Inovação, ocupação parcial de espaço ou simplesmente um novo rótulo?

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A propósito de um artigo do meu amigo Cesar Perri, intitulado “Congresso dos 70 anos da USE – Inovação das “rodas de conversa”, que foi posto ontem, 21 de junho de 2017, em circulação na rede digital, volto ao assunto que já externei aqui, em março de 2016, quando a notícia do evento circulou pela primeira vez e sobre a qual recebi opiniões e e-mails prós e contra. Perri refere-se ao espaço denominado Roda de Conversa, para o qual a coordenação do congresso destinou quatro horas divididas em dois períodos de duas horas cada, sendo três temas a serem debatidos simultaneamente em cada período e a mesa contando com um moderador e dois debatedores, conforme programação já divulgada. A questão colocada é, de um lado, se isso de fato é inovação e, de outro, se atende às reclamações justas por espaço de livre manifestação do pensamento, a exemplo do que ocorre nos congressos onde o conhecimento é colocado como meta principal?

O título dado a este “novo” espaço é bonito – Rodas de Conversa – mas é preciso convir que tal título é apenas outro rótulo Continuar lendo

Sob duas sombras: a história e o invisível

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O RESGATE DO WERNECK


 Eis aí um líder que só aceitava a liderança de alguém que possuísse as características do grande líder. Allan Kardec foi um deles. Tornou-se um espírita tardio e dos poucos que, nestas alturas da vida, logrou penetrar com rara lucidez no abrangente conteúdo do mestre lionês.

 “A minha alma não é propriedade do Estado, nem das seitas. Tenho sobre ela jurisdição absoluta. Não tolero que a guiem contra a minha vontade. Hei de salvá-la eu mesmo, ou ela estará perdida. A menos que forças, livremente aceitas, lhe mudem a direção, ela resistirá aos decretos emanados do poder humano”.

Publicado em 1923, este livro tornou-se verdadeira raridade e o museu que leva o nome do autor dispõe de apenas um exemplar.

Essa feliz e comovente declaração faz parte da profissão de fé contida no livro Um punhado de verdades, livro escrito por Américo Werneck e publicado em 1923, no Rio de Janeiro. E quem era Américo Werneck? Quando me presenteou com o exemplar desse livro em 1981, meu amigo Francisco Klörs Werneck, o grande tradutor das obras de Ernesto Bozzano para o português, me disse em bilhete separado: “Meu tio Américo Werneck, engenheiro civil, deputado estadual pelo estado do Rio, foi convidado pelo presidente do estado de Minas Gerais, Silviano Brandão, para ocupar o cargo de Secretário de Agricultura, Viação, Obras Públicas, Indústria e Comércio, que aceitou. Foi construtor de Lambari e prefeito interino de Belo Horizonte. Em Lambari, a rua principal tem o seu nome e o seu busto. Famoso pelo seu trabalho em Minas Gerais, como o seu primo dr. Hugo Werneck”. Até aí, muito pouco. Alguma coisa sobre a participação política dele e nada sobre o espiritismo. É que não havia tempo na ocasião para as devidas ampliações, pois, quando Continuar lendo

O que tem a ver entre si estes três personagens da história brasileira?

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ARNALDO VIEIRA DE CARVALHO, HORÁCIO DE CARVALHO E CAIRBAR SCHUTEL

 Nada os ligaria, em princípio, não fosse um detalhe: Arnaldo Vieira de Carvalho teria dado duas mensagens dias após sua desencarnação e foram ambas recebidas no círculo mediúnico de Cairbar Schutel, em Matão. E Horácio de Carvalho era amigo de Arnaldo, conhecia Cairbar e estudava o hipnotismo e o espiritismo. Isso tudo os uniu numa apreciação crítica das mensagens atribuídas a Arnaldo que o Horácio fez e encaminhou, em formato de livro, a Cairbar Schutel. Quase 100 anos depois podemos retomar o fato como uma parte importante da história do espiritismo no Brasil.

À esquerda em preto e branco a capa e à direita a cores a página de rosto. Um livro singular datado de 1920 e todo feito a mão.

 ESPIRITISMO. Análise de duas mensagens atribuídas a Arnaldo Vieira de Carvalho – livro de exemplar único, em escrita manual, datado de 1920, de autoria de Horácio de Carvalho, dedicado a Cairbar Schutel com a seguinte mensagem: “Ao prezado amigo e ilustre jornalista espírita, homenagem de Horácio de Carvalho”. Contém a análise, feita por Horácio, de duas mensagens recebidas mediunicamente no grupo de Cairbar Schutel em Matão, assinadas por Arnaldo Vieira de Carvalho, a primeira delas dois dias após a desencarnação do conhecido médico em São Paulo, e a segunda sete dias após. Continuar lendo

A polêmica pureza doutrinária – um viés

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A Dora Incontri me provoca questionando se não quero entrar na polêmica da pureza doutrinária, um fenômeno tão antigo quanto o trabalho de Kardec, basta ver as edições da Revista Espírita ainda ao tempo da direção do codificador. Mas tem ela passado ao longo do tempo por mudanças pontuais devido, especialmente, à cultura predominante em cada época, pois, como se sabe, o fenômeno cultural sofre um processo contínuo de mudanças, como é de sua natureza, e muda mais acentuadamente ao passo que as tecnologias e o conhecimento se modificam. Na era digital em que vivemos, as mudanças correm frenéticas, e com elas o modo como o pensamento se comporta. Continuar lendo

Tendência histórica da FEB de deturpação de livros produz novas vítimas

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É de estarrecer. Federação Espírita Brasileira é denunciada agora por deturpar obras psicografadas por Chico Xavier e Waldo Vieira.

Alguém disse alhures que a tradução de Guillon Ribeiro, ex-presidente da FEB, para as obras de Roustaing é melhor do que o original. Ironia ou não, já as referidas obras sofreram acusações de mudanças e supressões por conta dos editores febianos. É dessa maneira que, historicamente, a instituição que dirige o movimento espírita brasileiro dito oficial é acusada por ações semelhantes, fato também ocorrido em outras ocasiões, como no caso do livro famoso Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, no qual as deturpações se deram por conta da introdução de partes favoráveis a Roustaing, em especial. Coincidentemente, os originais da psicografia de Chico Xavier do referido livro jamais vieram a público, apesar de insistentemente solicitado por diversos críticos. Continuar lendo

A história em pequenos textos

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A presente publicação constitui a penúltima etapa de um projeto de divulgação do material que colecionei – livros, revistas e opúsculos, bem como documentos importantes da história do espiritismo – visando disponibilizá-los aos pesquisadores, estudiosos e até mesmo aos curiosos dos fatos espíritas. Apresento 35 opúsculos publicados durante o século XX, alguns bem no começo desse século – escritos na maioria por espíritas de considerável expressão do pensamento doutrinário ou que se tornaram líderes locais e nacionais. Entre eles estão Deolindo Amorim, Leopoldo Machado, Cairbar Schutel, Edgard Armond e  Jaci Regis. Alguns dos opúsculos estão disponíveis na Internet e para tanto ofereço o link para leitura e download; boa parte, contudo, não está com seu conteúdo à mão ou são desconhecidos de grande parte do público, de modo que para os ler os interessados deverão aguardar a respectiva digitalização. A próxima etapa – a última – vai disponibilizar inúmeras obras espíritas hoje fora de catálogo e em grande parte desconhecidas da maioria. Clique para ler

A Verdade é a Luz

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A segunda época da revista Verdade e Luz, hoje praticamente esquecida, ajuda a recuperar parte importante da história do Espiritismo e a corrigir enganos cometidos na biografia do extraordinário espírita conhecido por Batuíra.

O jornal Verdade e Luz, fundado em São Paulo no final do século XIX pelo português Antonio Gonçalves da Silva, apelidado de Batuíra, teve uma vida e uma história considerável, dividida em duas partes: a primeira época, em que a publicação começou como jornal e quase ao final desse período transformou-se em revista, e a segunda época, quando retornou à circulação após um período de interrupção, como revista de boa qualidade. É desta segunda época que vamos falar, uma vez que ela se encontra esquecida e não conta com registros capazes de serem compulsados pelos pesquisadores e historiadores.

Tenho em mãos 36 exemplares da revista Verdade e Luz, segunda época, correspondendo aos anos 1922, quando foi retomada depois de quatro anos sem circular, até 1926. Tudo indica que saiu do cenário ao final de 1926 e não mais retornou. Seu diretor, Pedro Lameira de Andrade, após esse ano, seguiu como presidente da Instituição Verdade e Luz até a data de sua desencarnação, ocorrida em 1937. Leia mais

A Metapsíquica de Canuto de Abreu

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No período de maio de 1936 a janeiro de 1937 (datas estimadas, carecendo de comprovação definitiva) a Sociedade Metapsíquica de São Paulo publicou uma revista no formato 16 x 23 cm, em preto e branco tanto na capa como no miolo. A direção esteve a cargo do membro da Sociedade, Canuto de Abreu, hoje reconhecido por seus livros, pesquisas e, especialmente, pela posse de documentos valiosos sobre Allan Kardec obtidos diretamente na França pouco antes da eclosão da segunda guerra mundial, em Paris. Canuto era advogado e médico homeopata, além de formado em Farmácia.

Possuo quatro dos cinco números dessa revista, menos o exemplar de número 1. A publicação saía bimestralmente com material assinado por articulistas reconhecidos e foi nesta revista que Canuto de Abreu deu início a série de artigos sobre Bezerra de Menezes, que depois foi reunida em livro. Além de dirigir e escrever, Canuto de Abreu Continuar lendo

Sinapses, neurônios e arquivos da memória espírita

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Ao comentar uma das funções das imagens, Jacques Aumont informa que elas provocam a abertura de arquivos da memória, fato que permite o seu reconhecimento através da identificação dos elementos que as imagens contêm pela comparação entre o que está registrado na memória e o que é apresentado pelas imagens. Trata-se de um fenômeno simples e ao mesmo tempo extraordinário porque complexo, que se realiza ao contato do observador com o objeto na rapidez com que os sentidos conduzem silenciosamente ao cérebro os estímulos, provocando a abertura dos arquivos da memória e devolvendo imediatamente à consciência os registros ali presentes, que permitem ao indivíduo realizar a identificação e o reconhecimento, não dos significados da imagem, mas dos seus elementos constituintes. Continuar lendo

Notas para notar

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A semana começa com alguns destaques sobre os quais vale a pena refletir: 1) os jovens britânicos que não querem ter filhos e buscam o caminho da esterilização; 2) os brasileiros com doenças raras que, desenganados, enganaram a morte; 3) e a pesquisa tida como condenatória dos refrigerantes diet, mas que não é conclusiva.

Não aos filhos

Esterilização, esse é o caminho que tem sido escolhido por jovens britânicos que não desejam ter filhos. As razões são diversas vão desde a liberdade para atuar sexualmente sem preocupações até a existência de doenças hereditárias, cujos portadores não desejam passar adiante. Continuar lendo

Uma obra social digna

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Aqui em Recife, várias obras sociais criadas e dirigidas por espíritas são realmente dignas de admiração. Tenho particular afeição pelo Lar Paulo de Tarso, localizado no Bairro do Ipsep. É uma casa simples com capacidade de abrigar até 15 crianças, que ali chegam por meio de um convênio com o Juizado da Infância e Juventude. A direção e manutenção do Lar tem na sua liderança o casal Glauce e Gezsler, dois amigos do coração, incansáveis, dedicados e afetuosos.

O Lar é uma casa de passagem, onde crianças em situação de risco são abrigadas e preparadas para o retorno ao lar de origem ou são entregues para adoção, razão pela qual não permanecem longos períodos no local, a não ser em situações excepcionais. O trabalho de preparação dessas crianças movimenta uma rede considerável de pessoas e profissionais e possui como fundamento de orientação o alicerce da doutrina espírita.

Para os interessados em conhecer melhor o trabalho dessa digna instituição de caráter assistencial, aqui vai o link da apostila recém-publicada, intitulada “Lar Paulo de Tarso, um oásis de esperança” 

Dora Incontri e o Chico de todos

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doraDe repente, o artigo O lado cinzento da mediunidade no espiritismo contemporâneo, começou a produzir aqui no blog uma nova série de opiniões, como se redescoberto assim do nada. Afinal, já faz alguns meses que o dei à luz. Até que descubro que a fonte é minha querida amiga Dora Incontri e seu prestígio comprovado pelas páginas do Facebook, onde fez reaparecer o assunto.

O interessante é a quantidade de opiniões que a republicação despertou, como pode ser visto no link abaixo, deixando à mostra a diversidade das reações e das posições. Para quem gosta do assunto ou do estudo dele, convido a clicar e participar.

Fonte: Dora Incontri – Como sempre, Wilson Garcia, escrevendo com sua…

A morte da liberdade é a morte do Homem

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LiberdadeDe Leon Denis a Herculano Pires, a ideia de liberdade acompanha a do progresso ou do fracasso do Espiritismo enquanto movimento e vida. Ambos defendem que o futuro da doutrina se encontra nas mãos dos seres que a dirigem, pois é com a liberdade sagrada de pensar e agir que o homem põe e impõe sua direção.

A noção de liberdade que os dois filósofos ensinam nasce dos sulcos feitos na terra da reflexão espírita que Kardec desbravou, ao fazer surgir o espírito antecedente ao corpo e a este posterior. Estava ele contido nas nuvens tardias do nada e tornou-se, então, palpável a todos os olhares agudos.

Quanto mais o espírito surge pelas frestas dessa floresta de muitos significados e pouca expressão verdadeira, mais assume a sua condição de ser livre, pois o homem é liberdade. Aqueles que o sufocam com suas idiossincrasias e desejos de conquista pela violência travestida de boas intenções não poderão apagar a bagagem amealhada através das eras, das idas e vindas ao corpo, do desdobramento da consciência de si mesmo.

A negação da liberdade apequena e tolhe, mas não apaga ou anula aquilo que já não pode ser mais confrontado. A liberdade suprimida aqui permanece latente e ansiosa, pronta para eclodir mais adiante, porque sua força já não depende mais do exterior, senão de si mesma.

As lideranças espíritas que não compreendem a Vida, não compreendem a Liberdade e não compreendem o Ser. Vida, Ser e Liberdade se completam e a liberdade é o oxigênio que mantém a vida e dá sentido ao ser. Não podendo expressar-se, o Ser paga a dor de uma sentença que é injusta e ao mesmo tempo passageira, pois quem não valoriza a liberdade como expressão inarredável da lei natural é também ou até mais passageiro, pois que vive da brevidade de um pensar marcado para morrer.

A supressão momentânea do direito de pensar e dizer ou o tolhimento do espaço para que a liberdade se manifeste sob controle apequena também o futuro imediato, pois que coloca o pensamento espírita sob o jugo do homem menor. Este homem menor é o que delimita o espaço da liberdade a paredes milimetradas pela matéria visível, enganado por si mesmo ante a necessidade de organizar pelo método do controle do agir e do fazer, na ante educação que destrói a história das conquistas humanas.

Denis e Herculano pensaram uma liberdade que Kardec colheu nos canteiros matinais umedecidos pelo sereno espiritual, como frutos maduros dotados das melhores condições para alimentar a caminhada do ser em seus desígnios imortais. Apenas a mediocridade de hoje pode deter e atrasar essa caminhada, mas o preço a pagar por isso será imensamente doloroso.

Abrir as portas da doutrina para as alamedas floridas da liberdade é ato de homens corajosos, apenas, pois o poder quando é justo ensina a voar ao invés de manter no chão pobre da matéria o espírito desejoso de infinito. O homem medíocre, sob o disfarce da segurança, fecha e tranca as portas, crente que defende o patrimônio que somente consegue ler nas rotas páginas do livro impresso. Mas o patrimônio espírita da palavra é apenas o primeiro ato da peça ensaiada no palco do universo. O seu significado paira para além das linhas e dos pontos linguísticos e pode ser encontrado no dicionário do espírito imortal.

Limitar a palavra é o começo da ação que visa deter o pensamento criativo, cuja consequência maior se mostra na ausência de conquistas que embalam o progresso. O líder medíocre propaga a doutrina mediocrizada pela incapacidade de ser por ele compreendida e expressada. Sob a toga do medo, resta-lhe trancar as portas e impedir que os ventos da liberdade penetrem no ambiente e encantem aqueles que se submetem ao domínio do pensamento canhestro.

Entretanto, a morte no agora que destrói sonhos de liberdade será superada mais adiante pelo ser imortal, e este renascerá das mesmas entranhas da terra da esperança e com os mesmos sonhos, a fim de continuar a construir o mundo prometido da justiça e do amor.

Congressos espíritas: espaço público de conhecimento ou conhecimento público do espaço?

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Há muito se sabe que os congressos espíritas, salvo raras exceções, se tornaram eventos muito mais para dar satisfação ao público da existência da doutrina do que para se tornar um espaço público de produção de conhecimento.

Nesse ponto, a história tem sido cruel com os espíritas. Se alguém deseja estudar, pesquisar e produzir ou o fará por sua própria conta e risco ou deverá desistir. As instituições espíritas, que se autoproclamaram coordenadoras do espaço público, sonegam em seus eventos qualquer possibilidade de apresentação de novos trabalhos, incorrendo em duro desestímulo para com os interessados.

A FEB, que se transformou na mais forte defensora da coordenação desse espaço público, tradicionalmente negou os congressos espíritas. Deolindo e amigos, em 1939, romperam com essa barreira promovendo com destaque o primeiro Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas. Havia um objetivo pontual na época – enfrentar as barreiras sociais e políticas que eram erguidas contra a doutrina e seus seguidores.

Mas então os espíritas perceberam que o objetivo poderia ser maior e, passada a 2ª Guerra Mundial, retomaram o projeto e repetiram o congresso periodicamente, sempre contando com a má vontade da FEB, até que ela própria, a FEB, cedeu e passou a ter presença representativa nos congressos para depois também patrocinar os seus.

Mas os congressos da FEB e de suas federativas aliadas jamais foram eventos voltados para a produção de conhecimento. Pelo contrário, seu espaço era público até o portão da rua. Dali para dentro, obedeceu-se a um modelo de congresso que protegia a FEB dos “perigos” representados pela liberdade de pensamento e expressão. Ou seja, todos são livres e estão convidados, desde que pensem com e como a FEB.

As federativas, por sua vez, capituladas também nesse terreno, logo adotaram o modelo febiano e cuidaram de se proteger dos mesmos “perigos”. E trouxeram uma “modernização” à base da sociedade do espetáculo, tornando esses eventos uma “festa” com amplo espaço de consumo de bens e, ilustrativamente, arte. Debate e estudo, para justificar o lado progressista da doutrina enfatizado por Kardec, nem pensar.

Desde quando a FEB programou o seu primeiro congresso, em 1989, que o modelo se repete. Divaldo, com seu carisma, e alguns mais devidamente autorizados, abrem e fecham esses espaços semi-públicos. Divaldo já o fazia antes, mas quando se tratava de congresso de jornalistas e escritores espíritas, era ele parte e não o destaque principal. O espaço era público no mais amplo sentido da palavra.

Agora, divulga-se o próximo congresso estadual da USE, de São Paulo, para 2017. E o modelo se repete, indo a USE contra sua própria origem. Esta instituição espírita, que divide o comando do movimento no maior estado do Brasil com a Federação, teve origem num congresso (repudiado pela FEB) que se instalou e a criou após amplos debates de propostas diversas. E congressos posteriores mantiveram a forma.

A FEB capitulou ante a imperiosa necessidade de aderir aos congressos, mas fez capitularem as federativas e quase todo o movimento espírita ante um modelo de evento que não tem nenhum interesse em pensar e fazer pensar com liberdade, senão em exibir os conhecimentos já bastante conhecidos daqueles que prioritariamente são colocados nos folders e cartazes para atrair a atenção. Divaldo, o astro principal, permanece firme no corpo físico, mas Divaldo em algum momento já não estará mais aí, então preparam-se os seus substitutos que são escolhidos ou inventados e devidamente instruídos para substitui-lo quando a falta dele se der. São eles recrutados dentre os que possuem títulos ou são doutores com algum destaque em algum setor. Já estão amansados ou serão devidamente aculturados. Para facilitar isso, são elevados a ídolos nascentes e colocados nos materiais de propaganda com sorrisos fabricados em imagens publicitariamente produzidas.

O público acorre a esses eventos massivos como quem vai a um grande show em busca de seus ídolos. As pessoas adquirem o ingresso, compram camisetas e consomem outros badulaques. Emocionam-se com frases de efeito ante oradores de gestos espetaculosos, vertem lágrimas e depois retornam aos seus lares com a alma embevecida. Pagam pelo “conhecimento” empacotado sem precisarem exercer o terrível esforço de análise do pensamento alheio, que, afinal, está ali para ser engolido e não ruminado. Ao fim das contas, todos saem felizes, dirigentes, oradores e o público.

A sociedade do consumo é também a sociedade do espetáculo e, como já foi profetizado, faz capitular tudo e todos aos seus desígnios. Então, nossos congressos, que perderam um dos seus mais importantes pilares representados pelo espaço público de apresentação de novos conhecimentos, sequer podem ser vistos como oportunidade de reflexão sob outros vieses daquilo que o Espiritismo apresenta há mais de 150 anos. O que mais se vê são repetições do mesmo, com a diferença de que agora vivemos num terrível vácuo pela ausência de pensadores espíritas de respeito. A reencarnação ainda não os substituiu.

Não é apenas por autoproteção que as lideranças espíritas promovem congressos sob o modelo vigente, em que os temas são escolhidos por alguns e apresentados por outros alguns escolhidos a dedo pelos mesmos alguns. A ninguém é dada a liberdade de escolher-se e escolher seu tema para levar ao conhecimento e debate público, abrindo a reflexão na diversidade da realidade e da natureza. E com isso a doutrina, progressiva em teoria, estaciona na prática do dia-a-dia do mundo da vida.

É também por irresponsabilidade das lideranças, ante a obrigação de promover o conhecimento que sustenta a verdadeira liberdade. Não se trata do conhecimento de alguns, que isso é pura pretensão. Trata-se de um conhecimento gestado na diversidade dos atores, como o fora quando da codificação de Kardec com o apoio, não de um Espírito, mas de uma coletividade que incluía superiores e inferiores da escala evolutiva.

Trata-se de estimular e apoiar o estudo e as pesquisas com elementos efetivos e não apenas argumentativos. Trata-se de aprender a viver na diversidade, porque a evolução se dá na diversidade. Trata-se de ampliar o alcance dos congressos, tirando-os da apatia auditiva e visual. Trata-se de superar as limitações que lhe foram impostas, com a coragem daqueles que compreendem a necessidade de construir coletivamente o saber, sem deixar empoeirar a codificação nas estantes do poder transitório.

Deolindo e os diversos espiritismos

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Opinião*, a pílula do Dr. Ross do jornalismo espírita, republica em sua edição de jan./fev. 2016 interessante artigo do saudoso e respeitável Deolindo Amorim, intitulado “Desunião e divergência”. Ali está todo o espírito conciliador, dialógico e acima de tudo humanista do grande amigo baiano de nascimento e carioca por opção.

A essência do artigo está centrada na percepção de que as divergências não podem ser argumento para a desunião e o diálogo é o fundamento das relações humanas. Era o que fazia e vivia Deolindo.

O último parágrafo do texto deoliniano permite, contudo, exercer aquilo mesmo que transparece dos seus argumentos, isto é, divergir. Ali, Deolindo afirma que as divergências que estão no interior do movimento espírita desde o seu surgimento não quebraram a “unidade doutrinária, que é fundamental” (sic).

Por unidade doutrinária podemos entender dois aspectos: os princípios básicos em torno dos quais todo o edifício doutrinário está erguido, do que se conclui que um só desses princípios negados redunda em negação do todo. O segundo aspecto é o mundo da vida, onde os princípios são elevados ao nível das experiências e das ideias defesas.

Se considerarmos que a obra de Kardec mantém seu conteúdo e sua forma inalterados em todas as traduções, apesar das tentativas de modificar aqui e ali conceitos que imaginam ultrapassados, pode-se argumentar com segurança que a unidade doutrinária se mantém. Nesse campo de discussões e divergências os princípios básicos do Espiritismo prosseguem incólumes e passam de geração a geração.

Entretanto, é no mundo da vida que se encontra o nó da questão. É aqui que parte desses mesmos princípios são negados ou têm seu valor reduzido, constituindo-se em ameaça constante à obra física. Não custa recordar que muito do que se discutia até há pouco tempo sob o título de “pureza doutrinária” dizia respeito, exatamente, a esses dois aspectos.

Os fatos corroboram esta afirmação. Já nos círculos de Kardec as divergências se fizeram presentes, mas são alguns fatos marcantes que melhor revelam que a unidade doutrinária balança entre os registros textuais e o mundo da vida.

Fiquemos com alguns desses fatos.

A obra de Colignon e Roustaing deve ser vista como divergência de grande repercussão ainda no século XIX e que no mundo da vida se coloca do lado oposto à obra de Kardec. Não são meros aspectos que fundamentam a divergência, mas, sim, negações de princípios básicos, que dizem respeito à reencarnação, à evolução etc. e que, apesar disso, marcam também a ambiguidade das instituições que promovem Kardec e Roustaing ao mesmo tempo, as quais contam com expressiva representatividade no Brasil.

Se nos ativermos ao nosso país apenas, podemos recordar os movimentos que ainda vigoram, com maior ou menor representatividade, cujas doutrinas derivam do Espiritismo mas negam também ou subvertem determinados princípios básicos, tais como o Racionalismo Cristão, de Luiz de Matos, o polidorismo, de Oswaldo Polidoro e, no limite – que ninguém fique pasmo – diversos dos movimentos em torno do médium Chico Xavier, que se ancoram na ideia de ter sido ele a reencarnação de Allan Kardec e, portanto, maximizam a noção da legitimação de sua obra como avanço em relação à do codificador, o que significa atribuir-lhe valor maior que a de Kardec. Aqui, não só o princípio da reencarnação é subvertido como, também, a razão espírita, que se apresenta quase que como um princípio básico doutrinário, desce ao nível do desprezo pelos assim auto reconhecidos chiquistas.

Deolindo tem plena razão no mais, a meu ver. Lamentável, apenas, que cada vez mais a fragmentação do Espiritismo vem acompanhada da negação do diálogo, empurrando cada grupo para o seu canto, o que, para ele, Deolindo, como para qualquer criatura humana no sentido lato dessa expressão significa irrecuperável prejuízo ao progresso da sociedade e ao desenvolvimento do conhecimento.

* http://ccepa-opiniao.blogspot.com.br/

De repente se descobre que a mensagem mediúnica é de péssima qualidade. De quem é a culpa?

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As mensagens mediúnicas têm um tripé formado pelo espírito intencional, o médium interpretante e a mensagem final. Na impossibilidade real de haver um médium perfeito, capaz de recolher a mensagem na sua fonte sem nenhum tipo de influência sua sobre essa mensagem, a análise se apresenta como necessária quando se trata de considerar o valor da mensagem. Acrescente-se a noção kardequiana do Espírito, como sendo aquele que tem seus conhecimentos limitados à sua evolução.

As partes presentes no tripé mediúnico – espírito, médium, mensagem – pedem atenção no momento da análise. Outros elementos devem ser considerados, também, mas podem ser colocados em posição de espera até que o tripé seja compreendido*.

O médium está literalmente no centro do processo mediúnico. O contato é feito com ele ou ele faz o contato com o comunicante. A expressão atribuída a Chico Xavier de que “o telefone toca de lá para cá” não deve ser vista como imperativa. Não, segundo Kardec. O médium também pode teclar para o Espírito. Kardec entendeu desde cedo a noção de comunicação como diálogo cujo equilíbrio se traduz por poder igual das partes comunicantes.

De volta. A centralidade do médium no processo implica que ele é o homem do contato, mas também o homem da interpretação das ideias do Espírito. E, ainda, coautor da mensagem. Explica-se: o espírito intencional deseja transmitir ideias sobre temas de sua preferência e, como se sabe, precisa da palavra ou da linguagem que funciona como código a ser lido pelo médium. Daí haver Kardec dito que o médium é um intérprete do Espírito.

A capacidade de interpretar, portanto, surge na essência do processo. Neste momento, pode-se perceber a complexidade da questão. O Espírito apresenta suas ideias e o médium as recolhe, mas não como quem recolhe um pedaço de papel escrito. O médium “lê” essas ideias e diz para si mesmo o que elas significam. É o processo comunicativo com todas as implicações de uma comunicação baseada em símbolos linguísticos, com significados semânticos e contextuais.

Interpretar é função desafiadora, que vai terminar quando a mensagem é elaborada, outra função do médium. É, pois, na mensagem que está a chave da interpretação que o médium realiza. Ao escrever essa mensagem ele está dizendo o que entendeu do que lhe “disse” o Espírito comunicante. Se essa visão do processo mediúnico não recobre todo o espectro da mediunidade, alcança grande parte da psicografia, da psicofonia e da pintura mediúnica, os três tipos mais praticados na atualidade.

Se a mensagem entregue pelo médium ao leitor contém a ideia do Espírito, não deixa de ter também a ideia do médium. Em que medida uma é maior do que a outra ou que percentual pode-se atribuir a um e outro é a análise que poderá dizer.

Sabe-se por Kardec que há mensagens para as quais o Espírito intencional contribuiu apenas com a ideia central, deixando ao médium o desenvolvimento do texto. Nesse caso, a estrutura textual é toda do médium, assim como pertence a ele, médium, o estilo e a responsabilidade pelo conteúdo.

No limite, temos mensagens que podem ser ricas de informações a ponto de se poder identificar o autor espiritual pelo estilo e até mesmo pela assinatura, além das ideias expressas na mensagem. Casos como esses são menos comuns, certamente porque dependem de uma harmonia rara entre o Espírito intencional e o médium interpretante no momento mediúnico, harmonia essa que é também oscilante: se alcançada num primeiro momento, pode não o ser no seguinte.

O conhecimento do processo de comunicação mediúnica ou mecanismos da mediunidade contribui bastante para uma análise consistente da mensagem. O Espírito comunicante tem sua parcela de responsabilidade pelas ideias que fornece e o médium igualmente a sua pela capacidade de interpretar essas ideias, mas quando se trata de mensagem pronta e publicada, a responsabilidade final passa ao destinatário, leitor ou ouvinte, pois este é que vai fazer uso do conteúdo.

A análise, portanto, não é requisitada para estabelecer culpados no caso de mensagens sem qualidade, como também não se destina a consagrar o autor e o médium no caso contrário. Sua finalidade é determinar ao leitor ou ouvinte se a mensagem lhe serve ou não e isso é responsabilidade dele, destinatário.

Evidentemente, mensagens vindas por médiuns respeitáveis e assinadas por Espíritos cujas ideias são conhecidas por sua elevação apresentam possibilidades de aceitação maior. Igualmente aquelas que recebem a aprovação de líderes e dirigentes com credibilidade. Daí por que quanto mais respeitáveis são os médiuns e os Espíritos, bem como os líderes e dirigentes, maiores são suas responsabilidades perante o leitor ou ouvinte.

Espíritos jamais deveriam apresentar ideias de baixa qualidade. Médiuns nunca deveriam publicar mensagens de teor ruim. E líderes e dirigentes jamais deveriam dar o aval às produções mediúnicas de origem duvidosa. Mas quem é capaz de impedir que isso ocorra? Todos são livres para decidir por suas ações, adesões, ideias afins. E liberdade é a única garantia que existe para a formação da responsabilidade.

Portanto, ninguém pode substituir o leitor ou ouvinte na análise e na decisão quanto ao valor da mensagem. É dele e de mais ninguém essa responsabilidade. Mesmo quando alguém, influenciado por líderes, dirigentes ou médiuns, resolve dar crédito a uma mensagem dispensando-se da análise e confiando na daqueles que lhe antecederam, a decisão última é deste. O ônus ou o bônus resultante dessa decisão não se destinará a outro que não seja o leitor ou ouvinte, que chamamos de destinatário final da mensagem.
* Leia mais sobre o assunto no livro “Os Espíritos falam. Você ouve?”, deste autor, Editora EME, Capivari, SP.