Herculano, o convite

Destacado

convite-lancamento-dvd

O jornalismo espírita diante do mundo contemporâneo

Destacado

O just in time e o real time do momento cultural humano pedem ações em que o time não se perca no esquecimento do que existe e é.

O jornalismo periódico em que o tempo entre uma edição e outra mantém as fórmulas tradicionais – quinzenais, mensais, bimestrais e semestrais – está, e já não é de hoje, a solicitar uma mudança radical na publicação da notícia e dos artigos. Já Machado de Assis, em seu século, dizia que a notícia da manhã lida à tarde perdia importância. O sentido imediato de notícia é a novidade e num mundo em que os meios ligaram a máquina de escrever à rede, os segundos determinam a novidade ou a caducidade da notícia. Ou seja, determinam a surpresa e o interesse do destinatário, o seu prazer pelo conhecimento do que acontece, ou, então, o leva ao desprezo pela ausência da novidade, uma vez que o acesso à notícia ou não ocorreu no tempo ideal ou já aconteceu por outras fontes. Leia mais

E este telefone que não toca…

Destacado

O mito, o significado e o sentido num mundo em que o ser humano jamais esteve desconectado da vida interexistencial.

comunicacao

Isto significa isso?

Que me desculpe Herculano Pires e outros pensadores deste tempo, mas é preciso às vezes ciscar como as galinhas em busca de migalhas, especialmente quando as migalhas parecem ser o único alimento viável para uma geração de corações simplórios e facilmente iludíveis. É o caso do telefone do Chico, popularizado como aquele que só recebe ligações, não faz.

Antes, uma reflexão que mais à frente fará sentido. Os estudiosos das teorias que privilegiam a significação vão entender de imediato o que desejo quando aponto para o título de um livro da semiótica da comunicação que diz: “Isto significa isso, isso significa aquilo”. Não é difícil compreender, basta recordar que muitas expressões utilizadas para comunicar ideias têm seu significado semântico, mas não o representam, ou seja, são tomadas de empréstimo para carregar outro sentido. Talvez seja o que mais ocorre na comunicação humana. Leia mais.

O espírito da liberdade e a liberdade sem espírito

Destacado

A essência da liberdade é a essência afetiva do bem e da justiça. Tudo o mais é liberdade sem espírito.

liberdade-religiosa-620x350

Onde a liberdade do outro é por nós cerceada é um pouco da nossa liberdade que o é.

É absolutamente impensável adotar os princípios espíritas como base teórica do pensamento e não considerar o alto conceito de liberdade de que são dotados esses princípios. Esclarecendo, é impensável do ponto de vista da coerência, da lógica e das práticas no mundo da vida. A Liberdade – não a palavra, pois como se sabe nenhuma palavra tem relação direta com o seu objeto – é o bem maior, o fruto mais expressivo das leis da natureza e aquele que está na base da justiça e do progresso individual do ser humano. Leia aqui

A audácia de Kardec e a atrofia dos nossos tempos

Destacado

A consciência que tarda é a lacuna que permite e convida à permanência do velho.

A ideia nova precisa da palavra adequada.

A ideia nova precisa da palavra adequada.

A teimosia, ao lado de outros fatores como a preguiça intelectual e o orgulho prepotente, marca as ações de muitas lideranças do Espiritismo brasileiro. A mudança está no cerne do progresso do homem e onde não há a presença da mudança, há ausência de progresso. Mudar, já diziam os gregos, é o que justifica a permanência. No Espiritismo aprende-se que a vida se constitui de mutabilidade e de imutabilidade, assim como compreendia, também, Saussure no campo da linguística. As leis naturais são imutáveis, mas a natureza e tudo o mais são mutáveis, com o homem no centro das ações a impulsionar o progresso. Leia aqui

Chico Xavier e o desafio do discurso biográfico

Destacado

Onde se situa o mito e onde está o dever de retratar o Homem?

Chico Xavier e o livreiro Stig Roland Ibsen

Chico Xavier e o livreiro Stig Roland Ibsen


Publicado originalmente no blog da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita, ABPE


Alguns leitores demonstram incômodo diante dos retratos de Chico Xavier feitos pelas câmaras escuras dos seus biógrafos, indagando – e até culpando – esses biógrafos pela ausência da visão realista do ser humano existencial, prevalecendo a visão mítica que coloca o médium num pedestal distante e, consequentemente, o distancia do homem que ele foi. Para ler, clique AQUI ou AQUI

A morte da liberdade é a morte do Homem

Destacado

LiberdadeDe Leon Denis a Herculano Pires, a ideia de liberdade acompanha a do progresso ou do fracasso do Espiritismo enquanto movimento e vida. Ambos defendem que o futuro da doutrina se encontra nas mãos dos seres que a dirigem, pois é com a liberdade sagrada de pensar e agir que o homem põe e impõe sua direção.

A noção de liberdade que os dois filósofos ensinam nasce dos sulcos feitos na terra da reflexão espírita que Kardec desbravou, ao fazer surgir o espírito antecedente ao corpo e a este posterior. Estava ele contido nas nuvens tardias do nada e tornou-se, então, palpável a todos os olhares agudos.

Quanto mais o espírito surge pelas frestas dessa floresta de muitos significados e pouca expressão verdadeira, mais assume a sua condição de ser livre, pois o homem é liberdade. Aqueles que o sufocam com suas idiossincrasias e desejos de conquista pela violência travestida de boas intenções não poderão apagar a bagagem amealhada através das eras, das idas e vindas ao corpo, do desdobramento da consciência de si mesmo.

A negação da liberdade apequena e tolhe, mas não apaga ou anula aquilo que já não pode ser mais confrontado. A liberdade suprimida aqui permanece latente e ansiosa, pronta para eclodir mais adiante, porque sua força já não depende mais do exterior, senão de si mesma.

As lideranças espíritas que não compreendem a Vida, não compreendem a Liberdade e não compreendem o Ser. Vida, Ser e Liberdade se completam e a liberdade é o oxigênio que mantém a vida e dá sentido ao ser. Não podendo expressar-se, o Ser paga a dor de uma sentença que é injusta e ao mesmo tempo passageira, pois quem não valoriza a liberdade como expressão inarredável da lei natural é também ou até mais passageiro, pois que vive da brevidade de um pensar marcado para morrer.

A supressão momentânea do direito de pensar e dizer ou o tolhimento do espaço para que a liberdade se manifeste sob controle apequena também o futuro imediato, pois que coloca o pensamento espírita sob o jugo do homem menor. Este homem menor é o que delimita o espaço da liberdade a paredes milimetradas pela matéria visível, enganado por si mesmo ante a necessidade de organizar pelo método do controle do agir e do fazer, na ante educação que destrói a história das conquistas humanas.

Denis e Herculano pensaram uma liberdade que Kardec colheu nos canteiros matinais umedecidos pelo sereno espiritual, como frutos maduros dotados das melhores condições para alimentar a caminhada do ser em seus desígnios imortais. Apenas a mediocridade de hoje pode deter e atrasar essa caminhada, mas o preço a pagar por isso será imensamente doloroso.

Abrir as portas da doutrina para as alamedas floridas da liberdade é ato de homens corajosos, apenas, pois o poder quando é justo ensina a voar ao invés de manter no chão pobre da matéria o espírito desejoso de infinito. O homem medíocre, sob o disfarce da segurança, fecha e tranca as portas, crente que defende o patrimônio que somente consegue ler nas rotas páginas do livro impresso. Mas o patrimônio espírita da palavra é apenas o primeiro ato da peça ensaiada no palco do universo. O seu significado paira para além das linhas e dos pontos linguísticos e pode ser encontrado no dicionário do espírito imortal.

Limitar a palavra é o começo da ação que visa deter o pensamento criativo, cuja consequência maior se mostra na ausência de conquistas que embalam o progresso. O líder medíocre propaga a doutrina mediocrizada pela incapacidade de ser por ele compreendida e expressada. Sob a toga do medo, resta-lhe trancar as portas e impedir que os ventos da liberdade penetrem no ambiente e encantem aqueles que se submetem ao domínio do pensamento canhestro.

Entretanto, a morte no agora que destrói sonhos de liberdade será superada mais adiante pelo ser imortal, e este renascerá das mesmas entranhas da terra da esperança e com os mesmos sonhos, a fim de continuar a construir o mundo prometido da justiça e do amor.

O lado cinzento da mediunidade no espiritismo contemporâneo

Destacado

Rizzini, Arnaldo e Herculano foram envolvidos na trama dos interesses do círculo dos adoradores de Chico Xavier.

Rizzini, Arnaldo e Herculano foram envolvidos na trama dos interesses do círculo dos adoradores de Chico Xavier.

Mensagens atribuídas a Rizzini, Herculano Pires e Arnaldo Rocha ridicularizam os médiuns, a mediunidade e a própria doutrina.

A morte física do médium Chico Xavier não levou para o outro plano da vida apenas o espírito; levou, também, o bom-senso e abriu espaço para que candidatos a homens de bem se cristalizassem numa nova loucura da atualidade: a de batalhar a todo custo para que o querido médium se transforme no deus do espiritismo, guia absoluto e indiscutível da doutrina, atribuindo-lhe a supremacia do pensamento de um movimento que dia a dia rola ladeira abaixo sob o manto do religiosismo exacerbado. Leia mais

Congressos espíritas: espaço público de conhecimento ou conhecimento público do espaço?

Destacado

Há muito se sabe que os congressos espíritas, salvo raras exceções, se tornaram eventos muito mais para dar satisfação ao público da existência da doutrina do que para se tornar um espaço público de produção de conhecimento.

Nesse ponto, a história tem sido cruel com os espíritas. Se alguém deseja estudar, pesquisar e produzir ou o fará por sua própria conta e risco ou deverá desistir. As instituições espíritas, que se autoproclamaram coordenadoras do espaço público, sonegam em seus eventos qualquer possibilidade de apresentação de novos trabalhos, incorrendo em duro desestímulo para com os interessados.

A FEB, que se transformou na mais forte defensora da coordenação desse espaço público, tradicionalmente negou os congressos espíritas. Deolindo e amigos, em 1939, romperam com essa barreira promovendo com destaque o primeiro Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas. Havia um objetivo pontual na época – enfrentar as barreiras sociais e políticas que eram erguidas contra a doutrina e seus seguidores.

Mas então os espíritas perceberam que o objetivo poderia ser maior e, passada a 2ª Guerra Mundial, retomaram o projeto e repetiram o congresso periodicamente, sempre contando com a má vontade da FEB, até que ela própria, a FEB, cedeu e passou a ter presença representativa nos congressos para depois também patrocinar os seus.

Mas os congressos da FEB e de suas federativas aliadas jamais foram eventos voltados para a produção de conhecimento. Pelo contrário, seu espaço era público até o portão da rua. Dali para dentro, obedeceu-se a um modelo de congresso que protegia a FEB dos “perigos” representados pela liberdade de pensamento e expressão. Ou seja, todos são livres e estão convidados, desde que pensem com e como a FEB.

As federativas, por sua vez, capituladas também nesse terreno, logo adotaram o modelo febiano e cuidaram de se proteger dos mesmos “perigos”. E trouxeram uma “modernização” à base da sociedade do espetáculo, tornando esses eventos uma “festa” com amplo espaço de consumo de bens e, ilustrativamente, arte. Debate e estudo, para justificar o lado progressista da doutrina enfatizado por Kardec, nem pensar.

Desde quando a FEB programou o seu primeiro congresso, em 1989, que o modelo se repete. Divaldo, com seu carisma, e alguns mais devidamente autorizados, abrem e fecham esses espaços semi-públicos. Divaldo já o fazia antes, mas quando se tratava de congresso de jornalistas e escritores espíritas, era ele parte e não o destaque principal. O espaço era público no mais amplo sentido da palavra.

Agora, divulga-se o próximo congresso estadual da USE, de São Paulo, para 2017. E o modelo se repete, indo a USE contra sua própria origem. Esta instituição espírita, que divide o comando do movimento no maior estado do Brasil com a Federação, teve origem num congresso (repudiado pela FEB) que se instalou e a criou após amplos debates de propostas diversas. E congressos posteriores mantiveram a forma.

A FEB capitulou ante a imperiosa necessidade de aderir aos congressos, mas fez capitularem as federativas e quase todo o movimento espírita ante um modelo de evento que não tem nenhum interesse em pensar e fazer pensar com liberdade, senão em exibir os conhecimentos já bastante conhecidos daqueles que prioritariamente são colocados nos folders e cartazes para atrair a atenção. Divaldo, o astro principal, permanece firme no corpo físico, mas Divaldo em algum momento já não estará mais aí, então preparam-se os seus substitutos que são escolhidos ou inventados e devidamente instruídos para substitui-lo quando a falta dele se der. São eles recrutados dentre os que possuem títulos ou são doutores com algum destaque em algum setor. Já estão amansados ou serão devidamente aculturados. Para facilitar isso, são elevados a ídolos nascentes e colocados nos materiais de propaganda com sorrisos fabricados em imagens publicitariamente produzidas.

O público acorre a esses eventos massivos como quem vai a um grande show em busca de seus ídolos. As pessoas adquirem o ingresso, compram camisetas e consomem outros badulaques. Emocionam-se com frases de efeito ante oradores de gestos espetaculosos, vertem lágrimas e depois retornam aos seus lares com a alma embevecida. Pagam pelo “conhecimento” empacotado sem precisarem exercer o terrível esforço de análise do pensamento alheio, que, afinal, está ali para ser engolido e não ruminado. Ao fim das contas, todos saem felizes, dirigentes, oradores e o público.

A sociedade do consumo é também a sociedade do espetáculo e, como já foi profetizado, faz capitular tudo e todos aos seus desígnios. Então, nossos congressos, que perderam um dos seus mais importantes pilares representados pelo espaço público de apresentação de novos conhecimentos, sequer podem ser vistos como oportunidade de reflexão sob outros vieses daquilo que o Espiritismo apresenta há mais de 150 anos. O que mais se vê são repetições do mesmo, com a diferença de que agora vivemos num terrível vácuo pela ausência de pensadores espíritas de respeito. A reencarnação ainda não os substituiu.

Não é apenas por autoproteção que as lideranças espíritas promovem congressos sob o modelo vigente, em que os temas são escolhidos por alguns e apresentados por outros alguns escolhidos a dedo pelos mesmos alguns. A ninguém é dada a liberdade de escolher-se e escolher seu tema para levar ao conhecimento e debate público, abrindo a reflexão na diversidade da realidade e da natureza. E com isso a doutrina, progressiva em teoria, estaciona na prática do dia-a-dia do mundo da vida.

É também por irresponsabilidade das lideranças, ante a obrigação de promover o conhecimento que sustenta a verdadeira liberdade. Não se trata do conhecimento de alguns, que isso é pura pretensão. Trata-se de um conhecimento gestado na diversidade dos atores, como o fora quando da codificação de Kardec com o apoio, não de um Espírito, mas de uma coletividade que incluía superiores e inferiores da escala evolutiva.

Trata-se de estimular e apoiar o estudo e as pesquisas com elementos efetivos e não apenas argumentativos. Trata-se de aprender a viver na diversidade, porque a evolução se dá na diversidade. Trata-se de ampliar o alcance dos congressos, tirando-os da apatia auditiva e visual. Trata-se de superar as limitações que lhe foram impostas, com a coragem daqueles que compreendem a necessidade de construir coletivamente o saber, sem deixar empoeirar a codificação nas estantes do poder transitório.

Deolindo e os diversos espiritismos

Destacado

Opinião*, a pílula do Dr. Ross do jornalismo espírita, republica em sua edição de jan./fev. 2016 interessante artigo do saudoso e respeitável Deolindo Amorim, intitulado “Desunião e divergência”. Ali está todo o espírito conciliador, dialógico e acima de tudo humanista do grande amigo baiano de nascimento e carioca por opção.

A essência do artigo está centrada na percepção de que as divergências não podem ser argumento para a desunião e o diálogo é o fundamento das relações humanas. Era o que fazia e vivia Deolindo.

O último parágrafo do texto deoliniano permite, contudo, exercer aquilo mesmo que transparece dos seus argumentos, isto é, divergir. Ali, Deolindo afirma que as divergências que estão no interior do movimento espírita desde o seu surgimento não quebraram a “unidade doutrinária, que é fundamental” (sic).

Por unidade doutrinária podemos entender dois aspectos: os princípios básicos em torno dos quais todo o edifício doutrinário está erguido, do que se conclui que um só desses princípios negados redunda em negação do todo. O segundo aspecto é o mundo da vida, onde os princípios são elevados ao nível das experiências e das ideias defesas.

Se considerarmos que a obra de Kardec mantém seu conteúdo e sua forma inalterados em todas as traduções, apesar das tentativas de modificar aqui e ali conceitos que imaginam ultrapassados, pode-se argumentar com segurança que a unidade doutrinária se mantém. Nesse campo de discussões e divergências os princípios básicos do Espiritismo prosseguem incólumes e passam de geração a geração.

Entretanto, é no mundo da vida que se encontra o nó da questão. É aqui que parte desses mesmos princípios são negados ou têm seu valor reduzido, constituindo-se em ameaça constante à obra física. Não custa recordar que muito do que se discutia até há pouco tempo sob o título de “pureza doutrinária” dizia respeito, exatamente, a esses dois aspectos.

Os fatos corroboram esta afirmação. Já nos círculos de Kardec as divergências se fizeram presentes, mas são alguns fatos marcantes que melhor revelam que a unidade doutrinária balança entre os registros textuais e o mundo da vida.

Fiquemos com alguns desses fatos.

A obra de Colignon e Roustaing deve ser vista como divergência de grande repercussão ainda no século XIX e que no mundo da vida se coloca do lado oposto à obra de Kardec. Não são meros aspectos que fundamentam a divergência, mas, sim, negações de princípios básicos, que dizem respeito à reencarnação, à evolução etc. e que, apesar disso, marcam também a ambiguidade das instituições que promovem Kardec e Roustaing ao mesmo tempo, as quais contam com expressiva representatividade no Brasil.

Se nos ativermos ao nosso país apenas, podemos recordar os movimentos que ainda vigoram, com maior ou menor representatividade, cujas doutrinas derivam do Espiritismo mas negam também ou subvertem determinados princípios básicos, tais como o Racionalismo Cristão, de Luiz de Matos, o polidorismo, de Oswaldo Polidoro e, no limite – que ninguém fique pasmo – diversos dos movimentos em torno do médium Chico Xavier, que se ancoram na ideia de ter sido ele a reencarnação de Allan Kardec e, portanto, maximizam a noção da legitimação de sua obra como avanço em relação à do codificador, o que significa atribuir-lhe valor maior que a de Kardec. Aqui, não só o princípio da reencarnação é subvertido como, também, a razão espírita, que se apresenta quase que como um princípio básico doutrinário, desce ao nível do desprezo pelos assim auto reconhecidos chiquistas.

Deolindo tem plena razão no mais, a meu ver. Lamentável, apenas, que cada vez mais a fragmentação do Espiritismo vem acompanhada da negação do diálogo, empurrando cada grupo para o seu canto, o que, para ele, Deolindo, como para qualquer criatura humana no sentido lato dessa expressão significa irrecuperável prejuízo ao progresso da sociedade e ao desenvolvimento do conhecimento.

* http://ccepa-opiniao.blogspot.com.br/

De repente se descobre que a mensagem mediúnica é de péssima qualidade. De quem é a culpa?

Destacado

As mensagens mediúnicas têm um tripé formado pelo espírito intencional, o médium interpretante e a mensagem final. Na impossibilidade real de haver um médium perfeito, capaz de recolher a mensagem na sua fonte sem nenhum tipo de influência sua sobre essa mensagem, a análise se apresenta como necessária quando se trata de considerar o valor da mensagem. Acrescente-se a noção kardequiana do Espírito, como sendo aquele que tem seus conhecimentos limitados à sua evolução.

As partes presentes no tripé mediúnico – espírito, médium, mensagem – pedem atenção no momento da análise. Outros elementos devem ser considerados, também, mas podem ser colocados em posição de espera até que o tripé seja compreendido*.

O médium está literalmente no centro do processo mediúnico. O contato é feito com ele ou ele faz o contato com o comunicante. A expressão atribuída a Chico Xavier de que “o telefone toca de lá para cá” não deve ser vista como imperativa. Não, segundo Kardec. O médium também pode teclar para o Espírito. Kardec entendeu desde cedo a noção de comunicação como diálogo cujo equilíbrio se traduz por poder igual das partes comunicantes.

De volta. A centralidade do médium no processo implica que ele é o homem do contato, mas também o homem da interpretação das ideias do Espírito. E, ainda, coautor da mensagem. Explica-se: o espírito intencional deseja transmitir ideias sobre temas de sua preferência e, como se sabe, precisa da palavra ou da linguagem que funciona como código a ser lido pelo médium. Daí haver Kardec dito que o médium é um intérprete do Espírito.

A capacidade de interpretar, portanto, surge na essência do processo. Neste momento, pode-se perceber a complexidade da questão. O Espírito apresenta suas ideias e o médium as recolhe, mas não como quem recolhe um pedaço de papel escrito. O médium “lê” essas ideias e diz para si mesmo o que elas significam. É o processo comunicativo com todas as implicações de uma comunicação baseada em símbolos linguísticos, com significados semânticos e contextuais.

Interpretar é função desafiadora, que vai terminar quando a mensagem é elaborada, outra função do médium. É, pois, na mensagem que está a chave da interpretação que o médium realiza. Ao escrever essa mensagem ele está dizendo o que entendeu do que lhe “disse” o Espírito comunicante. Se essa visão do processo mediúnico não recobre todo o espectro da mediunidade, alcança grande parte da psicografia, da psicofonia e da pintura mediúnica, os três tipos mais praticados na atualidade.

Se a mensagem entregue pelo médium ao leitor contém a ideia do Espírito, não deixa de ter também a ideia do médium. Em que medida uma é maior do que a outra ou que percentual pode-se atribuir a um e outro é a análise que poderá dizer.

Sabe-se por Kardec que há mensagens para as quais o Espírito intencional contribuiu apenas com a ideia central, deixando ao médium o desenvolvimento do texto. Nesse caso, a estrutura textual é toda do médium, assim como pertence a ele, médium, o estilo e a responsabilidade pelo conteúdo.

No limite, temos mensagens que podem ser ricas de informações a ponto de se poder identificar o autor espiritual pelo estilo e até mesmo pela assinatura, além das ideias expressas na mensagem. Casos como esses são menos comuns, certamente porque dependem de uma harmonia rara entre o Espírito intencional e o médium interpretante no momento mediúnico, harmonia essa que é também oscilante: se alcançada num primeiro momento, pode não o ser no seguinte.

O conhecimento do processo de comunicação mediúnica ou mecanismos da mediunidade contribui bastante para uma análise consistente da mensagem. O Espírito comunicante tem sua parcela de responsabilidade pelas ideias que fornece e o médium igualmente a sua pela capacidade de interpretar essas ideias, mas quando se trata de mensagem pronta e publicada, a responsabilidade final passa ao destinatário, leitor ou ouvinte, pois este é que vai fazer uso do conteúdo.

A análise, portanto, não é requisitada para estabelecer culpados no caso de mensagens sem qualidade, como também não se destina a consagrar o autor e o médium no caso contrário. Sua finalidade é determinar ao leitor ou ouvinte se a mensagem lhe serve ou não e isso é responsabilidade dele, destinatário.

Evidentemente, mensagens vindas por médiuns respeitáveis e assinadas por Espíritos cujas ideias são conhecidas por sua elevação apresentam possibilidades de aceitação maior. Igualmente aquelas que recebem a aprovação de líderes e dirigentes com credibilidade. Daí por que quanto mais respeitáveis são os médiuns e os Espíritos, bem como os líderes e dirigentes, maiores são suas responsabilidades perante o leitor ou ouvinte.

Espíritos jamais deveriam apresentar ideias de baixa qualidade. Médiuns nunca deveriam publicar mensagens de teor ruim. E líderes e dirigentes jamais deveriam dar o aval às produções mediúnicas de origem duvidosa. Mas quem é capaz de impedir que isso ocorra? Todos são livres para decidir por suas ações, adesões, ideias afins. E liberdade é a única garantia que existe para a formação da responsabilidade.

Portanto, ninguém pode substituir o leitor ou ouvinte na análise e na decisão quanto ao valor da mensagem. É dele e de mais ninguém essa responsabilidade. Mesmo quando alguém, influenciado por líderes, dirigentes ou médiuns, resolve dar crédito a uma mensagem dispensando-se da análise e confiando na daqueles que lhe antecederam, a decisão última é deste. O ônus ou o bônus resultante dessa decisão não se destinará a outro que não seja o leitor ou ouvinte, que chamamos de destinatário final da mensagem.
* Leia mais sobre o assunto no livro “Os Espíritos falam. Você ouve?”, deste autor, Editora EME, Capivari, SP.

O jornalismo espírita diante do mundo contemporâneo

O just in time e o real time do momento cultural humano pedem ações em que o time não se perca no esquecimento do que existe e é.

O jornalismo periódico em que o tempo entre uma edição e outra mantém as fórmulas tradicionais – quinzenais, mensais, bimestrais e semestrais – está, e já não é de hoje, a solicitar uma mudança radical na publicação da notícia e dos artigos. Já Machado de Assis, em seu século, dizia que a notícia da manhã lida à tarde perdia importância. O sentido imediato de notícia é a novidade e num mundo em que os meios ligaram a máquina de escrever à rede, os segundos determinam a novidade ou a caducidade da notícia. Ou seja, determinam a surpresa e o interesse do destinatário, o seu prazer pelo conhecimento do que acontece, ou, então, o leva ao desprezo pela ausência da novidade, uma vez que o acesso à notícia ou não ocorreu no tempo ideal ou já aconteceu por outras fontes.

O mesmo ocorre com uma centena de artigos e crônicas escritos com base no factual, com o objetivo de refletir e expressar opinião sobre ou a respeito de acontecimentos que geram interesse no autor e em parte da sociedade. O tempo se mostra cada vez mais premido pelo imediato, como meio de garantir a relação entre a ocorrência e o contexto, pois funcionam como imagens que vão perdendo significado à medida em que se distanciam do momento fixado.

Já não se pode atribuir, como antes, diferença fundamental entre aquilo que é visual e aquilo que é textual, pois texto e imagem se confundem num mundo em que o olhar parece ser cada vez mais o orientador dos sentidos. O texto factual – artigos, crônicas, notícias – são cada vez mais imagens que se unem a outras visualidades para produzir sentidos e atender aos desejos de interpretação do mundo, segundo a realidade relativa do momento.

Claro, não estamos produzindo uma generalização. Há estudos e pesquisas para os quais o just in time é mais adequado do que o real time, de maneira que os periódicos destinados a difundi-los podem continuar gozando de periodicidade específica, diferenciada ou dentro da tradição conhecida. Não apenas o tempo é mais condescendente aí como também o espaço que estes produtos solicitam.

Qual é, pois, o desafio dos espíritas que se lançam no campo da comunicação?

Em primeiro lugar, entender o seu tempo para adequar-se a este. Objetivamente, agir em consonância com o tempo a fim de obter os resultados planejados. No caso dos jornais impressos e seus correlatos, um caminho a seguir é dotá-los de um espaço digital – sítio – em que o material vai sendo disponibilizado à leitura à medida em que chega às mãos do editor ou é por esse produzido, dando conhecimento disso ao seu público por meio de envio de versões reduzidas do jornal. Ou seja, inverter a lógica atualmente aplicada, em que o jornal digital surge após a publicação do jornal impresso, sendo dele uma fotografia e ao mesmo tempo um arquivo disponível para pesquisa.

Desta maneira, o jornal digital deixa de lado ou pode dispensar fatores como quantidade de páginas, por exemplo, uma vez que sua circulação obedece mais à necessidade do real time, que, neste caso se torna um aliado do editor.

Para aqueles que, por medida econômica ou por adequação aos novos tempos, já não publicam a versão impressa, apenas a digital, a inversão da lógica também se apresenta como auxiliar dinâmica, ou seja, muitos, embora publicando somente jornais digitais, mantém a ideia do veículo completo, periódico, para então torná-lo público, disponível aos seus leitores. A dinâmica da comunicação não só permite como se coloca a favor de uma distribuição sem periodicidade fixa, ocorrendo sempre que novos artigos e notícias sejam produzidos, de modo que a presença do veículo junto ao leitor alcança maior intimidade e, sem dúvida, contribui para a elevação da credibilidade do veículo e de seu corpo editorial.

É verdade que um jornal completo, com muitas páginas, apresenta maior robustez e confere um peso acentuado junto à categoria dos leitores tradicionais, assim como o veículo impresso ainda se constitui na preferência de considerável parcela de consumidores de informação, na mesma linha do que ocorre com os livros impressos. Para atender a demandas dessa ordem, o jornal completo pode continuar sendo distribuído na sua periodicidade normal, costumeira, mas então, não será mais aquele veículo com conteúdo original integral, pois parte dele já terá sido dado à publicidade nas ocasiões anteriores, o que em nada diminuirá sua importância. É provável que esta fragmentação venha a favor do próprio jornal por alcançar a outra gama de leitores que prefere textos menores ou em menor quantidade e dá notória importância ao real time.

Notícias e estudos dão conta de que os veículos e os sítios mais visitados são aqueles que apresentam maior dinâmica em seu conteúdo, com novidades e material de interesse do público alvo constantemente (se não, diariamente) atualizado. O diferencial mais importante, contudo, continua sendo a qualidade do material publicado, aí considerado, em primeiro lugar, o conteúdo, a credibilidade de seus autores e do próprio conteúdo geral. Não se deixe de lado, porém, a importância da apresentação estética e do sempre necessário estilo, que deixa sua marca com força.

A adoção dessa nova dinâmica na veiculação de notícias, artigos, estudos e matérias de opinião de um lado coloca o veículo em linha com a realidade da comunicação contemporânea e, de outro, elimina o indesejado espaço entre o recebimento do material e sua publicação. Além disso, atende a uma necessidade dupla, ou seja, nem quem escreve gosta mais de esperar longamente para ver seu texto publicado, nem quem lê deseja aguardar um dispensável tempo para se colocar a par de fatos e ideias que já estão prontos para circular.

E este telefone que não toca…

O mito, o significado e o sentido num mundo em que o ser humano jamais esteve desconectado da vida interexistencial.

comunicacao

Isto significa isso?

Que me desculpe Herculano Pires e outros pensadores deste tempo, mas é preciso às vezes ciscar como as galinhas em busca de migalhas, especialmente quando as migalhas parecem ser o único alimento viável para uma geração de corações simplórios e facilmente iludíveis. É o caso do telefone do Chico, popularizado como aquele que só recebe ligações, não faz.

Antes, uma reflexão que mais à frente fará sentido. Os estudiosos das teorias que privilegiam a significação vão entender de imediato o que desejo quando aponto para o título de um livro da semiótica da comunicação que diz: “Isto significa isso, isso significa aquilo”. Não é difícil compreender, basta recordar que muitas expressões utilizadas para comunicar ideias têm seu significado semântico, mas não o representam, ou seja, são tomadas de empréstimo para carregar outro sentido. Talvez seja o que mais ocorre na comunicação humana.

Não é preciso ficar apenas no campo da linguística. Podemos transitar por todas as linguagens, tais como a visual, representada pelas imagens, a gestual e a dos sinais. Raras são as ocasiões em que o símbolo utilizado não está a dizer coisa diferente daquilo que originalmente significa.

Vejamos o exemplo do telefone. Embora utilizemos essa palavra com o sentido de aparelho que permite falar com outra pessoa, o seu significado se ampliou exponencialmente. De imediato, tem-se nítida preferência para o termo celular (“me dê o número do seu celular”, diz-se comumente) quando não se trata de telefone fixo (que é cada vez menos utilizado). Mas a palavra celular também já não dá conta do próprio sentido, pois está a significar algo muito mais amplo do que o simples aparelho de telefonia. Trata-se, agora, de um computador de mão, com múltiplas funções convergentes e o fato de permitir ser usado como telefone perde cada vez mais importância para as outras funções.

Dito isso, vamos ao que interessa. A frase atribuída a Chico Xavier pela qual ele afirma que “o telefone só toca de lá para cá” ganha cada dia mais popularidade. Está hoje na boca de palestrantes e oradores, nos textos de articulistas e escritores, nas rodas de conversa e muitos outros cantos, de modo que se pode, sem medo de errar, dizer que se tornou um verdadeiro paradigma se tomada em seu sentido literal. Mas eu diria que parece um verdadeiro chamamento do mito, dado que recorda quando usada a face daquele que a teria cunhado e se posiciona assim como um discurso de autoridade a estabelecer uma verdade definitiva. Ou seja, o médium não tem poder algum para evocar o espírito e dele receber mensagens, somente o fará se o espírito vier espontaneamente.

Será que é realmente isso que Chico diz? Com certeza, não!

Vamos ao contexto. Diante dos pedidos feitos constantemente por pais de jovens falecidos, que desejavam receber comunicações deles, Chico responderia: “o telefone só toca de lá para cá”. O sentido literal aí aplicado inevitavelmente implicará uma contradição doutrinária, uma vez que Kardec ensina que os espíritos podem atender ao chamado dos que aqui ficaram, tanto quanto podem vir falar com eles espontaneamente. Os livros básicos da doutrina estão repletos desses dois tipos de mensagens assinadas por espíritos das mais diferentes condições morais. Quanto a isso não há divergência possível.

Chico conhecia esse ponto importante da doutrina? Evidentemente. Inúmeras vezes foi convencido a evocar espíritos por diferentes razões, seja de ordem particular dele, seja de ordem doutrinária demandado que era pelos amigos e dirigentes que a ele recorriam. Emmanuel atendeu a diversas solicitações de Chico, fazendo-se presente em momentos graves ou não tanto, bem como outros espíritos. Mas Chico também recorreu a parentes seus, especialmente sua mãe, para resolver questões pontuais que lhe traziam inúmeras dificuldades.

Evocar espíritos constitui um dos pontos das práticas mediúnicas ensinadas por Kardec, ensino esse que, didaticamente, pontua as condições em que os espíritos se encontram após a morte do seu corpo físico, as relações que continuam estabelecendo com os encarnados em termos de comunicação pelo pensamento, as emoções que os dominam, culminando com a disponibilidade dos médiuns para estabelecerem relações mediúnicas sempre muito complexas. Quando evocados, os espíritos podem ou não estar disponíveis, podem ou não ter vontade de atender ao chamado, enfim, podem ou não contar com condições favoráveis para o fazer.

Então, o que poderia querer dizer Chico Xavier com a frase famosa? Que não tinha tempo para evocar os espíritos objetos de pedidos que recebia? Claro que não, pois gastava tempo em muitas outras coisas miúdas, do dia a dia. Que eram muitos os pedidos que recebia, impossibilitando-o a ser justo e atender a todos? Em parte, é possível que sim porque as evocações demandam tempo e paciência, coisas que para alguém premido por muitos afazeres pode não ser fácil. Mas talvez devamos crer que, orientado ou não por seus mentores, Chico preferisse deixar vir espontaneamente os manifestantes, a partir de uma seleção prévia feita pela equipe espiritual, a ter que se ocupar com desgastante atividade de resultados incertos e não raro escassos.

Recentemente, escutamos de um médium que atua na recepção de mensagens de jovens e espíritos recém desencarnados, que mensagens desse tipo, mesmo quando recepcionadas por Chico Xavier, costumam ocorrer em quantidades médias de 10 a 12 por sessão, o que, se confirmado, deve-se considerar de pequena monta em virtude das plateias sempre repletas em ocasiões assim.

Para concluir, a expressão “o telefone só toca de lá para cá” não pode e não deve ser elevada à categoria de proibição de evocar espíritos, menos ainda ser vista como uma verdade das práticas mediúnicas, nas quais apenas espontaneamente os espíritos se comunicariam. Tomar nesse sentido tal expressão é desconsiderar a realidade do mundo ensinada pelo Espiritismo, em que os seres humanos vivem em regime interexistencial permanente, uns à procura dos outros, consciente ou inconscientemente, pelo pensamento. A mediunidade é um dos meios possíveis de contato com os que partiram e assim como encontramos acesso livre ou acesso interditado momentaneamente para os contatos comunicativos entre nós, também assim ocorre quando se trata de espíritos desencarnados.

Apenas os néscios e os estouvados acreditam na falácia da proibição de chamar os espíritos para uma conversa agradável e amigável.

O espírito da liberdade e a liberdade sem espírito

A essência da liberdade é a essência afetiva do bem e da justiça. Tudo o mais é liberdade sem espírito.

liberdade-religiosa-620x350

Onde a liberdade do outro é por nós cerceada é um pouco da nossa liberdade que o é.

É absolutamente impensável adotar os princípios espíritas como base teórica do pensamento e não considerar o alto conceito de liberdade de que são dotados esses princípios. Esclarecendo, é impensável do ponto de vista da coerência, da lógica e das práticas no mundo da vida. A Liberdade – não a palavra, pois como se sabe nenhuma palavra tem relação direta com o seu objeto – é o bem maior, o fruto mais expressivo das leis da natureza e aquele que está na base da justiça e do progresso individual do ser humano.

Ser livre é respeitar, sempre. Não é apenas associar a uma doutrina, ideologia ou grupo social, família, partido ou clube esportivo. Nem mesmo manter ou deixar de manter ligação afetiva com as correntes de pensamento, sempre numerosas, dentro das associações, quando aquelas correntes se distanciam de nossas crenças. O respeito é laço, mas não prisão; oportunidade, mas não subserviência, forma de estar sem ser, em suma, concepção de liberdade e liberdade de manter concepções.

No discurso da liberdade, a teoria tem ocupado lugar precioso, mas não definitivo. Este só ocorre quando a teoria desce ao terreno das relações humanas e provoca ações simétricas, ou seja, se transforma em bem saber fazer bem, fazer saber, saber fazer. No estágio teórico, a liberdade é letra, no estágio completo a liberdade é o estado do bem, onde o que não é bem não é nada, não se consuma, não encontra espaço.

Ainda no plano teórico, a liberdade é um bem de que se tem posse quando se habita o plano humano. Ter liberdade não é ser livre, mas ter possibilidade de exercer o ato da escolha na relatividade do ser. E não há contradição quando a escolha recai na decisão de estar entre iguais e contrários ao mesmo tempo, pois é a lei natural que coloca o ser entre seus iguais e contrários como base do exercício do livre arbítrio. A tendência do ser é fugir dos contrários e estar entre os iguais, mas a plenitude possível da liberdade não se realiza quando se está apenas entre os iguais, onde a lei natural é parcialmente obstada.

O exercício da liberdade em seu estágio superior é um sofrimento atroz para aqueles que ainda precisam desse exercício para ampliar a própria liberdade. O ser e o estar contrário que ao outro satisfaz é o desafio da própria liberdade individual, pois provoca reações pouco afetivas, que não raro agridem a liberdade enquanto direito do outro. A administração das emoções quando o outro é o nosso contrário não é perda de parte da liberdade, mas desejo de mais liberdade, pois onde a liberdade do outro é por nós cerceada é um pouco da nossa liberdade que o é. Sentimentos mesquinhos, como ódios, são laços afetivos que mutilam duas liberdades: a minha e a do outro. Desfazer esses laços é aumentar a afetividade e conquistar mais poder de liberdade.

Estar entre iguais e contrários ao mesmo tempo é escolha quando se compreende que é o aspecto mais sábio da lei natural, pois podemos estar entre iguais e contrários sem que seja da nossa escolha ali estar, mas da lei que ali nos coloca. Pode-se saber estar e utilizar da liberdade para decidir estar com vistas a saber fazer saber querer, pois em minha liberdade de decidir eu posso dizer que quero para saber fazer a mim mesmo querer. Aí, a liberdade do mundo da vida, onde o ser resulta do fazer, que é sofrimento a princípio e felicidade como fim.

Estar entre os iguais também leva à descoberta de que se está entre os contrários ao mesmo tempo, pois os iguais se mostram diferentes quando pensam e decidem por coisas que, mesmo que surpreendam, estão no seu poder de decidir. A descoberta da liberdade de pensar como liberdade indominável e incontrolável é a confirmação de que o outro, que nos parece igual a nós, não deseja ceder naquilo que é o único bem que não se pode tirar a ninguém e, assim, sente-se diferente sem que a diferença divida e separe naquele instante.

Aquilo que une é aquilo que também separa. A desigualdade é a essência da igualdade que somente o ser livre pode compreender. Por isso mesmo, a liberdade é o respeito às diferenças no plano da justiça e do bem, onde o que o outro é, é porque é livre no seu direito de ser e decidir. A liberdade está para a justiça assim como o bem está para a liberdade. É na afetividade que o bem se concretiza, assim como a justiça. A essência da liberdade é a essência afetiva do bem e da justiça. Tudo o mais é liberdade sem espírito.

***

Com as reflexões acima, presto minha homenagem a uma pessoa que muito admiro, literalmente dedicada à liberdade, à justiça e ao bem: Jacira Jacinto da Silva, que acaba de ser eleita para presidência da Cepa, um espaço onde a liberdade, com todos os seus empenhos desempenhos, continua modelar num mundo ocupado em diminuí-la.

A audácia de Kardec e a atrofia dos nossos tempos

A consciência que tarda é a lacuna que permite e convida à permanência do velho.

A ideia nova precisa da palavra adequada.

A ideia nova precisa da palavra adequada.

A teimosia, ao lado de outros fatores como a preguiça intelectual e o orgulho prepotente, marca as ações de muitas lideranças do Espiritismo brasileiro. A mudança está no cerne do progresso do homem e onde não há a presença da mudança, há ausência de progresso. Mudar, já diziam os gregos, é o que justifica a permanência. No Espiritismo aprende-se que a vida se constitui de mutabilidade e de imutabilidade, assim como compreendia, também, Saussure no campo da linguística. As leis naturais são imutáveis, mas a natureza e tudo o mais são mutáveis, com o homem no centro das ações a impulsionar o progresso.

A considerar os tempos de Kardec, este terá sido de uma coragem imensa ao assumir a condução de um processo fadado a atrair forças contrárias de grande poder, e ao mesmo tempo a derrubar barreiras tão grandes quanto nos átrios das igrejas e nos depósitos do saber.

No entanto, a comparar a apatia que assola nossos tempos e as lideranças espíritas de forma geral, Kardec terá sido audacioso quando resolve adotar uma nova nomenclatura para a doutrina em gestação. Escolheu o termo Espiritismo, que, ao que se sabe, já estava presente em pelo menos um dicionário inglês, mas não tinha emprego corrente e não sofria da polissemia que costuma assolar as palavras depois de muito utilizadas, sob a lógica do próprio sentido daquilo que tinha em mãos. Para novas coisas, novos termos, diria.

Entendia Kardec, como entendem os homens dotados de saber, que as descobertas, as invenções, as tecnologias, as doutrinas, os conhecimentos quando amadurecidos pelos estudos e as pesquisas carecem de palavras específicas para se apresentar, cujo sentido seja o mais claro possível e, por consequência, de menor polissemia para que a consciência sobre e deles não pese senão na sua medida exata. Kardec fugiu do termo espiritualismo exatamente pela imensa quantidade de significados que compreendia e dotou sua doutrina do termo Espiritismo, ao adepto denominou espírita, o corpo espiritual chamou de perispírito e por essa trilha seguiu até o fim.

Ninguém de bom-senso poderia exigir que a sociedade humana tomasse o Espiritismo por sua doutrina, mas, efetivamente, ninguém que ouve o termo que identifica essa doutrina o confunde com outra, senão quando preso nas redes da ignorância ou quando atado à corrente da desonestidade.

A providência de Kardec na adoção dos novos termos o levaria a esperar que o mesmo procedimento fosse adotado por seus pósteros enquanto líderes dessa doutrina? Sem dúvida, essa é a lógica do pensamento fundador e está explicitada na ideia básica do progresso. Entretanto, mesmo que o fundador não se expressasse a respeito, a força interna dos novos conhecimentos conduz por si mesma à busca de palavras, novas ou de menor uso, para dar sentido às ideias que são colocadas e evitar as confusões prejudiciais dos significados diversos, especialmente no âmbito do senso comum.

O ser humano, vale repisar, vive da e na linguagem, ou seja, existe na linguagem e não sobrevive fora dela. Toda comunicação se faz pela linguagem e, embora não se possa alcançar uma comunicação com absoluta precisão, pode-se comunicar com alto grau de precisão, especialmente quando se cuida de cercar a mensagem de clareza de modo a evitar a multiplicidade de sentidos.

A doutrina, por seus inúmeros pilares, toca mais ou menos em grande parte dos conhecimentos humanos, e por o fazer conduz a mudanças continuamente, mudanças no viés da compreensão, ou seja, da consciência sobre a coisa, e mudanças nas formas de expressão para identificar tais coisas e sua relação com as novas ideias sobre elas mesmas. Assim, a adoção ou manutenção de velhas formas de expressão para designar as novas ideias não só facilita a confusão dos sentidos como impede que o processo de mudança se dê na velocidade necessária. Sem dizer que é terrível estultice manter antigas palavras de sentidos variados para designar as novas ideias, que alteram todos aqueles sentidos acumulados. O mesmo se pode dizer das palavras dominadas por um determinado sentido construído historicamente, de tal forma que absolutamente não conseguem designar outra, senão a ideia que a domina.

Grande parte das lideranças espíritas é preguiçosa, ou demasiado orgulhosa, quando se trata de mudar para melhorar. E se essas lideranças agem dessa forma, o que não esperar daqueles que são por elas conduzidos? Por razões como essa, proliferam e reproduzem-se termos carcomidos pelo tempo, com significado dominante não raro, e por isso mesmo impróprios para as novas ideias, expressões como: evangelizar, doutrinar, culto, templo, céu e tantas outras.

Aqui se faz o “culto do evangelho no lar”, ali a “doutrinação de espíritos”, acolá a “evangelização infantil” e assim por diante. Na esteira dessas adoções inapropriadas, surgem termos que acabam vendo suas ideias originais naufragar no mar dos significados das palavras que vieram substituir, como ocorre com “umbral”, empregado para substituir “inferno” quando seu significado é portador de ideia completamente inversa. O mesmo ocorre com “Nosso Lar”, quando utilizado como sinônimo de “céu”, “água fluídica” em lugar de “água benta”, numa lista imensa de inconsequências linguísticas.

Se o verbo doutrinar em seu significado semântico indica o ato ou ação de instruir sobre determinada doutrina, é certo que também na polissemia dos sentidos em que se insere revela o ato de impor ideias em detrimento de outras, numa ação que se aproxima da tão combatida ideia kardequiana de condenação do proselitismo. Dirigentes malformados não apenas se conduzem autoritariamente nos momentos de contato afetivo com os espíritos em situação de atraso ou desespero, como lhes nega o direito do diálogo ao estabelecer exigências impossíveis de serem atendidas por eles. E agem como detentores prepotentes da verdade, numa ação “doutrinadora” inoportuna e ineficiente.

Já o verbo evangelizar possui no seu sentido o significado de converter para sua crença utilizando os Evangelhos, o que não só pode se constituir em proselitismo, como, ainda e pior, assumir uma inversão de valores de tal ordem que o “Evangelho segundo o Espiritismo” passa a ser o “Espiritismo segundo o Evangelho”, eliminando-se, assim, o conteúdo espírita que pretende dar conta do ensino moral de Jesus. Sem este conteúdo, o Evangelho volta a ser letra morta em sua generalidade. Empregado por largos séculos e escala pela Igreja, em sua ação catequizadora, o ato de evangelizar mantém-se, predominantemente, no seu significado menos interessante para as novas ideias que o Espiritismo apresenta.

O substantivo culto indica claramente o ato de adoração ritualística da divindade, ideia desde sempre combatida pelo Espiritismo, por seus argumentos e a lógica interna deles, de modo que o seu emprego na denominação de atividades, seja nos estudos particulares, seja em reuniões em centros espíritas é não apenas sinal de mau gosto, mas de total despreparo para a ação de comunicar o Espiritismo.

O “imenso esforço de igrejificar o Espiritismo”, tão alertado por Herculano Pires tem merecido o desprezo de muitas lideranças, exatamente pelo fato de ser mais fácil manter o velho e roto tecido religioso do passado que trabalhar para que a doutrina se insira, realmente, na sociedade como um corpo capaz de contribuir para uma mudança cultural sem precedentes no mundo.