbia. Em nosso país, com exceção de edição do Centro Espírita Léon Denis, do Rio de Janeiro, todas as edições de A Gênese são traduções da 5ª edição francesa (1872), exatamente a que altera as edições iniciais feitas Kardec. Em nossos dias há informações de que várias editoras brasileiras estariam providenciando traduções das edições francesas (1ª. a 4ª.) de A Gênese.  

Fato inusitado no transcorrer do Seminário, foi a informação feita por Fernando Porto, responsável por um Departamento da USE-SP, de que a tradução para o esperanto de A Gênese, lançada pela Editora da FEB no ano de 2003, adotando a 5ª. edição francesa, e, além disso, elimina também a última e significativa frase do item 66 do capítulo XV: “ Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência.”2,3

Também marcante foi a comunicação do vice-presidente da Federação Espírita do Amapá e membro do Ministério Público Manoel Felipe Menezes da Silva Júnior sobre o texto jurídico de autoria dele e do dr. Auriney Uchoa de Brito, doutor em Direito, professor de Direito e vice-presidente da OAB-Amapá, a propósito de estudos relacionados com direito autoral, direito moral e estudo comparativo com legislação francesa da época de Kardec.

Esse Seminário da USE-SP representou um momento criativo e histórico para se comemorar o sesquicentenário de A Gênese, sendo um passo importante para se assegurar a fidedignidade das obras do Codificador.

A propósito de alterações e/ou deturpações, não cabem incriminações, mas o compromisso de se restabelecer fatos e textos autênticos. O importante é que surjam edições em português a partir de traduções das edições de A Gênese registradas por Allan Kardec.

Torna-se oportuna a lembrança da obra Na hora do testemunho (Ed. Paideia), uma parceria de Herculano Pires com Chico Xavier, em que se denuncia um triste incidente ocorrido no meio espírita brasileiro: a adulteração de O Evangelho segundo o Espiritismo, levada a efeito por uma editora, em julho de 1974. Destaca Herculano Pires: “O médium Francisco Cândido Xavier, apesar de sua costumeira isenção em polêmicas doutrinárias, acabou manifestando-se contra a adulteração e tomou posição firme e clara na defesa dos textos de Kardec. A maioria dos chamados líderes espíritas não se manifestou. A hora do testemunho provara mal, revelando a falta de convicção da maioria absoluta, e portanto esmagadora, do chamado movimento espírita brasileiro. Mas os resultados foram se manifestando mais tarde, com um crescente interesse do meio espírita pelas obras de Kardec em edições insuspeitas.”4

Após a síntese do Seminário, passamos a realçar o significado de A Gênese para o momento atual, apontando como imprescindível o estudo dessa Obra Básica, não apenas de textos comparativos de edições, mas do significativo conteúdo geral do livro.

Com A Gênese completa-se o quinto volume das chamadas Obras Básicas da Codificação. Kardec discorre sobre questões destacadas no subtítulo: os milagres e as predições segundo o Espiritismo; e analisa a Gênese de acordo com as leis da Natureza e a interpretação espírita.

Realçamos a importância do capítulo “Fundamentos da Revelação Espírita”, onde Kardec faz abordagens fundamentais e de onde destacamos a significativa colocação: “[…] o que caracteriza a revelação espírita é que a sua origem é divina, que a iniciativa pertence aos espíritos e que a elaboração é o fruto do trabalho do homem” (Cap. I, item 13).3 Essa afirmação mostra a responsabilidade dos encarnados, notadamente nas condições de liderança, gestão nas instituições e as ações do movimento espírita. O Mundo Espiritual orienta, mas as decisões dependem de nossas escolhas.

No livro recém lançado de Simoni Privato Goidanich há o alerta: “A responsabilidade ante o legado de Allan Kardec é de todos os espíritas, e cada um herdará as consequências de seus atos e de suas omissões”.1

É o que ocorre nesse momento quando se manifestam espíritas preocupados com a fidelidade à obra de Kardec e com o movimento espírita.

O Codificador discorre sobre a relação entre Espiritismo e Ciência e realçamos o seu cuidado no tratamento de temas relacionados com as diversas áreas do conhecimento, sem detalhá-los em demasia, fazendo com que sua obra seja atual e não ultrapassada.

O antigo professor Rivail, intelectual e inspirado, analisou o desenvolvimento do planeta e da civilização procedendo a uma analogia dos chamados dias bíblicos com os períodos geológicos e de maneira totalmente diferenciada das religiões tradicionais. E comenta a posição da Terra no amplo contexto do Cosmo.

Na Introdução, Kardec comenta é “um complemento das aplicações do Espiritismo, de um ponto de vista especial”. Assim, se em O evangelho segundo o espiritismo o Codificador destacou o ensino moral, em A Gênese ele comenta que “os fatos relatados no Evangelho e que foram até agora considerados miraculosos, pertencem, na sua maioria, à ordem dos fenômenos psíquicos, isto é, os que têm como causa primeira as faculdades e os atributos da alma” (Cap. XV, item 1).3

O perispírito é abordado em vários capítulos do livro, clareando explicações sobre os fenômenos mediúnicos, os chamados “milagres” e as aparições de Jesus, descortinando-se o mundo espiritual.

Afirma que “Jesus teve, como todo homem, um corpo carnal” (Cap. XV, item 66)3 e trata da polêmica sobre o desaparecimento do corpo no item 67, eliminado na 5ª. edição francesa.1,3

No capítulo XV aponta: “O maior milagre que Jesus operou, o que verdadeiramente atesta a sua superioridade, foi a revolução que seus ensinos produziram no mundo, malgrado a exiguidade dos seus meios de ação” (item 63).3                    

A transição planetária é apreciada nos capítulos “As predições segundo o Espiritismo” e “Os tempos são chegados”, e alerta que ainda “falta um imenso progresso a realizar: o de fazerem reinar entre eles a caridade, a fraternidade e a solidariedade, para assegurar o bem-estar moral.” A partir da expectativa dos tempos chegados e de uma era nova, nada mais pertinente do que se estudar o livro A Gênese.

A USE-SP lançou em 1975 a Campanha Comece pelo Começo e agora lança o brado do resgate histórico de A Gênese. No sesquicentenário de A Gênese é o momento de valorizarmos a citada Campanha que enfatiza a necessidade do estudo das obras do Codificador Allan Kardec.

Referências:

1)     Goidanich, Simoni Privato. O legado de Allan Kardec. 1.ed. São Paulo: USE/CCDPE. 2018. 447p.

2)     http://www.febnet.org.br/ba/file/livro%20em%20esperanto/lagenezo.pdf; acesso em 04/03/2018.

3)     Kardec, Allan. Trad. Sêco, Albertina Escudeiro. A gênese. 3.ed. Rio de Janeiro: Ed. CELD. 2010. 488p.

4)     Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano. Na hora do testemunho. 1. ed. São Paulo: Paidéia. 1974. 120p.

(*) – Coordenador do Painel no Seminário Resgate Histórico de A Gênese. Ex-presidente da USE-SP e da FEB.